Blog

  • Audiência Pública expõe o drama dos imigrantes em Florianópolis

    Audiência Pública expõe o drama dos imigrantes em Florianópolis

    GERALDO HASSE

    Foi surpreendentemente objetiva e pragmática a audiência pública de quarta-feira (3/6) sobre os direitos da população migrante em Santa Catarina.

    Após uma hora e 50 minutos de depoimentos chocantes pela sinceridade, ficou claro que o estado catarinense não é apenas racista, mas vem se esmerando na prática da xenofobia estrutural, expressão jogada na cara do auditório ocupado por cerca de 40 pessoas na Assembléia Legislativa, em Floripa.

    Quem primeiro falou sobre a xenofobia estrutural foi o assistente social Felipe, brasileiro nascido em Cuba que atua na Pastoral da Migração em Floripa.

    Depois dele, já nas falas finais, outros migrantes abriram o peito e fizeram apelos veementes contra a burocracia usada friamente como barreira ao atendimento das demandas e necessidades dos migrantes internacionais e domésticos.

    Algumas das denúncias e queixas contra instituições públicas:

    – creches não matriculam crianças por falta de documentos dos pais, submetidos a vias crucis aqui e ali… No fim das filas, as mães sem criança na escola não têm direito sequer ao Bolsa Familia.

    – exigem-se documentos como CPF de pessoas que não têm RG e por isso não conseguem abrir conta em banco nem registro como trabalhador, do que resulta a subcontratação em situação análoga à escravidão.

    – migrantes cujos direitos (garantidos pela Constituiçao e pela ONU) são negados acabam na rua, denunciou o assistente da Pastoral da Migração. Em outras palavras, a burocracia não apenas exclui: mata!

    “Não vamos celebrar só a migração alemã”, pediu a venezuelana Milena Ferreira, lembrando, em perfeito português, que a migração faz parte da história do Brasil. “Somos todos migrantes!..”

    “A migração é um problema estrutural que desde sempre vem sendo tratado como emergencial no Brasil e especialmente em Santa Catarina”, disse o padre Gabriel Battistela, da Missão Scalabriniana, atuante em SC há 30 anos e no Brasil desde 1887, quando milhares de imigrantes italianos caíram na realidade brasileira. É uma entidade preocupada prioritariamente com os migrantes internacionais e internos.

    Santa Catarina é o estado com o maior número de migrantes depois de São Paulo e Roraima, que faz fronteira com a Venezuela.

    No cadastro baseado em registros da Policia Federal, atualmente há 82 mil migrantes em SC, com ampla maioria de negros e de mulheres oriundos de 187 países e presentes em 273 municípios.

    Pouca gente sabe que, na Secretaria de Assistência Social do Estado, há uma Gerência de Políticas de Igualdade e Imigração, cujos funcionários lutam contra a omissão dos responsáveis hierárquicos; que em SC opera a OIM, agência internacional hoje aos cuidados de Carolina Becker @iom.int (48-991321732), instituição criada em 1955 pela ONU; e que desde julho de 2020 há uma lei de migração aprovada emergencialmente durante a pandemia, mas que não foi regulamentada, embora tenha sido discutida preliminarmentre durante seis anos, sintoma da má vontade institucional em dar conta do problema.

    No final da audiência se decidiu buscar não só a regulamentação da lei das migrações, mas a fiscalização e a articulação dos órgãos públicos e instituições privadas capazes de fazer a política migratória sair do estágio de inércia operacional.

    Este relato é um resumo da audiência gravada e disponível no Youtube.

    Ela foi convocada pelo deputado Marquito Abreu, do Psol, que vem trabalhando em cima de temas como o saneamento ambiental e os direitos humanos e civis dos desvalidos do decantado progresso material do estado e especialmente de Florianópolis, a meca do turismo de verão no Cone Sul. Marquito é agrônomo e nas eleições municipais da capital em 2024 foi o segundo candidato mais votado, com 60 mil votos, 100 mil a menos do que o prefeito reeleito Topázio Neto, que criou recentemente um corpo de voluntários para despachar moradores de rua para suas cidades de origem.

  • Ecos de 1923: A última guerra dos gaúchos em mostra de três documentários na Cinemateca Paulo Amorim

    Ecos de 1923: A última guerra dos gaúchos em mostra de três documentários na Cinemateca Paulo Amorim

    O cineasta Henrique de Freitas Lima tem criado, ao longo de seus 40 anos de carreira, filmes de ficção ou documentários que contam a história do sul do Brasil, seja ela ambientada nas cidades, no campo, ou com enfoque na vida e obra dos artistas que aqui habitam.

    Em Ecos de 1923 – A Última Guerra dos Gaúchos, Henrique e equipe produziram o mais ambicioso e impressionante material audiovisual sobre a história do Rio Grande do Sul jamais feito, com importância fundamental também para o Brasil.

    Por dois anos, de 2023, ano em que a Revolução Libertadora completou seu centenário, a 2025, quando se completou a entrega da 1ª etapa do projeto Os Caudilhos, o cineasta e sua equipe se debruçaram a produzir em nove municípios gaúchos, e no Uruguai, os três filmes de longa metragem que poderão ser apreciados em uma mostra na Cinemateca Paulo Amorim, de 9 a 11 de junho, acompanhados por um ciclo de debates com especialistas sobre o assunto.

