Categoria: Análise&Opinião

  • Recordar Zuzu Angel 50 anos após sua morte é um ato ético

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Cinco décadas transcorreram desde o silenciamento brutal de Zuzu Angel (05 de junho de 1921 – 14 de abril de 1976), e ainda assim sua voz persiste — não como eco esmaecido, mas como um timbre agudo que rasga o tecido do tempo e se inscreve na memória moral do país. Há figuras que pertencem à história; outras, raras, pertencem à consciência. Zuzu é destas últimas: uma mulher que, convocada pela dor, recusou o destino privado do luto e converteu-o em gesto público de insurgência.

    Zuzu Angel, em 1972. Fotógrafo desconhecido, da coleção do Arquivo Nacional.

    Antes de ser símbolo, foi criadora. Sua trajetória na moda não se limitava ao ofício de vestir corpos, mas insinuava, já ali, uma forma de narrar o Brasil. Seus vestidos bordados, impregnados de cores tropicais, passarinhos e referências populares, recusavam a submissão estética aos centros europeus. Havia, em seu trabalho, um esforço de afirmação cultural — uma tentativa de dizer que a beleza brasileira não precisava de tradução nem de autorização. A delicadeza de suas peças escondia, talvez, a primeira semente de sua coragem: a disposição de afirmar-se num mundo que frequentemente exigia silêncio e conformidade.

    Mas a história, impiedosa, deslocou-a de seu campo de criação para um terreno mais áspero. O desaparecimento de seu filho, Stuart Angel, aos 25 anos, durante os anos de chumbo da ditadura militar, rompeu qualquer possibilidade de uma vida ordinária. A partir desse instante, Zuzu deixou de ser apenas estilista para tornar-se testemunha, investigadora e acusadora. Sua dor, longe de confiná-la, projetou-a para o mundo. Transformou-se em denúncia.

    Stuart não era uma vítima casual do arbítrio. Militante do movimento estudantil e integrante de organizações de resistência ao regime, tornou-se alvo direto da repressão estatal. Preso, foi submetido a torturas de uma crueldade que ultrapassa os limites do dizível — métodos que buscavam não apenas extrair informações, mas também instaurar o terror como pedagogia política. Seu assassinato por membros do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), longe de ser um excesso isolado, inscreve-se na lógica sistemática de eliminação dos dissidentes. O corpo nunca foi devolvido à família, e essa ausência material se tornou uma ferida aberta, impossível de cicatrizar.

    É nesse vazio — simultaneamente físico e simbólico — que se forja a transformação de Zuzu. A impossibilidade do luto tradicional, sem corpo, sem despedida, sem verdade oficial, impele-a a agir. Sua busca não era apenas pelo paradeiro do filho, mas pela restituição de sua humanidade, negada pela máquina repressiva. Ao exigir respostas, Zuzu confrontava não apenas indivíduos, mas uma estrutura inteira construída sobre o segredo, a mentira e a negação.

    O que singulariza sua luta não é apenas a coragem, mas a linguagem que escolheu para resistir. Zuzu não empunhou armas nem se refugiou na clandestinidade. Seu campo de batalha foi o mesmo em que antes cultivara a beleza: a moda. Em desfiles que passaram a circular internacionalmente, suas criações tornaram-se alegorias do horror. Vestidos outrora leves passaram a exibir manchas que evocavam sangue, pássaros enjaulados, figuras sombrias — metáforas visuais de um país aprisionado. Era uma estética da denúncia, um grito codificado em tecidos e linhas.

    Ao levar sua causa para o exterior, especialmente aos Estados Unidos, Zuzu compreendeu algo essencial: que a luta contra a violência de Estado exigia visibilidade internacional. Ela escreveu cartas, buscou autoridades, confrontou versões oficiais. Sua atuação, nesse sentido, antecipou práticas que hoje reconhecemos como fundamentais na defesa dos direitos humanos: a internacionalização das denúncias e a mobilização da opinião pública global. Não se tratava apenas de encontrar seu filho — era a tentativa de desvelar um sistema inteiro de repressão.

    Entretanto, a mesma visibilidade que a fortalecia também a tornava alvo. Sua morte, em 1976, num acidente automobilístico envolto em suspeitas, carrega até hoje a sombra da violência política. Não foi apenas uma tragédia individual; foi um recado. O poder autoritário, quando confrontado por vozes que recusam o esquecimento, busca não apenas silenciar, mas apagar. Ainda assim, falha. Porque há mortes que, em vez de encerrar histórias, as inauguram. Em 2025, quase meio século depois, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente Zuzu Angel como vítima da ditadura militar, gesto tardio que, embora incapaz de reparar plenamente a perda, reafirma a verdade histórica que ela própria nunca deixou de proclamar.

    Cinquenta anos depois, Zuzu Angel permanece como uma figura de inquietação. Sua memória não permite repouso confortável. Ela nos obriga a revisitar um passado que muitos prefeririam relegar ao esquecimento, e a reconhecer que a violência institucional não é uma abstração distante, mas uma possibilidade sempre latente quando a democracia se fragiliza. Sua luta, portanto, não pertence apenas ao seu tempo — ela se projeta como advertência e legado.

    Há também, em sua história, uma dimensão profundamente humana que resiste à monumentalização. Zuzu não era uma heroína forjada em mitos; era uma mãe que se recusou a aceitar a ausência sem resposta. Essa recusa, simples e radical, é talvez o núcleo de sua grandeza. Num mundo em que a dor frequentemente conduz ao silêncio, ela escolheu falar. E ao falar, abriu caminho para que outros também o fizessem.

    Seu gesto, no entanto, não foi solitário. Ele ecoou e continua a ecoar nas lutas de outras mães, de outros familiares de desaparecidos, que transformaram o sofrimento em reivindicação política. Ao fazê-lo, inscreveram suas histórias pessoais na tessitura mais ampla dos direitos humanos, convertendo a memória em instrumento de justiça. Zuzu, nesse sentido, não é apenas uma figura do passado, mas parte de uma genealogia de resistência que atravessa gerações.

    Recordar Zuzu Angel, cinquenta anos após sua morte, é mais do que um exercício de memória histórica. É um ato ético. É reconhecer que a justiça, ainda que tardia e incompleta, depende da persistência daqueles que se recusam a esquecer. É admitir que a beleza — aquela que ela um dia costurou em tecidos — pode também ser instrumento da verdade.

    E, sobretudo, é compreender que certas vidas não se encerram. Elas permanecem, como uma costura invisível que sustenta o tecido frágil da memória coletiva. Zuzu Angel, com sua coragem indomável e sua dor transformada em linguagem, continua a nos interpelar. Não como lembrança distante, mas como presença exigente — uma presença que nos pergunta, ainda hoje, o que fazemos diante da injustiça, e até onde estamos dispostos a ir para enfrentá-la.

  • 40 anos sem Simone de Beauvoir, uma interlocutora ainda incômoda do presente


    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Quarenta anos após a morte de Simone de Beauvoir (9 de janeiro de 1908 – 14 de abril de 1986), descubro que sua ausência não é propriamente um vazio — é antes um rumor contínuo, uma espécie de presença indireta que se infiltra nas conversas, nos livros, nas pequenas insurgências do cotidiano. Há autores cuja partida inaugura o silêncio; a dela, ao contrário, parece ter multiplicado vozes. E não quaisquer vozes: sobretudo aquelas que, por tanto tempo, mal podiam nomear a própria experiência. Beauvoir não foi apenas filósofa ou romancista; foi uma consciência em vigília, dessas que não se permitem o luxo do repouso. Havia nela uma recusa quase obstinada do conforto das certezas — como se pensar fosse, antes de tudo, aceitar o desconforto de não concluir.

