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  • Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Dois anos depois da concessão do Cais Mauá a um consórcio privado, é incerto o futuro do projeto para devolver à população aquela área simbólica de Porto Alegre, abandonada há mais de 30 anos.

    Começa que o contrato que formaliza a concessão ainda não foi assinado.

    Em entrevista ao Jornal do Comércio, no início de fevereiro, o secretário Pedro Capeluppi disse que o prazo final é 11 de março e que o governo ainda aguarda documentos.

    O Consórcio Pulsa RS, vencedor do leilão, declarou em nota que está “cumprindo as etapas previstas no edital e que a entrega da documentação segue os prazos estabelecidos para a assinatura do contrato em março”.

    “As enchentes de 2024 não alteraram a concepção do projeto, mas impactaram o cronograma”, diz o consórcio formado pela Spar Participações e Desenvolvimento Imobiliário e a Credilar Empreendimentos Imobiliários.

    É a segunda concessão do Cais Mauá, na verdade. A primeira, formalizada em dezembro de 2010, terminou em maio de 2018, quando uma operação da Polícia Federal revelou uma enorme fraude financeira que dilapidou R$ 130 milhões captados junto a fundos de previdência. Esta história já foi contada pelo JÁ em edição especial.

    A atual concessão, como a primeira, é por 30 anos. O concessionário se compromete a investir cerca de R$ 350 milhões ( R$ 210 milhões nos primeiros quatro anos) para “revitalizar” uma área de três km de extensão, desde a Usina do Gasômetro até a Estação Rodoviária no entorno do centro histórico.  

    As intervenções incluem a recuperação de 12 armazéns (para lazer e comércio) e reestruturação das Docas (para prédios comerciais e residenciais). Em troca desses investimentos, o Estado entrega para o consórcio o terreno das docas, avaliado em R$ 144 milhões.

    O leilão, que só teve um concorrente, foi realizado no dia 7 de fevereiro de 2024, na bolsa de valores de São Paulo.

    Três meses depois, a maior enchente da história de Porto Alegre, alterou completamente o cenário. O Guaíba subiu quase seis metros e manteve a área do porto submersa por um mês. Quando as águas baixaram, ficou a dúvida: quando vai ocorrer outra vez?

    As condições do edital, que admitiam até a retirada de parte do “Muro da Mauá”, tiveram que ser inteiramente revistas. O projeto foi transferido da Secretaria de Parcerias e Concessões para a Secretaria de Reconstrução que passou a centralizar os projetos estratégicos atingidos pela enchente em todo o Estado.

    Na área das Docas (extremo norte do Cais, próxima à Rodoviária), onde estão previstas 9 torres de até 150 metros, a água alcançou quase dois metros. De acordo com o modelo de negócios do consórcio Pulsa RS, essa área é fundamental para a viabilidade financeira da concessão. As torres teriam uso misto – residencial (apartamentos), corporativo (escritórios)  e comercial (lojas no térreo).

    Especialistas e entidades civis levantam diversos questionamentos sobre o impacto das construções de grande porte (torres de até 150m) na área das Docas e a revitalização como um todo.

    O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) afirma que a construção de torres altas pode criar uma “barreira” entre a cidade e o Guaíba, prejudicando a visibilidade do pôr do sol e alterando a paisagem histórica do Centro.

    Prédios dessa magnitude podem também gerar grandes áreas de sombra na orla e nos espaços públicos adjacentes, afetando o conforto térmico e a vegetação local.

    O aumento da densidade populacional e comercial nas Docas terá também grande impacto no trânsito já saturado da região central e da Avenida Mauá. 

    A substituição de áreas abertas por grandes massas de concreto pode intensificar o efeito de ilha de calor na região central.

    Os especialistas questionam se o adensamento imobiliário em uma zona de inundação é prudente e se as soluções de contenção propostas são suficientes para os novos cenários climáticos.

    Grupos de urbanistas e movimentos sociais continuam solicitando maior transparência e a realização de novos debates públicos, alegando que o cenário hidrológico de Porto Alegre mudou drasticamente e exige um novo Estudo de Viabilidade. 

    Até o novo Plano Diretor, que está em discussão na Câmara Municipal, prevê mudanças que afetam a área do Cais. Isso poderá levar a novas exigências técnicas para o concessionário.

    O Ministério Público  tem questionado a segurança do sistema de proteção contra cheias e a legalidade da transferência definitiva de terras públicas para o consórcio.

    Referência em hidrologia, professores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal,  têm alertado que as cotas de inundação previstas no projeto original do Cais (pré-2024) podem estar subestimadas diante do novo cenário climático.

    Ações jurídicas lideradas por coletivos como o Cais Mauá de Todos pedem a anulação do leilão. O argumento central é que o cenário de risco hidrológico mudou completamente após maio de 2024, invalidando os estudos de viabilidade originais.

    *Clique aqui para ler mais sobre a concessão do Cais na coluna Economics

    Imagem da apresentação do projeto no Palácio Piratini: nove torres no Cais Mauá
  • Afastamento de Dias Toffoli do caso Master sela a mais grave crise do judiciário desde o Império

    Afastamento de Dias Toffoli do caso Master sela a mais grave crise do judiciário desde o Império

    A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, que se deu após a Polícia Federal encontrar no celular de Daniel Vorcaro, dono do Master, menções ao ministro da Suprema Corte, culmina em uma crise sem precedentes na história do judiciário brasileiro.

    Há juristas e historiadores que consideram a mais grave desde o Império. Além dos fatos que chocam a opinião pública e, independente dos interesses que promovem vazamentos seletivos em inquéritos sigilosos, há uma conjuntura política que turbina a gravidade do quadro.

    Em tempos recentes, desde o caso do “Juiz Lalau” nos anos 90, o judiciário não se via numa posição tão crítica. Uma pesquisa simples nos sites de busca aponta pelo menos 100 agentes do judiciário que estão ou condenados ou sob suspeita de ilícito – desde venda de sentenças, manipulação de processos, até assédio sexual, e o problema atinge desde ministros do STF a juízes de primeira instância.

    A atuação de Toffoli no caso do Master ficou comprometida com as menções ao seu nome em perícias de celulares e transações financeiras relacionadas a um resort no Paraná. Há indicações de milionários pagamentos para a empresa Maridt, que Toffoli assumiu ser sócio, junto com familiares.

    No Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Marco Aurélio Gastaldi Buzzi foi afastado de suas funções em 10 de fevereiro de 2026. Ele é investigado por denúncias de assédio sexual. O afastamento, sem prejuízo do salário, foi decidido pelo próprio STJ enquanto as investigações prosseguem.

    O desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), recebeu a pena máxima administrativa: aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) neste fevereiro de 2026. Ele foi punido por conceder um habeas corpus, em apenas 40 minutos e sem laudo médico, ao narcotraficante Gerson Palermo (condenado a 126 anos), que fugiu logo em seguida.

    Atualmente, o Judiciário brasileiro enfrenta uma série de investigações sobre venda de sentenças e corrupção. A PF, na operação Sisamnes, investiga esquema de manipulação e venda de decisões judiciais no STJ. Funcionários e assessores de gabinetes dos ministros teriam antecipado decisões mediante propina.

    Ainda em 2024, outras investigações apontaram a participação de pelo menos 16 desembargadores e sete juízes em esquemas de venda de sentenças em seis estados diferentes.

    A “Operação Faroeste” no Tribunal de Justiça da Bahia continua sendo um dos maiores casos de corrupção no Judiciário, com diversos desembargadores afastados por envolvimento em grilagem de terras e propinas.

    A classificação da atual crise como “sem precedentes” é sustentada por diversas vozes do direito e da academia, que apontam não apenas a corrupção isolada, mas uma “erosão ética estrutural nas cúpulas do Poder Judiciário”.

    Marco Antônio Villa, historiador, frequentemente classifica o momento atual como crítico devido à impunidade de magistrados envolvidos em venda de sentenças e sinaliza uma falência ética sem paralelos na história recente.

    Lênio Streck, jurista e professor, fala em “perda do pudor institucional”.

    Em dezembro de 2025, um manifesto reuniu mais de 15 mil assinaturas de acadêmicos e figuras públicas exigindo regras imediatas de conduta para o STF.

    Para esses especialistas, o que torna a crise atual (2024-2026) única é a combinação de três fatores:
    – Abertura de investigações da PF contra gabinetes de tribunais superiores;
    – Frequência de “contratos de êxito” multimilionários envolvendo esposas e filhos de magistrados;
    – Resistência interna do Judiciário em aceitar qualquer forma de controle externo ou código de conduta rigoroso.

    Casos relevantes entre 2024 e 2026:

    Além do caso Master no STF, que envolve as suspeitas contra o ministro Dias Toffoli e também o ministro Alexandre de Moraes, já que sua esposa teria um contrato de dezenas de milhões junto ao Master, há muitos investigações em andamento. Em outubro de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Ultima Ratio, que resultou no afastamento de cinco desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.