    A Ponte do Rio Ibirapuitã, em Alegrete, palco de Batalha em 1923. Reprodução

    Abordando a Revolução de 1923 e focados nos acontecimentos em alguns dos principais palcos do conflito, os municípios de Pedras Altas, Camaquã, Caçapava do Sul, São Gabriel, Rosário do Sul, Alegrete, São Francisco de Assis, Santana do Livramento e Uruguaiana, os filmes aliam depoimentos de especialistas a farto material de arquivo obtido em inúmeros acervos no Brasil e no Uruguai com tratamento moderno e narrativa envolvente. Todos os filmes, fruto da colaboração com produtores locais de cada um dos municípios e realizados com recursos federais da LPG Lei Paulo Gustavo e PNAB Política Nacional Aldir Blanc, estrearam suas versões locais de 30 minutos com grande repercussão em 2024 e 2025 nas cidades que viabilizaram a produção. 

    Na mostra, serão exibidos três programas de 70 minutos de duração: Ecos de 1923 – Parte I, Parte II e Parte III.

    Na impactante abertura, que traz a contextualização da Revolução de 1923, e que leva o espectador ao cerne do conflito, destaca-se na trilha a clássica canção Sabe Moço, de Francisco (Chico) Alves, com novo arranjo de Sérgio Rojas e a interpretação de Vitor Hugo.

    Beraldo Figueiredo, historiador de São Gabriel. Reprodução

    Após as projeções, haverá debates mediados pelo historiador Günter Axt com alguns dos principais nomes que participaram do projeto e participação do público.

    Terça-feira, 9 de junho – Parte I

    A deflagração do conflito: contexto, adesão e consciência política

    – Uruguaiana, São Gabriel e Caçapava do Sul –

    Com os debatedores Miguel do Espírito Santo e João Aloísio Degrazia

    Apresenta o contexto, os personagens históricos e o motivo da guerra, abordando Uruguaiana com a construção do ambiente político, rivalidades, articulações e tensão pré-guerra; São Gabriel com ênfase no aprofundamento humano e simbólico, a cidade como corpo que reage à guerra. Aqui a Revolução deixa de ser apenas estrutura e passa a ser experiência vivida; e Caçapava do Sul, que em tom mais reflexivo e conceitual, funciona como uma espécie de epílogo filosófico do primeiro ato.

     Fazenda da Figueira, em Camaquã. Reprodução

    Quarta-feira, 10 de junho – Parte II

    O corpo da guerra: trauma, violência, cicatriz

    – Camaquã, São Francisco de Assis e Rosário do Sul –

    Com os debatedores Coralio Cabeda e Fernando Azambuja

    Mergulha no núcleo trágico da Revolução. Aqui o espectador não observa mais a história — ele a atravessa. Camaquã abre o segundo dia com impacto direto: bombardeio aéreo, coluna de Zeca Netto, memória oral. Funciona como o “portão do inferno” do segundo ato. São Francisco de Assis aprofunda o trauma psicológico. O próprio título interno – o dia seguinte que nunca acabou – desloca o foco da batalha para a ferida que permanece no tempo. Opera quase como cinema de luto. Rosário do Sul fecha com a maior densidade trágica: degolas, participação das mulheres, resquícios físicos da guerra, pacto, repercussão nacional. É o ponto mais alto de tensão emocional de toda a mostra.

    Quinta feira, 11 de junho – Parte III

    Elaboração simbólica: memória, política, conciliação e legado

    – Alegrete, Livramento e Pedras Altas –

    Com os debatedores Marcos Hernandez e Rodrigo Aguiar

    Transforma trauma em compreensão. Leva o espectador da dor para o significado. Alegrete começa o dia com estrutura mais coral, múltiplas histórias, lembranças, personagens locais. Santana do Livramento traz densidade política novamente, mas agora com mais sofisticação: fronteira, influência uruguaia, assassinatos, ascensão de Flores da Cunha. O conflito retorna, mas agora filtrado pela complexidade histórica. Pedras Altas fecha a mostra com perfeição simbólica. O castelo, o pacto, Assis Brasil, o gesto de conciliação. Dramaturgicamente, é um epílogo natural: onde antes havia guerra, agora há assinatura; onde havia sangue, agora há papel; onde havia ruptura, agora há memória organizada.

    Leonel Gomez, compositor de Santana do Livramento. Reprodução

    ECOS DE 1923 – Mostra de filmes de Henrique de Freitas Lima / Cinematográfica Pampeana

    Dias 9, 10 e 11 de junho, às 19h

    Cinemateca Paulo Amorim – Casa de Cultura Mario Quintana

    Rua dos Andradas, 736

    Entrada franca

     Marcas da Batalha de 1923 na praça de São Francisco de Assis. Reprodução 

  • Exportação de carne suspensa: Europa quer garantias sobre uso de antibióticos

    Exportação de carne suspensa: Europa quer garantias sobre uso de antibióticos

    A entrada de carne brasileira estará suspensa nos países da União Européia a partir de setembro. A decisão, anunciada há um, mês foi oficializada nesta sexta-feira, 5.

    A justificativa é que o Brasil não conseguiu comprovar que seus produtores atendem as exigências sanitárias europeias, especialmente quanto ao uso de antibióticos ( também chamados antimicrobianos).

    Esses medicamentos são indicados para tratar infecções em animais, mas são usados indevidamente para estimular o crescimento e aumentar o peso. Eles já estão proibidos no país desde abril, mas a União Européia quer garantias e provas.

    A União Europeia é um dos principais mercados para as proteínas animais brasileiras. No caso da carne bovina, o bloco europeu aparece entre os maiores destinos das exportações brasileiras em valor. 