    Ler Beauvoir hoje, digo isso como quem a reencontra mais do que a descobre, é encarar uma lucidez que não se desgasta com o tempo. Sua escrita jamais buscou neutralidade; ao contrário, ela parece ter entendido muito cedo que pensar exige assumir um lugar — e, mais ainda, expor esse lugar sem proteção. Há algo de quase físico nisso: uma escrita que não abdica da experiência, mas também não se rende a ela. Entre a vida e a ideia, entre o vivido e o conceito, Beauvoir construiu uma tensão fértil, dessas que não se resolvem — e talvez seja justamente por isso que permanecem.

    Simone de Beauvoir – “Memórias de uma menina bem comportada”. Reprodução

    É difícil evocá-la sem voltar àquele gesto inaugural que deslocou uma evidência milenar: nomear a opressão das mulheres não como destino, mas como construção. Hoje, a frase ecoa com familiaridade, quase como um axioma — mas houve um tempo em que foi ruptura. Ao afirmar que não se nasce mulher, torna-se, Beauvoir abriu uma fenda no pensamento ocidental. E certas fendas, penso eu, não pedem reparo: são por onde a luz insiste em entrar.

    Mas há um risco em fixá-la apenas nesse ponto, como se sua obra pudesse ser contida numa única formulação. Beauvoir é mais vasta, mais inquieta. Percorre romances, ensaios, memórias, diários — e em todos eles retorna à mesma pergunta, dita de modos diferentes: o que significa existir em liberdade quando o mundo, de tantas formas, nos constrange? Seus romances, frequentemente relegados a um segundo plano, me parecem laboratórios morais, espaços onde os personagens se debatem com escolhas que nunca se deixam purificar. Não há heroísmo fácil ali. Há, antes, uma ética da ambiguidade — essa zona incômoda em que toda decisão cobra um preço.

    Talvez seja essa recusa da pureza que a torne tão próxima. Beauvoir não idealiza — nem seus personagens, nem a si mesma. Em suas memórias, há hesitações expostas, contradições admitidas, zonas de sombra que não são apagadas em nome da coerência. E nisso reside uma honestidade rara: como se a verdade só pudesse emergir quando desistimos de parecer inteiros. Ela compreendeu, com uma clareza que ainda me desconcerta, que viver é negociar permanentemente com o inacabado.

    Quarenta anos se passaram, e o mundo — sim — mudou. Mas não o suficiente. As estruturas que Beauvoir analisou não desapareceram; apenas aprenderam a disfarçar-se melhor. Tornaram-se mais sutis, às vezes mais difíceis de nomear — o que, paradoxalmente, as torna mais persistentes. A liberdade que ela reivindicava segue sendo, para muitos, uma promessa adiada. Por isso, sua obra resiste a ser arquivada: não é apenas objeto de estudo, é ferramenta. Ensina a desconfiar do que se apresenta como natural, a interrogar os papéis que nos oferecem, a reivindicar — com todas as hesitações que isso implica — a autoria da própria vida.

    E há, ainda, uma dimensão que me parece menos comentada, talvez por ser menos ruidosa: a delicada relação que Beauvoir estabelece com o tempo. Em suas memórias, não há refúgio na nostalgia. O passado não é abrigo; é interrogação. Há ali uma espécie de ternura vigilante, como se olhar para trás fosse um ato de responsabilidade, não de consolo. Aquilo que fomos não nos abandona — continua a nos pedir contas. E essa consciência histórica de si, tão exigente, talvez seja uma das formas mais rigorosas de liberdade.

    Também o amor, em Beauvoir, recusa a facilidade. Longe das idealizações, ele aparece como um campo de tensão — entre autonomia e vínculo, entre desejo e risco de anulação. Amar, para ela, não é dissolver-se no outro, mas sustentar uma relação em que duas liberdades coexistam sem se destruir. É um ideal exigente, por vezes quase inatingível — e, justamente por isso, revelador. Há aí uma recusa firme de aceitar afetos moldados pela dependência ou pela dominação.

    Quando penso em sua morte, em abril de 1986 (em setembro eu completaria 10 anos de idade), não me detenho tanto na data quanto na medida que ela nos impõe: que mundo construímos desde então? Há conquistas inegáveis, marcas de um pensamento que ajudou a deslocar estruturas. Mas há também resistências que persistem, silêncios que se reinventam, retrocessos que nos lembram que nenhuma conquista é definitiva.

    Talvez o maior tributo a Beauvoir não seja a reverência — essa forma elegante de domesticar o que nos inquieta —, mas a continuidade crítica. Lê-la não é concordar, é aceitar o convite ao risco de pensar. É permitir que suas perguntas nos desloquem, que suas análises nos incomodem, que sua coragem nos atravesse — não como modelo, mas como impulso.

    Quarenta anos depois, Simone de Beauvoir permanece menos como figura do passado e mais como uma interlocutora ainda incômoda do presente. Sua voz não se apagou; mudou de lugar. Às vezes sussurra, às vezes insiste — mas sempre retorna à mesma exigência: a liberdade não é um dado. É uma tarefa. E, como ela bem sabia, uma tarefa que nunca se conclui, nunca se cumpre sozinho, nunca deixa de ser urgente.

  • Médicos alertam para os riscos à saúde de nova fábrica de celulose da CMPC

    ROSELAINE MURLIK *

    Represento um grupo de profissionais da medicina que, há alguns anos, estuda os diferentes impactos das mudanças climáticas e da poluição ambiental nos ecossistemas na saúde humana e do planeta.

    Causa preocupação o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), próximo à capital gaúcha, cujo Estudo de Impacto Ambiental não leva em consideração inúmeros aspectos graves, inclusive à saúde humana, os quais estão relacionados, dentre outros, à liberação de toxinas no ar e na água do Guaíba – de onde provém a água para a população beber.

    A produção de celulose pode impactar a saúde humana por múltiplas vias, incluindo a emissão e o descarte de contaminantes sólidos, líquidos e gasosos e, de forma indireta, por efeitos relacionados ao estresse e à cadeia alimentar.

    Médica e indigenista Roselaine Murlik durante audiência na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ

    Análises Técnicas entregues à FEPAM

    No dia 14 de fevereiro de 2026, juntamente com outros 10 documentos técnicos, produzidos por outros órgãos, entregamos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) uma análise que avalia os potenciais riscos à saúde advindos da instalação e atividade do projeto da pretensa fábrica de celulose.

    Consideramos que há falhas metodológicas e omissões no EIA-RIMA apresentado para licenciamento do Projeto Natureza da CMPC. As críticas não são apenas sobre os impactos ambientais físicos, mas também sobre a insuficiência dos estudos apresentados pela empresa para mitigar riscos sociais e biológicos.

    Em resumo, as críticas podem ser categorizadas nos seguintes eixos principais:

    • Riscos à Saúde Humana: não há avaliação do impacto à saúde das populações vizinhas, tanto pela poluição do ar quanto da água.

    • Qualidade da Água e Efluentes: temos questionamentos sobre a avaliação de efluentes líquidos e como esses impactos foram projetados no EIA-RIMA da CMPC.

    • Impactos sobre Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: a dimensão antropológica e o impacto sobre o modo de vida dessas populações não foram devidamente dimensionados.

    • Biodiversidade e Fauna: temos questionamentos específicos sobre a fauna vertebrada, sugerindo que o projeto pode ameaçar a fauna local.

