Categoria: Análise&Opinião

  • Entre o compromisso ético da amizade e a omissão silenciosa

    Uma amizade que se retrai diante da possibilidade concreta de promover o outro revela, em última instância, que seu vínculo está condicionado a certas fronteiras invisíveis.

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há uma forma silenciosa — e, por isso mesmo, profundamente reveladora — de medir o valor de uma amizade: não pelas palavras trocadas nos momentos de conforto, nem pelas risadas compartilhadas quando tudo parece leve, mas pela disposição concreta de sustentar o outro quando ele se encontra diante de suas próprias possibilidades ainda não realizadas. A amizade verdadeira, nesse sentido, não é apenas um espaço de acolhimento emocional; é também um território de responsabilidade mútua.

    Há quem pense que reconhecer o talento de um amigo já constitui, por si só, um gesto suficiente de generosidade. E, de fato, há algo de importante nisso: ser visto por alguém que nos conhece intimamente tem um valor quase ontológico, pois confirma que aquilo que intuímos sobre nós mesmos não é uma ilusão isolada. Contudo, o reconhecimento restrito ao círculo afetivo pode se tornar, paradoxalmente, uma forma sutil de limitação. O talento que não encontra passagem para o mundo permanece como potência estagnada — e a potência que não se realiza tende, com o tempo, a se transformar em frustração.

    É aqui que a amizade revela sua dimensão mais exigente. Apoiar um amigo não é apenas dizer “você é capaz”, mas perguntar: “como posso ajudar para que o mundo também veja isso?”. Essa mudança de perspectiva desloca a amizade do campo da contemplação para o campo da ação. Ela exige iniciativa, envolvimento e, sobretudo, uma certa dose de coragem. Porque, ao criar oportunidades para o outro, o amigo assume um papel ativo na transformação da vida alheia — mesmo que isso implique riscos, exposição e, por vezes, sacrifícios.

    Vivemos em uma cultura que frequentemente celebra o sucesso individual como fruto exclusivo do mérito pessoal. No entanto, essa narrativa ignora um aspecto fundamental da experiência humana: ninguém se realiza sozinho. Por trás de cada trajetória que se torna visível, há sempre uma rede — explícita ou invisível — de pessoas que, em algum momento, abriram portas, indicaram caminhos, ofereceram suporte. A amizade, quando levada a sério, é uma das formas mais nobres dessa rede.

    Mas há um ponto ainda mais delicado nessa reflexão. Nem todo apoio é, de fato, apoio. Há amizades que, sob o disfarce de proteção, mantêm o outro em um espaço confortável, porém limitado. Evitam expô-lo ao julgamento externo, ao risco do fracasso, à dureza do mundo. Embora isso possa parecer cuidado, muitas vezes é apenas uma forma de preservar a própria dinâmica da relação — uma tentativa inconsciente de manter o outro próximo, acessível, dependente. Nesse caso, a amizade deixa de ser um impulso para o crescimento e se torna um mecanismo de contenção.

    A verdadeira amizade, ao contrário, aceita — e até incentiva — a possibilidade de distanciamento que o crescimento pode trazer. Ela compreende que ajudar o outro a alcançar novos espaços significa, inevitavelmente, alterar a configuração da relação. E, ainda assim, escolhe apoiar. Esse é um gesto raro, porque exige desapego e maturidade emocional.

    Há, portanto, uma ética implícita na amizade autêntica: a ética da promoção do outro. Não se trata de anular a si mesmo, nem de transformar a relação em um projeto unilateral de investimento. Trata-se de reconhecer que o vínculo se fortalece quando ambos se comprometem com o florescimento mútuo. Nesse sentido, oferecer oportunidades não é um favor; é uma extensão natural do reconhecimento do valor do outro.

    É interessante notar que, muitas vezes, o próprio indivíduo tem dificuldade de reivindicar seu espaço no mundo. Inseguranças, medos e condicionamentos sociais atuam como barreiras invisíveis. O amigo, então, assume uma função quase mediadora: ele enxerga com mais clareza aquilo que o outro ainda hesita em afirmar. E, mais do que enxergar, ele age. Indica, apresenta, recomenda, insiste. Esse conjunto de pequenas ações, frequentemente invisíveis para quem observa de fora, pode ser decisivo para que um talento encontre seu lugar.

    No fundo, a amizade verdadeira opera como uma espécie de testemunho ativo. Ela não apenas afirma “eu sei quem você é”, mas também se compromete com a tarefa de fazer com que essa verdade encontre ressonância no mundo. Há algo de profundamente ético — quase político — nesse movimento, pois ele rompe com a lógica da indiferença e da competição pura, substituindo-a por uma lógica de cooperação e cuidado.

    Talvez seja por isso que amizades desse tipo sejam tão transformadoras. Elas não se limitam a acompanhar a vida; elas participam da sua construção. E, ao fazê-lo, criam uma espécie de memória compartilhada do crescimento: cada conquista de um se torna, em alguma medida, também a conquista do outro.

    Em última análise, o valor da amizade não reside apenas na presença, mas na implicação. Estar presente é importante, mas implicar-se é o que realmente diferencia o vínculo superficial do vínculo profundo. Implicar-se é agir em favor do outro mesmo quando não há garantias, mesmo quando o reconhecimento não será imediato, mesmo quando o esforço não será visível.

    E talvez seja justamente aí que a amizade encontra sua forma mais elevada: quando deixa de ser apenas um espaço de afeto e se torna um compromisso com o vir-a-ser do outro. Porque, no fim das contas, ser amigo de alguém é, em alguma medida, assumir a responsabilidade de não permitir que aquilo que ele pode ser permaneça apenas como possibilidade.

    Entretanto, há uma zona ética ainda mais desconfortável, frequentemente evitada: a dos amigos que, podendo agir, escolhem não fazê-lo. Não se trata aqui daqueles que não possuem meios ou condições reais de ajudar, mas daqueles que detêm algum grau de influência, acesso ou capacidade de intermediação e, ainda assim, permanecem inertes. Essa inércia raramente se apresenta como negligência explícita; ela costuma se esconder sob justificativas plausíveis — a falta de tempo, o receio de se expor, o medo de comprometer sua própria posição. No entanto, quando analisada com rigor, essa omissão revela uma fissura naquilo que se poderia chamar de compromisso ético da amizade.

    Em muitos casos, essa recusa em agir não nasce da indiferença pura, mas de um conflito mais sutil: a tensão entre o desejo de ver o outro crescer e o desconforto diante das implicações desse crescimento. A ascensão de um amigo pode provocar comparações silenciosas, deslocamentos de identidade e até a sensação de perda de um certo equilíbrio relacional previamente estabelecido. Assim, ao não oferecer a oportunidade que está ao seu alcance, o indivíduo preserva não apenas sua zona de conforto, mas também uma hierarquia implícita que o favorece. Trata-se, portanto, menos de uma falha de caráter isolada e mais de um mecanismo humano — embora eticamente questionável — de autopreservação.

    Reconhecer essa dinâmica não implica condenar sumariamente tais amizades, mas exige uma reavaliação honesta de seus limites. Uma amizade que se retrai diante da possibilidade concreta de promover o outro revela, em última instância, que seu vínculo está condicionado a certas fronteiras invisíveis. E talvez a questão mais importante não seja se todos somos capazes de oferecer oportunidades, mas se estamos dispostos a enfrentar o desconforto que isso implica. Pois é justamente nesse ponto — onde o apoio deixa de ser abstrato e se torna ação com consequências reais — que a amizade se define em sua forma mais autêntica ou se revela, silenciosamente, insuficiente.

  • CMPC: Nova fábrica, velhos impactos?

    EDUARDO RAGUSE*


    Por volta das 13h40, do dia 05 de maio de 2026, ocorreu a despressurização de emergência da caldeira da fábrica de celulose da empresa CMPC, no município de Guaíba.

    O evento causou grande susto e apreensão entre os moradores do entorno da indústria devido ao ruído fortíssimo, odor e grande quantidade de emissões atmosféricas (com chuvisqueiro nas casas dos moradores). Há relatos de pessoas com dor nos ouvidos, dor de cabeça e mal-estar, e de animais domésticos assustados. Apesar da empresa informar em comunicado aos moradores de que a situação se normalizaria em aproximadamente 20 minutos, a duração foi de cerca de uma hora.

    A despressurização é uma ação emergencial para evitar acidentes maiores como rompimentos, vazamentos ou explosão, e segundo informações extraoficiais, teria sido
    realizada por ter sido encontrada uma “rachadura” em alguma das estruturas do equipamento. Em resposta aos diversos moradores que acionaram o número de
    Emergência Ambiental da FEPAM, o órgão ambiental respondeu: “A CMPC informou que tiveram que realizar esse procedimento de forma emergencial visto suspeita de vazamento da caldeira”.