    Em novembro de 2024, o CNJ aposentou compulsoriamente a desembargadora Lígia Maria Ramos Cunha Lima, investigada em esquema de venda de decisões relacionadas a disputas de terras na região oeste da Bahia. No mesmo processo, em fevereiro de 2026, o STJ prorrogou por mais um ano o afastamento da desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago e da juíza Marivalda Almeida Moutinho.

    O desembargador Ivo de Almeida foi afastado do TJ-SP em junho de 2024 por suspeita de negociar decisões judiciais. Mesmo afastado, o magistrado recebeu cerca de R$ 2 milhões em salários e benefícios nos últimos 12 meses, evidenciando as limitações das punições administrativas atuais.

    A PF conduz a Operação Sisamnes, que investiga uma rede de venda de sentenças envolvendo assessores de gabinetes de ministros e lobistas dentro do STJ.

    Em fevereiro de 2025, a PF indiciou três desembargadores e dois juízes por um esquema de fraude de R$ 18 milhões envolvendo alvarás judiciais.

    Em fevereiro de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aplicou a pena de aposentadoria compulsória ao desembargador Divoncir Schreiner Maran por soltar um chefe do tráfico do PCC.

    “Juiz Lalau” foi símbolo de escândalo nos anos 90

    Nicolau dos Santos Neto, o juiz Lalau, protagonizou o maior escândalo de corrupção do Judiciário brasileiro nos anos 90, tornando-se o símbolo da impunidade que motivou a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

    Como presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-SP), Nicolau liderou o desvio de verbas destinadas à construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. O valor desviado foi de aproximadamente R$ 1 bilhão.

    Após ter a prisão decretada em 2000, ele fugiu e ficou escondido por sete meses, sendo capturado na fronteira com o Paraguai.

    “Juiz Lalau” foi um dos poucos magistrados que chegou a ser preso por corrupção.

    Lalau foi condenado a 26 anos de prisão por crimes como peculato, estelionato e corrupção passiva. Mas, devido à idade e saúde, passou grande parte da pena em prisão domiciliar em seu apartamento de luxo, o que gerou revolta popular.

    Em 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu indulto humanitário a Nicolau devido ao seu estado de saúde (demência e depressão). Ele morreu em maio de 2020, aos 91 anos, em um hospital em São Paulo.

    A Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu repatriar cerca de US$ 7 milhões que estavam escondidos na Suíça e leiloar imóveis de luxo vinculados a Lalau.

    Diferente dos casos atuais (como o do Banco Master), onde a tecnologia bancária facilita o rastreio, o caso Lalau dependia de malas de dinheiro e remessas físicas para o exterior via doleiros. A punição dele, embora demorada, foi uma das raras vezes em que um magistrado de alto escalão cumpriu pena de prisão efetiva no Brasil.

    Desde a sua criação em 2005 até o início de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu cerca de 175 magistrados (entre juízes e desembargadores).

    A aposentadoria compulsória é a punição mais comum para infrações graves, como venda de sentenças ou corrupção, representando aproximadamente 60% de todas as sanções aplicadas pelo conselho. Entre 80 e 100 magistrados estão atualmente nessa condição de “aposentadoria-punição”.

    A demissão (perda total do cargo e salário) é extremamente rara, ocorrendo em apenas 7 casos entre 2006 e 2025, o que representa apenas 1% das punições.

    A aposentadoria compulsória é a sanção administrativa máxima prevista na Lei Orgânica da Magistratura. Embora o juiz seja afastado definitivamente do cargo, ele mantém o direito a proventos proporcionais ao tempo de serviço.

    Em 2025, estimou-se que o pagamento desses magistrados punidos custou cerca de R$ 41 milhões aos cofres públicos.

    Alguns magistrados nessa situação chegam a receber valores brutos que ultrapassam R$ 100 mil em determinados meses devido a benefícios acumulados.

    A perda definitiva do salário (demissão) só ocorre após o trânsito em julgado de uma ação judicial específica na esfera criminal, processo que costuma levar muitos anos.

    O cenário atual de escândalos no Judiciário — como o caso do Banco Master envolvendo Dias Toffoli e as investigações de venda de sentenças — é o principal combustível para o projeto do ministro Edson Fachin, atual presidente do STF, de implementar um Código de Ética para a Corte em 2026.

    O presidente do STF, Edson Fachin, promete implantar um Código de Ética, na tentativa de melhorar a imagem do STF. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Fachin estabeleceu a criação desse código como prioridade de sua gestão (iniciada em setembro de 2025) para tentar frear a “erosão institucional” e recuperar a confiança pública.

    A ministra Cármen Lúcia é a relatora da proposta, sendo uma das poucas vozes a apoiar abertamente a iniciativa internamente.

    O código visa criar regras claras sobre conflitos de interesse, transparência em remunerações por palestras e limites para a atuação de parentes de ministros em processos na Corte (que hoje representam cerca de 70% dos casos em certos gabinetes).

    A maioria dos ministros se opõe à ideia, argumentando que a conduta ética deve ser individual ou que um código específico poderia expor ainda mais o tribunal a críticas.

    A pressão por um código de ética ocorre em paralelo ao debate sobre o fim dos privilégios para magistrados infratores. Existe uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) no Congresso que visa extinguir a “aposentadoria-punição”, transformando-a em demissão sem salário para juízes que cometem crimes graves.

    Fachin também defende, via CNJ, um levantamento para barrar pagamentos abusivos e verbas indenizatórias que inflam os salários de magistrados, mesmo aqueles sob investigação.

    Enquanto o Código de Ética busca prevenir novos casos (como Toffoli e Buzzi), a PEC foca em punir de forma mais rigorosa casos como o do desembargador que soltou o chefe do PCC.

    Nos últimos dez anos, nenhum dos 473 pedidos de suspeição feitos por terceiros contra ministros foi aceito pelo colegiado; os afastamentos só ocorrem quando o próprio ministro se autodeclara suspeito.

    Diante desse cenário, o projeto do ministro Edson Fachin para um novo Código de Ética (2026) busca estabelecer limites mais claros para a atuação de familiares e evitar que escritórios de parentes sejam usados como instrumentos de pressão institucional.

    Se no passado a resposta às crises foi a criação do CNJ, o diagnóstico atual é que o CNJ se tornou insuficiente, pois a punição de “aposentadoria compulsória” passou a ser vista pela sociedade como um prêmio, e não um castigo.

    Por isso, o projeto de Edson Fachin (Código de Ética) e as PECs de demissão de juízes no Congresso são vistos como a tentativa de uma “Segunda Reforma do Judiciário”.

  • Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    GERALDO HASSE

    Lançado em fins de 2025, o livro “6 Décadas de Teatro”, contendo uma dezena de artigos acadêmicos sobre a obra de Valter Sobreiro Júnior, oferece uma nova e ampla dimensão da carreira desse professor, cenógrafo, escritor e diretor teatral que fez toda vida profissional em Pelotas, de onde só saiu esporadicamente para encenar suas peças em outras cidades.

    Editado pela Life Editora, de São Paulo, o livro de 198 páginas foi organizado por João Luiz Pereira Ourique, professor de teatro da UFPel que coordenou o trabalho de 15 acadêmicos de universidades públicas de Pelotas, Rio Grande, Santa Maria e Campo Grande.

    É um estudo profundo sobre a dramaturgia de Sobreiro, que escreveu nove peças, adaptou dezenas de outras e participou de cerca de 70 espetáculos teatrais ao longo de seus 60 anos de militância no teatro.

    Nascido no dia do Natal de 1941 em Rio Grande, Sobreiro lembra da primeira vez em que foi a um espetáculo teatral na sua cidade natal: tinha menos de cinco anos quando assistiu “I Piccoli de Podrecca”, levado por uma trupe italiana de marionetes. Sua infância foi movimentada, em decorrência da atividade itinerante do pai funcionário público federal (fiscal da Previdência). Órfão de mãe aos três anos, foi criado por uma tia que se tornaria sua madrasta.

    Dos cinco aos sete anos morou em Santana do Livramento, onde assistiu a teatro, cinema, dança e rinhas de galos. Também transitou por hotéis de Uruguaiana, Alegrete, São Francisco de Assis e Quaraí. De 1950 a 1951 viveu em Passo Fundo, de onde certa vez foi levado a Erechim para cantar num programa de rádio de um certo Maurício Sirotsky Sobrinho, o mesmo que anos depois lançaria Elis Regina no Clube do Guri em Porto Alegre. Passou o ano de 1952 em Porto Alegre. Em 1953 a família se fixou em Pelotas, de onde nunca mais quis sair.

    Matriculado no tradicional Colégio Pelotense, terminou o ginásio em 1956 e, ao invés de continuar os estudos, passou a frequentar a Rádio Cultura, onde não faltavam opções para quem não tivesse medo do microfone. Após se apresentar como cantor em programas de auditório, foi convidado a produzir um programa sobre cinema, tema de artigos que publicava no Diário Popular, como sócio militante do clube de cinema local fundado em 1950 – na cidade havia então pelo menos seis boas salas com uma oferta variada de filmes. Apoiado pelo diretor Elias Bainy, trabalhou na discoteca, no departamento de notícias e como diretor de elenco de rádio-teatro até 1960, quando as novelas passaram a chegar gravadas de São Paulo, obrigando os rádio-atores a buscar novas atividades.