    • Impacto no bioma Pampa: o projeto afeta diretamente o Pampa, um bioma com vegetação campestre singular e alta biodiversidade, muitas vezes subestimada em grandes empreendimentos.

    Especialistas de diversas áreas entregaram à Fepam analises técnicas do EIA-RIMA. Foto: Divulgação

    A emissão de gases e partículas é a via de impacto mais imediata, provocando aumento nos atendimentos de emergência para nebulizações, medicações injetáveis, e crises de broncoespasmo em asmáticos e com bronquite crônicas, maior demanda por medicamentos de uso contínuo (corticoides, broncodilatadores). O que pode provocar internações frequentes de crianças e idosos (grupos mais vulneráveis) por pneumonia ou insuficiência respiratória.

    De fato, os efeitos da exposição impactam com maior intensidade as crianças (pulmões em desenvolvimento, respiram mais rápido – inalam mais poluentes por kg de peso), idosos (sistema imunológico mais fraco e maior prevalência de doenças cardíacas/pulmonares prévias), asmáticos (reagem imediatamente a picos de SO2 e TRS) e gestantes (riscos de anomalias de desenvolvimento em embriões ou fetos expostos via materna).

    Por sua vez, os compostos de enxofre (TRS) geram um odor extremamente desagradável e perceptível mesmo em baixíssimas concentrações. Embora nem sempre tóxico em níveis baixos, o mau cheiro constante causa náuseas, dores de cabeça (cefaleia), insônia, estresse e ansiedade.

    A contaminação hídrica traz riscos a longo prazo, pois há substâncias persistentes e bioacumulativas. Elas podem entrar na cadeia alimentar através de peixes ou da água contaminada, sendo associadas à distúrbios endócrinos, problemas reprodutivos e aumento do risco de câncer (tabela 1).

    Muitos estudos de monitoramento ou acadêmicos realizados na região do lago Guaíba indicam que a carga tóxica aguda (que mata peixes imediatamente) desapareceu com as novas tecnologias de produção de celulose, mas persistem os riscos causados pela poluição crônica (acumulada no sedimento antigo) e os efeitos subletais (genética dos peixes).

    Estas condições demandam tratamentos de alta complexidade e alto custo (oncologia), e podem requerer monitoramento de saúde a longo prazo para populações expostas. Além disso, há aumento de demanda para o tratamento de dermatites e alergias de contato em pessoas que utilizam os corpos d’água próximos.

    Por fim, a exposição ocupacional aos riscos físicos e químicos dentro da fábrica podem resultar em acidentes com necessidade de reabilitação física e afastamentos laborais, que geram um custo social indireto à saúde pública.

    Impactos da produção de celulose na saúde humana

    ● Sistema Respiratório e Olfativo (Via Aérea) – a forma de impacto mais imediata e comum, através de picos de emissões e exposição prolongada

    ● Irritação Aguda e Crônica: Causada por Óxidos de Nitrogênio (NOx), Dióxido de Enxofre (SO2) e Material Particulado (MP). Efeito – Exacerbação de asma e outras doenças obstrutivas das vias aéreas. Em crianças e idosos, aumenta a incidência de infecções respiratórias (gripes, pneumonias) devido à inflamação constante das vias aéreas.

    ● Intoxicação e Incômodo Olfativo (TRS): Causada por Gás Sulfídrico (H2S) e Mercaptanas (cheiro de ovo podre/repolho). Efeito Físico – em baixas concentrações, causa náuseas, vômitos e dores de cabeça intensas (“cefaleia”). Pode causar irritação nos olhos (conjuntivite química); e efeito neurológico – o H2S é neurotóxico em altas concentrações. Mesmo em níveis baixos (apenas cheiro) pode causar fadiga mental e dificuldade de concentração.

    Fábricas de celulose eliminam bastante SO² e compostos orgânicos voláteis. Estes são muito irritantes e, nas vias aéreas, causam inflamações, broncoespasmo e infecções respiratórias. Principalmente, nas regiões mais próximas e nos seus trabalhadores caso não haja filtros apropriados, equipamentos de proteção e ventilação adequada do ambiente de trabalho.

    Os sulfetos de hidrogênio e partículas finas de 2,5 micrômetros ou menos (material particulado – MP) têm enorme importância como causas de doenças respiratórias. Este material particulado que as fábricas eliminam, queimando resíduos ou na secagem, entram no sangue através da respiração e inflamam brônquios e alvéolos e, em princípio, nem são percebidos, e vão se acumulando ano a ano, manifestando-se depois com doença pulmonar crônica.

    Em relação ao impacto destas substâncias na saúde humana, podemos citar as seguintes referências: um artigo brasileiro, dos mais citados, avaliou 638 trabalhadores que tiveram reconhecidos os problemas respiratórios como os principais associados à exposição ocupacional em uma fábrica de celulose². Paralelamente, há bastante material publicado internacionalmente que também comprova danos à saúde respiratória, tanto com exposição ocupacional como comunitária, provocando função pulmonar diminuída, sintomas respiratórios, asma e doença obstrutiva mesmo em pessoas que moram em até 30km destas indústrias³. Existem trabalhos suecos mais recentes do início desta década, sobre função pulmonar e mortalidade que reforçam o risco respiratório crônico em trabalhadores destas indústrias.

    Entre os riscos respiratórios entre trabalhadores, há alta exposição a irritantes como cloro, compostos de enxofre reduzido e poeira (material particulado), o que leva à disfunção pulmonar e sintomas respiratórios.

    Sabe-se que fábricas modernas controlam um pouco melhor suas emissões, mas os riscos existem inclusive às comunidades adjacentes e principalmente quando não há monitoramento constante. A vigilância epidemiológica e o monitoramento oficial são fundamentais para a captação rotineira de dados. Mas estas avaliações não se fazem com o mesmo dinamismo ou relevância que o aumento da produção dessas fábricas.

    Audiência Pública Popular em Porto Alegre discutiu os impactos da instalação de uma nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ

    ● Neurotoxicidade e Doenças Orgânicas: Metais pesados (como cádmio, cromo e chumbo) liberados nos efluentes estão associados à neurotoxicidade, doenças cardíacas, doenças renais e inibição do crescimento.

    ● Sistema Digestivo e Endócrino (Via Água e Alimentos) – impacto mais silencioso e de longo prazo (crônico), ligado principalmente à ingestão de água contaminada ou consumo de peixes.

    Para a saúde humana e o ecossistema, a via dos efluentes costuma ser considerada mais perigosa a longo prazo devido à bioacumulação. Compostos Organoclorados (AOX), Dioxinas e Furanos (principalmente em fábricas mais antigas ou sem tecnologia ECF) não se dissolvem bem na água, mas fixam-se na gordura dos peixes. Ao comer o peixe, o humano ingere a toxina concentrada. São substâncias cancerígenas e disruptores endócrinos, podendo causar infertilidade, problemas na tireoide e malformações fetais. Se a captação de água da cidade for abaixo da fábrica (jusante), o tratamento de água torna-se difícil. A presença de fenois pode gerar gosto e odor ruim na água. Toxinas de algas podem causar danos graves ao fígado (hepatotoxicidade).

    ● Saúde Mental e Psicossocial (impacto Invisível) – Muitas vezes ignorado nos laudos técnicos, este é um dos maiores geradores de reclamações em comunidades vizinhas a fábricas de celulose.

    Estresse Crônico e Ansiedade ao viver sob a constante percepção de mau cheiro (“odor de celulose”) ativa mecanismos de estresse no cérebro. Isso eleva os níveis de cortisol e causa insônia, irritabilidade, depressão e sensação de impotência frente à poluição

    ● Perturbação do Sono: tanto o odor forte durante a noite (quando a dispersão atmosférica é pior devido à inversão térmica) quanto o ruído industrial (picadores de madeira, caldeiras) prejudicam o descanso, levando a problemas cardiovasculares a longo prazo.

    ● Saúde Reprodutiva: Efeitos de Disruptores Endócrinos (AOX, dioxinas – especialmente o TCDD, furanos), matéria particulada (especialmente MP 2,5), estão associados a problemas de desenvolvimento do feto, incluindo anomalias congênitas, perda da gravidez e baixo peso ao nascimento. Também estão associados a problemas de fertilidade.

    ● Câncer: Matéria Particulada fina (MP2,5) é classificada como um carcinógeno na Classe 1 pelo IARC (International Agency for Research on Cancer), associado principalmente ao câncer de pulmão e de bexiga. Dioxinas, especialmente o TCDD, e furanos são altamente tóxicos e cancerígenos comprovados (Classe 1 pelo IARC). Desreguladores endócrinos também estão associados à carcinogênese ao alterar ou mimetizar o efeito de hormônios.

    A Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, prevê que as taxas estimadas de incidência de neoplasias para o RS estão entre as mais altas do país. Os tumores de traqueia, brônquios e pulmões têm as taxas mais elevadas do país; tumores de bexiga e tumores hematológicos (Linfoma não Hodgkin, Leucemias e Linfoma de Hodgkin) também têm risco superior à média brasileira, e a incidência de câncer em crianças e adolescentes (0 a 19 anos) no RS é de 168,11 por milhão, seguindo o padrão da região Sul, que detém as maiores taxas estimadas do Brasil para ambos os sexos.

    Os Trihalometanos são produtos do tratamento do papel para branqueamento com o uso de cloro. A reação do cloro com outros compostos presentes na água bruta no momento do tratamento resulta em subprodutos da cloração na água, como os (THM). Os trihalometanos (THM) são compostos de carbono simples que contêm halogênios. Esses incluem vários subprodutos dos processos de cloração da água (SOH – Subprodutos Orgânicos Halogenados). Entre os THMs estão o bromofórmio, o bromodiclorometano, o clorofórmio, o clorodibromometano, o clorodifluorometano, o fluorofórmio e o iodofórmio. Outros subprodutos da desinfecção incluem os ácidos monocloroacético, dicloroacético, tricloroacético e haloacetonitrilas. Esses compostos estão presentes na água potável em quantidades que variam entre microgramas e nanogramas. São produtos frequentemente encontrados nos efluentes de fábricas de celulose no processo de branqueamento que utilizam cloro.

    Após os primeiros trabalhos publicados nos anos de 1970, muitos outros estudos têm sido conduzidos para avaliar a associação entre a exposição aos SOH e diversos potenciais riscos à saúde, como alguns tipos de câncer, doenças cardiovasculares, reprodução e desenvolvimento fetal. Os dados relatados, a princípio, sugerem associação entre câncer de bexiga, cólon e reto e a ingestão de SOH6.

    A exposição à matéria particulada (MP), especialmente, também é preocupante quanto à saúde reprodutiva. Dados de diferentes países, incluindo o Brasil, mostram que a proximidade de residência com minas ou usinas de carvão estão associados à maior probabilidade de perdas gestacionais (natimortalidade), baixo peso ao nascimento e prematuridade. A associação de exposição à matéria particulada de 2,5 micrômetros (MP2,5) também está associada à pré-eclâmpsia na gravidez (aumento da pressão arterial materna).

    Estudos associando defeitos congênitos em recém-nascidos humanos e exposição materna à matéria particulada (MP2,5) mostraram associações com alguns defeitos congênitos, especialmente anomalias cardíacas congênitas, defeitos de tubo neural e fendas labiopalatinas.

    A Tabela 2 apresenta um sumário analítico de trabalhos publicados em que as evidências epidemiológicas de câncer de cólon, reto e bexiga, aborto espontâneo, natimorto, anomalias respiratórias, parto prematuro, feto pequeno para a idade gestacional, anomalias cardiovasculares, baixo peso ao nascer, anomalias no trato urinário, fenda labial e palatina, retardo do crescimento intrauterino, anomalias cromossômicas são associadas à exposição aos SOH. Nas linhas, estão os números de estudos de cada um destes efeitos relacionados com trihalometanos (THM), água clorada, bromofórmio (BF), bromodiclorometano (BDCM), clorofórmio (CF) e ácidos haloacéticos (AHA).

    Foram relacionados 135 trabalhos científicos, realizados ao longo de quase 30 anos (1981 – 2008), cujas pesquisas evidenciaram que os SOH, principalmente quando o cloro é utilizado, estão associados à ocorrência e a efeitos adversos à saúde (mutagênicos, carcinogênicos e teratogênicos).

    O coletivo “ Medicina em Alerta” aponta as seguintes preocupações com o Projeto Natureza:

    ● No Volume 2, TOMO III – Diagnóstico Ambiental – Meio Socioeconômico do Relatório Técnico há uma descrição do sistema de saúde de Barra do Ribeiro e demais cidades afetadas pelo empreendimento. Não há nenhuma referência sobre os impactos à saúde humana resultantes dos produtos químicos emitidos na atmosfera durante a operação, ou tampouco daqueles presentes nos efluentes, nem dos impactos a longo prazo causados pela bioacumulação progressiva de dioxinas e furanos em animais e seres humanos – no ser humano, a meia-vida das dioxinas é estimada entre 7 a 11 anos.

    ● A análise dos sistemas de saúde na cidade do empreendimento e na maioria das cidades vizinhas evidencia a escassez de leitos hospitalares ou de atendimento de urgências. A demanda aumentada não ocorre apenas por grandes acidentes, mas frequentemente pelo aumento crônico da demanda por tratamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e dermatológicas nas comunidades próximas às fábricas e naquelas mais distantes que estarão nas rotas dos ventos predominantes para a dispersão de poluentes. A sobrecarga no sistema de saúde é preocupante, sabendo-se da insuficiência das estruturas que existem na região para atender a demanda atual de doenças crônico-degenerativas e situações agudas de maior complexidade.

    ● Em relação às neoplasias, o Plano de Ação Estadual de Oncologia Triênio 2024-2026, da Secretaria de Saúde estadual, aponta nós críticos na rede de assistência ao paciente oncológico, e cita a necessidade de ampliação dessa assistência. Não há referência ao aumento de casos de neoplasias decorrentes da instalação da fábrica.

    ● O Volume 3 – Avaliação de Impactos Ambientais, Prognóstico Ambiental e Conclusões, apresenta como medidas mitigatórias para o aumento da população instalar hospitais de campanha ou unidades móveis de saúde para aumentar a capacidade de atendimento temporariamente e parcerias com hospitais privados para utilizar leitos disponíveis em caso de necessidade, garantindo atendimento rápido e eficiente, além de estabelecer um Programa de Mitigação de Interferência Urbana que prevê, abordar assuntos como saúde, higiene e segurança no Programa de Educação Ambiental junto à comunidade para situações agudas de acidentes. Tais medidas não parecem suficientes para atender as novas necessidades de saúde – condições agudas que demandam serviços de emergência, e tratamento de doenças crônico-degenerativas, entre elas neoplasias, que requerem estruturação de serviços de maior complexidade.

    ● Já há uma fábrica de celulose em Guaíba; os efeitos do incremento à poluição já lançada pela atual fábrica não estão descritos. Não há também referência à necessidade de estabelecimento de um Plano de Vigilância em Saúde Ambiental para monitoramento dos efeitos da poluição na população exposta. Este é outro impacto na rede de atenção à saúde não dimensionado. Diante de tantas evidências dos impactos da indústria de celulose sobre a saúde humana que não foram contempladas na documentação apresentada para estabelecimento do Projeto, propomos que seja incluída na EIA-RIMA uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS).

    Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Avaliação de Impacto à Saúde é uma metodologia que engloba a identificação, predição e avaliação das esperadas mudanças nos riscos (podendo ser tanto negativas como positivas, individual ou coletivas), causadas por uma política, um programa, um plano ou projetos de desenvolvimento em uma população definida.

    A inclusão de uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS) é um complemento necessário neste projeto porque o licenciamento ambiental padrão (o EIA/RIMA) frequentemente deixa lacunas críticas sobre a saúde humana: Enquanto o EIA foca em “o que sai da chaminé” (se a emissão cumpre a lei), a AIS foca em “quem respira a fumaça” (se as pessoas vão adoecer, mesmo com a emissão dentro da lei).

    A legislação ambiental define limites de emissão, mas uma fábrica pode estar 100% legal e, ainda assim, causar danos à saúde. Os limites legais muitas vezes são médias generalistas que não consideram a sinergia entre poluentes (o “coquetel químico”) ou as condições climáticas locais (como a inversão térmica no inverno do RS, que prende a poluição no nível do solo). A AIS avalia o risco biológico real, não apenas a burocracia do número.

    O odor crônico (TRS) não é somente um “cheiro ruim” – gera estresse, ansiedade, insônia e náuseas. A saúde, pela definição da OMS, é o “completo bem-estar físico, mental e social”, não apenas a ausência de doença. A AIS quantifica esse impacto na qualidade de vida e saúde mental da comunidade vizinha.

    Além disso, o licenciamento ambiental trata a população como homogênea. Uma concentração de material particulado (MP2,5) que não afeta um adulto saudável pode ser gatilho para crise de asma em uma criança ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica em um idoso. A AIS identifica quem vive na direção do vento (pluma de dispersão). Se houver escolas, hospitais ou bairros de baixa renda (que já têm saúde precária) nessa zona, a fábrica precisa propor medidas de proteção extras.

    A Avaliação de Impacto à Saúde atua como uma ferramenta preventiva e de transparência fundamental, pois conecta os dados técnicos de engenharia — como emissões atmosféricas e efluentes líquidos — diretamente aos desfechos na vida humana, permitindo identificar riscos invisíveis no licenciamento ambiental comum.

    Ao simular cenários de exposição, a AIS obriga o empreendedor a adotar as Melhores Tecnologias Disponíveis” (BAT) para reduzir a carga tóxica como a substituição do cloro no branqueamento antes mesmo da construção, garantindo uma operação menos poluente. Simultaneamente, ela traduz a complexidade química em informações acessíveis sobre morbidade e qualidade de vida, empoderando a comunidade local para que participe das audiências públicas não apenas com base no medo ou na promessa de empregos, mas com conhecimento científico claro para negociar contrapartidas, exigir monitoramento contínuo e decidir sobre a aceitabilidade do projeto com autonomia real.

    * Assinam este documento pelo coletivo Medicina em Alerta

    Helena Barreto dos Santos, Médica Internista CREMERS- 18044,

    Lavínia Schüler Faccini, Médica Geneticista – CREMERS 13.269,

    Roberto Targa Ferreira, Médico Pneumologista, CREMERS 10887,

    Suzane Cerutti Kummer – Médica Pediatra CREMERS 18226,

    Rafaela Brugalli Zandavalli, Médica de Família e Comunidade, CREMERS 43067,

    Olga Garcia Falceto, Psiquiatra da Infância e Adolescência – CREMERS 5446,

    Elisabeth Susana Wartchow – Médica de Família e Comunidade CREMERS 11767,

    Enrique Falceto de Barros – Médico de Família e Comunidade – CREMERS 31955,

    Anna Cláudia Dilda, – Médica de Família e Comunidade – CREMERS 47020,

    Alexandre Bublitz, Médico Pediatra – CREMERS 38807,

    Soraya Malafaia Colares, Médica Pediatra – CREMERS 14372,

    Bianca Machado da Cruz, Mëdica Emergencista – CREMERS 43515,

    Paulo Zambrano Wageck, Médico Ortopedista e Traumatologista – CREMERS 26250,

    Mayara Floss, Médica de Família e Comunidade – CRMSC 24848, e

    Roselaine Murlik – Médica de Família e Comunidade – CREMERS 26629.

  • 13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

    13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    No calendário das datas cívicas, o 13 de abril passa quase em silêncio, como um acorde sustentado que poucos escutam até o fim. Não há fogos, não há desfiles grandiosos, não há a coreografia ensaiada das celebrações que se impõem ao olhar. Há, antes, uma espécie de pausa — um intervalo discreto em que repousa a memória de uma música que atravessou o tempo como um rio paciente, desses que contornam pedras sem jamais deixar de seguir. É o Dia Nacional do Hino Brasileiro, e há algo de profundamente simbólico nessa discrição: celebramos um canto que nasceu para unir, mas que hoje, tantas vezes, ecoa como território em disputa.

    Antes de ser grito de multidão, o hino foi sussurro de criação. Em 1831, quando o Brasil ainda tateava sua própria identidade como quem aprende a reconhecer o próprio rosto no espelho, Francisco Manuel da Silva compôs uma melodia para retratar um país em formação — instável, grandioso, cheio de promessas e contradições. Décadas depois, as palavras de Joaquim Osório Duque Estrada vieram como uma segunda camada de sentido, vestindo a música com imagens de bravura, natureza e destino. Não era apenas uma canção: era uma tentativa — talvez impossível, talvez necessária — de dizer, em som e verso, o que significava existir como povo.

    E, no entanto, nosso hino nunca foi simples. Há nele uma grandiosidade que beira o excesso, como se cada palavra precisasse erguer uma estátua, como se cada verso carregasse a responsabilidade de eternizar uma ideia de pátria. “Margens plácidas”, “brado retumbante”, “lábaro estrelado” — o Brasil ali é mais horizonte do que chão, mais promessa do que realidade. Talvez seja justamente por isso que ele persista: porque não descreve o que somos, mas insiste, teimosamente, no que ainda poderíamos ser.

    Mas toda beleza, quando deslocada, corre o risco de endurecer.

    Nos tempos recentes, o hino tem sido capturado por vozes que já não querem cantar — querem delimitar. Ele surge em manifestações carregadas de tensão, entoado não como convite, mas como exigência. Canta-se para marcar território, para distinguir quem pertence e quem deve ser colocado à margem. Quem não canta, suspeito é; quem hesita, já se torna alvo. E assim, aquilo que nasceu como ponte vai sendo lentamente erguido como muro, pedra sobre pedra, nota sobre nota, até que o som já não acolhe — apenas separa.

    Há uma violência sutil nesse processo, quase invisível para quem não se detém a escutar com atenção. Não se trata da destruição do símbolo, mas de sua torção. O hino permanece reconhecível, intacto em sua melodia, mas deslocado em seu sentido mais profundo. A música que deveria abraçar passa a excluir. O canto coletivo se transforma em coro disciplinado, rígido, onde não há espaço para variações, apenas para repetição.