    Não é a primeira vez que ocorrem episódios de emergência na empresa, principalmente após a quadruplicação de sua capacidade produtiva, ocorrida em 2015, autorizada através de um licenciamento ambiental que se mostrou, se não completamente equivocado tecnicamente, com muitos limites que deveriam ser revistos, já que claramente o ambiente local demonstra não ter capacidade de suporte para os riscos e impactos causados, que foram objeto de muito enfrentamento de moradores locais, e até processo judicial por crime ambiental, situação que foi acomodada através de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado pela CMPC com o Ministério Público, e por uma compra estratégica de casas de parte destes moradores pela empresa.

    Segue um pequeno histórico:

    Em maio de 2015, cinco trabalhadores da empresa foram hospitalizados e a empresa fechada pela FEPAM após vazamento de dióxido de cloro.

    Em maio de 2016, dez funcionários foram levados a atendimento médico após vazamento do mesmo gás.

    Em fevereiro de 2017 houve um acidente grave nesta mesma caldeira, inaugurada há menos de dois anos, levando à paralização total da fábrica nova até novembro de 2017. O caso foi parar em uma disputa judicial entre a empresa e a seguradora Mapfre, que teve que pagar R$ 1,1 bi de indenização.

    Em fevereiro de 2019 um trabalhador morreu após ser prensado por equipamento na fábrica.

    Em setembro de 2022 houve incêndio na caldeira da fábrica antiga, que segue em operação.

    Em fevereiro de 2025 houve, novamente, um grave vazamento de cloro, desta vez ultrapassando os limites do pátio da empresa, levando moradores ao pânico, com sensação de sufocamento, forte ardência e queimação nos olhos e nariz, náusea, salivação e dor de cabeça. Atingiu também trabalhadores e levou alguns ao desmaio. Parte da empresa foi evacuada e a operação paralisada.

    Já ocorreu despressurização emergencial da caldeira inclusive durante a noite, em abril de 2025, onde apesar de ter sido noticiado ser uma operação de rotina a empresa, depois de pressionada, admitiu aos moradores que foi mais uma ação emergencial.

    Em junho de 2025 ocorreu a morte de um trabalhador terceirizado na fábrica, sem detalhes públicos sobre o ocorrido.

    Fora a constante geração de ruído (somente legalizada por uma outra “acomodação”, desta vez no Plano Diretor de Guaíba) e de odor de compostos reduzidos de enxofre, que ultrapassa os muros da empresa, atingindo diferentes pontos de Guaíba, a depender da direção dos ventos, desrespeitando de maneira continua a Licença de Operação.

    Estes episódios recorrentes, e outros que possivelmente não venham a público, acendem um alerta quanto à qualidade e aos níveis de controle da operação e de segurança do trabalho desta indústria de alto risco, que está instalada há poucos metros de centenas de residências da zona sul de Guaíba. Fica explicito também a falta de um Plano de Emergência, ou mesmo qualquer tipo de orientação aos moradores do entorno em casos de acidentes na empresa, os moradores literalmente não sabem para onde correr caso precisem se proteger de algum vazamento de gás tóxico, incêndio ou explosão na fábrica.

    É evidente, há anos, a necessidade de se garantir melhores condições de segurança aos trabalhadores da CMPC e de qualidade de vida para os moradores do entorno, fatos que, mesmo sendo de alta gravidade, não tem medidas eficazes tomadas pelas autoridades responsáveis à nível municipal ou estadual, além disto estes fatos não são sequer discutidos pela sociedade, construindo uma aparência de que as operações
    industriais e os monocultivos de eucaliptos no Bioma Pampa não causam nenhum impacto, o que é reforçado pelas ações de mídia da CMPC, a patrocinadora do Campeonato Gaúcho de Futebol, que até tem um time fictício chamado Defensores da Natureza!

    Nova fábrica aumentará poluição

    Mas, para além do que ocorre onde a CMPC já opera, é preciso alertar que a empresa está em processo de licenciamento ambiental para a instalação de uma fábrica ainda maior que a de Guaíba, no município vizinho de Barra do Ribeiro. Utilizando o mesmo sistema de branqueamento, que não é Totalmente Livre de Cloro, o que seria a melhor tecnologia disponível.

    Já foram identificadas, por um grupo multidisciplinar de técnicos e pesquisadores, uma série de omissões, lacunas e problemas no Estudo de Impacto Ambiental do chamado “Projeto Natureza”, que faria uso massivo de água do Guaíba e consequentemente despejaria uma nova carga de poluição também massiva em nosso querido e tão maltratado manancial (242 milhões de litros por dia, que, somados aos 154 milhões de litros já despejados por dia pela fábrica de Guaíba, equivalem à um volume superior ao que Porto Alegre gera de esgoto diariamente), seus poluentes incluem o despejo potencial de dioxinas e furanos – altamente tóxicos, e elementos como nitrogênio e fósforo que podem agravar os episódios de floração de cianobactérias, que levam àquela conhecida coloração esverdeada e às alterações de gosto e odor da nossa água e que também podem gerar substâncias tóxicas.

    Mais de mil pescadores podem ser impactados, segundo estimativas desta comunidade tradicional (que não estão sequer sendo consultados), pois vários peixes sensíveis podem sofrer com os efluentes e com o revolvimento do fundo do Guaíba durante as obras. Seria ainda impactada a Praia das Areias Brancas, na Ponta do Salgado, na Barra do Ribeiro, local onde seria instalada a tubulação de efluentes até o Guaíba.

    O local que a empresa quer se instalar é terra Mbya Guaraní, conhecida como Ponta da Formiga, e já é público o imenso assédio que este povo está sofrendo por parte da empresa, que está inclusive pressionando o Ministério Público Federal para que não siga com seu trabalho de defesa dos direitos deste povo originário à Consulta Livre, Prévia e Informada, pressionam também a FUNAI para que garanta sua anuência e a FEPAM para que garanta sua licença ambiental. O Governo do Estado já assinou Protocolo de Intenções garantindo isenções e diferimentos fiscais.

    Outro aspecto que precisa de destaque é o impacto nas estradas gaúchas, segundo os dados da própria empresa, até 2032, haveria um incremento de mais de 25 caminhões bi-trem de 36 toneladas, por hora, circulando em nossas estradas com toras de eucalipto, considerando seu regime de operação de 24 horas por dia, 7 dias por semana, teríamos um incremento de mais de 600 bi-trem por dia, cerca de 19 mil caminhões de quase 20 metros de comprimento e 36 toneladas a mais circulando por mês.

    A intensa movimentação de caminhões de grande porte para o transporte de madeira dos plantios até as fábricas, resulta em maior trânsito e riscos nas estradas, causando acidentes frequentes (na maioria dos casos fatais), além de desgastes e danos nas rodovias e estradas vicinais, e emissões de Gases de Efeito Estufa neste transporte.

    Além disto, todo o impacto que o aumento dos monocultivos de eucaliptos irá ocasionar no Bioma Pampa (área de expansão dos plantios visada pela empresa), não está sendo considerado no processo de licenciamento ambiental.

    Informações sobre estes impactos e sobre quem é a CMPC podem ser lidas no recente estudo produzido pela Amigas da Terra Brasil: Expansão dos desertos verdes em um Pampa em extinção.

    Os estudos da empresa também não fazem nenhuma Avaliação de Impactos à Saúde.

    A sociedade gaúcha deve mais uma vez se mobilizar, assim como fez no caso da Mina Guaíba, que seria a maior mina de carvão à céu aberto do país, um projeto que no início parecia impossível de interromper, mas com organização, mobilização, informações técnicas independentes e de qualidade e muito debate público, se mostrou ser um projeto sem viabilidade ambiental e social.

    Será que o Projeto Natureza tem esta viabilidade? Será que é bom para um RS em meio ao colapso ambiental?

    Dia 15/05, as 15:30, na Assembleia Legislativa do RS, em Porto Alegre, ocorrerá uma Audiência Pública para discutir os impactos socioambientais e o licenciamento ambiental desta nova fábrica de celulose! O assunto é de interesse de todas e todos os gaúchos, desta e das futuras gerações! Tá feito o convite pra peleia!

    *Engenheiro Ambiental, integra a organização Amigas da Terra Brasil

  • A Literatura Brasileira no Dia do Trabalho

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    O 1º de maio costuma ser lembrado pelo peso histórico das lutas trabalhistas, pelo som das manifestações e pela memória viva de direitos conquistados ao longo de décadas. No entanto, essa mesma data abriga uma outra forma de celebração, menos ruidosa, mas igualmente significativa: o Dia da Literatura Brasileira. Longe de ser apenas uma banal coincidência, essa sobreposição revela uma afinidade profunda. No Brasil, escrever nunca foi só vocação ou talento — é também trabalho. Um trabalho muitas vezes solitário, pouco reconhecido, atravessado por dificuldades materiais, mas que insiste em existir como forma de resistência.

    Antes mesmo de se reconhecer como literatura, a produção escrita no Brasil já delineava contornos do que viria a ser uma identidade narrativa própria. Nos relatos de viajantes, nas cartas enviadas à metrópole, nas descrições fragmentadas de um território ainda em disputa, havia uma tentativa de traduzir o desconhecido em linguagem. Era uma escrita que vinha de fora, carregada de estranhamento e curiosidade. Com o passar do tempo, no entanto, o país começou a produzir suas próprias vozes, e esse deslocamento — de objeto narrado a sujeito narrador — marca o surgimento de uma literatura que não apenas descreve, mas interpreta e questiona.

    Com essa transformação, a língua portuguesa também se reinventa em solo brasileiro. Ela se expande, se mistura, se contamina de influências diversas, refletindo a complexidade cultural do país. O resultado é uma linguagem que não se encaixa facilmente em moldes fixos: ora erudita, ora coloquial; ora marcada pela oralidade, ora pela experimentação formal. Diferentemente de tradições literárias mais lineares, a brasileira se constrói por meio de rupturas, como se cada geração precisasse redescobrir suas próprias formas de expressão.

    Essa característica de reinvenção constante está diretamente ligada às tensões sociais que atravessam o país. A literatura brasileira não se limita ao campo estético; ela dialoga com a realidade de maneira incisiva. Ao longo da história, serviu como instrumento de denúncia, reflexão e memória. Escritores transformaram em palavras experiências marcadas por desigualdade, violência e exclusão, ampliando o alcance de vozes frequentemente silenciadas. Nesse sentido, a literatura não apenas representa o mundo — ela o tensiona, o questiona e, por vezes, o desestabiliza.

    É impossível ignorar, nesse contexto, o caráter político do ato de escrever e de ler. Em um país onde o acesso à educação sempre foi desigual, a própria possibilidade de produzir e consumir literatura carrega implicações sociais profundas. Durante muito tempo, os espaços literários foram restritos a determinados grupos, o que moldou não apenas quem escrevia, mas também quais histórias eram contadas. Hoje, há um movimento contínuo de ampliação desse horizonte, ainda que marcado por desafios persistentes.

    Essa ampliação se manifesta de maneira especialmente intensa nas margens — geográficas e simbólicas. Fora dos grandes centros editoriais, surgem narrativas que desafiam convenções e ampliam o repertório literário. Autores periféricos, indígenas, negros, mulheres e outras vozes historicamente excluídas vêm não apenas ocupando espaço, mas transformando a própria ideia de literatura. O que antes era considerado periférico passa a ocupar o centro de debates, revelando novas formas de linguagem, novas estruturas narrativas e novas perspectivas de mundo.

    Ao mesmo tempo, a literatura brasileira contemporânea carrega uma dimensão de resistência que dialoga diretamente com o espírito do 1º de maio. Muitos escritores conciliam a escrita com outras atividades profissionais, enfrentando a precariedade do mercado editorial. Editoras independentes surgem e sobrevivem graças à persistência de quem acredita no valor da palavra escrita. Leitores, por sua vez, constroem seus próprios caminhos de acesso, muitas vezes por meio de bibliotecas públicas, trocas informais ou iniciativas comunitárias.

    Há, nesse ecossistema, uma espécie de esforço coletivo que mantém a literatura viva, mesmo diante de adversidades. É como se cada livro publicado, cada texto compartilhado, cada leitura realizada fosse também um gesto de afirmação. A literatura, nesse sentido, não depende apenas de grandes instituições — ela se sustenta em redes invisíveis de criação, circulação e recepção.

    Curiosamente, essa celebração não se manifesta em grandes eventos ou cerimônias oficiais. Ela acontece de forma difusa, quase imperceptível: em salas de aula, em clubes de leitura, em cadernos esquecidos, em textos escritos à margem do cotidiano. A literatura brasileira vive tanto nos livros publicados quanto nas histórias contadas oralmente, nas experiências que circulam fora dos circuitos tradicionais.

    Essa dimensão discreta não diminui sua importância — pelo contrário, a fortalece. Enquanto o Dia do Trabalhador mobiliza coletividades nas ruas, a literatura opera no campo do íntimo, do reflexivo. Ainda assim, ambas compartilham um mesmo fundamento: a ideia de construção. Construir direitos, construir narrativas, construir sentidos para a experiência humana.

    O 1º de maio, portanto, convida a uma reflexão mais ampla. Ele não apenas rememora conquistas passadas, mas também aponta para desafios presentes. No campo literário, isso implica pensar sobre acesso, diversidade, reconhecimento e sustentabilidade. Implica perguntar quem ainda está à margem e quais histórias ainda não foram contadas.

    Ao ampliar esse olhar, percebe-se que a literatura brasileira não é um conjunto fixo de obras consagradas, mas um processo em constante transformação. Ela se alimenta de tensões, de contradições, de encontros e desencontros. Cada nova voz que emerge altera o panorama, acrescentando camadas de complexidade e vitalidade.

    Talvez seja justamente essa capacidade de transformação que mantém a literatura relevante. Em um mundo marcado pela velocidade e pela superficialidade, ler e escrever exigem pausa, atenção e escuta. São atos que resistem à lógica da pressa, criando espaços de reflexão que se tornam cada vez mais raros — e, por isso mesmo, mais necessários.

    No fim das contas, a coincidência entre o Dia do Trabalhador e o Dia da Literatura Brasileira deixa de parecer acaso e passa a revelar uma afinidade essencial. Ambos celebram formas de produção — material e simbólica — que sustentam a vida em sociedade. Ambos reconhecem o esforço, a persistência e a imaginação como elementos fundamentais para a construção de um país.

    Porque um país não se ergue apenas com infraestrutura ou legislação. Ele também se constitui nas narrativas que produz, nas histórias que escolhe contar e nas vozes que decide ouvir. E enquanto houver alguém disposto a escrever — mesmo diante das dificuldades, mesmo longe dos holofotes — haverá sempre um Brasil em processo de reinvenção, tecido lentamente na matéria viva das palavras.

  • Rejeição a Messias: quando o Senado tensiona os limites da democracia

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não é um fato trivial — e tratá-la como um simples exercício de independência institucional seria, no mínimo, ingênuo. Há algo mais profundo em jogo. O episódio expõe, com certa nitidez, a forma como parcelas organizadas da direita radical brasileira vêm operando: não necessariamente para ocupar formalmente todas as instituições, mas para tensioná-las ao limite, desgastá-las e, sempre que possível, torná-las disfuncionais.

    É claro que o Senado tem o direito — e até o dever — de rejeitar indicações presidenciais quando julgar inadequadas. O problema não está no gesto em si, mas no ambiente político que o molda. Nos últimos anos, consolidou-se no Brasil uma prática de sabotagem institucional que não se apresenta como tal. Ela se disfarça de rigor técnico, de zelo republicano, de “preocupação com a independência”. Mas, na prática, opera por meio de campanhas coordenadas, pressão pública e construção de narrativas que antecedem qualquer avaliação objetiva.

    No caso de Jorge Messias, a discussão sobre sua proximidade com o governo — algo comum a praticamente todos os indicados ao STF ao longo da história — foi amplificada de maneira seletiva. Não se trata de dizer que essa proximidade não deva ser debatida. Deve. Mas o que chama atenção é o uso estratégico desse argumento por setores que, em outros momentos, não demonstraram o mesmo nível de preocupação com critérios semelhantes.

    Esse tipo de seletividade não é um detalhe: é um sintoma. Ele revela que o debate deixou de ser sobre o perfil ideal de um ministro do Supremo e passou a ser sobre a capacidade de bloquear o governo em qualquer frente possível. O STF, nesse contexto, torna-se menos uma instituição a ser preservada e mais um campo de disputa a ser controlado — ou, ao menos, enfraquecido.

    Há um padrão que se repete. Sempre que o tribunal atua como limite a investidas autoritárias ou como garantidor de regras constitucionais, intensifica-se uma campanha de deslegitimação. Questiona-se sua autoridade, atacam-se seus membros, constrói-se a ideia de que a Corte não representa a sociedade. A rejeição de uma indicação presidencial, quando inserida nesse ambiente, deixa de ser um evento isolado e passa a fazer parte de uma engrenagem maior.

    O risco disso é menos imediato do que parece — e, por isso mesmo, mais perigoso. Não se trata de um colapso abrupto das instituições, mas de um desgaste contínuo. Aos poucos, vai-se corroendo a previsibilidade dos processos, banalizando conflitos entre os Poderes e naturalizando a ideia de que tudo pode ser permanentemente contestado. Quando esse tipo de lógica se instala, a estabilidade democrática deixa de ser um dado e passa a ser uma exceção.

    Dito isso, seria um erro responder a esse cenário apenas com indignação ou denúncia. Há também uma dimensão propositiva que não pode ser ignorada. A rejeição abre uma oportunidade concreta — e talvez necessária — de repensar a composição do Supremo de maneira mais estrutural.

    É difícil justificar, em pleno século XXI, a baixa presença de mulheres na mais alta Corte do país. Não se trata de um argumento identitário superficial, mas de reconhecer que o direito não é produzido em abstrato. Ele é interpretado por pessoas, com trajetórias, experiências e sensibilidades distintas. Um tribunal excessivamente homogêneo e masculino tende, inevitavelmente, a ter pontos cegos.