    As restrições ao uso de antibióticos fazem parte da política europeia de segurança alimentar e saúde pública conhecida como One Health, criada para combater o uso excessivo de antibióticos no mundo.

    Entre os produtos restritos pelos europeus estão substâncias como virginiamicina, avoparcina, tilosina, espiramicina, avilamicina e bacitracina.

    A cautela europeia não significa necessariamente que a carne brasileira esteja contaminada por medicamentos.

    O principal objetivo da decisão europeia é regulatório e envolve rastreabilidade sanitária, certificação e comprovação documental sobre o uso dos medicamentos.

    Na pecuária tradicional, alguns tipos de antibióticos são misturados à ração em doses baixas para funcionar como “promotores de crescimento”. Eles mudam a flora intestinal do animal, fazendo com que ele absorva melhor os nutrientes, gaste menos energia combatendo microinfecções e, consequentemente, ganhe mais peso em menos tempo.

    O uso contínuo de antibióticos em animais cria bactérias ultra-resistentes. Essas “superbactérias” podem passar para os humanos através do consumo ou manejo da carne.

    Para voltar à lista dos países autorizados a vender os produtos vetados, o Brasil precisará comprovar que cumpre as regras europeias durante todo o ciclo de vida dos animais exportados.

    Isso exige monitoramento detalhado da cadeia produtiva, certificações sanitárias adicionais e custos maiores para produtores e frigoríficos.

    A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec)disse em nota que o Brasil conta com um “dos sistemas de inspeção e defesa agropecuária mais robustos do mundo” e a carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios de mais de 170 países, incluindo os principais mercados internacionais, cumprindo “rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente”.

    A decisão não significa que a carne brasileira esteja contaminada. O bloco removeu o Brasil da lista porque o governo e os produtores ainda não conseguiram fornecer documentos e sistemas de fiscalização oficiais que comprovem, animal por animal, que essas substâncias banidas não foram utilizadas.

  • Ebola: Congo registra quase 500 casos com 82 mortes desde o inicio do surto

    Ebola: Congo registra quase 500 casos com 82 mortes desde o inicio do surto

    A República Democrática do Congo informou nesta sexta-feira (5) que o número de casos confirmados de ebola aumentou para 452, após a confirmação de 71 novos diagnósticos nas últimas 24 horas. As infecções causaram 82 mortes.

    As informações foram noticiadas pela agência Reuters e atribuídas ao governo da nação africana. 

    O surto de ebola causado pela cepa Bundibugyo do vírus é um dos mais graves registrados desde que a doença foi descoberta e, além do Congo, também já afetou Uganda.

    A situação foi declarada emergência de saúde pública de interesse internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

    Para fazer frente ao surto, a OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África, vinculado à União Africana, anunciaram nesta sexta-feira (5) um plano conjunto de resposta continental

    O plano tem duração de junho a novembro de 2026 e pretende arrecadar 518 milhões de dólares para ajudar os países africanos e parceiros a agilizarem a preparação, detecção e resposta.

    Como não há vacinas ou tratamentos específicos para o ebola causado pelo vírus Bundibugyo, o plano traça medidas para aumentar a resiliência dos sistemas de saúde mesmo que os países se encontrem em emergências sanitárias agudas. A implementação das medidas já começou nos países afetados e naqueles sob maior risco.

    Além dos dois países onde já há casos confirmados, são considerados sob maior ameaça de importar a doença Sudão do Sul, Ruanda, Quênia, Zâmbia, República Centro-Africana, Tanzânia, Etiópia, Angola, Congo (Brazzaville) e Burundi.

    (Com Agência Brasil)

  • Caso Master: manobras travam CPI pedida em novembro do ano passado

    Caso Master: manobras travam CPI pedida em novembro do ano passado

    O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, negou pedido de quatro senadores que alegaram suspeição do ministro Kassio Nunes Marques para julgar um mandado de segurança que pede a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Banco Master.  A decisão foi proferida na quarta-feira (3).

    A ação foi protocolada em março deste ano e ainda não houve decisão do ministro, que é relator do caso.

    Os senadores Eduardo Girão (Novo-CE), Alessandro Vieira (MDB-SE), Marcos Pontes (PL-SP) e Plínio Valério (PSDB-AM) alegaram que o ministro tem relação de amizade com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos investigados no caso Master, e possui “interesse direto” no caso.

    Fachin negou o pedido de suspeição do relator e disse que a questão deveria ser levantada cinco dias após a escolha do relator.

    Os senadores alegam suposta omissão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que ainda não leu o requerimento de instalação da comissão. O documento foi protocolado no dia 26 de novembro de 2025.

    De acordo com os parlamentares, o requerimento conta com 53 assinaturas, superando os 27 apoiamentos mínimos para criação da CPI, equivalente a um terço do total de 81 senadores.  

  • Débora Falabella transforma Prima Facie em experiência inesquecível

    Débora Falabella transforma Prima Facie em experiência inesquecível

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Na noite desta quinta-feira, 4 de junho, no Salão de Atos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a sensação ao final de Prima Facie não era exatamente a de ter assistido a um espetáculo teatral convencional. O que se experimentava ali era algo mais raro e mais difícil: a impressão de ter sido atravessado por uma obra que obriga o público a reorganizar moralmente as próprias certezas. Poucas peças contemporâneas conseguem alcançar esse efeito com tamanha precisão. Menos ainda quando sustentadas por um monólogo. E raríssimas quando dependem quase integralmente da potência de uma única atriz em cena. Mas é exatamente isso que ocorre na montagem brasileira de Prima Facie, protagonizada por Débora Falabella.

    O texto da dramaturga australiana Suzie Miller já nasce impregnado de densidade ética e sofisticação estrutural. Não se trata apenas de uma narrativa sobre violência sexual ou sobre os limites do sistema jurídico. A peça vai além do discurso temático para investigar a própria linguagem institucional do direito, os mecanismos de validação da verdade e o modo como as estruturas de poder produzem silêncios socialmente legitimados. Prima Facie é uma obra sobre o abismo entre aquilo que aconteceu e aquilo que pode ser provado. E é justamente nesse intervalo que o espetáculo finca sua força devastadora.

    A tradução brasileira de Alexandre Tenório preserva a inteligência afiada do original sem sacrificar fluidez ou oralidade. Há um rigor técnico admirável na construção verbal do texto, sobretudo porque ele alterna velocidades emocionais muito distintas: em certos momentos, a narrativa opera como uma aula brilhante de retórica jurídica; em outros, desce abruptamente às zonas mais íntimas do trauma, da humilhação e da vulnerabilidade. Essa oscilação poderia facilmente comprometer a unidade da peça, mas aqui ela se transforma em virtude dramatúrgica. O texto respira com organicidade. Não há pedagogia panfletária. Há arte. E há pensamento.

    A direção de Yara de Novaes compreende perfeitamente essa natureza híbrida da obra. Em vez de sobrecarregar o palco com soluções ilustrativas ou excessos emocionais, aposta numa depuração cênica inteligente, permitindo que a palavra e o corpo ocupem o centro gravitacional do espetáculo. O resultado é uma encenação de rara maturidade estética. Cada escolha parece submetida a um princípio de necessidade. Nada sobra. Nada distrai. Nada concorre com o essencial.

    É nesse território que o trabalho de Débora Falabella alcança algo próximo do extraordinário. Sua atuação não se limita a interpretar uma personagem; ela constrói uma arquitetura emocional inteira diante do público. A atriz domina ritmo, pausa, respiração, inflexão e presença com uma precisão impressionante. Sua performance possui musculatura intelectual e combustão afetiva simultaneamente. Em muitos momentos, o espectador percebe que ela pensa em cena — e não apenas representa emoções previamente determinadas. Isso confere à personagem uma densidade rara.

    A construção inicial da protagonista é particularmente brilhante. Débora apresenta uma advogada criminalista segura, veloz, sedutora e profundamente adaptada às engrenagens competitivas do sistema judicial. Há ironia, humor e até certo cinismo elegante em sua maneira de ocupar o espaço. O público ri diversas vezes nos primeiros movimentos da peça, e esse riso é importante porque estabelece uma relação de proximidade antes do colapso dramático. Quando a narrativa muda de eixo, a atriz altera completamente sua frequência corporal. O que antes era domínio torna-se hesitação; o que era fluidez converte-se em fragmentação. E tudo isso sem recorrer a soluções fáceis ou melodramáticas.

    O mais impressionante talvez seja justamente sua recusa ao excesso. Débora Falabella compreende que o trauma profundo muitas vezes não explode: ele corrói. Sua atuação evita sentimentalismos previsíveis e aposta em pequenas fissuras emocionais, em silêncios abruptos, em olhares interrompidos, em frases que parecem perder o ar antes de terminarem. É uma interpretação construída menos pelo espetáculo da dor e mais pela erosão progressiva da linguagem. Poucas atrizes brasileiras contemporâneas possuem tamanho domínio de nuances.

    O cenário concebido por André Cortez merece reconhecimento especial pela inteligência com que compreende a natureza psicológica de Prima Facie. Em vez de optar por uma reprodução naturalista de ambientes jurídicos ou por soluções cenográficas excessivamente simbólicas, Cortez cria um espaço cênico de aparência funcional e quase austera, mas carregado de tensão invisível. A arquitetura do palco sugere simultaneamente tribunal, memória e confinamento emocional. Há uma geometria fria na disposição dos elementos, como se o espaço estivesse permanentemente organizado segundo a lógica impessoal das instituições. E justamente por isso a presença humana da personagem ganha ainda mais vulnerabilidade. O cenário não busca ilustrar a narrativa: ele amplifica silenciosamente sua sensação de exposição e isolamento. Trata-se de uma cenografia que entende algo fundamental sobre o grande teatro contemporâneo — às vezes, a verdadeira sofisticação está naquilo que permite ao drama respirar sem jamais disputar protagonismo com ele.

    O desenho de iluminação de Wagner Antônio merece destaque especial. Em um espetáculo sustentado quase integralmente pela palavra, a luz assume papel dramatúrgico decisivo. Aqui, ela não funciona apenas como recurso estético, mas como extensão psicológica da personagem. Os cortes luminosos criam atmosferas de isolamento, exposição e vulnerabilidade com enorme inteligência visual. Há momentos em que a luz parece reproduzir o funcionamento de um tribunal: fria, objetiva, quase clínica. Em outros, torna-se uma espécie de campo mental fragmentado, acompanhando a desorganização subjetiva da protagonista. A sofisticação está justamente na discrição.

    O figurino de Fabio Namatame também opera com grande eficiência simbólica. A escolha de um visual sóbrio, elegante e funcional ajuda a revelar a identidade profissional da personagem sem transformá-la em caricatura corporativa. À medida que o espetáculo avança, a roupa parece adquirir outro peso, como se aquilo que antes representava autoridade passasse lentamente a significar armadura. É um trabalho de figurino que compreende a dramaturgia sem precisar chamar atenção para si.

    A trilha sonora e o desenho de som de Morris seguem caminho semelhante. Em vez de manipular emocionalmente o público com grandiloquência, trabalham por tensão subterrânea. Os sons surgem como pulsações internas, ecos emocionais ou atmosferas de desconforto. Em certos momentos, o silêncio é utilizado com inteligência brutal. E talvez seja justamente nesse silêncio que Prima Facie alcança sua dimensão mais perturbadora: a percepção de quantas experiências humanas permanecem sem linguagem adequada dentro das instituições.

    Há também algo profundamente relevante na recepção coletiva da plateia. Assistir a essa peça em um grande auditório universitário produz uma camada adicional de sentido. O espetáculo dialoga diretamente com temas urgentes da contemporaneidade: gênero, poder, violência, credibilidade e justiça. Mas o faz sem simplificações ideológicas. Sua inteligência reside precisamente em demonstrar que sistemas jurídicos podem ser simultaneamente necessários e insuficientes. A peça não propõe respostas fáceis. Propõe desconforto crítico. E talvez seja essa uma das funções mais nobres do teatro.

    Em tempos de produções frequentemente ansiosas por impacto instantâneo, Prima Facie impressiona por confiar radicalmente na força da interpretação, da escrita e da presença humana em cena. Não há efeitos espetaculares. Não há pirotecnia emocional. O que existe é teatro em estado de alta concentração artística. Teatro que exige escuta. Teatro que convoca pensamento. Teatro que permanece reverberando horas depois do aplauso final.

    E o aplauso, nesta noite de 4 de junho, possuía algo além do entusiasmo habitual. Havia ali um reconhecimento quase físico de que o público acabara de testemunhar uma obra importante. Não apenas importante por seu tema, mas importante por sua excelência artística. Porque grandes espetáculos não são aqueles que apenas emocionam ou informam. São aqueles que transformam nossa percepção do mundo. Prima Facie realiza isso com rara potência.

    Quem ainda não assistiu ao espetáculo tem uma oportunidade preciosa. A temporada no Salão de Atos da PUC-RS continua nesta sexta e sábado, 5 e 6 de junho, e trata-se de uma experiência teatral que merece ser vivida. Ver Débora Falabella em estado de tamanha entrega artística, sustentando um texto dessa complexidade com inteligência, humanidade e precisão técnica, é testemunhar uma das interpretações mais impactantes do teatro brasileiro recente. Prima Facie não é apenas uma peça necessária. É grande teatro.

  • Governo aperta o cerco a devedores do FGTS: 500 mil empresas devem R$ 66 bi

    Governo aperta o cerco a devedores do FGTS: 500 mil empresas devem R$ 66 bi

    O governo federal mudou a gestão e a cobrança dos débitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) inscritos em dívida ativa, que  passarão a ser feitas exclusivamente pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). 

    Cerca de R$ 66,8 bilhões, referentes a 500 mil inscrições na dívida ativa do fundo, serão migrados do sistema da Caixa Econômica Federal para a procuradoria.

    Atualmente, essa gestão é feita de forma compartilhada entre as duas instituições. A previsão é que a migração esteja completa até o final deste mês.

    Para julho, a PGFN já anunciou um edital de transações sobre esses débitos, para que os devedores consigam regularizar a situação com descontos em juros e multas.

    A dívida ativa do FGTS é composta pelos valores que deveriam ter sido pagos aos trabalhadores pelo empregador. Se o valor não for pago e nem parcelado, ele é inscrito em dívida ativa.

    A consulta, renegociação e emissão de guias de pagamento de débitos em dívida ativa, ajuizados ou não, deverão ser feitas exclusivamente pelo Regularize, o portal de serviços da PGFN

    Uma vez recuperados, os valores devidos vão direto para as contas do FGTS dos trabalhadores.

    Continuarão sob gestão da Caixa os débitos administrativos – ainda não inscritos em dívida ativa – ou que já possuem parcelamento ativo pelo banco, até a quitação ou rescisão. A emissão do Certificado de Regularidade do FGTS (CRF) também segue sob responsabilidade da instituição.

    (Com informações da Agência Brasil/EBC)

  • Justiça reabilita ação que pode anular Plano Diretor: Melo tem dez dias para se defender

    Justiça reabilita ação que pode anular Plano Diretor: Melo tem dez dias para se defender

    A juíza federal Clarides Rahmeier deu dez dias à prefeitura de Porto Alegre para se manifestar na Ação Civil Pública movida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo e que aponta ilegalidades no projeto de revisão do Plano Diretor, aprovado em abril. A decisão, em grau de recurso, foi assinada na sexta-feira e divulgada nesta segunda, 1/6.

    A ação foi ajuizada em agosto do ano passado, antes do projeto do plano ser encaminhado pelo prefeito Sebastião Melo para votaçao naà Câmara.

    Alegava violações à gestão democrática, por descumprir normas do Estatuto da cidade, irregularidade na composição do Conselho do Plano Diretor e falta de participação social no processo de revisão.

    Foi inicialmente indeferida: o CAU, entidade federal, não teria legitimidade para propor a ação e a Justiça Federal não seria a instância competente o caso.

     A  decisão de agora reforma a sentença inicial e reabre o processo que pode levar a anulação do plano aprovado pela Câmara.  Os “vícios estruturais” apontados na ação civil estão no texto do Executivo encaminhado à Câmara, sendo anterior, portanto, ao processo legislativo.    

    Diz o texto: “O recurso é provido para anular a sentença, rejeitando-se as preliminares de incompetência da Justiça Federal, ilegitimidade ativa do CAU/RS e inadequação da via eleita, com o retorno dos autos ao juízo de origem para regular processamento e julgamento do mérito, inclusive com a apreciação dos pedidos de tutela de urgência.  Cite-se a parte ré para contestar, observando o teor da inicial da Ação Civil Pública e intime-se para que se manifeste sobre o pedido de tutela de urgência no prazo de 10 (dez) dias”.

  • Universidades brasileiras caem no ranking mundial: UFRGS mantém posição

    Universidades brasileiras caem no ranking mundial: UFRGS mantém posição

    Mais de 80% (44 em 52) das  universidades brasileiras tiveram queda no ranking das melhores no mundo de 2026.

    Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (1º) pelo Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR).

    Apenas cinco universidades brasileiras subiram de posição, enquanto duas federais– do Rio Grande do Sul e da Bahia- mantiveram seus postos e 44 tiveram queda especificamente no indicador de pesquisa.

    A Universidade de São Paulo (USP) continua sendo a melhor colocada do país, mas caiu uma posição em relação ao ano anterior, ocupando agora o 119º lugar mundial devido a declínios nos indicadores de educação, corpo docente e pesquisa.

    Em seguida, aparecem a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que caiu 15 posições para o 346º lugar, e a Universidade de Campinas (Unicamp), que desceu 10 postos, ocupando a 379ª colocação.

    “Anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos”, estas são as principais causas da queda generalizada das universidades brasileiras, na avaliação de Nadim Mahassen, presidente do CWUR.

    Universidades brasileiras no ranking

    Universidades Brasileiras na Lista Global 2000

    Ranking nacionalInstituiçãoRanking Global 2026Ranking Global 2025Pontuação
    1Universidade de São Paulo (USP)🔻 11911881.2
    2Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)🔻 34633176.3
    3Universidade de Campinas (Unicamp)🔻 37936975.8
    4Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)47647674.7
    5Universidade Estadual Paulista (Unesp)🔻 47945474.6
    6Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)🔻 50849774.3
    7Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)🔻 62161773.3
    8Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)🔻 68266872.8
    9Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)🔻 73272772.4
    10Universidade Federal do Paraná (UFPR)🔻 79978371.9
    11Universidade de Brasília (UnB)83183371.6
    12Fundação Getúlio Vargas (FGV)🔻 88588071.3
    13Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)🔻 88687071.3
    14Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)🔻 89188771.3
    15Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)🔻 95995170.8
    16Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)🔻 96996670.8
    17Universidade Federal do Ceará (UFC)🔻 100296170.6
    18Universidade Federal Fluminense (UFF)🔻 100698270.5
    19Universidade Federal de Pelotas (UFPel)🔻 101398670.5
    20Universidade Federal de Viçosa (UFV)🔻 101598470.5
    21Universidade Federal da Bahia (UFBA)1024102470.4
    22Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)🔻 1071103170.2
    23Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)🔻 1102109070.0
    24Universidade Federal de Goiás (UFG)🔻 1129111969.9
    25Universidade Federal do ABC (UFABC)🔻 1183112269.6
    26Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF)🔻 1214109969.4
    27Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)🔻 1275126869.1
    28Universidade Federal de Uberlândia (UFU)1283129469.1
    29Universidade Federal da Paraíba (UFPB)🔻 1284126769.1
    30Universidade Federal do Pará (UFPA)🔻 1295128869.0
    31Universidade Federal de Lavras (UFLA)🔻 1302128469.0
    32Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS)1347136768.8
    33Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)🔻 1382133068.6
    34Universidade Estadual de Maringá (UEM)🔻 1422136868.4
    35Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)🔻 1479138568.2
    36Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)🔻 1482145568.2
    37Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS)🔻 1539150667.9
    38Universidade Federal de Sergipe (UFS)🔻 1595158467.7
    39Universidade Estadual de Londrina (UEL)🔻 1601152667.7
    40Universidade Federal do Rio Grande (FURG)1629164467.6
    41Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)🔻 1632155867.5
    42Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)🔻 1715169167.2
    43Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)🔻 1778174567.0
    44Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)🔻 1827178566.8
    45Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)🔻 1838177466.8
    46Universidade Federal de Alagoas (UFAL)1931194666.4
    47Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)🔻 1944183666.4
    48Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA)🔻 1952183166.3
    49Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)🔻 1962193066.3
    50Universidade Federal do Piauí (UFPI)🔻 1971195066.3
    51Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)🔻 1974191166.3
    52Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)🔻 2000199466.2

    Fonte: Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR)

    O grande destaque positivo é a China: 98% das universidades chinesas melhoraram suas posições, lideradas pela Universidade Tsinghua (36ª). A China é agora o país mais representado no Global 2000, com 360 instituições, superando as 313 dos Estados Unidos.

    Na Europa, o quadro é de dificuldades, com quedas generalizadas no Reino Unido, França e Alemanha devido à competição global intensificada.

    As 100 melhores da Lista Global

    InstituiçãoRanking Global 2026Ranking Global 2025PaísPontuação
    Harvard University11EUA100
    Massachusetts Institute of Technology22EUA96.8
    Stanford University33EUA95.2
    University of Cambridge44Reino Unido94.1
    University of Oxford55Reino Unido93.3
    Princeton University66EUA92.7
    University of Pennsylvania77EUA92.1
    Columbia University88EUA91.6
    Yale University99EUA91.2
    University of Chicago1010EUA90.8
    California Institute of Technology1111EUA90.5
    University of California, Berkeley1212EUA90.2
    University of Tokyo1313Japão89.9
    Cornell University1414EUA89.6
    Northwestern University1515EUA89.3
    University of Michigan, Ann Arbor1616EUA89.1
    University of California, Los Angeles1717EUA88.9
    Johns Hopkins University1818EUA88.7
    University College London1920Reino Unido88.5
    PSL University2019França88.3
    Duke University2121EUA88.1
    University of Illinois at Urbana–Champaign2222EUA87.9
    University of Toronto2323Canadá87.8
    New York University2425EUA87.6
    University of Washington2526EUA87.4
    Kyoto University2624Japão87.3
    Imperial College London2728Reino Unido87.2
    McGill University2827Canadá87.0
    University of Wisconsin–Madison2930EUA86.9
    Seoul National University3031Coreia do Sul86.8
    ETH Zurich3132Suíça86.6
    Institut Polytechnique de Paris3235França86.5
    Paris-Saclay University3334França86.4
    University of California, San Diego3433EUA86.3
    University of Texas at Austin3536EUA86.2
    Tsinghua University3637China86.1
    University of Copenhagen3738Dinamarca85.9
    Paris City University3829França85.8
    University of California, San Francisco3939EUA85.7
    Peking University4044China85.6
    University of Chinese Academy of Sciences4146China85.6
    Karolinska Institute4241Suécia85.5
    University of North Carolina at Chapel Hill4340EUA85.4
    King’s College London4442Reino Unido85.3
    Sorbonne University4543França85.2
    Washington University in St. Louis4647EUA85.1
    Dartmouth College4745EUA85.0
    University of Minnesota – Twin Cities4849EUA84.9
    University of British Columbia4948Canadá84.8
    University of Edinburgh5051Reino Unido84.8
    Ludwig Maximilian University of Munich5150Alemanha84.7
    University of New South Wales5252Austrália84.6
    University of Manchester5353Reino Unido84.5
    Shanghai Jiao Tong University5461China84.5
    University of Southern California5554EUA84.4
    Vanderbilt University5656EUA84.3
    Free University of Berlin5759Alemanha84.2
    Ohio State University5855EUA84.2
    Humboldt University of Berlin5958Alemanha84.1
    University of California, Davis6060EUA84.0
    Pennsylvania State University6157EUA84.0
    Zhejiang University6268China83.9
    University of Zurich6362Suíça83.8
    University of Melbourne6464Austrália83.8
    Rutgers University6563EUA83.7
    Fudan University6673China83.7
    Hebrew University of Jerusalem6765Israel83.6
    Purdue University6866EUA83.5
    University of Texas Southwestern Medical Center6967EUA83.5
    Heidelberg University7072Alemanha83.4
    Georgia Institute of Technology7174EUA83.4
    Brown University7271EUA83.3
    University of Florida7386EUA83.2
    Weizmann Institute of Science7470Israel83.2
    University of Virginia7576EUA83.1
    Rockefeller University7669EUA83.1
    Technical University of Munich7777Alemanha83.0
    University of Colorado Boulder7875EUA83.0
    National University of Singapore7980Singapura82.9
    Utrecht University8078Países Baixos82.9
    Sun Yat-sen University8195China82.8
    University of Alberta8281Canadá82.8
    University of Amsterdam8383Países Baixos82.7
    Huazhong University of Science and Technology8498China82.7
    University of Science and Technology of China8596China82.6
    University of Pittsburgh8684EUA82.6
    Leiden University8788Países Baixos82.5
    University of Oslo8887Noruega82.5
    University of Rochester8979EUA82.4
    University of Basel9085Suíça82.4
    Texas A&M University, College Station9182EUA82.3
    University of California, Irvine9289EUA82.3
    Australian National University9390Austrália82.2
    Carnegie Mellon University9497EUA82.2
    University of Birmingham9593Reino Unido82.1
    Uppsala University9691Suécia82.1
    Aarhus University97100Dinamarca82.1
    KU Leuven98105Bélgica82.0
    University of Maryland, College Park9992EUA82.0
    University of Sydney10094Austrália81.9

    Fonte: Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR)

    Metodologia

    O CWUR utiliza quatro indicadores principais para classificar as instituições, sem depender de pesquisas de opinião ou dados enviados pelas próprias universidades:

    • Educação (25%): baseado no sucesso acadêmico de ex-alunos.
    • Empregabilidade (25%): baseado no sucesso profissional de ex-alunos em grandes empresas.
    • Corpo docente (10%): medido por distinções acadêmicas de alto nível.
    • Pesquisa (40%): inclui produção total, publicações em jornais de elite, influência e citações.
  • Voltada para a fábrica de 25 bilhões, Barra do Ribeiro vive dias de incerteza

    Voltada para a fábrica de 25 bilhões, Barra do Ribeiro vive dias de incerteza

    Numa caminhada pelo centro de Barra do Ribeiro é possível andar dois quarteirões, quinta-feira às duas da tarde, sem encontrar uma só pessoa.

    Mas as aparências enganam na pacata cidade de 12 mil habitantes, de casas baixas e ruas silenciosas, defronte a Porto Alegre, na outra margem do Guaiba.

    Basta bater numa porta e puxar conversa para perceber que Barra do Ribeiro está em ebulição:  um negócio de R$ 25 bilhões incendeia o imaginário dos barrenses.    

    “Maior investimento da história do Rio Grande do Sul’, todos repetem. E sabem os  números de cór: 13 mil empregos na obra durante três anos, quatro mil na operação regular, 900 caminhões por dia com toras de eucalipto, bilhões de dólares de exportações de celulose por ano.  

    O dono do restaurante que oferece buffet livre com churrasco a 40 reais no centro de Barra do Ribeiro faz um cálculo: “Treze mil trabalhadores, duas refeições para cada um, são 26 mil refeições por dia, um milhão por dia”   

    O secretário de Desenvolvimento, Everton Antunes estima que 1.200 empresas se instalaram ou estão se instalando na cidade desde que o empreendimento foi oficialmente anunciado há dois anos. Dois mil prédios estão projetados – casas, galpões, edifícios para comércio e moradia.

    A maior empresa do município, a Tecnoplan, que tem 700 empregados e produz mudas para plantios florestais, vinculados à indústria de celulose, vai aos poucos sendo superada por grandes negócios imobiliários. Uma única empresa já aprovou loteamento para seis mil terrenos.

    As grandes marcas regionais – Colombo, Quero-Quero, Benoit, Becker – já exibem seus logotipos em fachadas coloridas nas ruas principais.

    As pousadas, que sempre viveram do veraneio, estão todas lotadas.  

    “Terreno aqui virou ouro”, diz o secretário de Desenvolvimento do Município, Everton Antunes. O preço dos terrenos triplicou – um lote de 300 metros quadrados num dos novos loteamentos não sai por menos de R$ 250 mil e, conforme a localização, pode chegar a R$ 1 milhão. Ele prevê “um  novo desenho” da cidade, com o aumento da população.

    É tradição em Barra do Ribeiro o carro de som que percorre as ruas comunicando o “passamento” de figuras ilustres da cidade. “Deus me livre, morrer e não ser anunciado no alto-falante”, brinca o secretário. Agora, segundo ele, a principal atividade do carro de som é percorrer as ruas anunciando empregos.

     Na unidade do Sine, por exemplo, há oferta de vagas para 130 cozinheiras por conta das empresas, inclusive de outros Estados, que se preparam para fornecer alimentação para os trabalhadores da fábrica. Cursos do Sesi e do Senai formam trabalhadores. A prefeitura pensa até em uma escola de gastronomia. “Somos a estrela da coroa”, diz o secretário Everton.

    Mas Barra do Ribeiro vive em sobressalto desde março. Uma ação civil pública, ajuizada pelo ministério público federal, pede a suspensão do licenciamento ambiental para que sejam consultadas as comunidades indígenas ou quilombolas afetadas pelo projeto e considera insuficientes os dados apresentados sobre o impacto hídrico da operação industrial.  

    A empresa, a chilena CMPC, uma das maiores “papeleiras” do mundo,  argumenta que se for cumprir as exigências o projeto perderá a oportunidade e pode ser transferido para outro lugar. Um diretor da empresa chegou a mencionar o Paraguai.

    A justiça federal não mandou parar o processo de licenciamento, mas a incerteza quase paralisa Barra do Ribeiro. “Nem é bom pensar” diz Jorge Wurdig. editor do Novo Tempo, o jornal da cidade. “Seria um retrocesso sem nome”, diz ele referindo-se à hipótese de não sair o projeto. Mas não está pessimista: “No ponto que chegou, não tem volta”.

    Na revenda cheia de carros na rua principal, o gerente não esconde a ansiedade: “Toda essa expectativa, agora estão tão dizendo que não sai mais”. Ele partilha da opinião corrente na comunidade, de que as exigências do Miniestério Público “são coisas absurdas”.  Neto do fundador, ele toca o negócio com o pai e diz que está preparado para levar adiante, mesmo sem a fábrica.

    Aos 53 anos, o secretário Antunes, nascido em D. Feliciano, tem 40 anos de Barra do Ribeiro e se considera um “barrense”. “A gente não quer acreditar”, diz ele sobre a possibilidade de transferir o projeto para outro país, como a empresa ameaçou. Ele não discute a questão ambiental, acha que há exagero quanto aos impactos. “Eles são confiáveis, usam a melhor tecnologia”, garante. “Não conheço ninguém que seja contra”, diz ele, abrindo o casaco para mostrar a camiseta da campanha pela fábrica. Mas há protestos? “Aqui, andaram umas mocinhas gravando vídeos na beira do rio, falando com pescadores, muitos nem pescadores são, a gente conhece”, minimiza.

    Um comitê, formado por professores e técnicos ligados a universidades e entidades de proteção ambiental, publicou um relatório apontando os riscos de contaminação da água devolvida ao rio, num volume equivalente ao consumo diário de toda a população de Porto Alege. Produtos químicos renitentes, usados no processo de branqueamento da celulose, podem representar risco à saúde pública, já que toda a água potável de Porto Alegre e região é captada no Guaíba.  

    A ação ajuizada em março, paralisou tudo em Barra do Ribeiro. O suspense agravou-se quando representantes da empresa passaram a falar na hipótese de transferir o projeto, até para outro país. As preocupações ambientais, se existiam, dissolveram-se.  “Desconheço quem não quer a fábrica”, diz o secretário. Ele acredita no que os diretores da empresa afirmam que a água devolvida ao Guaiba no ciclo industrial será mais limpa do que entrou. Garante que beberia um copo dessa água.