    E talvez o mais trágico seja que esse processo empobrece não apenas o debate político, mas a própria experiência cultural. Reduzir o hino a instrumento ideológico é como transformar poesia em palavra de ordem: perde-se a ambiguidade, o mistério, a abertura que permite múltiplas leituras. O que antes era interpretação vira obediência. O que antes era emoção compartilhada se converte em teste de fidelidade.

    Ainda assim, o hino resiste — e talvez resista justamente por não caber inteiro em nenhuma tentativa de controle.

    Resiste nas escolas onde crianças tropeçam nas palavras difíceis e ainda assim seguem cantando, inventando sentidos próprios. Resiste nos momentos em que alguém, sozinho, escuta sua melodia e sente algo que não sabe nomear — uma mistura de pertencimento e estranhamento, de orgulho e dúvida, de proximidade e distância. Resiste porque não pertence a quem grita mais alto, mas a quem ainda é capaz de escutar o que há de humano por trás das notas.

    Porque o hino, no fundo, nunca foi sobre unanimidade. Foi — e talvez ainda seja — sobre convivência. Sobre a difícil tarefa de existir junto, apesar das diferenças, apesar das discordâncias, apesar das fissuras que insistem em atravessar o tecido social. Ele não exige concordância plena; exige presença. Não impõe uma única voz; pressupõe um coro imperfeito, feito de contrastes.

    Neste 13 de abril, celebrar o Hino Nacional talvez seja justamente recusá-lo como instrumento de imposição. É devolvê-lo ao seu estado mais frágil — e, por isso mesmo, mais poderoso: o de canto. Um canto que não apaga conflitos, mas também não os transforma em trincheiras. Um canto que não define quem é mais brasileiro, mas pergunta, com delicadeza e inquietação, o que significa ser.

    E talvez, no fim, seja essa a verdadeira subversão: cantar sem ódio em tempos repletos de gritos, ouvir sem medo em meio ao ruído, reconhecer no outro não um inimigo, mas uma voz possível dentro do mesmo coro incompleto.

    Porque o hino pode até ser apropriado por alguns por um tempo — mas nunca será totalmente possuído. Ele escapa pelas brechas, ressoa nos lugares inesperados, reaparece onde menos se espera. Ele se reinventa na escuta de quem ainda acredita que o país não é propriedade, mas construção.

    E, apesar de tudo — das disputas, dos ruídos, das tentativas de captura — ele permanece.

    Não como ordem.
    Não como prova.
    Mas como canto.

  • O candidato de si mesmo

    O candidato de si mesmo

    Sem emplacar nacionalmente, Leite pode ficar quatro anos sem mandato. Foto João Pedro Rodrigues/SecomRS

    ELMAR BONES

    Ninguém é candidato de si mesmo. Essa é a regra não escrita da política partidária, que as velhas raposas não cansam de repetir aos novatos. Eduardo Leite parece não tê-la aprendido. Ele não tem sido outra coisa desde que ultrapassou os umbrais do Piratini em 2019, aos 33 anos.

    Por melhor que seja, o candidato tem que esperar sua hora – é a outra leitura que se pode fazer da regra partidária.

    Em 2022, ainda no PSDB, Leite tentou atropelar João Dória, então governador de São Paulo, para lançar-se à presidência da República. Sua aventura nacional morreu na praia.

    Agora, está inconformado porque foi preterido por Ronaldo Caiado, como candidato do PSD ao Planalto. Restará a ele o papel de cabo eleitoral, tentando impulsionar a candidatura estadual de seu vice, Gabriel Souza.

    É evidente que ele tem “mais perfil” do que Caiado para ser a “terceira via”, que é o candidato que a oposição está buscando para barrar o Lula 4.

    Mas Caiado governa Goiás, que é um estado ascendente no contexto brasileiro. Registrou o maior índice de crescimento no país em 2025.

    Leite governa um Rio Grande do Sul estagnado, para não dizer decadente. Nos últimos 25 anos, o RS caiu do 2º para o 6º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

    Eduardo Leite conseguiu a façanha de se reeleger governador, fato inédito na história política do Estado. Mas, em suas duas gestões, em vez de reverter o processo de queda, aprofundou-o.

    No primeiro mandato, deu continuidade à obra devastadora de Ivo Sartori, que extinguiu fundações e centros de pesquisa em nome do equilíbrio fiscal, até hoje não alcançado ou precariamente alcançado através da venda de patrimônio e cortes de investimentos essenciais. A enchente, “a maior da história”, de certa forma, mascarou problemas estruturais e, mobilizando investimentos federais, turbinou o PIB estadual em 2024. Em 2025, já voltou a crescer abaixo da média brasileira.

    Quem sabe, por sua condição de perpétuo candidato, perdeu também a oportunidade de obter melhores condições para a dívida com a União, que extrapolou.

    Enfim, Eduardo Leite é uma liderança ainda em ascensão numa democracia carente – tem muito terreno pela frente. Precisa sopitar sua ambição. Terá, agora, quatro anos sem mandato para refletir.

    Obs: Sim, houve um abaixo-assinado defendendo seu nome, mas uma candidatura à presidência não se faz com uma lista de amigos e admiradores, por mais influentes que sejam.

  • O Centro (Histórico) de Porto Alegre

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    Porto Alegre, nove horas da manhã do dia 30 de março de 2026. No “coração” do Centro – que já foi histórico em tempos passados, e limpo -, em um trecho de cerca de 500 metros, entre as ruas General Câmara e Senhor dos Passos, existem mais de 50 imóveis comerciais de porta de rua fechados, a maioria com placas de aluga-se. 

    Só na Rua da Praia são 30. Eram 45 vazios no ano passado, mas notei novos ‘xing lings’ na Andradas. 

    Se estender a caminhada pela avenida Independência, da Santa Casa até a Ramiro Barcelos, dá para acrescentar mais uns 15 imóveis de calçada com as cortinas cerradas. Isso, sem contar os inúmeros imóveis comerciais e residenciais vazios nos prédios, andares acima. 

    Soube que vários escritórios de advocacia debandaram na região. Fato que abalou cafés, bares e restaurantes. Um Centro desabitado e pouco frequentado se torna um risco para a segurança da população e do patrimônio.

    Na Borges, mais imóveis fechados e a restauração do viaduto Otávio Rocha é um suspiro de alívio.

    Enfim, o salvador da pátria do Centro, o bravo Mercado Público, que garante o maior movimento, com ou sem goteiras. Ah, e o charmoso Chalé da Praça XV, com seu entorno sinistro.

    O Centro desta pequena cidade grande, como dizia Mário Quintana, carece de ​muito mais atenção.

  • É preciso defender o Jardim Botânico de Porto Alegre

    É preciso defender o Jardim Botânico de Porto Alegre

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    O Jardim Botânico de Porto Alegre (JBPA) tem 67 anos e é considerado um dos cinco melhores e maiores do Brasil. Possui 28 coleções científicas que somam mais de 4.200 plantas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, que são encontradas apenas no RS. No local há animais silvestres, entre mamíferos, répteis, anfíbios e peixes, e mais de 100 espécies de aves.

    Em 2003, o JBPA foi declarado Patrimônio Cultural do Estado (Lei nº 11.917). O que não dá para aceitar é que até hoje esse museu vivo da flora rio-grandense não faça parte do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.

    Um projeto do então vereador Marcelo Sgarbossa, do PT na época, propôs em 2017 o tombamento do imóvel, o que impediria quaisquer alterações que descaracterizassem o Jardim Botânico. A proposta foi analisada por duas comissões, mas não chegou a ser votada no plenário da Câmara Municipal. 

    Aquele espaço de conservação já perdeu mais da metade dos 81,5 hectares de sua área original, desde que foi criado em 1958. Restaram 36 ha. Alguns falam em 39ha porque incluem a área ao lado, onde a Fepam mantinha laboratórios. Hoje, uma parte daquele espaço é usada como depósito de veículos oficiais. Em outra parte do terreno, nos fundos, há coleções arbóreas.

    Acompanhei todo o processo de extinção da Fundação Zoobotânica do RS, a partir de agosto de 2015, decidida pelo tenebroso governo José Sartori e apoiada pelos vendilhões do templo, praticamente os mesmos de sempre. Publiquei mais de 60 reportagens sobre o JBPA, o Museu de Ciências Naturais e o Parque Zoológico. As três instituições estavam amparadas pela FZB. Rendeu o livro Patrimônio Ameaçado (Editora JÁ).

    Abraço simbólico na Fundação ocorrido em 11 de agosto de 2015. Foto: Cleber Dioni Tentardini/JÁ

    Até 2014, estava na presidência da fundação a geógrafa Arlete Pasqualetto, que permaneceu durante toda a gestão Tarso Genro. Inclusive, naquele ano foi produzida a última “Lista Vermelha”, de espécies ameaçadas de extinção, uma obrigação legal que o Estado vem descumprindo. Em 2015, com o novo governo, do MDB, assumiu a FZB o geólogo José Wenzel, analista ambiental da Fepam na época, e como era um defensor daquele espaço de conservação, durou seis meses apenas.

    Com o fim da FZB, cessaram as verbas de instituições nacionais e internacionais para grandes projetos e pesquisas científicas, trabalhos que levaram a fundação a ser reconhecida mundialmente. Recursos valiosos que eram usados inclusive para manutenção dos acervos e do seu patrimônio material. Com orçamento reduzido, até uma reforma no telhado do prédio do Museu demorou dez novelas. Ficou pronto, enfim. Pelo menos não chove mais dentro das salas.

    O governo Leite gastou os tubos para elaborar editais para concessão à iniciativa privada do JBPA, do Museu e Zoo. No leilão do Zoo, ninguém deu nem um punhado de alfafa como lance. Depois, vieram os projetos mirabolantes para o JBPA e o Museu, com seu riquíssimo acervo. Estiveram por lá a convite do governo estadual, por exemplo, administradores do Bondinho do Pão de Açucar, da Opus – a gigante do entretenimento pertencente à família Zaffari, entre outros anônimos. Nenhuma informação a respeito e, como se sabe, a falta de transparência dá margem a boatos e levantou-se a hipótese de o Zaffari querer construir um grande centro cultural ou um shopping Bourbon no local. O diz que me disse ganhou volume e obrigou o grupo supermercadista a emitir nota à imprensa, agora sim, informando que isso tudo era fantasioso. Na verdade, o empreendimento existe, o tal Belvedere, e está sendo construído a duzentos metros do JB, ladeira acima na Tarso Dutra, continuação da Salvador França.    

    A atual diretoria do JBPA faz malabarismos com os parcos recursos. Sem autonomia, com o orçamento acorrentado ao cofre da administração direta do governo, através da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA), o futuro da área continua incerto. Afinal de contas, a quem interessa essa vulnerabilidade?

    É preciso entender que o ​Jardim Botânico não é um mero espaço de lazer, um simples depósito de plantas ou um parque para a iniciativa privada instalar uma roda gigante e terceirizar a venda de hambúrguer em contêiner.

    O JB ​​é um guardião de espécies ​​​raras e ameaçadas de extinção​ de plantas e árvores nativas do Rio Grande do Sul​, com banco de sementes e viveiro valiosíssimos e um espaço sem igual na cidade para ações de educação ambiental. Assim como o Museu de Ciências Naturais, que possui o maior acervo de material-testemunho da biodiversidade tanto terrestre como aquática do Estado. Isso é motivo não só para comemorar, mas também para defender.

  • A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

    A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

    ELMAR BONES

    No dia 16 de março de 1972 foi inaugurada a Indústria de Celulose Borregaard, em Guaíba, com a presença das mais altas autoridades e manchetes ufanistas em todos os jornais.

    Inauguração da fábrica em Guaíba, no ano de 1972. Foto Reprodução Arquivo/CeluloseRioGrandense

    Seria uma das maiores fábricas em território gaúcho, a consolidação do Rio Grande do Sul industrial, milhares de empregos, milhões em impostos, além de avanços tecnológicos, etc.

    Reprodução do jornal Zero Hora.

    “Um dos marcos do novo Rio Grande do Sul, que se prepara para ser a segunda potência industrial do Brasil”*, conforme o editorial do jornal Zero Hora no dia da inauguração.

    Só depois, quando o cheiro de ovo podre se espalhou sobre a cidade, inclusive sobre os donos dos jornais, é que se foi dar ouvido aos alertas de José Lutzenberger e seus companheiros da recém-criada Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

    Aí, a imprensa foi descobrir o parecer do químico Milo Rafin, da Universidade Federal, que muito antes alertava para as emissões sulfurosas e para os efluentes tóxicos que seriam lançados nas águas do Guaíba.

    Na sequência, descobriu-se que o grupo norueguês, dono do empreendimento, recebera isenção de impostos e financiamento de bancos estatais**, mas não providenciara um estudo de impacto ambiental abrangente para construir a fábrica.

    Em dezembro de 1973, ante o clamor popular, a Borregaard foi fechada. Uma vitória da comunidade porto-alegrense. Só foram retomados os trabalhos com novos filtros, que a fábrica foi obrigada a instalar, e os cuidados com as emissões lançadas no ar e os efluentes despejados no Guaíba. Os sistemas de tratamento de resíduos sólidos, projetados pelo próprio Lutzenberger, fazem parte dessa conquista.

    Hoje a empresa se jacta de manter os mais rigorosos controles (não há dados técnicos divulgados sobre isso), mas esses níveis de precaução não foram alcançados espontaneamente. Foram conquistados pela pressão da comunidade, alarmada ante os danos evidentes.

    Agora em março de 2026, 54 anos depois da inauguração da Borregaard, estamos diante de uma situação semelhante, guardadas as devidas proporções.

    A fábrica da Borregaard, inaugurada em março de 1972, tinha capacidade para 190 mil toneladas/ano. A planta atual, em Guaíba, depois de passar por cinco donos, sempre em expansão, chega aos 2 milhões de toneladas de celulose por ano.

    A ela vai se somar a nova fábrica que se projeta construir a poucos quilômetros, na Barra do Ribeiro, com capacidade de produzir 2,5 milhões de toneladas/ano. É saudada nas manchetes como “o maior investimento da história do Rio Grande do Sul” – de 25 bilhões de reais, milhares de empregos, milhões em impostos, a redenção econômica do Estado. 

    A empresa que toca o projeto atual, CMPC, uma multinacional chilena, até ganhou um prêmio como a marca mais identificada com a defesa do meio ambiente. 

    Enquanto isso, as vozes que se levantam, de pesquisadores, ambientalistas e do próprio Ministério Público, questionando a falta de transparência quanto aos impactos sociais e ambientais do projeto, são silenciadas.

    Assim como foi Milo Rafin, cujo parecer foi ignorado pelas redações de todos os jornais, aos quais ele enviou cópia.

    O novo megaprojeto, até agora, foi submetido ao debate em uma única audiência pública, em Barra do Ribeiro, com maioria recrutada pela empresa.

    A recomendação do MP de que se suspenda o processo de licenciamento ambiental em andamento, para que os impactos do projeto sejam amplamente debatidos, foi prontamente atacada pelos empresários. A nota da Fiergs, manifestando “surpresa e preocupação” foi antecipada pelo colunismo oficial. 

    O cheiro de ovo podre, que se espalhou sobre Guaíba e até Porto Alegre, denunciou a Borregaard em 1972.

    Em 2026, há filtros eficientes para que a população não seja alertada pelo olfato.

    Os efeitos das descargas tóxicas nas águas do Guaíba serão imperceptíveis durante muito tempo.

    Quando as consequências aparecerem, talvez seja tarde demais.

    *Naquela época o RS ainda disputava com Minas Gerais a colocação de 3º Estado mais industrializado do país, atrás de SP e Rio, apenas. Hoje no ranking dos estados mais industrializados do IBGE aparece em 8º lugar.

    *O BNDES era sócio, com 43% do capital. A empresa norueguesa, controladora, tinha apenas 32% do capital. Até o governo do Estado era acionista minoritário.

    Leia mais: Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    Especialistas apontam para ‘graves impactos ambientais’ com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    MPF recomenda suspender licenciamento de indústria de celulose da CPMC em Barra do Ribeiro

    E reportagem da Agência Pública: No Rio Grande do Sul, projeto de celulose de R$ 25 bilhões ameaça indígenas e o rio Guaíba

  • Entrevista com Leonel Brizola: Como nascem as falsificações históricas

    SILVANA MOURA

    Mais do que direito à História, temos o direito à verdade da História, para evitar um passado falsificado, supostamente “limpo”, eivado de manipulação e pretensa uniformidade.

    Em 1996 realizei, em Carazinho, uma Entrevista de História Oral (sou Historiadora e trabalho com História Oral há 40 anos) com Leonel Brizola, em companhia do também historiador Ney Eduardo Possapp d’Ávila.

    A entrevista, com duração de 4h20min, permaneceu inédita até que, há dois anos, por mediação do professor doutor Nildo Domingos Ouriques, presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, a Editora Insular se interessou pela publicação.

    Foi então que Juliana Brizola e Rejane Guerra, jornalista carioca e amiga pessoal de Juliana, contataram o editor Nelson Rolim de Moura e o ameaçaram com outra publicação, alegando ter uma cópia impressa da entrevista entregue por Romeu Barleze a Brizola. Quem trabalha com História Oral sabe que o documento, em História Oral, são as fitas gravadas, que sempre estiveram em minha posse.

    Juliana, sob alegação de ser neta de Brizola, exigiu que seu nome e de sua amiga constassem na capa da publicação como “Organizadoras”, o que, de fato, agora se verifica.

    Juliana Brizola e Rejane Guerra tiveram êxito em seu intento, e a publicação estará à venda a partir de 10 de março próximo, com lançamentos agendados em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Carazinho (terra natal de Brizola e minha) e outros tantos lugares no RS e no Brasil.

    Matérias mentirosas e que omitem meu nome estão sendo espalhadas nos principais jornalões do país, como Zero Hora e O Globo, suponho que alimentadas pela assessoria de Juliana Brizola.

    Em uma matéria de O Globo consta que as fitas originais foram encontradas em Florianópolis com o Editor Nelson Rolim de Moura, como se tivessem ido passear em Floripa.

    As fitas originais sempre estiveram comigo; são únicas e foram levadas para Florianópolis pelo professor Nildo Ouriques, a meu pedido, e entregues ao editor em fevereiro de 2024.

    Que lambança histórica promovem estas duas senhoras, Juliana Brizola e Rejane Guerra. Não bastasse terem se apropriado de minha produção intelectual, agora disseminam histórias incorretas, distorcidas e prenhes de falsificações.

    Um desserviço à ética e uma apologia à impostura.

  • Feminicídio, nova campanha vai mostrar o agressor

    MÁRCIA TURCATO

    O governo federal relançou em fevereiro o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. É um “relançamento” porque o pacto nasceu em 2023 e não colheu resultados. A nova estratégia de comunicação da campanha muda a linguagem ao colocar o foco não mais na vítima, a mulher, mas no agressor, o homem. Desde que o crime de feminicídio foi definido há 10 anos, as campanhas de publicidade exibidas nas mídias mostravam a imagem de mulheres agredidas, vulneráveis. TV e outdoor, até então, não mostravam imagens de homens recriminados ou presos.

    A mudança não é apenas estética, é de conceito. A imagem de mulheres em situação de vulnerabilidade, a maioria delas com um olho roxo, parece estimular e banalizar a violência. É como se colocasse em primeiro plano a opção pelo espancamento. “Ao retirar o foco da vítima, a campanha apela à sociedade que assuma um papel ativo na prevenção e na denúncia de violências contra as mulheres”, explica José Augusto Nigro, vice-presidente da agência Calia, que produziu a campanha.

    O filme, que será veiculado após o carnaval, mostra o homem agressor sendo criticado nos locais que frequenta. O objetivo é interromper a rotina de violência que milhares de mulheres são submetidas não somente dentro de suas casas mas também em locais públicos. A produção é da agência Calia, que atende a Secretaria de Comunicação do governo federal.



    Crime em Goiás

    “Papai ama vocês”. Essa foi a declaração do pai assassino dos filhos de 12 e 8 anos, publicada numa rede social, pouco antes de matar as crianças e cometer o suicídio. Aconteceu no interior de Goiás na madrugada do dia 12 de fevereiro. O assassino deixou uma carta responsabilizando a ex-esposa pela motivação do crime brutal. O ato mostra o nível de crueldade cometido pelo criminoso, que tirou a vida dos próprios filhos e deixou a ex-companheira num luto sem fim. Gravíssima também é a reação da sociedade local que adotou a versão do assassino e impediu que a mãe enlutada participasse do velório de seus filhos. O ato mostra o tanto que a sociedade aprova o machismo e acaba pactuando com o crime.

    Situação no RS e Brasil

    No primeiro semestre de 2025, no Rio Grande do Sul, uma em cada cinco prisões foi decretada por violência doméstica. O número de prisões por esse tipo de crime no RS subiu 99% em oito anos, passando de 1.341 no primeiro semestre de 2017 para 2.677 no mesmo período de 2025. Os números são da Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica Contra a Mulher (Cevid) do TJ-RS.

    De acordo com relatório apresentado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS), relatora da Comissão Externa da Câmara Federal sobre os Feminicídios ocorridos no Estado do Rio Grande do Sul, de 2020 ao primeiro semestre de 2025, 660 crianças e adolescentes ficaram órfãs de mães, que foram vítimas de feminicídio, na maioria dos casos praticado pelo companheiro ou ex-companheiro.

    No relatório, a deputada cita 95 propostas para viabilizar o compromisso dos governos federal e estadual na redução das mortes de mulheres. O relatório da Comissão Externa deve ser apresentado e votado na Câmara dos Deputados, em Brasília, ainda em fevereiro.

    A deputada diz que não há política profunda e articulada no Rio Grande do Sul e no Brasil para interromper as mortes por feminicídio. Maria do Rosário anunciou que as deputadas federais irão apresentar um projeto de lei para ampliar o Fundo Nacional de Segurança Pública para combate ao feminicídio nos estados, mas enfatizou que os governos municipais, estaduais e federal precisam assumir compromisso com a causa.

    No Brasil, os casos de feminicídio também cresceram. O país atingiu o número recorde de 1.518 vítimas em 2025, ano em que a sanção da Lei do Feminicídio completou dez anos. No ano anterior, 2024, o país também já havia atingido recorde, com 1.458 mulheres assassinadas.