    A indicação de uma mulher para o STF, neste momento, teria um peso que vai além do simbolismo. Seria uma forma de alinhar a instituição com a realidade do próprio sistema jurídico brasileiro, no qual mulheres já são maioria em diversos níveis, da advocacia à magistratura. Mais do que isso: seria um gesto de reposicionamento político diante de uma tentativa clara de captura do debate institucional por agendas regressivas.

    Mas é importante dizer: não basta que seja uma mulher. A escolha precisa reunir densidade jurídica, trajetória sólida e independência real. Caso contrário, o movimento corre o risco de ser esvaziado ou instrumentalizado. O desafio está justamente em combinar representatividade com excelência — algo que, felizmente, não falta no cenário jurídico brasileiro.

    No fim das contas, o episódio diz menos sobre Jorge Messias e mais sobre o momento que o país atravessa. Há uma disputa em curso sobre o papel das instituições e sobre os limites da política. De um lado, forças que operam pela instabilidade, pelo ruído constante, pela erosão da confiança. De outro, a necessidade — ainda que nem sempre plenamente articulada — de reconstruir parâmetros mínimos de funcionamento democrático.

    O próximo passo do governo será decisivo. Não apenas pelo nome a ser indicado, mas pelo tipo de mensagem que essa escolha vai transmitir. Em contextos de tensão institucional, escolhas importam mais do que nunca. Elas não apenas preenchem cargos — elas sinalizam rumos.

    Se houver alguma lição a extrair desse episódio, talvez seja esta: a defesa das instituições não se faz apenas resistindo a ataques, mas também aproveitando as brechas que surgem para fortalecê-las de forma concreta. E, neste caso, isso passa, inevitavelmente, por ampliar quem tem voz dentro delas.

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    *Foto: Ton Molina/Agência Senado

  • Dia Internacional da Educação: o Brasil que se revela na sala de aula

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A educação não se deixa apreender como um simples conceito estável ou como um consenso já dado. Ela se apresenta, antes, como um campo de tensões, no qual se entrecruzam disputas de sentido, silêncios históricos e projetos de sociedade. Pensar a educação, nesse horizonte, implica reconhecer que educar nunca se limitou à transmissão de saberes: trata-se de um gesto que revela, interroga e, muitas vezes, desestabiliza aquilo que foi naturalizado ao longo do tempo.

    Falar de educação, portanto, exige mais do que adesão retórica. Exige memória — e uma memória ativa, capaz de reconhecer que o ato de ensinar se inscreve em processos históricos densos, atravessados por conflitos e assimetrias. No Brasil, essa trajetória se construiu de forma irregular, marcada por descontinuidades e permanências incômodas. É uma história que encontra, em figuras como Paulo Freire e Anísio Teixeira, não apenas referências pedagógicas, mas projetos de país: visões que recusaram a neutralidade da educação e afirmaram seu potencial transformador, insistindo que ensinar é, inevitavelmente, intervir no mundo.

    Tal constatação ajuda a compreender por que a educação, entre nós, jamais ocupou um lugar pacífico. Ela sempre esteve imbricada em disputas mais amplas — projetos de poder, concepções de cidadania, modelos de sociedade. E, ainda assim, preservou uma dimensão de abertura, um espaço onde o possível resiste ao previsto. É nesse intervalo que a imaginação de Darcy Ribeiro se torna fecunda, ao conceber uma educação enraizada na diversidade brasileira, capaz de formar sujeitos desde a infância não apenas para o convívio social, mas para a participação plena na vida coletiva.

    Se recuarmos aos primeiros capítulos dessa história, veremos que a educação no Brasil nasce sob o signo do controle e da normatização. Ensinar, durante séculos, significou catequizar, disciplinar, ajustar indivíduos a um projeto que pouco dialogava com as realidades locais. A escola, nesse contexto, operava menos como espaço de emancipação e mais como mecanismo de ordenamento social — muitas vezes apagando saberes, culturas e modos de existência.

    Contudo, a história não se esgota em suas intenções originais. Há sempre algo que escapa — e é nesse desvio que novas possibilidades emergem.

    Nas frestas do sistema, em salas improvisadas, em materiais compartilhados e em perguntas que insistem em existir apesar do silêncio, a educação foi se reinventando. Não como ideal plenamente realizado, mas como prática possível, construída no cotidiano. Há nessa reinvenção uma dimensão discreta, quase invisível, mas profundamente significativa. Educadoras como Macaé Evaristo encarnam essa experiência ao demonstrar que ensinar também é escutar, reconhecer e legitimar vozes historicamente marginalizadas.

    A sala de aula brasileira, observada de perto, revela um país em sua complexidade mais concreta. Não o país das narrativas oficiais, mas aquele atravessado por desigualdades estruturais, urgências materiais e tensões permanentes. Ali convivem o estudante que trabalha antes de estudar, a professora que transforma escassez em estratégia pedagógica e conteúdos que tentam dialogar com realidades que frequentemente os excedem. A escola torna-se, assim, um microcosmo onde se refletem as contradições nacionais.

    Nesse cenário, celebrar o Dia Internacional da Educação (28 de abril) talvez seja menos um gesto comemorativo do que um exercício de lucidez. Há sempre o risco de que a educação se transforme em palavra esvaziada — reiterada em discursos institucionais, mas fragilmente sustentada na prática. Reconhecer esse risco é condição para enfrentá-lo.

    Entre as dimensões frequentemente negligenciadas, a cultural se destaca pela sua potência. Educar não é apenas transmitir conteúdos formais, mas reconhecer repertórios, estabelecer pontes entre o conhecimento sistematizado e a vida concreta. Quando a escola ignora a linguagem, a música, os territórios e as experiências dos sujeitos que a habitam, ela se torna estrangeira em seu próprio contexto. Ao contrário, quando acolhe essas dimensões, transforma-se em espaço de pertencimento e criação.

    Há também uma dimensão crítica incontornável: a pergunta sobre a quem serve a educação que temos. Longe de ser retórica, essa questão expõe as estruturas profundas do sistema educacional brasileiro. A desigualdade, nesse campo, não é um desvio ocasional, mas um traço persistente. Existem escolas que ampliam horizontes e outras que se limitam a administrar restrições — e essa diferença revela muito sobre as prioridades históricas do país.

    Ainda assim, reduzir a educação a um inventário de carências seria ignorar sua força mais silenciosa. Há uma potência no que resiste — na insistência cotidiana de professores e estudantes, na descoberta inesperada que a leitura pode proporcionar, na escola que permanece aberta apesar das adversidades. Ensinar alguém a ler, no Brasil, ultrapassa o gesto pedagógico: é um ato que toca a própria ideia de cidadania, pois implica oferecer instrumentos para compreender, questionar e, eventualmente, transformar a realidade.

    Talvez um dos equívocos mais recorrentes seja imaginar a educação como algo acabado, um sistema estável a ser aplicado de forma uniforme. Na verdade, ela é, por natureza, incompleta — um processo em permanente construção, atravessado por tensões entre expectativa e experiência, entre o que se ensina e o que, de fato, se aprende.

    Nesse sentido, educar é inevitavelmente um gesto político, não no sentido restrito das disputas partidárias, mas como formação de sujeitos capazes de pensar, interpretar e agir de maneira autônoma. E esse nunca foi um projeto consensual. Ao contrário, frequentemente encontrou resistências, explícitas ou veladas.

    O que permanece, para além das datas, é o cotidiano das escolas — com suas fragilidades estruturais e suas conquistas discretas. É ali, longe das formulações grandiosas, que a educação se realiza. E talvez seja justamente essa persistência concreta que mereça maior reconhecimento: a capacidade de produzir sentido em meio à escassez, de manter aberta — ainda que minimamente — a possibilidade de outros futuros.

    No fim, a educação brasileira não se deixa conter por celebrações. Ela exige um olhar atento, um compromisso contínuo e a disposição de confrontar aquilo que historicamente foi evitado. Porque educar, em sua essência, nunca foi apenas ensinar. Foi — e continua sendo — uma forma de disputar o mundo e de reinscrever, nele, novas possibilidades de existência.

  • É preciso refletir sobre os mais de 84 mil desaparecidos no Brasil em 2025

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Em 2025, o Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas, segundo dados consolidados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

    Mais do que um número expressivo, o dado revela um fenômeno contínuo, distribuído no tempo e no território — e, olhando com mais atenção, é difícil não se impressionar com o que isso significa na prática: ao longo de um único ano, centenas de brasileiros deixaram de ser localizados todos os dias, em histórias que vão de conflitos familiares a situações que permanecem sem explicação. O número, quando isolado, pode soar apenas como um dado estatístico; mas, quando traduzido em frequência diária,
    passa a sugerir uma rotina silenciosa de ausências que se acumulam quase imperceptivelmente.


    A leitura desses dados oficiais permite ir além da estatística bruta e traçar um perfil. Quando se observa idade, distribuição geográfica e dinâmica dos registros, começa a surgir um padrão que chama atenção: o
    desaparecimento no Brasil atinge majoritariamente pessoas jovens, aparece com mais força em áreas urbanas densas e convive com uma espécie de ciclo constante — muitos casos são resolvidos, mas uma parte deles simplesmente não chega a um desfecho claro. Esse padrão, no entanto, não deve ser visto como algo estático; ele parece refletir dinâmicas sociais mais amplas, como urbanização acelerada, desigualdades persistentes e fragilidades nas redes de proteção.

    Ao mesmo tempo, é inevitável perguntar até que ponto esses números capturam a totalidade do fenômeno. A própria existência de um sistema nacional indica avanço institucional, mas também evidencia que o problema atingiu uma escala que exige monitoramento contínuo. Nesse sentido, os dados não apenas informam — eles também sugerem a necessidade de interpretar o desaparecimento como parte de um conjunto mais amplo de vulnerabilidades sociais.

    Juventude como dado preocupante

    Um dos aspectos mais marcantes nos dados do Sinesp é a presença significativa de crianças e adolescentes entre os desaparecidos. Em 2025, esse grupo respondeu por cerca de 28% do total — 23.919 pessoas com menos de 18 anos. Colocando isso em termos mais diretos, são aproximadamente 3 em cada 10 desaparecidos. E quando se pensa no ritmo diário, o número ganha outro peso: dezenas de menores desaparecendo todos os dias ao longo de um ano inteiro.

    Esse dado, por si só, já desloca aquela ideia mais comum de que desaparecimentos estão ligados principalmente a crimes graves ou a adultos. Entre os mais jovens, o cenário parece mais difuso e, de certa forma, mais complexo: saídas voluntárias, conflitos familiares, situações de
    vulnerabilidade. Nem sempre há violência envolvida — mas ainda assim, o volume nessa faixa etária sugere fragilidades sociais que continuam se repetindo. Talvez o ponto mais inquietante seja justamente esse: não se trata de episódios isolados, mas de uma recorrência que indica padrões de ruptura em ambientes que deveriam, em tese, oferecer proteção.

    Além disso, a presença expressiva de jovens nos dados convida a refletir sobre prevenção. Se uma parcela significativa dos casos envolve dinâmicas familiares ou sociais conhecidas, até que ponto políticas públicas, escolas e redes comunitárias estão conseguindo atuar antes que o desaparecimento ocorra? A estatística, nesse caso, parece apontar não apenas para o problema em si, mas para oportunidades ainda pouco exploradas de intervenção precoce.

    Onde os desaparecimentos se concentram


    A distribuição territorial dos casos acompanha, em grande medida, o próprio mapa populacional do país. Estados mais populosos acabam concentrando os maiores números absolutos. São Paulo aparece com folga na liderança, com cerca de 20.546 casos, seguido por Minas Gerais (9.139),
    Rio Grande do Sul (7.611), Paraná (6.455) e Rio de Janeiro (6.331).

    Mas parar apenas nesses números pode dar uma impressão incompleta. Quando se olha proporcionalmente, estados menores também apresentam incidências relevantes. Isso faz pensar que o desaparecimento não é um problema isolado dos grandes centros, mas algo espalhado pelo país, assumindo características diferentes dependendo do contexto — seja
    urbano, periférico ou de fronteira. Em outras palavras, o fenômeno parece se adaptar às realidades locais, o que dificulta a formulação de respostas únicas.

    Essa leitura mais ampla reforça a ideia de que políticas uniformes podem não ser suficientes. O que explica um desaparecimento em uma metrópole densamente povoada pode ser muito diferente do que ocorre em regiões menos urbanizadas. Ainda assim, os dados nacionais colocam todos esses contextos sob o mesmo guarda-chuva, o que, embora útil para dimensionar o problema, pode esconder nuances importantes.

    Outro ponto que chama atenção é a coexistência de dois movimentos: muitos registros e, ao mesmo tempo, muitas localizações. Em 2025, mais da metade das pessoas dadas como desaparecidas — 56.688 — foi posteriormente encontrada.

    À primeira vista, esse dado pode sugerir um avanço na capacidade de resposta, com sistemas mais integrados e troca de informações entre estados. Mas ele também levanta uma dúvida importante: nem todos os casos resolvidos voltam a ser oficialmente atualizados no sistema. Isso significa que os números podem carregar distorções — tanto para mais quanto para menos — e dificultar uma leitura mais precisa da realidade. No fim, fica uma distinção que nem sempre aparece de forma clara:
    desaparecer nem sempre significa permanecer desaparecido. Muitos casos se resolvem relativamente rápido, enquanto outros se prolongam por tempo indeterminado, formando uma espécie de camada invisível dentro das estatísticas. Essa camada, embora menos visível nos dados agregados, talvez seja a que mais desafia as estruturas institucionais, justamente por concentrar os casos sem desfecho.

    O tempo como fator crítico

    Mesmo sendo majoritariamente quantitativos, os dados do Sinesp apontam para algo qualitativo que faz diferença: o tempo de resposta. Hoje, já não é mais necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento, e isso muda bastante o cenário. Esse detalhe, que pode parecer simples, acaba sendo decisivo. Quanto mais rápido o registro, maiores as chances de localização. Ainda assim, essa lógica depende de algo básico, mas nem sempre garantido: que as pessoas saibam disso e tenham acesso aos canais de denúncia. Aqui, a eficácia da política pública parece depender tanto da estrutura formal quanto da circulação de informação na sociedade.

    Além disso, o fator tempo convida a uma reflexão mais ampla: em que medida a rapidez institucional consegue acompanhar a velocidade com que os desaparecimentos ocorrem? Se o registro é imediato, mas a resposta ainda enfrenta limitações operacionais, o ganho potencial pode não se concretizar plenamente.


    Um fenômeno multifacetado

    Os próprios dados oficiais não conseguem classificar de forma detalhada todas as causas dos desaparecimentos, e isso diz muito sobre a natureza do problema. Um desaparecimento pode ter origens completamente diferentes — desde uma decisão voluntária até acidentes, desorientação, conflitos ou crimes.

    Essa variedade torna tudo mais difícil de enquadrar. Diferente de outros indicadores de segurança pública, aqui não existe uma única lógica ou um único tipo de ocorrência. Cada caso pode exigir uma abordagem distinta, tanto na prevenção quanto na investigação. Essa complexidade talvez explique por que o fenômeno persiste mesmo com avanços institucionais: não há uma solução única para um problema que se apresenta de tantas formas diferentes.

    O que os números não mostram

    Se por um lado os dados do Sinesp ajudam a dimensionar o problema, por outro eles também deixam lacunas evidentes. A subnotificação ainda pode existir, especialmente em contextos mais vulneráveis. Além disso, faltam informações mais detalhadas sobre circunstâncias, perfil das pessoas desaparecidas e desfechos dos casos.
    Essas lacunas levantam uma questão importante: até que ponto compreendemos, de fato, o fenômeno que estamos medindo? A ausência de detalhes pode limitar não apenas a análise, mas também a formulação de respostas mais eficazes. Em certo sentido, o que não aparece nos dados pode ser tão relevante quanto aquilo que aparece.

    Mesmo com essas limitações, o panorama de 2025 deixa uma impressão difícil de ignorar: o desaparecimento de pessoas no Brasil está longe de ser algo pontual. É um fenômeno que se repete, em grande escala, e que afeta
    principalmente jovens em diferentes regiões do país. No fim das contas, mais do que um conjunto de números, esses mais de 84 mil registros acabam revelando algo mais profundo — uma sequência contínua de rupturas na vida de milhares de pessoas. Algumas são breves, quase
    resolvidas no silêncio do dia a dia. Outras, no entanto, permanecem em aberto, desafiando tanto as políticas públicas quanto a própria capacidade de compreender o que está por trás dessas ausências.

  • 22 de abril: o instante em que o Brasil “passa a existir” para o mundo europeu

    22 de abril: o instante em que o Brasil “passa a existir” para o mundo europeu

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Era 22 de abril de 1500 — ou, ao menos, é assim que nos habituamos a dizer, com a serenidade quase ingênua de quem domestica o passado em datas redondas e memoráveis. Naquele dia, a esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral avistou terra após semanas de travessia pelo Atlântico, movida por ventos incertos e intenções ainda em formação. As caravelas, desviadas da rota das Índias, aproximaram-se de um litoral vasto e silencioso, que mais tarde receberia o nome de Brasil. Houve registro, houve carta, houve descrição — e, sobretudo, houve nomeação. E, com esse gesto inaugural, instituiu-se o começo oficial de uma história que, paradoxalmente, já existia muito antes de ser escrita.