    Ele seguiu na rádio, mas retomou os estudos e a partir de 1962 passou a trabalhar em banco. Findo o colegial, começou o curso de Direito, que lhe permitiria trabalhar como advogado trabalhista.

    No meio da vida de bancário e estudante, sobreviveu a opção pelo teatro, incentivada por professores como Aldyr Garcia Schlee, Angenor Gomes e Luiz Carlos Correa da Silva, fundadores da Sociedade de Teatro Escola de Pelotas (STEP, 1962) e do Teatro dos Gatos Pelados (TGP), criado em 1963 por alunos e mestres do Pelotense (“gato pelado” é o apelido dos estudantes dessa centenária escola pública municipal). Esses dois grupos teatrais deram ressonância nacional às atividades cênicas em Pelotas, onde desde a segunda metade do século XIX se formou um público apreciador das artes exibidas nos teatros Sete de Abril, Guarany e nos auditórios de escolas e clubes sociais.

    No início de sua atividade como animador do teatro, Sobreiro fez a cenografia de peças infantis, mas, já em 1962, escreveu seu primeiro texto teatral, “O Infeliz Jovem Rei”, apresentado pela primeira vez no ano seguinte. Em 1966, se tornou oficialmente professor do Pelotense.

    Abaixo, AS NOVE PEÇAS analisadas e/ou comentadas no livro “6 Décadas de Teatro”:

    1. O INFELIZ JOVEM REI (1962/63), drama inspirado em “Hamlet”, do dramaturgo inglês William Shakespeare.
    2. BIRA & CONCEIÇÃO, escrita em 1966, é uma ópera popular cantada cuja primeira encenação, dirigida por Angenor Gomes e auxiliado por José Luiz Marasco, do TGP, desencadeou o convite para concorrer ao Festival Nacional de Teatro de Estudantes em 1968 no Rio. Uma das exigências do festival, como “contrapartida social”, era encenação de uma peça infantil em uma comunidade periférica da capital carioca. Ocupado na produção da peça maior, Sobreiro pediu ao professor Aldyr Schlee que o cobrisse na emergência. Inspirado no clássico “Chapeuzinho Vermelho”, o amigo criou uma versão moderna levada numa favela – os originais se perderam na voragem do AI-5, que escancarou a ditadura em 13 de dezembro de 1968. “Bira & Conceição” ganhou o prêmio de melhor música, superando 32 concorrentes – as canções foram compostas pelo próprio dramaturgo, que não estudou música formalmente, mas tinha o que, no popular, se chama de “bom ouvido”. Segundo o doutor em música e professor Leandro Maia, que analisou Bira & Conceição, “Valter Sobreiro tem consciência melódica e noção harmônica”. Em consequência dessa pioneira excursão ao Rio, a equipe pelotense ficaria desfalcada do cenógrafo Fernando Mello da Costa, que se mudou para o Rio algum tempo depois de abrir espaço profissional em Porto Alegre. Décadas depois, sempre no Rio, o próprio Mello da Costa cobrou o resgate da peça, principalmente da trilha musical, da qual não havia gravação nem partitura. Mesmo achando que a peça estava superada pela evolução dos temas do teatro moderno, Sobreiro o atendeu em 2012, com a ajuda do músico Leonardo Oxley Rodrigues, mas a peça não chegou a ser remontada porque o cenógrafo faleceu em 2019. As partituras transcritas pelo acadêmico Alinson Alaniz estão salvas no livro “6 Décadas”. A ópera tem apenas quatro personagens (uma mulher, dois homens e a mãe deles) e um coro de oito vozes presente o tempo todo em cena e amparado por um  grupo de músicos.
    3. EM NOME DE FRANCISCO, sobre o poeta pelotense Francisco Lobo da Costa (1853-1888). Publicada pela Editora Tchê em 1987, teve 36 apresentações no RS, PR, PB e no Uruguai, sendo premiada em Novo Hamburgo e Ponta Grossa. Um grupo de Pelotas montou-a posteriormente e, usando trechos da peça, fez um vídeo que acabou ganhando um prêmio.
    4. MARAGATO – Publicada em 1995 pela editora da UFPel. Drama falado e cantado em torno da Revolução Federalista de 1893, quando se defrontaram maragatos e ximangos, uma rivalidade histórica que até hoje ecoa no RS. Ganhou 30 prêmios entre 1988 e 1991. Foi apresentado em 31 cidades gaúchas, em oito outras fora do Rio Grande e no Uruguai, incluindo o Teatro Solis de Montevidéu. Estima-se que tenha sido assistida por 45 mil pessoas. O autor recusou propostas de montagem por um grupo de Porto Alegre.
    5. DON LEANDRO ou OS SENDEIROS DE SANGUE – Peça de 1999 inspirada no “Rei Lear” de Shakespeare. Trata do poder na velhice, envolvendo disputas entre homens e mulheres.
    6. DE PRODÍGIOS E MARAVILHAS, de 2006, peça sobre sonhos, fantasias, desejos, conflitos e os sofrimentos resultantes de enganos e frustrações.
    7. ENTREMEZ DA RAINHA MARIA , A LOUCA, E SEU CRIADO BELISÁRIO, 2011, sobre a hipocrisia entre as classes sociais, a escravidão, o exílio, e a saudade da terra natal.
    8. PAI-DE-DEUS, de 2012, trata das relações entre algoz e vítima (torturador e torturado) durante uma ditadura militar. Desde o início, a peça tem momentos que lembram o tradicional ‘pas de deux’ do balé, que simula um diálogo em forma de dança, mas na realidade do palco se trata de um confronto, uma tentativa de ajuste de contas. Estreou em Pelotas em 2012, foi apresentada em Porto Alegre em 2016 e voltou a ser encenada em Pelotas em 2020. De 2023 a 2024, cedida ao Grupo Tholl, formado por ex-alunos de Sobreiro, a peça foi levada a Porto Alegre, São Paulo e Rio, sob a direção de João Schmidt, também ator nesse que é o drama politicamente mais denso e atual de Sobreiro. No artigo em que analisa no livro “6 Décadas” o contexto político da peça, a atriz e professora de dramaturgia Fernanda Vieira Fernandes observa: “A ausência de julgamento e condenação dos crimes de tortura e morte de cidadãos brasileiros favorece a perda da memória e, pior, mantém à espreita o autoritarismo com ares de solução milagrosa”.
    9. RESSOLANA (2014), ambientada numa área de fronteira luso-castelhana no século XIX, trata de um triângulo formado por um pai, seu filho e uma prostituta que se quer livre. O desfecho é trágico: para se vingar do pai, que não cumpre a promessa de libertá-la, a mulher envenena o jovem. Ciúme, posse e vingança tecem o enredo fronteiriço que ecoa as tragédias gregas. Única peça de Sobreiro inédita em palcos.

    ÍNTEGRA DAS PEÇAS EM LIVRO

    Em reconhecimento à importância do trabalho do dramaturgo Valter Sobreiro Junior, a UFPel planeja publicar a íntegra de sua obra teatral, constituída pelas nove peças analisadas e comentadas no livro “6 Décadas”, em cuja introdução a professora Lilian Becker de Oliveira, mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural, escreveu: “A importância das obras de Valter Sobreiro Júnior para a cidade de Pelotas transcende o âmbito teatral, configurando-se como um patrimônio imaterial de valor inestimável para a memória cultural da região. (…) Sobreiro Júnior é considerado um formador de gerações de artistas e sua influência no teatro pelotense ressalta uma metodologia que introduziu conceitos como a ‘unidade plástica do espetáculo’, integrando cenografia, iluminação, figurino e trilha sonora em uma proposta integradora, como destacou Joice Ester Ayres de Lima em trabalho de 2011 na UFPel.

    Para criar o que denomina “cenografia de planos estruturados”, Sobreiro trocou experiências com diretores, atores e teóricos, além de professores e jornalistas especializados – muita gente ao longo do tempo, cabendo porém uma lembrança especial a Gianni Ratto (1916-2005), diretor que coordenou a montagem da caixa cênica e do aparato de som e luz do Theatro Sete de Abril na reforma dos anos 1980, quando os dois tiveram uma fértil convivência.

    Se for publicado, o livro da UFPel sobre as peças de Sobreiro pode ser sua consagração final, já ensaiada em homenagens prestadas em anos recentes nas três maiores cidades costeiras da Lagoa dos Patos:  em 2021, o ano em que completou 60 anos de teatro, Sobreiro recebeu do governo estadual a Medalha Simões Lopes Neto, por mérito cultural; no mesmo ano, seu nome foi fixado em placa de bronze no saguão do Teatro 7 de Abril, fundado em 1831 no coração de Pelotas; em 2022, a prefeitura de Rio Grande também inaugurou uma placa comemorativa no teatro municipal, fundado em 1929.

