Autor: da Redação

  • 40 anos sem Simone de Beauvoir, uma interlocutora ainda incômoda do presente


    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Quarenta anos após a morte de Simone de Beauvoir (9 de janeiro de 1908 – 14 de abril de 1986), descubro que sua ausência não é propriamente um vazio — é antes um rumor contínuo, uma espécie de presença indireta que se infiltra nas conversas, nos livros, nas pequenas insurgências do cotidiano. Há autores cuja partida inaugura o silêncio; a dela, ao contrário, parece ter multiplicado vozes. E não quaisquer vozes: sobretudo aquelas que, por tanto tempo, mal podiam nomear a própria experiência. Beauvoir não foi apenas filósofa ou romancista; foi uma consciência em vigília, dessas que não se permitem o luxo do repouso. Havia nela uma recusa quase obstinada do conforto das certezas — como se pensar fosse, antes de tudo, aceitar o desconforto de não concluir.

    Ler Beauvoir hoje, digo isso como quem a reencontra mais do que a descobre, é encarar uma lucidez que não se desgasta com o tempo. Sua escrita jamais buscou neutralidade; ao contrário, ela parece ter entendido muito cedo que pensar exige assumir um lugar — e, mais ainda, expor esse lugar sem proteção. Há algo de quase físico nisso: uma escrita que não abdica da experiência, mas também não se rende a ela. Entre a vida e a ideia, entre o vivido e o conceito, Beauvoir construiu uma tensão fértil, dessas que não se resolvem — e talvez seja justamente por isso que permanecem.

    Simone de Beauvoir – “Memórias de uma menina bem comportada”. Reprodução

    É difícil evocá-la sem voltar àquele gesto inaugural que deslocou uma evidência milenar: nomear a opressão das mulheres não como destino, mas como construção. Hoje, a frase ecoa com familiaridade, quase como um axioma — mas houve um tempo em que foi ruptura. Ao afirmar que não se nasce mulher, torna-se, Beauvoir abriu uma fenda no pensamento ocidental. E certas fendas, penso eu, não pedem reparo: são por onde a luz insiste em entrar.

    Mas há um risco em fixá-la apenas nesse ponto, como se sua obra pudesse ser contida numa única formulação. Beauvoir é mais vasta, mais inquieta. Percorre romances, ensaios, memórias, diários — e em todos eles retorna à mesma pergunta, dita de modos diferentes: o que significa existir em liberdade quando o mundo, de tantas formas, nos constrange? Seus romances, frequentemente relegados a um segundo plano, me parecem laboratórios morais, espaços onde os personagens se debatem com escolhas que nunca se deixam purificar. Não há heroísmo fácil ali. Há, antes, uma ética da ambiguidade — essa zona incômoda em que toda decisão cobra um preço.

    Talvez seja essa recusa da pureza que a torne tão próxima. Beauvoir não idealiza — nem seus personagens, nem a si mesma. Em suas memórias, há hesitações expostas, contradições admitidas, zonas de sombra que não são apagadas em nome da coerência. E nisso reside uma honestidade rara: como se a verdade só pudesse emergir quando desistimos de parecer inteiros. Ela compreendeu, com uma clareza que ainda me desconcerta, que viver é negociar permanentemente com o inacabado.

    Quarenta anos se passaram, e o mundo — sim — mudou. Mas não o suficiente. As estruturas que Beauvoir analisou não desapareceram; apenas aprenderam a disfarçar-se melhor. Tornaram-se mais sutis, às vezes mais difíceis de nomear — o que, paradoxalmente, as torna mais persistentes. A liberdade que ela reivindicava segue sendo, para muitos, uma promessa adiada. Por isso, sua obra resiste a ser arquivada: não é apenas objeto de estudo, é ferramenta. Ensina a desconfiar do que se apresenta como natural, a interrogar os papéis que nos oferecem, a reivindicar — com todas as hesitações que isso implica — a autoria da própria vida.

    E há, ainda, uma dimensão que me parece menos comentada, talvez por ser menos ruidosa: a delicada relação que Beauvoir estabelece com o tempo. Em suas memórias, não há refúgio na nostalgia. O passado não é abrigo; é interrogação. Há ali uma espécie de ternura vigilante, como se olhar para trás fosse um ato de responsabilidade, não de consolo. Aquilo que fomos não nos abandona — continua a nos pedir contas. E essa consciência histórica de si, tão exigente, talvez seja uma das formas mais rigorosas de liberdade.

    Também o amor, em Beauvoir, recusa a facilidade. Longe das idealizações, ele aparece como um campo de tensão — entre autonomia e vínculo, entre desejo e risco de anulação. Amar, para ela, não é dissolver-se no outro, mas sustentar uma relação em que duas liberdades coexistam sem se destruir. É um ideal exigente, por vezes quase inatingível — e, justamente por isso, revelador. Há aí uma recusa firme de aceitar afetos moldados pela dependência ou pela dominação.