    Gosto de imaginar que, enquanto a bordo se alinhavam palavras e se ensaiavam interpretações, a terra, em sua inteireza, permanecia alheia àquele ímpeto classificatório. Não havia ali qualquer sensação de começo — apenas a continuidade profunda e indiferente dos ciclos. As matas persistiam densas, os rios seguiam seus cursos milenares com a obstinação tranquila de quem não conhece interrupções, e os povos que habitavam aquele espaço desconheciam por completo que estavam prestes a ser inscritos como capítulo em um livro que jamais escreveriam. Seus gestos, seus cantos, seus rituais, desenrolavam-se em temporalidades próprias, invisíveis às tentativas europeias de apreensão e sentido. Para eles, a história oficial ainda não existia — e talvez não fosse necessária, pois sua existência, plena e complexa, dispensava qualquer chancela.

    E, no entanto, naquele instante suspenso entre o horizonte e a nomeação, algo mais sutil também acontecia. Não apenas um território era avistado, mas um mundo era, pouco a pouco, traduzido — ainda que de forma imperfeita, incompleta, e por vezes equivocada. O olhar europeu, ao pousar sobre aquelas terras, não apenas via: interpretava, filtrava, ajustava o desconhecido aos contornos do já conhecido. Cada árvore descrita, cada corpo observado, cada gesto anotado carregava consigo não apenas a surpresa do encontro, mas os limites de quem observa. Era um encontro desigual desde a origem — não necessariamente em força naquele primeiro momento, mas em linguagem, em poder de registro, em capacidade de fixar memória.

    Curioso como a história, uma vez narrada, elege um ponto de partida e insiste nele com a convicção de que tudo o que veio antes não passava de preparação. O 22 de abril tornou-se esse marco conveniente: o instante em que o Brasil “passa a existir” para o mundo europeu. Mas, com o passar do tempo — e talvez com um certo desconforto que amadurece — torna-se impossível ignorar que existir para alguém não equivale a começar a existir. Trata-se de uma distinção essencial, frequentemente negligenciada, que nos convoca a revisar, com mais rigor e sensibilidade, as noções de “início” e de “descoberta”.

    Na escola, repeti o nome de Pero Vaz de Caminha com a naturalidade de quem memoriza sem suspeitar. Sua carta parecia, então, um retrato fiel, quase transparente, do que se apresentava aos olhos dos recém-chegados. Hoje, contudo, é impossível lê-la sem perceber que ali há menos um espelho e mais uma lente — estrangeira, interessada, atravessada por expectativas e estratégias. Caminha descreveu o que viu, sem dúvida; mas descreveu, sobretudo, a partir do que sabia e do que podia compreender. Cada linha, assim, oscila entre revelação e interpretação, entre registro e projeção. Ele nos mostra não apenas o que existia, mas aquilo que lhe era possível enxergar — ou aquilo que desejava comunicar. E isso altera profundamente nossa relação com o passado: estamos sempre um passo atrás, decifrando vestígios através de olhos que não são os nossos.

    Com o passar dos anos, o 22 de abril deixou de ser apenas um dado cronológico e passou a me parecer uma cena mal iluminada — visível, mas nunca inteiramente revelada. Sabemos o essencial: a chegada, o primeiro contato, a curiosidade mútua, os gestos ainda inseguros que tentavam estabelecer pontes entre mundos distintos. Mas há sempre algo que escapa, como se a narrativa oficial fosse apenas a superfície de um acontecimento muito mais denso, mais ambíguo, mais difícil de narrar em sua totalidade. Quem revisita essa data hoje percebe, quase de imediato, a multiplicidade de histórias silenciadas: as de quem já vivia ali, as de quem chegaria depois, e aquelas que se perderam no tempo, dissolvidas na ausência de registro.

    E talvez haja, nesse instante imaginado — esse primeiro vislumbre de terra — um silêncio que raramente consideramos. Um intervalo breve, quase imperceptível, entre ver e interpretar. Um momento em que tudo ainda era possível, em que o futuro não estava completamente traçado. Mas esse intervalo foi rapidamente preenchido: pela palavra, pelo registro, pela vontade de nomear e, ao nomear, estabelecer domínio. A história, ali, começou a se fixar — ainda que de forma parcial, ainda que atravessada por ausências.

    O Brasil que emergiu desse encontro — se é que podemos falar em emergência — não nasceu pronto. Foi sendo tecido lentamente, entre aproximações e rupturas, entre imposições e resistências, entre adaptações silenciosas e conflitos explícitos. Herdamos muito daquele instante, mas não apenas dele. Herdamos também seus descompassos, seus silêncios, suas lacunas. Cada cidade erguida, cada estrada aberta, cada rio navegado carrega ecos daqueles primeiros contatos — memórias não escritas que, ainda assim, moldaram identidades, tradições e tensões que persistem.

    Talvez por isso o 22 de abril jamais me pareça uma data plenamente resolvida. Há nele algo de inacabado, como uma frase interrompida antes de alcançar seu sentido final. Ao mesmo tempo em que delimita um acontecimento histórico preciso, abre um campo de interrogações que permanecem vivas. Descoberta para quem? Início de quê? E, sobretudo, a que custo? Essas perguntas ultrapassam o campo acadêmico — elas tocam o modo como compreendemos nossa cultura, nossas instituições, nossas relações mais íntimas com o outro e com o território.

    Enquanto isso, o cotidiano segue seu curso indiferente. Compromissos se acumulam, alguém se atrasa, o mundo gira com sua pressa habitual. E é justamente nesse contraste — entre a gravidade do passado e a banalidade do presente — que a história encontra uma forma persistente de existir. Ela se infiltra nos detalhes, nos gestos repetidos, nos rituais quase automáticos, nas palavras que herdamos, nas músicas que entoamos, e até nos silêncios que aprendemos a respeitar.

    No fim, o 22 de abril talvez diga menos sobre o que ocorreu em 1500 e mais sobre o que fazemos, hoje, com aquilo que nos foi legado. E isso, ao contrário das datas, não se encerra no calendário. Vive nesse exercício contínuo — imperfeito, por vezes desconfortável — de olhar para trás sem abdicar do movimento adiante. Um exercício de consciência: reconhecer que a história não se conclui, que o passado nos acompanha em cada escolha, e que a descoberta, afinal, é permanente — não apenas de territórios, mas de nós mesmos.

  • Tiradentes: o Mártir que ainda nos observa e as inquietações de um Brasil inacabado

    Tiradentes: o Mártir que ainda nos observa e as inquietações de um Brasil inacabado

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há datas que não se impõem pelo alarde, mas pela persistência silenciosa com que atravessam os séculos e se insinuam na consciência coletiva. O 21 de abril pertence a essa estirpe discreta. Não chega ornado de euforia, tampouco se anuncia com a grandiloquência de outras celebrações; antes, aproxima-se como uma lembrança antiga, dessas que dispensam explicações e, justamente por isso, nos desarmam. Talvez resida aí sua força: provocar um estado raro de escuta interior, como se algo longínquo — e ainda não inteiramente resolvido — insistisse em encontrar voz no presente.

    Não é, porém, a narrativa oficial que desperta essa inquietação. Aquela versão ordenada, ensinada com a nitidez dos fatos bem alinhados, pouco alcança o que verdadeiramente nos perturba. O que emerge, em seu lugar, é uma indagação mais resistente, menos confortável e, por isso mesmo, mais fecunda: quem foi, de fato, o homem que chamamos Tiradentes antes de ser imobilizado na estátua, antes que sua imagem se tornasse um signo e seu nome, um recurso simbólico?

    Tiradentes Esquartejado, de 1893, obra do artista Pedro Américo. Reprodução

    É quase inevitável imaginá-lo despojado de solenidade. Um homem comum, percorrendo trilhas de terra sob o sol inclemente de Minas Gerais, inserido em um mundo onde o ouro cintilava para poucos enquanto a dureza da sobrevivência se impunha à maioria. O século XVIII, tantas vezes revestido de um romantismo retrospectivo, devia ser, em sua matéria mais concreta, áspero e desigual — mais marcado pela escassez, pela vigilância e pela cobrança incessante da Coroa portuguesa do que por qualquer promessa de esplendor.

    E é precisamente nesses terrenos áridos que as ideias costumam germinar. Não nascem prontas nem majestosas, mas como pequenos incômodos que se acumulam em silêncio — um tributo excessivo, uma cobrança arbitrária, a famigerada ameaça da derrama pairando como sombra constante sobre vidas já exauridas. Nesse cenário, a atuação de Tiradentes ganha densidade histórica: não como a de um estrategista refinado, mas como a de um difusor inquieto de ideias, alguém que, ao entrar em contato com os ventos do Iluminismo e com as notícias das transformações que agitavam o mundo atlântico, ousou traduzir essas abstrações em linguagem acessível, quase cotidiana.

    A Inconfidência Mineira, vista de perto, talvez se revele menos como uma conspiração heroica e mais como um murmúrio coletivo que, pouco a pouco, cresceu além do limite do tolerável. Não era apenas um levante contra impostos, mas a expressão embrionária de um desejo de autonomia — difuso, imperfeito, mas decisivo. Nesse contexto, Joaquim José da Silva Xavier emerge como uma figura singular: não o mais erudito entre os conjurados, tampouco o mais prudente, mas talvez aquele em quem a chama da ideia se fez mais visível, mais indomável.

    Diz-se que falava em demasia. Essa característica, tantas vezes tratada como falha, talvez seja justamente aquilo que o torna mais próximo de nós. Em uma sociedade marcada pela contenção e pelo cálculo, sua verborragia adquire contornos de gesto político — não necessariamente deliberado, mas profundamente revelador. É fácil admirar a prudência dos estrategistas; mais difícil é compreender aquele que se expõe, que ultrapassa o cálculo em nome de uma convicção que transborda. Talvez lhe faltasse medida. Ou talvez lhe sobrasse algo raro: a incapacidade de se calar diante do que julgava intolerável.

    Quando o movimento ruiu — como frequentemente acontece quando o ideal colide com o peso da realidade —, o medo desempenhou seu papel habitual. Reorganizou alianças, impôs recuos, produziu silêncios. Alguns se retraíram, outros buscaram proteção onde puderam. Tiradentes, no entanto, permaneceu. Se por escolha deliberada ou por circunstâncias inevitáveis, não é possível afirmar com precisão. Mas há, nesse gesto — ainda que ambíguo —, algo de decisivo: uma permanência que, aos olhos do poder, se converteria em culpa exemplar.

    Sua execução, em 1792, não foi apenas um desfecho, mas uma encenação cuidadosamente arquitetada. O poder colonial, zeloso de sua autoridade, compreendia que a punição precisava ultrapassar o corpo e atingir o imaginário. E, ainda assim, por mais meticulosa que seja a repressão, sempre subsiste algo que escapa ao seu controle — uma memória residual, um significado imprevisto, uma possibilidade de reinterpretação. Ao tentar silenciar um homem, acabou-se por inaugurar um símbolo.

    Curiosamente, Tiradentes não se converteu de imediato na figura que hoje reconhecemos. Sua transfiguração exigiu tempo — e, sobretudo, conveniência histórica. Com a Proclamação da República, emergiu a necessidade de um personagem que encarnasse ruptura, sacrifício e coragem. E ali estava ele, disponível para ser reinventado. Acrescentaram-lhe traços quase messiânicos, uma iconografia que evocava outras tradições, um silêncio digno que o afastava de suas contradições humanas. Tornaram-no, enfim, um emblema — e, ao fazê-lo, inscreveram-no definitivamente na narrativa nacional como precursor de uma liberdade que ele próprio jamais testemunhou.

    Mas todo emblema, ao mesmo tempo em que revela, também oculta.

    Por trás da imagem consolidada, persiste o homem imperfeito — alguém que provavelmente hesitou, que conheceu o medo, que talvez não tenha compreendido plenamente a dimensão de seus próprios atos. Um homem que não testemunhou vitórias, que não colheu frutos, que permaneceu, em muitos sentidos, inacabado. E é justamente essa incompletude que o aproxima de nós de forma mais perturbadora e, paradoxalmente, mais verdadeira.

    O 21 de abril parece habitar esse intervalo delicado entre o vivido e o narrado, entre o fato bruto e sua reconstrução simbólica. Em cidades como Ouro Preto, é tentador imaginar que as pedras guardem mais do que a história oficial consente — que nelas sobrevivam as dúvidas, os silêncios e as conversas interrompidas que nunca foram registradas. Há ali uma memória subterrânea, resistente às simplificações e às versões definitivas.

    No fundo, talvez o que nos faz retornar a Tiradentes não seja o heroísmo em si, mas o desconforto que ele suscita. Ele não libertou o país, não assistiu à transformação que sonhava, não concluiu a história que ajudou a iniciar. E, ainda assim, permanece — não como resposta, mas como pergunta.

    E essa pergunta reverbera no presente. Seguimos cercados por pequenas inconformidades, por tensões que raramente se convertem em ação, por limites que aceitamos mais do que gostaríamos. Também nós hesitamos, recuamos, silenciamos. E, de tempos em tempos, somos atravessados por aquela inquietação persistente: o que fazer com aquilo que sabemos — ou ao menos intuímos — estar errado?

    É nesse ponto que Tiradentes deixa de ser apenas uma figura histórica e se transforma em um espelho imperfeito. Não um modelo a ser imitado, mas uma presença que insiste em lembrar que toda transformação nasce, inevitavelmente, de um desconforto que alguém se recusou a ignorar.

    Há ainda um aspecto mais sutil, quase imperceptível, nessa permanência: o modo como a memória coletiva seleciona aquilo que merece ser lembrado e aquilo que convém esquecer. Ao elevá-lo à condição de mártir, o país construiu uma narrativa que, ao mesmo tempo em que inspira, simplifica. E, nessa simplificação, corre-se o risco de perder justamente o que há de mais fértil na história: sua ambiguidade, suas tensões, sua recusa em oferecer respostas fáceis.

    Talvez o Brasil, nesse sentido, continue a reconhecer-se como um projeto inacabado não apenas por suas estruturas sociais e políticas, mas por sua dificuldade em encarar o passado sem o amparo dos símbolos prontos. Tiradentes, então, deixa de ser apenas um homem do século XVIII para se tornar um ponto de tensão permanente — entre aquilo que fomos, aquilo que afirmamos ter sido e aquilo que ainda não conseguimos nos tornar.

    O feriado passa, como todos passam. A rotina retoma seu curso, o café esfria na xícara, as horas seguem seu ritmo indiferente. Nada parece se alterar de imediato. E, no entanto, algo permanece — uma leve perturbação, quase imperceptível, como se a história se acomodasse ao nosso lado não para oferecer respostas, mas para nos manter inquietos.

    Talvez resida aí seu gesto mais honesto. Não resolver, não consolar, não concluir — apenas permanecer como uma pergunta aberta. E talvez seja justamente isso que não deveríamos nos permitir ignorar.

  • Fim da escala 6×1: cabe ao Congresso decidir entre o progresso e o atraso

    Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene do Congresso Nacional. Caberá ao parlamento a decisão final sobre a nova escala de trabalho. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil tem ganhado centralidade no debate público contemporâneo por tocar em um dos pontos mais sensíveis da organização social moderna: a tensão permanente entre acumulação econômica, dignidade do trabalho e os limites biofísicos e psíquicos da vida humana. Não se trata, portanto, de uma controvérsia meramente técnica sobre organização de jornadas, mas de uma disputa de paradigmas civilizatórios, cujo desfecho depende da capacidade do Congresso Nacional de se elevar acima de pressões setoriais e compreender a profundidade histórica do tema.

    A escala 6×1 — seis dias consecutivos de trabalho para um único dia de descanso — consolidou-se, sobretudo nos setores de comércio, serviços e varejo, como uma expressão institucional de um modelo produtivo que, embora formalmente compatível com a Consolidação das Leis do Trabalho, preserva uma racionalidade econômica originada em um ciclo industrial que já não corresponde às exigências contemporâneas de produtividade qualificada, saúde mental e reorganização do tempo social. Sua permanência, nesse sentido, não é sinal de inevitabilidade econômica, mas de inércia institucional.

    A proposta de sua superação não se reduz a uma mera diminuição de jornadas, mas implica uma reconfiguração substantiva do pacto social entre capital e trabalho. É precisamente nesse ponto que se torna evidente a centralidade do Congresso Nacional, enquanto instância democrática de mediação de conflitos estruturais. Cabe-lhe arbitrar entre interesses divergentes, evitando a captura do processo legislativo por racionalidades estritamente mercantis ou por agendas ideológicas que, sob o pretexto de liberdade econômica, frequentemente operam como mecanismos de conservação de assimetrias históricas.

    Do ponto de vista da classe trabalhadora, os ganhos associados à revisão da escala 6×1 transcendem o incremento quantitativo de descanso. Diversos estudos em saúde ocupacional e economia do trabalho indicam que a redução de jornadas extensivas está associada à diminuição de quadros de exaustão crônica, burnout e adoecimentos psíquicos, ao mesmo tempo em que potencializa ganhos de produtividade por hora trabalhada. A lógica subjacente é relativamente simples, ainda que sistematicamente ignorada por setores mais conservadores do debate: não há eficiência sustentável na exaustão permanente.

    O tempo livre, nesse contexto, deixa de ser um apêndice do contrato laboral e passa a constituir dimensão essencial da cidadania substantiva. Ao ampliar-se o espaço de não-trabalho, expande-se também a capacidade dos indivíduos de participar da vida social, cultural e familiar, fortalecendo o tecido comunitário e reduzindo formas difusas de alienação social que impactam, inclusive, a estabilidade econômica de longo prazo.

    No âmbito do comércio e dos serviços, a transição para modelos mais equilibrados de jornada não deve ser interpretada como ameaça, mas como reconfiguração estratégica. A qualidade do atendimento, a estabilidade da força de trabalho e a redução da rotatividade tendem a se beneficiar de trabalhadores menos exauridos, o que impacta diretamente a experiência do consumidor e a eficiência sistêmica do setor. A produtividade contemporânea, cada vez mais, depende menos da extensão do tempo trabalhado e mais da sua qualificação.

    Para o empresariado, sobretudo aquele mais sensível a transformações estruturais, impõe-se uma leitura menos imediatista e mais estratégica do fenômeno. A história econômica é suficientemente clara ao demonstrar que ganhos sustentáveis de produtividade raramente emergem da intensificação contínua da exploração laboral, mas sim da reorganização inteligente de processos, da incorporação tecnológica e da qualificação do trabalho humano. A insistência em modelos rígidos de jornada revela, em muitos casos, uma defasagem gerencial mais do que uma necessidade econômica objetiva.

    A transição para um modelo pós-6×1, portanto, poderia ser conduzida de maneira gradual, combinando incentivos institucionais, adaptação regulatória e estímulos à inovação organizacional. Trata-se de uma mudança de arquitetura social, e não de um rompimento abrupto com a realidade produtiva.

    Entretanto, o debate encontra resistência significativa de setores políticos e econômicos que operam sob uma racionalidade profundamente ancorada em pressupostos da extrema direita contemporânea, marcada por uma defesa quase dogmática da desregulamentação e pela naturalização de assimetrias laborais como se fossem condições imutáveis da economia. Nesse campo, a crítica à ampliação de direitos trabalhistas frequentemente ultrapassa o debate técnico e assume contornos ideológicos, nos quais qualquer reorganização do tempo de trabalho é interpretada como ameaça ao próprio funcionamento do mercado, ainda que evidências empíricas sugiram o contrário.

    Paralelamente, segmentos organizados do empresariado, especialmente aqueles mais dependentes de estruturas de baixa remuneração e alta rotatividade, exercem pressão sistemática no sentido de preservar um modelo de jornada que maximize a extração de valor no curto prazo. Essa convergência entre interesses econômicos concentrados e uma racionalidade política avessa à regulação social mais robusta contribui para a manutenção de um discurso que apresenta a escala 6×1 como inevitável, quando, na realidade, ela é historicamente construída e politicamente sustentada.

    A crítica necessária a esse bloco de resistência não deve se apoiar em moralismos simplificadores, mas em uma análise estrutural: trata-se de reconhecer que a defesa intransigente do status quo pode operar como um entrave à modernização das relações de trabalho e à própria elevação da produtividade sistêmica da economia brasileira. Em um contexto global de transformação tecnológica acelerada, automação e reorganização do tempo social, a manutenção de padrões laborais rígidos tende a produzir não apenas custos sociais elevados, mas também perda de competitividade estrutural.

    Em síntese, a superação da escala 6×1 deve ser compreendida como parte de um projeto mais amplo de modernização institucional do trabalho no Brasil. O Congresso Nacional, enquanto espaço de deliberação democrática, tem a responsabilidade histórica de enfrentar essa questão com base em evidências empíricas, projeções de longo prazo e compromisso com o interesse público, e não sob a influência de pressões conjunturais ou dogmas econômicos ultrapassados.

    O verdadeiro dilema não se resume à quantidade de dias trabalhados, mas à própria concepção de sociedade que se deseja consolidar: uma sociedade subordinada à lógica da maximização imediata da produção, frequentemente defendida por setores políticos alinhados a uma visão economicista restrita, ou uma sociedade capaz de articular eficiência econômica com bem-estar humano, coesão social e desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o debate sobre o fim da escala 6×1 é, em última instância, um debate sobre o próprio horizonte civilizatório do país.

  • 17 de abril de 1996: 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

    Cruz marca o local do massacre em Eldorado dos Carajás, Pará. Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr


    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há datas que não passam. Ficam suspensas no tempo como poeira vermelha sobre a pele — insistem, infiltram-se, recusam o esquecimento. Abril, no sul do Pará, é sempre um mês que arde. Não apenas pelo calor, nem pela terra exposta das estradas, mas pelo que ficou impregnado nela: a memória de um país que, diante do clamor por justiça, respondeu com o peso das armas.

    Trinta anos depois, o que aconteceu no Massacre de Eldorado do Carajás ainda não terminou de acontecer.

    A estrada PA-150, naquele 17 de abril de 1996, não era apenas caminho: era palco. Centenas de trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra seguiam em marcha, depois de dias de deslocamento e de espera por negociação. Estavam acampados, cansados, pressionando por desapropriações prometidas e nunca cumpridas. Não pediam mais do que aquilo que a Constituição já previa — mas, no Brasil, entre o direito escrito e o direito vivido, há sempre um abismo.

    Do outro lado, veio a Polícia Militar do Pará. Não veio para escutar. Veio para desobstruir. A ordem era liberar a estrada, custasse o que custasse. E custou. O que se seguiu não foi apenas confronto: foi uma execução que resultou em 21 mortes. Dezenas de feridos. Trabalhadores cercados, muitos sem possibilidade de fuga, atingidos à queima-roupa. Corpos caídos no asfalto e na terra, ferramentas transformadas em símbolos de impotência diante de fuzis.

    Não foi um acidente. Tampouco um descontrole momentâneo. O massacre carrega a assinatura de uma lógica antiga, quase colonial, que entende a terra como privilégio e o pobre como obstáculo. O que se viu ali não foi apenas repressão: foi uma mensagem. E mensagens, quando dadas em tiros, são sempre difíceis de apagar.

    Há relatos de feridos impedidos de receber socorro imediato, de sobreviventes perseguidos mesmo depois da dispersão, de uma violência que ultrapassou qualquer justificativa de manutenção da ordem. A estrada, que deveria ligar cidades, naquele dia separou mundos — o dos que podiam mandar e o dos que só podiam resistir.

    Há quem tente enquadrar o episódio como um ponto fora da curva. Mas a curva, no Brasil, é longa e tortuosa. Antes de Carajás, vieram outros silêncios armados; depois dele, também. O que muda são os nomes, os rostos, às vezes a geografia. A estrutura permanece — uma engrenagem que transforma reivindicação em ameaça e resistência em crime.

    Naquela tarde, a estrada ficou marcada por corpos e por algo ainda mais persistente: a evidência de que a lei nem sempre se aplica da mesma forma. Anos depois, alguns comandantes da operação foram condenados, mas a responsabilização nunca alcançou toda a cadeia de decisões que tornou possível a tragédia. A sensação de justiça incompleta permanece como uma sombra — porque justiça não é apenas punir executores, é também enfrentar as estruturas que autorizam a violência.

    Trinta anos é tempo suficiente para que uma geração inteira cresça sem ter visto o que aconteceu. E, ainda assim, herde suas consequências. Porque o massacre não se limita aos que estavam lá. Ele ecoa nas ocupações que continuam sendo tratadas como caso de polícia, nas lideranças ameaçadas, nos conflitos agrários que persistem como uma ferida aberta no mapa.

    O Brasil urbano, muitas vezes, observa tudo isso à distância, como se fosse outra realidade. Mas há um fio invisível que liga a estrada de terra aos centros asfaltados: o alimento que chega à mesa, o modelo de desenvolvimento que se escolhe sustentar, o silêncio que se aceita manter. Ignorar Carajás é, de certo modo, participar do seu esquecimento — e o esquecimento é a forma mais eficiente de repetição.

    Uma crônica, por natureza, lida com o cotidiano. Mas há cotidianos que são construídos sobre ruínas. O de muitos trabalhadores rurais no país ainda carrega o peso daquele abril. Não como lembrança distante, mas como aviso permanente. A terra continua sendo disputada não apenas com documentos, mas com coragem — e, às vezes, com sangue.

    Há também, contudo, um outro lado da memória: o da persistência. Porque, apesar de tudo, as vozes que foram silenciadas naquele dia não desapareceram completamente. Elas se espalharam. Estão nos acampamentos que resistem, nas marchas que insistem, nos nomes que continuam sendo pronunciados em assembleias e encontros. Há uma dignidade teimosa nisso — uma recusa em deixar que a história seja contada apenas pelos vencedores.

    Talvez o maior incômodo de relembrar Eldorado do Carajás seja justamente este: perceber que ele não pertence ao passado. Ele é uma pergunta que ainda não foi respondida. Que país se constrói quando a reivindicação por direitos básicos é recebida como afronta? Que futuro se desenha quando a terra — origem de tudo — permanece concentrada nas mãos de poucos?

    Trinta anos depois, o asfalto cobre parte das marcas, mas não as apaga. A poeira continua ali, invisível aos olhos apressados, mas pronta para se erguer ao menor movimento. E a memória, essa matéria indomável, segue fazendo o que sabe fazer: voltar.

    Voltar como incômodo. Como denúncia. Como lembrança de que há histórias que não podem ser encerradas enquanto não forem verdadeiramente compreendidas.

    E, talvez, como um pedido — não por piedade, mas por responsabilidade. Porque lembrar não é apenas um gesto de respeito ao passado. É uma forma de interrogar o presente.

    E, quem sabe, impedir que ele se repita.