    DOIS ROMANCES

    Embora tenha se dedicado prioritariamente ao teatro, encontrou tempo para escrever dois romances: “Petrona Carrasco”, premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul em 1989, foi publicado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) em parceria com a Editora Tchê; e “O Demônio a ser Pago no Estúdio dos Fundos”, publicado pela Editora Lerigou, lançado em 2024 em Pelotas e em 2025 em Porto Alegre. No depoimento ao signatário deste perfil, Sobreiro disse que pretende ainda escrever sobre sua vida: “Tem tantas peripécias que pode dar uma novela”.

    CENA FINAL

    Comentando sua adesão incondicional ao teatro em Pelotas, Valter Sobreiro diz que cedo percebeu a necessidade de circular com os espetáculos, para justificar o investimento feito e divulgá-los, mas esbarrou nas limitações do tempo, pois tinha compromissos familiares (três filhos) e profissionais (trabalhar como professor e advogado) na cidade. Por isso recusou convites para levar suas peças a outros países. “Mas plantei a ideia de produzir em Pelotas”, conclui, lembrando que nunca lhe faltaram patrocinadores porque “muitos empresários e políticos eram frequentadores de espetáculos de música e artes cênicas”.

    Embora tenha alcançado notoriedade nacional e levado suas peças até ao Uruguai, o dramaturgo ficou toda a vida em Pelotas, sustentando-se como advogado trabalhista e dando aulas de teatro, sem se fazer notar senão pela dedicação ao meio onde as vaidades pessoais trombam nos camarins, nos palcos e até no saguão dos teatros. Por ironia da história, nenhum dos seus descendentes (três filhos, sete netos e dois bisnetos) mora em Pelotas.

     

  • Dinheiro pela janela: investigação sobre fraudes do Banco Master chega a Balneário Camboriú

    Dinheiro pela janela: investigação sobre fraudes do Banco Master chega a Balneário Camboriú

    Chegou a Balneário Camboriú a terceira fase da Operação Barco de Papel, que investiga crimes contra o sistema financeiro relacionados ao banco Master.

    Segundo a PF, ao chegarem para cumprir mandado de busca e apreensão em um imóvel em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, um dos ocupantes do apartamento, no 30° andar do prédio, arremessou pela janela uma mala cheia de dinheiro em espécie.

    O homem foi identificado como Igor Paganini, empresário catarinense  que atua no setor imobiliário, sócio da Igor Paganini Empreendimentos, empresa sediada em Balneário Camboriú.

    Paganini não era o alvo da terceira fase da Operação Barco de Papel, deflagrada pela Polícia Federal. No entanto, ao jogar o dinheiro pela janela durante a chegada dos agentes, ele passou a ser investigado por suspeita de ligação com o esquema.

    A mala de dinheiro arremessada do 30º andar acabou se abrindo com o impacto, mas o montante de R$ 429 mil foi totalmente recuperado pela polícia. Além do dinheiro, foram apreendidos dois veículos de luxo e dois smartphones.

    A investigação apura crimes contra o sistema financeiro e fraudes relacionadas à gestão de recursos de 100 fundos de previdência, que fizeram aplicações suspeitas no Banco Master.

    A busca em Camboriú está relacionada à prisão do presidente da Rio Previdência, Deivis Marcon Antunes, no dia 3 de fevereiro de 2026.

    Ele é o primeiro gestor envolvido em aplicações fraudulentas a ser preso. Ele havia renunciado ao cargo duas semanas antes após uma operação da PF que apura  desvio de dinheiro e corrupção no fundo dos servidores do estado do Rio de Janeiro.

    As investigações apuraram que, na gestão de Deivis, o fundo de previdência do Rio investiu quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do Banco Master, papéis de alto risco que não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito.

    O fundo da RioPrevidência é formado pelas contribuições de 235 mil servidores públicos do Estado do Rio.

    Em outubro de 2025, o Tribunal de Contas já havia proibido a Rioprevidência de investir em títulos administrados pelo Master, alertando para “possível gestão irresponsável de recursos”.

    Deivis foi preso durante a segunda fase da Operação Barco de Papel, deflagrada pela PF, que cumpriu 3 mandados de prisão temporária e 9 de busca e apreensão no RJ e em SC.

    “A investigação, iniciada em novembro, visa apurar um conjunto de 9 operações financeiras, realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, que resultaram na aplicação de aproximadamente R$ 970 milhões de recursos pertencentes à autarquia em Letras Financeiras emitidas por banco privado”, segundo a PF.

     

     

     

     

  • Exposição de livros abre calendário sobre 400 anos das Missões

    Exposição de livros abre calendário sobre 400 anos das Missões

    Mais de 50 obras sobre história, cultura e imaginário dos Sete Povos das Missões estão expostas ao público até o final de março na sede do Instituto Estadual do Livro (Rua André Puente, 318 – Bairro Independência, Porto Alegre).

    É o primeiro de uma série de eventos programados para marcar os 400 anos das reduções organizadas pelos padres jesuítas e que chegaram a reunir 30 mil guaranis, numa experiência única de catequeses dos povos originários da América.

    Também estão expostos excertos de frases selecionadas das obras e fotografias da série “O Renascer das Missões – 400 anos”, do fotógrafo Clio Luconi.

    O publico encontrará obras que transitam entre história, romance, poesia, literatura infantil, HQs, ensaios e artigos, compondo um panorama amplo da produção literária sobre as Missões Jesuíticas Guaranis. Entre as publicações estão títulos considerados fundamentais para a compreensão da temática missioneira, como o clássico “Lendas do Sul”, de Simões Lopes Neto e “Sepé Tiaraju, história das ruínas de São Miguel”, de Alcy Cheuiche.

    “Essa mostra é resultado de um trabalho minucioso de pesquisa, montagem e composição dos excertos das obras em exposição. As imagens complementam o nosso olhar sobre as Missões”, explicou o Diretor do IEL, Sílvio Bento.

    Para marcar o quadricentenário, o governo do Rio Grande do Sul promove uma ampla programação, que inclui festivais de música, mostras de cinema, concursos fotográficos, debates e atividades educativas, muitas delas realizadas nas próprias ruínas missioneiras.

    O site oficial reúne informações, memórias e iniciativas que integram as comemorações, reforçando o papel das Missões como patrimônio histórico e cultural de relevância mundial.

     

    Serviço

    “Missões Jesuíticas Guaranis – Acervo Literário IEL”

    -De 11 de fevereiro a 31 de março

    -Rua André Puente, 318 – Bairro Independência, Porto Alegre.

    -Horário: 8h30 às 17h30

    -Entrada gratuita

  • Caminhos da Ditadura em Porto Alegre cruza a fronteira e vai à Argentina

    Caminhos da Ditadura em Porto Alegre cruza a fronteira e vai à Argentina

    Márcia Turcato

    A iniciativa Caminhos da Ditadura em Porto Alegre completa 10 anos. O projeto começou a ser construído em 2016 por estudantes do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em janeiro de 2026, o Caminhos cruzou a fronteira e foi até Buenos Aires, capital da Argentina, dando mais contexto aos relatos de extermínio que uniu ditaduras do Cone Sul sob as asas da Operação Condor, coordenada pelos Estados Unidos, com o objetivo de eliminar adversários políticos transfronteiriços.

    A professora de História Anita Natividade Carneiro, 30 anos, que criou o Caminhos em 2016, está à frente do projeto que levou um grupo de 28 pessoas à Argentina, em parceria com a arquiteta Cecília Giovenardi Esteve, 38 anos, que também é guia de turismo e integra o grupo de mediadoras do Caminhos. Juntas elas construíram um intenso roteiro de visitas a centros de memória e encontros com sobreviventes de campos de extermínio, ativistas, pessoas que foram sequestradas quando crianças e outras que nasceram no cárcere.

    O grupo conheceu testemunhos potentes que expõem os bárbaros métodos de tortura e extermínio praticados na Argentina durante a ditadura mais cruel vivida pelo país, de 24 de março de 1976 a 10 de dezembro de 1983. Foram 2.818 dias de crimes hediondos cometidos pelo Estado, que implantou mais de 800 centros de tortura e extermínio, sequestrou e desapareceu com 30.000 pessoas e se apropriou de 500 bebês nascidos na prisão ou que foram sequestrados. Até o momento, apenas 140 pessoas, nascidas no cárcere, recuperam sua verdadeira identidade.

    Clube Atlético e Universidade das Madres

    O minucioso roteiro da viagem iniciou com uma visita ao local onde funcionou o Clube Atlético, que serviu como Centro Clandestino de Detenção, Tortura e Extermínio, de 1976 a 1983. Cerca de 1.500 pessoas foram presas no local, “que era um verdadeiro campo de concentração”, afirmou o sobrevivente Daniel Mercogliano, 75 anos, sequestrado em casa no dia 19 de abril de 1977. Ao dar seu testemunho, Daniel estava acompanhado de Sílvia Fontana, irmã de Liliana Fontana, sequestrada e desaparecida desde o dia 01 de julho de 1977.

    De acordo com o testemunho de Daniel, “os centros de tortura faziam parte de um plano de extermínio do governo militar, era terrorismo de Estado”. Daniel disse também que “a classe dominadora seguiu acumulando dinheiro e poder enquanto a classe operária era presa, torturada e assassinada. No centro de extermínio, a comida era suficiente apenas para que continuássemos vivos e a tortura prosseguisse”. Pessoas de vários países também foram sequestradas e presas nesse centro. Cerca de 500 foram identificadas.