    Quando penso em sua morte, em abril de 1986 (em setembro eu completaria 10 anos de idade), não me detenho tanto na data quanto na medida que ela nos impõe: que mundo construímos desde então? Há conquistas inegáveis, marcas de um pensamento que ajudou a deslocar estruturas. Mas há também resistências que persistem, silêncios que se reinventam, retrocessos que nos lembram que nenhuma conquista é definitiva.

    Talvez o maior tributo a Beauvoir não seja a reverência — essa forma elegante de domesticar o que nos inquieta —, mas a continuidade crítica. Lê-la não é concordar, é aceitar o convite ao risco de pensar. É permitir que suas perguntas nos desloquem, que suas análises nos incomodem, que sua coragem nos atravesse — não como modelo, mas como impulso.

    Quarenta anos depois, Simone de Beauvoir permanece menos como figura do passado e mais como uma interlocutora ainda incômoda do presente. Sua voz não se apagou; mudou de lugar. Às vezes sussurra, às vezes insiste — mas sempre retorna à mesma exigência: a liberdade não é um dado. É uma tarefa. E, como ela bem sabia, uma tarefa que nunca se conclui, nunca se cumpre sozinho, nunca deixa de ser urgente.

  • 13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

    13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    No calendário das datas cívicas, o 13 de abril passa quase em silêncio, como um acorde sustentado que poucos escutam até o fim. Não há fogos, não há desfiles grandiosos, não há a coreografia ensaiada das celebrações que se impõem ao olhar. Há, antes, uma espécie de pausa — um intervalo discreto em que repousa a memória de uma música que atravessou o tempo como um rio paciente, desses que contornam pedras sem jamais deixar de seguir. É o Dia Nacional do Hino Brasileiro, e há algo de profundamente simbólico nessa discrição: celebramos um canto que nasceu para unir, mas que hoje, tantas vezes, ecoa como território em disputa.

    Antes de ser grito de multidão, o hino foi sussurro de criação. Em 1831, quando o Brasil ainda tateava sua própria identidade como quem aprende a reconhecer o próprio rosto no espelho, Francisco Manuel da Silva compôs uma melodia para retratar um país em formação — instável, grandioso, cheio de promessas e contradições. Décadas depois, as palavras de Joaquim Osório Duque Estrada vieram como uma segunda camada de sentido, vestindo a música com imagens de bravura, natureza e destino. Não era apenas uma canção: era uma tentativa — talvez impossível, talvez necessária — de dizer, em som e verso, o que significava existir como povo.

    E, no entanto, nosso hino nunca foi simples. Há nele uma grandiosidade que beira o excesso, como se cada palavra precisasse erguer uma estátua, como se cada verso carregasse a responsabilidade de eternizar uma ideia de pátria. “Margens plácidas”, “brado retumbante”, “lábaro estrelado” — o Brasil ali é mais horizonte do que chão, mais promessa do que realidade. Talvez seja justamente por isso que ele persista: porque não descreve o que somos, mas insiste, teimosamente, no que ainda poderíamos ser.

    Mas toda beleza, quando deslocada, corre o risco de endurecer.

    Nos tempos recentes, o hino tem sido capturado por vozes que já não querem cantar — querem delimitar. Ele surge em manifestações carregadas de tensão, entoado não como convite, mas como exigência. Canta-se para marcar território, para distinguir quem pertence e quem deve ser colocado à margem. Quem não canta, suspeito é; quem hesita, já se torna alvo. E assim, aquilo que nasceu como ponte vai sendo lentamente erguido como muro, pedra sobre pedra, nota sobre nota, até que o som já não acolhe — apenas separa.

    Há uma violência sutil nesse processo, quase invisível para quem não se detém a escutar com atenção. Não se trata da destruição do símbolo, mas de sua torção. O hino permanece reconhecível, intacto em sua melodia, mas deslocado em seu sentido mais profundo. A música que deveria abraçar passa a excluir. O canto coletivo se transforma em coro disciplinado, rígido, onde não há espaço para variações, apenas para repetição.

    E talvez o mais trágico seja que esse processo empobrece não apenas o debate político, mas a própria experiência cultural. Reduzir o hino a instrumento ideológico é como transformar poesia em palavra de ordem: perde-se a ambiguidade, o mistério, a abertura que permite múltiplas leituras. O que antes era interpretação vira obediência. O que antes era emoção compartilhada se converte em teste de fidelidade.

    Ainda assim, o hino resiste — e talvez resista justamente por não caber inteiro em nenhuma tentativa de controle.

    Resiste nas escolas onde crianças tropeçam nas palavras difíceis e ainda assim seguem cantando, inventando sentidos próprios. