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  • Comissão de Saúde debate vício do jogo: “Estamos no olho do furacão”, diz psiquiatra

    Comissão de Saúde debate vício do jogo: “Estamos no olho do furacão”, diz psiquiatra

    O impacto das apostas esportivas na saúde mental foi o tema da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Câmara de Porto Alegre nesta terça-feira (7/7). O debate foi proposto pela vereadora Psicóloga Tanise Sabino (MDB). 

    Sabino considerou que cerca de 11 milhões de brasileiros apresentam comportamento de risco em relação a jogos de azar e cerca de 1 milhão sofrem de ludopatia, o vício ao jogo. 

    “Nunca são só números. Essa reunião trata de pessoas, de sofrimento, de saúde pública”, ressaltou. 

    A vereadora relatou que as bets, como são conhecidas, foram liberadas no país em dezembro de 2018 e que ficaram longo tempo sem regulamentação (a normatização foi feita em 2025). Nesse meio tempo, cresceram campanhas milionárias em torno das apostas.

    Tanise Sabino lembrou que, no passado, álcool e cigarro também demoraram para serem vistos como questão de saúde. “Muitos problemas de saúde pública passam por um período de invisibilidade pública. Com as bets parece estar acontecendo isso”. 

    A proponente da reunião relatou que a Prefeitura de Porto Alegre foi procurada e que informou que não possui dados consolidados sobre esse tema. O Município também disse que tem apenas três casos informados de problemas com apostas na rede municipal de saúde.

    Para Sabino, a ludopatia pode estar mascarada em casos de pacientes com outros sintomas  como ansiedade e depressão. 

    “Estamos no olho do furacão” 

    Integrante da diretoria do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), o médico psiquiatra Ricardo Nogueira afirmou que o país passa por um momento agudo da crise relacionada às apostas esportivas.

    “Estamos bem no olho do furacão. Há três Copas do Mundo as bets tinham apenas uma cota de patrocínio. Nesta Copa, a maioria dos patrocínios é de bets. As crianças estão sendo estimuladas, com jogos tipo ‘tigrinho’, a jogar desde pequenas”, alertou. 

    Nogueira disse que é difícil dimensionar o impacto das bets, dada a força dele. “A gente não tem noção do tamanho. Segundo informações da Associação Gaúcha de Supermercados (AGAS), houve redução de 20% na venda de alimentos. O buraco é muito mais embaixo no sofrimento que essas bets estão causando na família brasileira”. 

    Nogueira relatou ter pacientes que pararam de trabalhar para jogar e que tomaram dinheiro emprestado com agiotas. “Aumentaram casos de ansiedade, de depressão e de suicídios por pessoas que não conseguiram pagar essas dívidas”. 

    O diretor do Simers destacou ainda que as bets não trazem benefícios econômicos para o país. “Esse dinheiro vai todo embora do país, porque essas bets são sediadas em paraísos fiscais. Então é um mal em todos os aspectos”. 

    A psiquiatra Carla Bicca apresentou dados que mostram um custo de cerca de R$ 38 bilhões anuais ao país com os danos causados pelos jogos de azar, principalmente na área da saúde, e que a arrecadação de impostos do setor é insuficiente para custear os impactos no SUS.

    Ainda segundo Bicca, os consumidores devem perder aproximadamente 700 bilhões de dólares até 2028 em todo o mundo. 

    A psiquiatra ressaltou que os danos das bets se concentram em grupos vulneráveis, como adolescentes. Carla Bicca afirmou que cerca de 1,8% das pessoas que são expostas ao jogo ficam adictas, por isto é preciso diminuir a visibilidade, com diminuição da publicidade. “A melhor política de tratamento é reduzir quem precisará dele”. 

    Também participaram da reunião representantes de diversas instituições, como Ministério Público, Conselho Regional de Medicina (Cremers) e Hospital Psiquiátrico São Pedro. 

    Dentre os presentes para assistir à reunião, Vitória Vargas, estudante de Direito, também fez uso da palavra. “Crianças e adolescentes estão expostas a publicidade de apostas. Há uma insuficiência normativa. Enquanto não houver consenso na regulamentação, precisamos de normas mais severas”, defendeu. 

    Texto: Felipe Prestes (reg. prof. 14976)

  • Morte de Jango: ditadura proibiu até minuto de silêncio no Beira Rio

    Morte de Jango: ditadura proibiu até minuto de silêncio no Beira Rio

    A suspeita de que o ex-presidente João Goulart foi assassinado estava presente já no seu enterro, no dia 6 em dezembro de 1976, em São Borja.

    Fazia muito sentido: em maio daquele ano, dois líderes da oposição uruguaia, o senador Zelmar Michelini e o deputado Gutierrez Ruiz, haviam sido seqüestrados e mortos em Buenos Aires.

    Em agosto, o ex-presidente Jucelino Kubtscheck, sofrera acidente na via Dutra, em circunstâncias suspeitas – hoje comprovadamente criminoso*.

    Em setembro, Orlando Letelier, ex-ministro do Chile, morrera num atentado em Washington.

    O risco de Jango era evidente. Ex-presidente no exílio, “herdeiro político de Vargas”, tornara-se um incômodo no momento em que o regime militar enfrentava resistência cada vez maior no meio civil.

    Sua vida era vigiada, sua correspondência violada. Nos últimos meses, o cerco parecia se fechar: prenderam sua mulher, um amigo mandou avisar que não dormisse duas noites no mesmo lugar.

    Teve que mandar os dois filhos para Londres, por segurança. Depois, as circunstâncias de sua morte, num lugar isolado, só com a mulher e um caseiro, com atestado de óbito de um médico que mal olhou o cadáver e declarou que ele morreu de “enfermedad” (doença).

    Por fim, a maneira como o governo militar
    reagiu ao pedido da família para que o corpo fosse enterrado em São Borja, a terra do presidente morto.
    Primeiro não queriam permitir, depois não podia levar por rodovia, só avião. Por fim, foi liberado, mas não podia ser um cortejo, tinha que ser um carro, em alta velocidade, sem parar na fronteira, direto para o cemitério. Não foi permitido à família ver o corpo…
    Tudo isso alimentou a suspeita que, desde aquele dia, nunca abandonou as conversas dos antigos correligionários de Jango.

    A saúde dele era precária, era cardíaco, tinha sido advertido pelo médico do grave risco que corria se não parasse de beber e fumar (ele
    não parava), um enfarto fulminante não seria surpresa.
    Nem isso diminuiu as dúvidas. Nem mesmo o testemunho de Maria Tereza, sua mulher, que o viu morrer no leito conjugal e sempre rejeitou a hipótese do envenenamento.
    Passaram-se 15 anos até que a suspeita fosse além das conjeturas. Preso como assaltante, no ano 2000, um ex-policial uruguaio, Mario Neira Barreiro, revelou aos jornais uma suposta Operação Escorpião, da qual participou, para matar Goulart.
    Ele forneceu fatos concretos, plausíveis. Tinha, de fato, trabalhado como rádio-escuta para os órgãos da repressão política durante a ditadura uruguaia, eram corretas as informações que tinha sobre a rotina e a família de Jango no Uruguai e Argentina. Mas não ia além de uma boa história a ser confirmada.
    No ano seguinte a Câmara dos Deputados instalou uma CPI para investigar a morte do ex-presidente João Goulart. Cerca de 60 depoimentos foram tomados, mas a CPI encerrou com um relatório contraditório: não há dúvidas que um “Mercosul do terror” operou na região, mas no caso especifico de Jango, faltavam provas.
    Um “romance reportagem” dos jornalistas Carlos Heitor Cony e Anna Lee (O Beijo da Morte, Ed. Objetiva, 2003) retomou o tema do assassinato, associando-o com as mortes do ex-presidente Jucelino Kubitscheck e de Carlos Lacerda, ambas envolvidas em suspeita (confirmada depois, no caso de Jucelino)
    Barreiro foi uma das fontes de Anna Lee e Cony. Ouvido na Penitenciária de Charqueadas, RS, ele contou novamente a historia da Operação Escorpião, para eliminar Jango. Conclusão de Cony: “É um sujeito perigoso,
    com uma tendência ao delírio. Mas seu delírio tem uma espinha dorsal que supera detalhes assombrosos de seu relato. Prometeu mostrar provas que estavam com outro preso. Não tivemos as provas, mas fortes indícios de uma operação destinada a eliminar o ex-presidente”.
    No final de 2006, uma equipe da TV Senado que prepara um documentário sobre Jango, obtém permissão para ouvir Barreiro na prisão de Charqueadas. Ele exige alguém da família. O filho de Goulart, João Vicente, participa da gravação de duas horas e sai decidido a reabrir as investigações sobre a morte do pai. Barreiro conta a mesma história: Diz que a ordem para matar Jango foi dada diretamente pelo presidente Ernesto Geisel ao delegado Sérgio Fleury, do Dops paulista.
    Quer pela hierarquia, quer pelas relações entre os personagens, quer pelo temperamento de Geisel, é uma afirmação discutível. Mas as recentes revelações sobre a Operação Condor, o esquema terrorista multinacional que operou na América Latina, deram mais sentido às declarações de Barreiro. No final de 2007, o filho de Jango entrou no Ministério Público Federal com o pedido de investigação sobre o caso, anexando cópia da entrevista.
    No início de 2008, a repórter Simone Iglesias entrevista Barreiro em Charqueadas e a Folha de São Paulo mancheteia na capa: “Brasil Mandou Matar Jango”. Da Folha o assunto foi ao Jornal Nacional e nos dez dias seguintes, Barreiro deu mais de 30 entrevistas para jornais, rádios e tevês de todo o país.

    Um homem amargurado

    É provável que tenha havido um plano para eliminar Jango, não concretizado. O infarto pode ter chegado antes. Entre os amigos mais chegados, o que o matou, mesmo, foi o “desgosto”. Ele queria voltar ao Brasil, tentara renegociar seu retorno inúmeras vezes. Cumprira dez anos de cassação, passara por dezenas de inquéritos, mantinha-se distante da política brasileira, queria cuidar de suas fazendas.

    Homem amargurado


    Mas o regime militar havia lhe negado até o passaporte, viajava com passaporte paraguaio. Manoel Leães, que por 30 anos foi piloto de Jango, em seu livro de memórias diz que o expresidente era “um homem amargurado com o fato de não poder voltar ao Brasil”.

    Um amigo de infância contou que ele vinha para a beira do rio Uruguai, do lado argentino, e ficava olhando os campos de São Borja na outra margem.
    Dois meses antes de morrer declarou que estava disposto a arriscar a travessia.

    O ministro do Exército deu ordem para que fosse preso imediatamente e posto incomunicável pela Polícia Federal.
    Quando a notícia de sua morte chegou ao Brasil, as redações receberam a seguinte nota: “De ordem superior, fica proibida a divulgação, através do rádio e da televisão, de comentários sobre a vida e a atuação política do sr. João Goulart. A simples notícia do falecimento é permitida, desde que não seja repetida sucessivamente”.

    Foi negado luto oficial e, no Congresso, a bandeira, hasteada a meio pau, foi depois arriada. Dias depois de sua morte, aos 57 anos, a diretoria do Internacional decidiu que o ex-atleta ilustre (ele jogara nos juvenis do clube) merecia um minuto de silêncio no jogo com o Atlético mineiro, no domingo seguinte no Beira Rio. O assunto chegou à cúpula militar e o minuto de silêncio foi proibido.

    “Não sou inimigo de vocês”

    O que Mario Neira Barreiro revela é o embrião da Operação Condor, grande ação conjunta dos aparelhos repressivos do Cone Sul para eliminar inimigos dos regimes militares da região.

    Ele conta que entrou aos 18 anos para o Grupo de Ações Militares Anti-Subversivas (Gamma). Foi escolhido para espionar Jango porque sabia português.

    “Eu monitorei tudo o que falava através do telefone, de escuta ambiental e em lugares públicos, de meados de 1973 até sua morte em 6 de dezembro de 1976”.

    Uma vez Barreiro falou com Jango. Ele e um colega, estavam rondando a casa. Jango convidou para entrar, disse que sabia que estavam espionando. “Não sou inimigo de vocês”, teria dito.

    Segundo Barreiro, o delegado Sérgio Fleury, do Dops em São Paulo, fazia a ligação com a inteligência uruguaia.

    Partiu dele a ordem para que Jango fosse morto. A equipe que monitorava Jango se chamava Centauro (em Montevidéu outra equipe, Antares, se encarregava de Brizola).

    A operação para matar Jango chamou-se Escorpião, segundo Barreiro, e foi acompanhada e apoiada pela CIA.

    O plano consistia em colocar comprimidos envenenados nos frascos de medicamentos que Jango tomava para o coração. O efeito seria semelhante a um ataque cardíaco. “Ele tomava Isordil, Adelfam e Nifodin. O primeiro ingrediente veio da CIA e foi testado com cachorros e doentes terminais.Colocamos os comprimidos em vários lugares: no escritório, na fazenda, no porta-luvas do carro, no Hotel Liberty, em Buenos Aires”.

    Barreiro foi expulso do serviço de inteligência uruguaio em 1980, por razões que não revela. Morou em cidades da fronteira, depois fixou-se em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. Em 1999 foi preso pela primeira vez no Brasil.
    Em sua casa a polícia encontrou granadas, pistolas e fuzis. Foi recolhido à penitenciária de segurança máxima de Charqueadas, em 2000. Em maio de 2003, em regime de semi-aberto, fugiu mas foi recapturado em seguida.

    Em 2008, aos 54 anos, cumpria pena de 17 anos por tráfico de armas, falsidade  ideológica, roubo e formação de quadrilha.

    “Eu vi quando ele faleceu”

    Maria Tereza Goulart, a menina do interior que casou com o moço bonito e milionário, viveu ao lado de Jango trinta anos. Estava sozinha com ele na noite de sua morte e, desde o início, rejeitou a hipótese de assassinato.

    Nos últimos anos, ela evitava o assunto, certamente para não contradizer filhos e netos que sustentam a tese do atentado. Uma das últimas vezes em que falou sobre o assunto foi neste depoimento ao programa Teledomingo, da RBS TV, em 2003.

    ”Nós chegamos em Libres, almoçamos, e fomos embora para a fazenda. No caminho, vi que ele estava meio cansado… com olheiras, cansado… Eu falei: “Jango, você não quer que eu dirija um pouco?” Ele disse: “Não, estou bem ainda, se eu precisar, te digo”.

    “A fazenda era muito bonita, mas era um buraco. Não tinha ninguém por perto. Eu estava sozinha… “
    “Era um casarão enorme, um horror… Só nós dois, tinha uma casa de caseiro lá do lado… Aí, começou a bater uma janela. O Jango disse: “Vou dormir, porque estou cansado”. Eu disse: “Vou apagar a luz, então… Ele falou: “Não, pode ficar lendo”. Fiquei lendo uma
    revista, e a janela batendo, batendo… E eu louca de medo de ir fechar esta janela, porque a casa era assim um negócio que ia daqui até aquela outra esquina, de tão grande. Pensei: ah não vou me levantar, não; sair por essa casa, com essa janela batendo… A essa hora da noite…”
    “Aí, eu apaguei a luz e fiquei algum tempo acordada. De repente, vi que o Jango estava respirando diferente. Acendi a luz de novo e comecei a chamar: Jango, Jango. Mas quando chamei, eu vi que tinha virado o corpo assim (sabe, quando segura com uma força incrível o travesseiro… ). E ele nunca dormia assim de lado… Aí, fui para o outro lado da cama dele e comecei a chamar, chamar. Aí, ele soltou o corpo, assim… Eu vi quando ele faleceu.”
    “ Aí abri a porta e sai correndo e comecei a gritar pelo caseiro: Júlio, Júlio. E o cara veio armado, porque ele pensou que alguém tinha invadido a casa. Foi uma cena horrível. Vocês já imaginaram, perder uma pessoa, dentro de uma casa que não tem a ver contigo, sem ninguém por perto, e o caseiro… Que nem sabia falar direito….”
    “O médico veio, um médico de algum lugar dali, que não sei bem. Nem vi a cara dele direito. Ele me falou: “Dona Maria Teresa, ele teve um enfarte total: aquele que parte o coração”. Em seguida, ficou uma mancha assim…”
    “ Aí, começaram as pessoas: porque o Jango morreu assim, porque Jango morreu assado. Porque foi enterrado assim; porque estava de pijama… Quem disse que Jango estava de pijama? Ele estava vestido com uma camisa branca, uma calça jeans, que era o que tinha ali, na hora. Arrumamos ele, fizemos o velório ali na casa. Não, mas as pessoas ficam inventando umas coisas que não têm explicação. Aí veio o tal do envenenamento…”
    “Disseram que eu impedi a autópsia.… Eu nem sabia que se fazia autópsia, nunca tinha visto ninguém morrer na minha vida…”
    “Eles disseram que o Jango não podia sair… Se quisesse trazer o Jango para São Borja, tinha de sair de barco pelo Rio Uruguai, mas era um calor de não sei quantos graus. O corpo teria que ser embalsamado. Mas em um buraco daqueles quem é que saberia fazer
    isto? Então, fomos de carro para São Borja, passando por Libres”.
    “Eles mandaram descer o corpo; depois disseram que não podia descer; que não podia isso, que não podia aquilo… Mas o Almino Afonso já estava lá e ligou para o Presidente, ou para sei lá quem, e disse: “Não podemos fazer uma coisa dessas. Estou aqui com a
    família, Dona Maria Teresa está sozinha, os filhos estão na Inglaterra, o corpo está mal-embalsamado e tem de seguir para São Borja para ser enterrado”. Então, eles liberaram. Mas, até liberar, foi uma cena”.
    ”Meus filhos estavam em Londres. Quando chegaram não puderam ver o Jango porque o caixão já estava fechado por causa do calor, não chegaram a ver o Jango”.
    Texto publicado originalmente na Revista JÁ de abril de 2008, atualizado em 04/07/2026
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  • Homenagem reabre a polêmica sobre a morte do ex-presidente João Goulart

    Homenagem reabre a polêmica sobre a morte do ex-presidente João Goulart

    Ainda que já tenha sido amplamente investigada, inclusive com exumação do cadáver, a hipótese de que João Goulart foi vítima de assassinato, estará presente na homenagem que a Câmara Municipal de Porto Alegre presta ao ex-presidente nesta terça-feira, 7 de julho.

    A própria organização do evento informou que o palestrante principal, o jornalista Juremir Machado da Silva abordará “os debates que ainda cercam as circunstâncias da morte do ex-presidente”. A comprovaçao recente de que o ex-presidente Jucelino Kubistcheck – que morreu três meses antes num acidente de carro – foi mesmo alvo de um atentado reforçou as suspeitas em relação a Jango.

    O evento, proposto pelo vereador Pedro Ruas,   começa às 18h30min no plenário Ana Terra. Marca o início de uma série de inciativas para marcar os 50 anos da morte do único Presidente da República a morrer no exílio, em dezembro de 1976.

    Desde a proclamação da República, seis presidentes conheceram o exílio, forçado ou voluntário*. Todos puderam voltar, menos Jango.

    As verdadeiras causas da morte do ex-presidente João Goulart já foram alvo de exaustivas investigações, incluindo uma exumação de seus restos mortais, em 2013.

    O laudo pericial apontou que não foram encontrados vestígios de veneno no corpo. Os peritos ressaltaram, porém, os quase 40 anos passados entre a morte e a exumação, tornavam impossível detectar qualquer substância químicas no cadáver. Permaneceu a dúvida que agora, com a recente confirmação do atentado contra Jucelino Kubistcheck,  reacende.

    *Deodoro da Fonseca (1891), Hermes da Foneca (1922), Washington Luís (1930), Julio Prestes (1932), Café Filho (1955), João Goulart (1964)

  • Copa das Bets: MP investiga publicidade abusiva e omissão do governo

    Copa das Bets: MP investiga publicidade abusiva e omissão do governo

    O Ministério Público Federal (MPF) está investigando se há omissão do governo federal na fiscalização de anúncios de apostas durante a Copa do Mundo de 2026. O inquérito foi motivado por denúncias de “publicidade abusiva” em canais de streaming, foca nos seguintes pontos:

    • Narrativas enganosas: Comentários sugerindo palpites (testemunhal) e garantias de ganho fácil.
    • Promoções agressivas: Ofertas de “segunda chance” e “odds turbinadas”.
    • Falta de avisos: Ausência de alertas sobre riscos financeiros e dependência.

    O Conar suspendeu anúncios testemunhais de marcas como Bet365 e Betnacional, enquanto a Senacon e o Ministério da Fazenda exigiram explicações.

    O mercado estima um investimento superior a R$ 2 bilhões em patrocínios e mídia por parte das casas de apostas.

    O inquérito civil público do Ministério Público Federal (MPF) para investigar a omissão e falta de fiscalização do governo federal sobre a publicidade de plataformas de apostas online (bets) foi instaurado em 3 de julho de 2026.

    O expediente está tramitando na Procuradoria da República no Distrito Federal (PRDF), em Brasília. focando no cumprimento da Lei nº 14.790/2023 para proteger o consumidor.

    A investigação começou após denúncias de publicidades agressivas e direcionadas a públicos vulneráveis (como crianças e adolescentes) durante as transmissões da Copa do Mundo de 2026 pela CazéTV.

    O MPF do DF expediu pedidos de informações para a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o Banco Central, a Senacon (Ministério da Justiça) e o Conar.

  • “Copa das Bets”: a eliminação do Brasil   e seu efeito no mercado de apostas

    “Copa das Bets”: a eliminação do Brasil e seu efeito no mercado de apostas

    A presença maciça das casas de apostas online fez da Copa do Mundo de 2026 a “Copa das bets”, com bilhões injetados em parcerias oficiais, patrocínios, publicidade e investimento nas transmissões

     A própria Fifa fechou parceria com plataformas como a Betano, que foi nomeada apoiadora oficial do torneio para a América do Sul e Europa, garantindo a presença da marca em todas as seleções e entrevistas.

    As plataformas de apostas (como Bet365, Betnacional e KTO)  dominaram as cotas de patrocínio, chegando a injetar até R$ 2 bilhões de reais em canais de TV.

    Em jogos da Seleção, chegaram a ser contabilizados mais de 20 anúncios, com destaque para a CazéTV (10 inserções), SBT (6) e Globo (5). O setor consolidou-se como o maior investidor privado em mídia esportiva no Brasil.

    A influência foi tanta que narradores e comentaristas passaram a incentivar palpites em tempo real, gerando inclusive investigações do Ministério Público Federal sobre os limites da publicidade.

    O assunto extrapolou para o campo da saúde pública e das finanças, pois a facilidade para jogar através de smartphones atua como um gatilho para o vício e o endividamento de famílias.

    A eliminação precoce da Seleção Brasileira nas oitavas de final altera o ecossistema de apostas do Brasil.

    Especialistas e operadoras de mercado apontam que os jogos da Seleção são responsáveis por atrair o chamado “apostador recreativo” (aquele que joga apenas por emoção ou engajamento social).

    Um levantamento da fintech Klavi, publicado pela Folha, apontou que a parcela de brasileiros que enviou dinheiro para as bets triplicou durante a Copa, atingindo 34,8% da população, com depósitos médios subindo para R$ 272 nos dias de jogos decisivos. Sem o Brasil no torneio, esse público recreativo deixa de injetar dinheiro novo nas plataformas.

    Projeta-se que o volume total transacionado em solo brasileiro nas fases de quartas, semifinal e final caia entre 40% e 50% em comparação com o cenário onde o Brasil avançaria até as finais.

    Embora o volume total caia, o interesse não zera. O mercado passa a ser dominado pelos apostadores regulares ou profissionais. O foco sai do “patriotismo” e migra para jogos de grande apelo técnico.

    Os mercados de longo prazo (como “Quem será o campeão?” ou “Quem será o artilheiro?”) sofrem uma forte “recalibragem de odds”, já que o Brasil figurava entre os favoritos antes do início do torneio.

    Grande parte do volume das apostas em tempo real (live betting) ocorre devido aos picos de audiência em plataformas interativas de streaming. Com a eliminação da Seleção, a audiência do público brasileiro tende a diminuir de forma expressiva nos jogos restantes, reduzindo diretamente os palpites de impulso — como apostar em quem fará o próximo gol ou quantos escanteios acontecerão nos minutos finais.

  • Eleições 2026: frente de servidores pode ser decisiva na disputa estadual

    Eleições 2026: frente de servidores pode ser decisiva na disputa estadual

    “Ninguém ganha eleição só com o funcionalismo, mas ninguém ganha eleição contra o funcionalismo”

    A frase, atribuída a Pedro Simon, define o dilema do governo Eduardo Leite que, no início de um ano eleitoral, vê se formar uma frente de servidores com uma pauta de reivindicações que ele não pode atender.

    Leite não é candidato, mas seu vice, Gabriel Souza, é o candidato à sucessão de um governo que o funcionalismo deplora. Qual vai ser o resultado eleitoral disso?                                    

    De acordo com o Relatório de Pessoal do Tesouro do Estado, o quadro de funcionários do serviço público estadual é composto por cerca de 358,7 mil vínculos (considerando que um servidor pode acumular mais de uma vaga, como professores).

    Se contar seus dependentes diretos chega a um milhão de pessoas, num universo de 8,5 milhões de eleitores gaúchos.

    Numericamente seria decisivo em qualquer eleição se não fosse um universo fragmentado.

    A escolha do voto costuma se dividir de acordo com o setor da carreira: servidores da Educação e Saúde alinham-se eitoralmente à partidos de esquerda e centro-esquerda (como PT, PCdoB, PSOL e PDT). Segurança e Judiciário tendem a um alinhamento maior com partidos de direita e centro-direita (como PL, PP, Republicanos e MDB). Pautas ligadas à segurança pública e à preservação de privilégios corporativos aproximam esses servidores de discursos conservadores e liberais na economia.

    O funcionalismo gaúcho raramente se une em torno de uma ideologia política comum, mas demonstra forte unidade e poder de pressão quando pautas salariais ou de direitos trabalhistas entram em jogo.

    Nesses momentos, frentes amplas se alinham e podem decidir uma eleição. Depois da Copa esse movimento tende a ficar mais visível.

  • Servidores acumulam forças para influir na eleição do próximo governador

    Servidores acumulam forças para influir na eleição do próximo governador

    Dois protestos se juntaram nesta terça-feira, 30/06, na Praça da Matriz, em frente à sede do governo gaúcho e da Assembléia Legislativa, sinalizando o que vem pela frente no ano eleitoral.

    Uma marcha organizada pelas centrais sindicais pelo fim da escala 6 x 1 percorreu as ruas do centro, a partir da avenida Mauá  e se juntou à manifestação dos servidores públicos na frente do Palácio Piratini.

    Apesar do frio intenso e da “ressaca” da vitória do Brasil na Copa do Mundo, cerca de 1.500 pessoas participaram do evento, segundo estimativa dos organizadores.

    As centrais sindicais pressionam pela aprovação da redução da jornada de trabalho, em votação no senado.

    Os sindicatos e entidades dos servidores públicos estaduais querem reposição salarial, data base para reajuste anual e fim do desconto previdenciário para aposentados.

    As lideranças dos servidores sabem que o governo Leite não vai atender suas reivindicações, mas acumulam forças para influir na eleição do próximo governo.

    A defasagem salarial alegada pelas entidades do funcionalismo público gaúcho chega 77%, em perdas acumuladas pela inflação no período entre 2014 e 2024, de acordo com estudos do DIEESE.

    Os servidores apontam que, nos últimos dez anos, o governo estadual concedeu apenas uma revisão geral de 6% (em 2022). Diante disso, o restante do poder de compra foi totalmente corroído pelo avanço da inflação medida pelo INPC/IBGE.

    Como o governo do Estado não incluiu a recomposição na peça orçamentária, as mais de 30 entidades integradas ao Movimento pela Valorização dos Servidores Públicos (Movape) cobram índices emergenciais imediatos.

    A pauta geral exige uma reposição imediata de 12,14% a 15,2% para corrigir fatias recentes dessas perdas.

    Algumas frentes específicas alegam defasagens diferentes devido a reestruturações internas. É o caso dos servidores do Judiciário estadual (Sindjus-RS), que protestam por uma recomposição específica de 17,8% para equiparar seus vencimentos à média de outros tribunais do país.

    O principal argumento técnico dos manifestantes é que o reajuste pleiteado não infringe a Lei de Responsabilidade Fiscal, pois visa apenas recompor o valor que o salário já perdeu para o custo de vida real.

  • Graça Craidy participa da Mostra de Artes Visuais do MST em São Paulo

    Graça Craidy participa da Mostra de Artes Visuais do MST em São Paulo

    A artista gaúcha Graça Craidy está presente na Mostra de Artes Visuais promovida pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP).

    A mostra, com curadoria de Daniela Castro, foi aberta na sexta-feira passada, 26/06, e se estende até sábado, dia 4 de julho.

    Graça apresenta a pintura “Terra Adorada”, inspirada em uma foto de Sebastião Salgado. Na imagem, um grande grupo de sem-terra aparece em postura de reivindicação, empunhando instrumentos como foices e enxadas e também com punhos cerrados.

    A obra (acrílica sobre papel, 59 cm x 84 cm) estará exposta junto com trabalhos de artistas visuais que fortalecem a luta, a cultura e a arte. 

    O Coletivo de Cultura do MST convocou artistas do próprio movimento e estendeu o convite a criadores simpatizantes da reforma agrária. “É com imensa alegria que participo” disse a artista visual gaúcha. 

    A intenção da atividade é fortalecer, segundo o MST, o trabalho voltado às artes visuais que já vem sendo realizado a um tempo em territórios e espaços do Movimento, além de aprofundar a compreensão sobre os fundamentos e a concepção de artes visuais na luta de classes.

    O evento faz parte do I Encontro Nacional de Artes Visuais do Movimento e transforma o espaço da escola em uma grande galeria viva.

  • Ato unificado tem mais de 30 sindicatos de servidores civis e militares na pressão ao governo Eduardo Leite

    Ato unificado tem mais de 30 sindicatos de servidores civis e militares na pressão ao governo Eduardo Leite

    Mais de 30 sindicatos e associações de servidores públicos do Estado estão unidos na manifestação  desta terça-feira, 30/06, que marca o inicio de um amplo movimento articulado para pressionar o governo no ano eleitoral.

    O ato unifica servidores ativos, aposentados e pensionistas civis e militares.

    As principais reivindicações do movimento incluem:

    -Extinção imediata do desconto de contribuição previdenciária cobrado sobre os vencimentos de aposentados, pensionistas e militares da reserva.

    -Aprovação, pela Assembléia, da PEC institui o dia 1º de março como data-base fixa para a recomposição salarial anual dos servidores públicos estaduais.

    • Revisão geral dos vencimentos para recuperar o poder de compra corroído pela inflação acumulada.
    • Contra o sucatecimento do IPE e exigem melhorias na assistência médica oferecida pelo instituto.

    A programação divulgada pelas entidades prevê uma concentração inicial às 9h em frente ao prédio do IPE Saúde, na Avenida Borges de Medeiros, seguida de uma caminhada até a Praça da Matriz, para a realização do ato principal em frente ao Palácio Piratini.

    A manifestação conta com o envolvimento de mais de 30 entidades representativas. Como o protesto reúne servidores civis e militares de diversas áreas (educação, saúde, segurança e administração), ele é organizado através do Movape (Movimento pelo Fim do Desconto dos Aposentados, Pensionistas e Militares da Reserva) e do Fórum das Entidades.

    Entre os principais sindicatos e associações envolvidos na mobilização de 30 de junho, destacam-se:

    • Sintergs: Sindicato dos Servidores de Nível Superior do RS.
    • Sindicaixa: Sindicato dos Servidores da Caixa Econômica Estadual (que abrange servidores de autarquias e secretarias).
    • Fessergs: Federação Sindical dos Servidores Públicos no RS.
    • Sindispge: Sindicato dos Servidores da Procuradoria-Geral do Estado do RS.
    • Sindsepers: Sindicato dos Servidores Públicos do RS.
    • Sindjus: Sindicato dos Servidores da Justiça do RS (que cede espaço para as reuniões de articulação do movimento).

    CPERS Sindicato: Sindicato dos Professores e Funcionários de Escola do RS.

    Simers: Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (que também realiza paralisações na Atenção Básica na mesma data).

    Associação dos Delegados de Polícia do RS.

    Associação dos Sargentos, Subtenentes e Tenentes da Brigada Militar e Bombeiros Militares.

    Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar e Bombeiros Militares.

    Associação de Praças da Brigada Militar do RS.

    Federação das Entidades de Oficiais e Praças da BM e Bombeiros.

    Essa forte união entre civis e militares reflete o impacto unificado do desconto previdenciário sobre todas as categorias de aposentados do Estado.

  • Brasil já tem mais de 8 mil variedades no Banco Mundial de Sementes

    Brasil já tem mais de 8 mil variedades no Banco Mundial de Sementes

    Objetivo é garantir a diversidade vegetal e alimentos em situação de catástrofe, mas o local já sentiu os efeitos do aquecimento climático em 2016

    Márcia Turcato

    Paiol do fim do mu ndo ou arca de Noé dos vegetais são alguns dos apelidos do Banco Mundial de Sementes, localizado no arquipélago noruegues de Svalbard, onde o frio ártico garante a preservação das espécies.

    Neste lugar remoto do círculo polar estão armazenadas mais de um milhão de amostras de sementes de cerca de cinco mil espécies de plantas de todo o planeta e que são reservas estratégicas das nações no caso de um colapso global de safras causado por guerra ou alteração no clima.

    O banco de sementes foi inaugurado em 2008, resultado de uma parceria de longo prazo entre o governo norueguês, por intermédio do NordGen, e a organização não governamental Crop Trust.

    Ele foi projetado para preservar as sementes por milhares de anos a uma temperatura constante de -18° C. O objetivo do banco é o de proteger as sementes da extinção e garantir a segurança alimentar da humanidade. 

    O cofre, localizado na ilha de Spitsbergen, no arquipélago de Svalbard, conserva atualmente cerca de 1,38 milhão de amostras de sementes de mais de 5 mil espécies, originárias de 223 países e territórios.

    Brasil enviou sua primeira remessa de sementes para o Banco Mundial em 2012. Em 2025, foi nova remessa com o envio de 1.351 amostras de arroz e 1.350 de feijão.

    Neste junho de 2026, o Brasil fez nova contribuição ao banco, com 24 acessos, incluindo caju (2), fava (7), amendoim (4), mamona (3) e gergelim (8), vão se somar aos 8.125 já depositados pela Embrapa no silo norueguês.

    A Embrapa mantém um banco genético com cerca de 130 mil amostras de sementes, além de microrganismos, sêmen e embriões de animais, que formam o maior banco de recurso genético da América Latina e o quinto maior do mundo. 

    O Banco Mundial de Sementes tem capacidade para 4,5 milhões de amostras de sementes e o clima glacial do Ártico garante que, mesmo se houver falha no suprimento de energia elétrica das câmaras, as amostras sobrevivam. As câmaras são abertas apenas três vezes durante o ano para não impactar as sementes. A baixa temperatura e a umidade garantem a pouca atividade metabólica das sementes, mantendo a sua capacidade de germinação por séculos. 

    O biólogo Marcos Aparecido Gimenes, coordenador técnico do Sistema de Curadorias de Germoplasma da Embrapa, em Brasília, especialista em genética de plantas, explica que o Brasil aderiu à estratégia do Banco Mundial “porque ela funciona como uma espécie de seguro global da biodiversidade agrícola” . Ele salienta que “a ideia é manter cópias de segurança das sementes mais importantes do país em um local extremamente protegido, evitando perdas provocadas por desastres naturais, mudanças climáticas, guerras ou falhas nos bancos genéticos nacionais”. 

    No entanto, há outro entendimento sobre essa iniciativa global. A Via Campesina Internacional entende que as sementes são patrimônio da humanidade, e não de governos ou empresas, e que as nações precisam ter soberania alimentar, explica o engenheiro agrônomo Álvaro Delatorre, integrante da diretoria do MST- Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Ele diz que “o conceito defendido pela Via Campesina é ameaçado pela hegemonia imposta pelo agronegócio”.

    Para o agrônomo Delatorre, “a produção de alimentos é constantemente ameaçada pela crise ambiental e conflitos armados, que provocam aquecimento global e geram enchente, furacão e estiagem prolongada, por exemplo, e tudo isso leva à extinção de espécies da flora e da fauna, além do uso de agrotóxicos agressivos e de problemas sanitários e de saúde humana”. Ou seja, o problema é causado pelas empresas multinacionais do agronegócio, com ou sem o aval dos governos, e o Banco Mundial de Sementes surge como uma estratégia desses mesmos grupos para sobreviver a um colapso global.

    Do ponto de vista da Embrapa, Gimenes conta que “a participação brasileira está alinhada aos compromissos assumidos pelo país em tratados internacionais ligados à conservação da biodiversidade agrícola e que todo material enviado para Svalbard também deve possuir uma duplicata conservada na Colbase da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, que tem condições de conservação equivalente às do banco mundial”.

    Participam da iniciativa em Svalbard governos, instituições de pesquisa e bancos genéticos que optam por armazenar duplicatas de sementes no local. “Muitos países participam, mas a adesão não ocorre automaticamente por fazer parte da ONU (Organização das Nações Unidas)”, explica Gimenes. Na prática, a maior parte dos participantes está vinculada aos acordos internacionais de conservação genética e biodiversidade coordenados pela FAO (órgão da ONU para a agricultura) e outros organismos multilaterais. 

    Sobre a resistência das sementes armazenadas na ilha, frente a alguma catástrofe, Gimenes salienta que “o objetivo do projeto é justamente funcionar como um sistema de segurança para conservação de sementes em cenários extremos”. Ele destaca ainda que “o cofre do Banco Mundial de Sementes é administrado em parceria pelo governo da Noruega, pelo NordGen- Centro Nórdico de Recursos Genéticos- e pelo Crop Trust.Trata-se de uma cooperação internacional e não de uma empresa privada”.

    O agrônomo Delatorre acredita que o Banco Mundial de Sementes, como estratégia global, talvez consiga garantir a reprodução das espécies em caso de catástrofe ambiental, “mas a questão é a quem interessa essas estratégias, quem irá se beneficiar. Se esses protagonistas da estratégia estivessem mesmo interessados em salvar a humanidade do colapso da fome, deveriam se preocupar com as 800 milhões de pessoas que passam fome no planeta”. 

    A Síria foi a primeira vítima da guerra a recorrer ao Banco Mundial. A primeira retirada de sementes do Banco Mundial aconteceu em 2015, quando o banco genético da cidade de Aleppo foi bombardeado durante um conflito civil. Foi então que pesquisadores solicitaram exemplares de trigo, cevada e grama para dar continuidade às suas pesquisas e garantir o futuro alimentar da população. A crise na Síria, no entanto, não está resolvida, frente aos constantes bombardeios do governo Israel sob pretexto de combater terroristas. 

    Arquipélago Svalbard

    As ilhas de Svalbard já foram consideradas como “terra de ninguém” e durante vários séculos eram visitadas somente por pescadores de baleias e caçadores. O arquipélago foi incorporado à Noruega em 1925 pelo Tratado de Svalbard, assinado em Paris. A região ficou sob a soberania norueguesa, mas sujeita a um regime especial de acesso aos seus recursos naturais pela comunidade internacional.

    Svalbard tem um clima muito frio e não possui uma população originária e permanente, mas registra cerca de três mil moradores temporários, principalmente noruegueses e russos. Em algumas ilhas do arquipélago ainda ocorre extração de carvão, principalmente realizada por mineradores russos. 

    Mesmo fazendo parte do círculo polar ártico, em outubro de 2016 o futuro do Banco Mundial de Sementes foi ameaçado pelo aquecimento climático. Temperaturas excepcionalmente altas no Ártico provocaram fortes chuvas e derretimento do gelo de Svalbard, resultando na entrada de água no túnel de acesso à câmara do banco. Apesar do banco e das sementes não terem sido afetadas, o governo da Noruega precisou reforçar as paredes da estrutura, confirmando que o aquecimento global é um fato irreversível e que atinge até mesmo as regiões mais geladas do planeta.