    O prédio do Clube Atlético foi demolido em 1988 para a construção de um viaduto. Graças a intervenção popular e ao trabalho de arqueólogos, estão sendo realizadas escavações no local e parte da história pode ser recuperada. Em 2022, a equipe de arqueólogos localizou vários documentos e objetos durante as escavações. Uma meia vermelha e uma camiseta foram identificadas por Sílvia Fontana, como peças de roupas que sua irmã vestia quando foi sequestrada. Liliana não foi localizada até o momento, seu nome permanece na lista de pessoas desaparecidas. Hoje teria 69 anos.

    Liliana Fontana, a Lili, era militante sindical, estudante de cabeleireira e estava grávida de dois meses. Foi sequestrada da casa dos pais junto com o companheiro, Pedro Sandoval. Testemunhas disseram que os viram na prisão do Clube Atlético. Seu filho, Alejandro Pedro Sandoval, é o neto número 84, resgatado pelas Avós da Praça de Maio em 2006, ano em que recuperou sua identidade. Alejandro havia sido apropriado pelo policial Víctor Enrique Rei, atualmente preso. O primeiro neto a ser identificado foi em 1978. Até o momento, 140 recuperaram a identidade. Estima-se que 300 crianças nasceram no cárcere.

    Caminhos da Ditadura em Porto Alegre também conheceu a Universidade Popular de Las Madres, um projeto consolidado em abril de 2000. A universidade, que agora não recebe auxílio financeiro do governo Milei, fica ao lado da Casa das Madres, fundada por Hebe de Bonafini, já falecida, que teve dois dos seus três filhos sequestrados e desaparecidos. Com apoio de professores universitários e de intelectuais argentinos e estrangeiros, a universidade popular promove cursos de direitos humanos, festivais e cursos de profissionalização.

    O pessoal da universidade, a associação das mães e a das avós, além de populares, participam às quintas-feiras, sempre às 15h30, da marcha da Praça de Maio, em que reivindicam o paradeiro das pessoas sequestradas e agregam demandas sociais à agenda. O grupo de Porto Alegre se juntou à marcha de nº 2.494, realizada dia 29 de janeiro.

    Para que o grupo do Caminhos pudesse ter encontros com ativistas de direitos humanos, Cecília, organizadora do roteiro, fez contatos com várias organizações utilizando os canais dos sites das entidades. “Nos contatos por e-mail eu escrevi sobre a história do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre e solicitei agenda. As respostas foram muito positivas, as organizações chamaram sobreviventes da ditadura e netos resgatados para conversar conosco, porque a intenção, além da visita, é compor uma rede de ativistas, essa é uma forma muito interessante de fazer capacitação e ampliar nossa consciência política”, explica Cecília.

    Memória e testemunho

    O prédio de três andares onde funcionou o centro clandestino de detenção da rua Virrey Cevallos, 630, foi declarado de utilidade pública em 2004. O local foi transformado em Centro de Memória e Promoção dos Direitos Humanos e aberto para visitação em 2009. Neste centro, o grupo do Caminhos encontrou Daniel Santucho Navajas, 49 anos, conhecido como “Neto 133”. Daniel deu um testemunho potente sobre a recuperação de sua identidade, que aconteceu somente em 2023.

    Daniel Santucho Navajas, é o neto 133. Recuperou sua identidade em 2023. Crédito: Márcia Turcato

    Ele nasceu na prisão clandestina conhecida como Pozo de Banfield no dia 10 de janeiro de 1977, um setor do Exército argentino. Mais de 300 pessoas ficaram presas nesse local, incluindo quatro mulheres grávidas. Daniel é filho de Cristina Navajas, professora, e Júlio Santucho, também professor e ex-seminarista. Quando foi sequestrado, o casal tinha três filhos e Cristina estava grávida de dois meses. Os pais de Daniel eram militantes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Cristina permanece desaparecida. Júlio sobreviveu. Daniel Santucho Navajas é ativista de direitos humanos e protagonista do documentário Identidade Roubada, de 2024, e autor do livro Nieto 133- Mi Camino Hacia la Verdad, da editora Planeta.

    A suposta irmã mais velha de Daniel foi quem o alertou de que não era filho biológico dos pais que acreditava ter, dúvidas que ele tinha desde os cinco anos de idade, sem nem saber explicar a razão. Em duas oportunidades, Daniel enfrentou o apropriador para saber a verdade, mas o homem, um ex-policial, sempre sustentou ser seu pai biológico. Ao procurar as Avós da Praça de Maio, o neto nº 133 pôde fazer um exame de DNA que confirmou a sua verdadeira identidade.

    O gene das avós

    A avó de Daniel, o neto nº 133, Nélida Navajas, morreu em 2012 sem o conhecer. Nélida é uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio e contou com a ajuda do neto Miguel, irmão mais velho de Daniel, para liderar as buscas que duraram 46 anos. Em 1983, Nélida e Estela Carlotto, agora com 95 anos, viajaram aos Estados Unidos para conhecer a geneticista Mary Claire King e pedir um novo tipo de exame de DNA, que permitisse a identificação de uma pessoa não só pelos genes de mãe ou pai, mas também pelos genes das avós.

    Em 1984, a premiada geneticista Mary-Claire embarcou para a Argentina com a questão resolvida. Ela conseguiu realizar o sequenciamento genético mitocondrial das avós para comparar com os genes de crianças que haviam sido apropriadas e determinar a ligação biológica entre elas. O procedimento recebeu o nome de “índice de abuelidad”, o índice das avós. É importante destacar que em 1998, o ditador general Videla foi condenado, entre outros crimes graves, por ter colocado em prática o Plano Sistemático de Apropriação de Bebês. As primeiras condenações de Videla ocorreram em 1985, apenas dois anos após o fim da ditadura e a volta da democracia com Raúl Alfonsín.

    ESMA, uma escola de tortura

    O Sítio de Memória ESMA, inaugurado em 2015, foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – em 2023. No local funcionou um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No edifício principal, que agora é museu, existiu o Cassino dos Oficiais. O museu é um dos 35 prédios erguidos em um terreno de 17 hectares onde há diversas instituições de memória e verdade distribuídas em 17 ruas internas.
    Nesse local, o grupo de Porto Alegre foi recebido pelo mediador Guilhermo Amarilla Molfino, 48 anos. Ele é filho de um casal sequestrado pela ditadura e nasceu na prisão. Guilhermo recuperou sua identidade em 2009 e tem três irmãos.

    Cinco mil sequestrados passaram pela ESMA e a história cruel do centro de tortura e extermínio pode ser contada graças ao testemunho de poucos sobreviventes e de pessoas como Andrea Fricmar. Quando tinha onze anos, Andrea viu pela janela uma pessoa encapuzada e algemada sendo levada pelo pátio da ESMA, enquanto brincava com a filha de um comandante da escola militar. Outro testemunho importante é o do gráfico Victor Basterra, que foi forçado a trabalhar como fotógrafo na ESMA e conseguiu esconder centenas de negativos de filmes que depois serviram de provas contra os torturadores. O mediador Guillermo explica que 85% dos presos tinham idade entre 16 e 35 anos. “Pessoas pobres e jovens eram presas pelo terrorismo de Estado, era um Estado de Terror”, salienta. Graças aos testemunhos, sabe-se que nasceram 37 crianças na ESMA, 14 delas recuperaram a identidade.

    Casa da Identidade

    A Casa da Identidade é um espaço de memória gerido pela Associação das Avós da Praça de Maio e fica no mesmo prédio da Mostra da Linha Fundadora das Madres da Praça de Maio, onde há uma exposição permanente. A Casa da Identidade tem o propósito de dar visibilidade à história de apropriação sistemática de crianças e recém-nascidos durante a ditadura argentina. Na Casa são guardados arquivos documentais, fotográficos e bibliográficos da organização, e são realizadas atividades educativas e culturais.

    O grupo do Caminhos foi recebido por Juan Pablo Moyano, 51 anos. Ele foi sequestrado em 1978, aos 18 meses de idade, e entregue a uma mulher que já estava com uma menina apropriada. Sua avó conseguiu localizá-lo por meio de uma foto, tirada quando ele era bebê, que foi distribuída pela Justiça por toda a Argentina, Juan Pablo já estava com sete anos, seus pais permanecem desaparecidos. “As mães que perderam seus filhos se transformaram em avós que procuram seus netos e netas e a luta prossegue”. Havia um plano estratégico para o roubo e o comércio de bebês”, diz Juan Pablo.

    Em 2012, militares foram condenados, entre eles o general Jorge Rafael Videla. Antes disso, porém, deputados da extrema direita tentaram impedir a prisão de subalternos criando a “lei da obediência devida e ponto final”, que acabou revogada. A Lei 23.492 foi promulgada em 1986, durante a presidência de Raúl Alfonsín, estabelecendo a paralisação dos processos judiciais contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na ditadura militar.

    A lei, junto com a sua complementar, a de Obediência Devida, foi considerada nula pelo Congresso Nacional só em 2003, e finalmente declarada nula pela Corte Suprema de Justiça, por ser inconstitucional, em 14 de Junho de 2005, possibilitando que fossem reabertos os casos relacionados aos crimes contra a humanidade.

    O primeiro dos casos, responsabilizando Miguel Etchecolatz, ex-vice-comandante da Polícia Provincial de Buenos Aires, encerrou em setembro de 2006, estabelecendo jurisprudência ao reconhecer que o terrorismo de Estado durante a ditadura foi uma forma de genocídio.

    Monitoras do Caminhos da Ditadura PoA. De saia, a criadora da ação, Anita; de preto a direita, Cecília, responsável pelo roteiro. Foto no Parque da Memória. Crédito: Caminhos da Ditadura PoA
    Em Porto Alegre

    O roteiro do grupo de Porto Alegre encerrou com uma visita ao Parque de La Memoria, criado em 1998, na orla do rio da Prata. No local há longas paredes com os nomes das 30 mil pessoas desaparecidas na Argentina durante a ditadura, além de instalações que simbolizam os horrores que aconteceram no país.

    Após a imersão no contexto da ditadura na Argentina, a professora Anita revela que “é nossa intenção levar o Caminhos para outros estados do Brasil e outros países da América do Sul, expandir um pouco, porque vimos que as pessoas têm interesse em fazer uma viagem com esse foco. Muitas delas trabalham com este tema no Rio Grande do Sul, a maioria que fez a viagem para Buenos Aires é da área da História”.

    Caminhos da memória Em Porto Alegre

    No mapa virtual do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre constam os 39 locais de violação dos direitos humanos identificados pela Comissão Nacional da Verdade em 2014 e vários locais de referência da militância política e do movimento estudantil. Atualmente, são mais de 200 pontos mapeados.

    Há ainda dois trajetos presenciais que percorrem referências históricas, um no bairro Bom Fim e outro na Praça da Matriz, numa caminhada de aproximadamente duas horas, parando em diversos locais para ouvir as informações das e dos mediadores e também conversar com os participantes, reunidos em grupos de 50 pessoas, no máximo.

    De acordo com Anita, que é doutoranda da UFRGS em Ensino da História, “após essa imersão nos locais de memória na Argentina, percebemos que o Brasil tem movimentos muito importantes no caminho da preservação dos lugares de memória, mas são insuficientes. Aliás, nunca será suficiente o número de memoriais e monumentos que vierem a ser erguidos. Mas avançamos muito no processo da memorialização, principalmente em relação aos locais onde ocorreram violações dos direitos humanos durante a ditadura no Brasil”.

    A doutoranda está ciente que “ainda falta uma política de memória mais contundente, mais forte, pelo Estado, no Rio Grande do Sul e no Brasil, para que os espaços de memória se efetivem”. Anita destaca também a existência de muitos monumentos em homenagem a ditadores e colaboradores do terrorismo de Estado no Brasil, inclusive um condomínio em Porto Alegre com o nome ‘31 de março’. É importante realizar campanhas de conscientização sobre esses lugares. A sociedade civil, junto com o Estado, deve pensar em alternativas para esses espaços. A ditadura é um tema de disputa de memória”.

    O projeto Caminhos da Ditadura mantém visitas programadas em trajetos de memória que ocorrem nas regiões centrais de Porto Alegre. Os passeios são abertos ao público e suas agendas e inscrições para participar são todas divulgadas na página do Instagram @caminhosdaditadura_poa e adquiridos na página do Sympla.

     

  • Cazarré transplanta personagem em brincadeira (séria) com os mestres

    Cazarré transplanta personagem em brincadeira (séria) com os mestres

    Num feito sem precedentes na história da literatura mundial, a novela brasileira “Breve Memória de Simeão Boa Morte”, do escritor gaúcho-brasiliense Lourenço Cazarré, foi publicada no Brasil em fins de 2025 somente depois de aparecer em Lisboa, onde ganhou 5 mil euros em concurso literário patrocinado pelo governo português.

    O mais surpreendente é que se trata de uma corrosiva paródia do festejado conto “O Alienista” (Rio, 1881), que explora com ironia a reviravolta na carreira do médico Simão Bacamarte, um dos mais famosos personagens de Joaquim Maria Machado de Assis, o jornalista-escritor que viveu no Rio de 1839 a 1908.

    Mais de um século depois da consagração de Machado como o maior escritor brasileiro, eis que um escritor contemporâneo tem a ousadia de inventar que o “médico psiquiátrico” Simão Bacamarte foi plágio de um personagem cuja criação atribui a João Simões Lopes Neto, jornalista-escritor pelotense que viveu a maior parte da vida em Pelotas entre 1865 e 1916.

    Pode? Pode. Na ficção vale tudo, desde que a coisa seja bem feita.

    Como fazem muitos escritores que não desistem de suas intuições, Cazarré começou devagar, como numa brincadeira; com o tempo, muito tempo, a história foi tomando corpo até que se abriu a brecha para fazer o que se pode tomar como um desagravo histórico ao pelotense João Simões Lopes Neto, cuja qualidade literária só foi reconhecida pelo filólogo Aurélio Buarque de Hollanda, que avisou o paulista Mário de Andrade, que conversou com o gaúcho Augusto Meyer, amigo do ditador Getúlio Vargas – mais de trinta anos após sua morte, ao contrário de Machado, que se tornou celebridade em vida.

    Para alcançar o desfecho de sua história, Cazarré explorou coincidências e contradições entre os dois autores e seus personagens, de modo que pode criar um Simeão Boa Morte espelhado em Simão Bacamarte, com direito a pegadinhas que hão de ser gratas aos fãs do autor de “Contos e Lendas do Sul”, brochura parcamente lançada (200 exemplares) em 1912 em Pelotas.

    Sem dúvida, aqui se pode falar de um protesto do Interior contra a Capital, onde mediocridades e/ou nulidades alcançam uma suposta imortalidade acadêmica enquanto gênios da província são descartados, quando não proscritos do cenário artístico. O fato é que o criador de Simeão Boa Morte caprichou na brincadeira, aprofundando a inversão dos papéis entre o Simão original e o Simeão nele inspirado, tendo o desplante de inventar para seu personagem (Simeão) uma morte parecida com a de Brás Cubas, outro célebre personagem de Machado de Assis.

    Nascido em Pelotas em 1953, Lourenço Cazarré passou a vida labutando como jornalista e usando as horas vagas para, igual a Machado, escrever ficções de reconhecida qualidade literária, tanto que ganhou vários prêmios, a começar pela I Bienal Nestlé de Literatura, em 1982. Seu romance “O Calidoscópio e a Ampulheta” ganhou de 445 candidatos. Já nesse livro premiado pela banca de cinco jurados da Nestlé – Adonias Filho, Dirce Riedel, Flavio Loureiro Chaves, Letícia Malard e Marisa Lajolo –, ele usa como referência textos de João Simões Lopes Neto, que lhe forneceu as epígrafes para cada uma das cinco partes do livro.

    Tem mais: como o Bacamarte machadiano, o Boa Morte cazarresco é apresentado como um médico que largou o ofício para abraçar outras atividades. No caso de Simeão Boa Morte, a escolha teria sido o jornalismo, o teatro e pequenos negócios, o que corresponde efetivamente à trajetória pessoal de João Simões Lopes Neto, que na juventude passada no Rio teria estudado medicina, mas sem chegar sequer à metade do curso – história nunca comprovada, como esclarece Carlos Francisco Sica Diniz, autor da mais completa biografia do maior escritor pelotense, publicada em 2023 pela Editora Coragem, de Porto Alegre.

    Em anos recentes, Cazarré esmerou-se em escrever ficções inspiradas em grandes autores nacionais, como Euclides da Cunha (“Os Sertões”) e Graciliano Ramos (“Vidas Secas”). No caso de Machado, a bronca começou durante um curso de mestrado em literatura brasileira na UnB no final dos anos 80, quando lhe tocou analisar a obra de Machado de Assis.

    Para fundamentar sua crítica, Cazarré dissecou, por anos, os 30 melhores contos de Machado (título de um livro do século XX), além de passar os olhos por seus romances, poemas, crônicas e sueltos de imprensa. Tanto fez que se cansou do estilo do escritor carioca. No trabalho universitário escrito em 1987, se destacam alguns trechos de gritante sinceridade:

    “O que me afastou de Machado foi a falta de ação nos seus romances. É tudo arrastado como a vida no Império. Burocratas sem sal satisfeitos com suas vidinhas medíocres. Trambiqueiros ociosos, parasitas empenhados em dar o golpe do baú”.

    Ele prossegue, impiedoso: “No romance ‘Dom Casmurro’ (que plantou no imaginário brasileiro a dúvida sobre a fidelidade da jovem esposa Capitu ao marido Bentinho), “os ricos são apresentados em linguagem sóbria”, enquanto “a galhofa sobra para os trabalhadores como João Pádua ou parasitas pobres que almejam ficar ricos para viver como os ricos”.

    Aprofundando sua crítica, o pós-graduando da UnB observou ainda que os personagens machadianos “carecem de transcendência para o bem ou para o mal”, ficando longe, por exemplo, de escritores da mesma época, como os russos Dostoievski ou Tchekov ou franceses que se dividiam entre a imprensa e a literatura, caso de Balzac. Já as mulheres machadianas sonham com casamento, conforto, jantares, posição social e casa própria bem decorada. Nesse aspecto, ao refletir o clima e o conteúdo de romances ambientados em Paris, Machado teria sido um fiel retratista da futilidade da vida na corte de D. Pedro II, cuja influência alcança hoje os dramalhões apresentados toda noite desde 1950 nas telenovelas brasileiras. Em sua monografia engavetada, Cazarré lembra que o elogiado escritor carioca, além de escrever para jornais, era colaborador assíduo de revistas femininas que lhe pagavam “por linhas publicadas”. Além de ter um emprego público, o sujeito era frila…

    Naturalmente, Cazarré reconhece os méritos jornalísticos e literários do Bruxo de Cosme Velho, autor de 200 contos, uma dezena de romances, 800 crônicas, além de poemas e artigos na imprensa carioca. Mas, depois de muitos anos, não resistiu à tentação de criar um personagem inspirado em Simão Bacamarte.

    Manipulando um vocabulário rebuscado que lembra escritores como José Candido de Carvalho, Dias Gomes e Ariano Suassuna, Cazarré elabora em sua “Breve Memória de Simeão Boa Morte” um folhetim galhofeiro de 82 capítulos curtos em que — em nome de Simeão, claro — vergasta Machado de Assis como criador de personagens repetitivos: rapazes à caça de sinecuras estatais e dotes de jovens casadoiras ou viúvas abonadas. Assim, em cada página de seu memorando, Simeão trata o autor de “Dom Casmurro” como “mercenário”, “casamenteiro literário”, “pérfido, matreiro e pernicioso”, “amanuense do Império”, “pintor de fuxicos”, “alfaiate de lengas lengas matrimoniais” e assim por diante, num rol depreciativo nunca visto no jornalismo ou na literatura nacionais.

    Ao apontar Machado como “malévolo e caçoísta”, Cazarré se revela um baita iconoclasta. Sua ousadia foi abonada por um crítico que, à boca pequena, o considerou “muito corajoso” por criticar o maior ícone da literatura nacional, fundador da Academia Brasileira de Letras. É uma irreverência que confirma a habilidade do jornalista-escritor contemporâneo no manejo das palavras: desde seus primeiros escritos, ele carregou na ironia ao construir tramas compactas com personagens autênticos movendo-se em ambientes quase sem enfeites.

    Embora tenha escrito alguns romances para os públicos adulto e juvenil, sua especialidade são contos inspirados em acontecimentos de sua terra natal, que chegou a ter codinome (Tapera) e, no caso da sua última novela, é São Francisco do Laranjal, um belo nome que evoca o padroeiro da cidade e seu balneário na Lagoa dos Patos.

    Várias de suas histórias são inspiradas em episódios da infância num arrabalde denominado Vila do Sapo, assim chamado por ocupar uma várzea úmida cortada pelo Arroio Pepino, que passa(va) atrás do campo de futebol do GE Brasil, o bravo Xavante. Por aí fica claro que o escritor pelotense acolheu com gosto o conselho do russo Leon Tolstói: “Se queres ser universal, pinta tua aldeia”. A aldeia natal do jovem pelotense era tipo uma favela de banhado.

    Transbordando ironia, a história de Simeão Boa Morte combina avaliação literária e crítica social, a qual se estende sem perdão da corte imperial carioca à atual ciranda de Brasília, onde o novelista vive há quase 50 anos.

    No Brasil, o livro passou até agora em branco, ressalvada a apreciação positiva de Adelton Gonçalves, ensaísta renomado, com vários livros publicados. Para ele, a novela é tão boa que pode ser considerada uma grande homenagem ao autor de “O Alienista”.

    Na orelha da edição brasileira, o crítico André Seffrin afirma que Simeão é uma obra-prima e, como tal, poderia ser, “gaiatamente”, assinada pelo próprio Machado de Assis.

    È claro que as tiradas carrazeanas não desfazem a aura que envolve o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas na literatura ninguém está imune à crítica, embora seja muito mais fácil tecer elogios às novidades bem escritas. Outros escritores brasileiros laureados como José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Erico Verissimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e Dalton Trevisan foram criticados por seus estilos narrativos, suas posições políticas e até por suas manias pessoais.

    No auge da forma técnica, Cazarré não se cansa de trabalhar em projetos novos ou na revisão de livros que relança com inovações formais, distribui aos amigos e põe à venda onde acredita que possam conquistar leitores. Em 2025, inaugurou uma parceria com Fernando Duval, consagrado artista plástico pelotense que mora há décadas no Rio e lhe forneceu ilustrações para a capa de seus dois últimos livros, “Contos Pelotenses” e “Breve Memória de Simeão Boa Morte”.

    Com mais de meio século de militância no jornalismo e na literatura, Cazarré tem cacife para ser convidado a tomar chá na ABL. É duvidoso que se interesse por envergar o ridículo fardão dos acadêmicos. De louros literários, a esta altura do campeonato, talvez aprecie ser indicado ao Nobel de Literatura.

    Sim, teria café no bule, mas para chegar à Academia Sueca precisaria enfrentar outros bons usuários da língua portuguesa no Brasil, na África e em Portugal. De Milton Hatoun a Mia Couto, é cada vez maior a lista de candidatos potenciais a prêmios literários internacionais, com o agravante de que o idioma português somente é falado, lido e escrito por não mais do que 4% da população do planeta. Cazarré leva alguma vantagem por ser dos mais jovens. Em julho completará 73 anos.

    SERVIÇO FINAL

    Lançada no Brasil pela Faria e Silva, editora do Rio ligada ao grupo Alta Books, a novela sobre Simeão Boa Morte ocupa pouco mais da metade de um livro de 180 de páginas enriquecido com cinco outros contos típicos da verve cazarreana, difundida em dezenas de livros próprios, coletâneas e textos avulsos publicados em sites brasileiros e de Portugal. Está à venda na Amazon por R$ 44.

  • Caso Master: Cais Mauá foi laboratório do esquema que lesou 100 fundos de previdência

    Caso Master: Cais Mauá foi laboratório do esquema que lesou 100 fundos de previdência

    As investigações da Polícia Federal que levaram à prisão do empresário João Carlos Mansur, indicam que o Fundo Cais Mauá foi um ensaio do esquema fraudulento que carreou R$ 17 bilhões dos fundos de previdência para os papéis podres do banco Master.

    Segundo a Polícia Federal, mais de 100 fundos colocaram dinheiro em carteiras do Master, através da Reag, de João Carlos Mansur.

    O Banco Central e a PF identificaram que a estrutura criada por Mansur servia como uma “fábrica de fundos” para ocultar patrimônio através de operações fraudulentas.

    No Cais Mauá foram testadas as “táticas de captação” em institutos de previdência que seriam escaladas para as fraudes bilionárias que culminaram com a liquidação do Master.

    Um projeto ambicioso

    O Fundo de Investimento e Participações Cais Mauá foi criado em outubro de 2012, para captar recursos que financiariam um ambicioso projeto de conversão do principal cais de Porto Alegre, desativado, em área de lazer, turismo e comércio.

    Uma faixa de três quilômetros num sítio histórico da cidade, à beira do Guaíba. Previa-se investimento de R$ 1 bilhão para reurbanizá-la e reequipá-la, inclusive com nove torres com hotéis, escritórios e apartamentos de luxo.

    Nas maquetes e na propaganda, um alto negócio. Na realidade, um projeto contestado, com manifestações de rua e campanhas de opinião publica, além de entraves burocráticos, que foram menosprezados.

    O contrato de concessão com o consórcio Cais Mauá do Brasil, assinado com pompa e circunstância no final do governo Yeda Crusius, em dezembro de 2010, não tinha, por exemplo, a anuência da Antaq, a autarquia federal que regula as áreas portuárias.

    Detalhes que travaram o projeto, mas não impediram que o fundo fosse ao “mercado” em busca de investidores.

    Em 2018, quando a PF entrou em cena, com a operação “Gatekeepers” não havia um tijolo assentado na área do Cais Mauá, mas o fundo havia captado R$ 130 milhões.

    Pela gestão do fundo haviam passado a Positivo, NSG, ICLA e finalmente a Reag, que substituiu a ICLA, quando ela se tornou alvo da PF. Todas ligadas a João Carlos Mansur.

    A operação da Polícia Federal revelou que havia fraude na captação de recursos junto aos fundos de previdência. E alguns estavam entrando na Justiça para obter o resgate dos valores aplicados.

    Em julho de 2020, quando o governo do Estado rescindiu o contrato com a Cais Mauá do Brasil, consórcio que tinha a concessão, a Reag foi substituída na gestão do fundo pela Lad Investimentos.

    A partir daí, o assunto saiu do noticiário e… o dinheiro nunca apareceu. Segundo os gestores do fundo, R$ 40 milhões teriam sido gastos em despesas correntes -prestadoras de serviços, segurança, descontaminação dos armazéns, funcionários, etc. Os R$ 90 milhões restantes teriam sido usados para comprar a parte dos sócios espanhóis que haviam deixado o negócio em 2011.

    Absolvição e prisão

    Uma nota no Valor Econômico registrou o fato no dia 17 de dezembro de 2025: os dez acusados de fraude na administração do Fundo Cais Mauá do Brasil foram absolvidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

    A maioria do Colegiado seguiu o voto do relator João Accioly, concluindo que não houve dolo (intenção deliberada de fraudar). Não houve prova de má fé, como se registrou na ata da sessão.

    A diretora Marina Copola deu o único voto contrário, afirmando que houve “omissões graves e equívocos reiterados” e pedindo a condenação dos acusados, com a aplicação de multas.

    Entre os dez absolvidos estava a Reag Trust e seu presidente João Carlos Mansur.

    Um mês depois, em 15 de janeiro de 2026, Mansur foi preso pela Polícia Federal e a Reag teve liquidação decretada pelo Banco Central.

    A reviravolta, pelo menos, abre uma chance para os investidores que foram lesados com a falência do Fundo Cais Mauá. Entre eles o Instituto de Previdência do Estado (IPE Prev) que teria aplicado 17,7 milhões.

    Os principais fundos de previdência identificados em relatórios e auditorias, com os valores aproximados investidos no FIP Cais Mauá, na época:

    Fundo de Previdência Valor Aplicado (Aprox.)
    Igeprev (Tocantins) R$ 21 milhões
    PreviPalmas (Palmas/TO) R$ 15 milhões
    Prev-Amapá (Amapá) R$ 10 milhões
    Manaus Previdência (Manaus/AM) R$ 10 milhões
    AparecidaPrev (Aparecida de Goiânia/GO) R$ 5 milhões
    Cajamar (Cajamar/SP)

    IPE-Prev (Rio Grande do Sul)

    R$ 2 milhões

    R$ 17,7 milhões

                                              

  • Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

    Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

     

    Mostra de Graça Craidy, com abertura no sábado (7/2), reúne 50 obras, com destaque para retratos dos personagens da obra-prima de Guimarães Rosa e do próprio autor

    *Texto e fotos de Carlos Souza

    A obra-prima do escritor João Guimarães Rosa (1908/1967), “Grande sertão: veredas”, que revolucionou a literatura brasileira, completa 70 anos de seu lançamento, ocorrido em 1956, e recebe como homenagem uma exposição no Espaço Cultural Correios, em Niterói (RJ), de autoria da artista visual gaúcha Graça Craidy.

    Guimarães Rosa entra no Cerrado a cavalo/Divulgação

    De sábado (7/2), quando será inaugurada às 15h30, até 28 de março, a mostra “Grande Sertão”, de Graça, perfila 50 obras, entre as quais destacam-se retratos de alguns dos principais personagens do romance, como Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Otacília, Nhorinhá, Manuelzão, Sô Candelário e Quelemém, por exemplo.

    O próprio escritor, que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, aparece em dois retratos – num deles se embrenhando no Cerrado mineiro a cavalo junto com vaqueiros – excursão que de fato aconteceu na fase em que coletava dados para escrever a obra. A flora e a fauna da região onde se desenvolve a narrativa ambientam a exposição, com coqueiros buritis, pássaros e aves criados pela artista.

    Artista Graça Craidy quer receber visitantes de braços abertos no Espaço Cultural Correios Niterói/ Divulgação

    Para ter domínio da temática e aguçar sua inspiração, Graça, de 74 anos, que vive e tem ateliê em Porto Alegre, não só leu o romance como fez um curso – Travessia – sobre o livro, durante o qual leu, releu e debateu a narrativa por meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks.

    A artista também pesquisou teses, monografias e ensaios sobre o livro e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. O ator fará um pocket show na abertura da exposição no Espaço Cultural Correios.

    Ema, ave presente no Cerrado/ Divulgação

    Trabalho “expressionista e apaixonado”

    “Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, diz Graça.

    Jagunço Hermógenes/ Divulgação

    “Grande sertão: veredas”, na leitura da artista, “retrata o Brasil profundo, em plena mudança do Império para República, a contragosto dos senhores de terra e coronéis que viam no poder central republicano a anulação do seu poder histórico exercido nas pequenas comarcas desde o tempo das sesmarias”.

    Para ela, “naquele momento histórico de surdas batalhas entre fazendeiros e seus jagunços contra a polícia e os novos políticos representando a República, um sertão recortado por rios, veredas, coqueiros-buritis, pássaros e animais selvagens acoita homens comuns incomuns à cata de poder e de Deus, em fuga da morte e do Diabo, divididos entre o bem e o mal, regurgitando questões caras à humanidade, como o amor, e mais que amor, o amor entre dois guerreiros: Riobaldo e Diadorim”.

    Riobaldo (E) segue os passos de Diadorim, à sua frente/ Divulgação

    Com “Grande sertão”, já montada antes em Porto Alegre e no Rio, é a quinta vez que Graça une sua arte à literatura. A primeira foi na coleção “Clarices”, de 33 retratos de Clarice Lispector; a segunda e a terceira foram nas coletivas  “Autorias I” e “Autorias II”, que organizou e participou ao lado de 42 artistas gaúchos que retrataram 51 escritores do Rio Grande do Sul; e “Erico”, em novembro e dezembro de 2025, em homenagem aos 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, da qual foi curadora e artista junto com 46 colegas.

    Personagem Maria Mutema/ Divulgação

    Inovação linguística

    Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa morava no Rio, na Rua Francisco Otaviano, 33, em Copacabana, quando escreveu as quase 600 páginas de “Grande sertão: veredas”.

    Ao entregar os originais à editora José Olympio, em fevereiro de 1956, ele escreveu ao colega diplomata e amigo Azeredo da Silveira: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. […] Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

    Manuelzão, personagem da mostra Grande Sertão/ Divulgação

    Recebido com aplausos pela crítica, principalmente por suas inovações linguísticas, o livro foi um dos mais vendidos durante meses e venceu prêmios literários como o Machado de Assis. Em 2002, “Grande Sertão: Veredas” integrou a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do Clube do Livro da Noruega. O romance foi a única obra brasileira na relação selecionada por 100 escritores de 54 países.

    Bananeira, em aquarela/ Divulgação

    SERVIÇO

    Exposição: “Grande sertão”

    Artista: Graça Craidy

    Abertura: sábado (7/2), às 15h30, incluindo pocket show do ator Gilson de Barros

    Visitação: de 2ª a 6ª, das 11h às 18h; sábado, das 13h às 18h, até 28 de março

    Local: Espaço Cultural Correios, Av. Visconde do Rio Branco, 481, Centro, Niterói, RJ

    Entrada franca

    *Texto e fotos de Carlos Souza

  • Frei Sergio (1956-2026), o missionário dos assentados

    Frei Sergio (1956-2026), o missionário dos assentados

    Geraldo Hasse

    Conheci Frei Sérgio em pessoa na feira do livro de Porto Alegre, onde ele lançou em 2017 “Trincheiras da Resistência Camponesa”, um catatau de 616 páginas editado pelo Instituto Cultural Padre Josimo, que dá suporte ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

    Depois do autógrafo – “Na luta, sempre” – fiquei por perto, disposto a aproveitar as brechas para entrevistá-lo, mas não deu: a todo momento, ele era reconhecido, abraçado, festejado.

    A única frase dele foi sobre o conteúdo do livro: “São textos militantes”, disse.

    Acabei indo embora, mas lembro que dias depois vi no Facebook uma foto dele cercado por várias pessoas, entre elas os jornalistas Caco Schmidt e Carlos Wagner, que o conheciam do movimento dos agricultores sem terra.

    Em casa, mais tarde, vi que as “Trincheiras” são um apanhado cronológico de textos escritos para cartilhas, documentos para instituições e reflexões em favor dos movimentos pela reforma agrária, distribuição de terras para brasileiros(as) determinados(as) a trabalhar como autônomos na agricultura.

    Como padre franciscano, morador num assentamento em Hulha Negra, ele se mostrava um otimista defensor dos trabalhadores rurais na busca por uma vida melhor, livres da sujeição à agricultura empresarial, hoje resumida pela palavra “agronegócio”, que abrange desde proprietários de terras até os produtores de commodities de exportação, comerciantes de máquinas e insumos de lavouras, transportadores, exportadores, prestadores de serviços etc.

    Nessa luta, ele foi um missionário como tantos religiosos e civis que se dedicam a combater a desigualdade social.

    Folheando o livro, observei a precisão dos seus relatos sobre doenças, secas, enchentes e outros problemas que afetam os pequenos agricultores, que respondem pela oferta de metade dos alimentos consumidos pela população brasileira, embora trabalhem em cima de apenas 24% das terras agricultáveis. É um livro denso, quase um manual de agricultura ecológica, voltado para os praticantes da agricultura familiar.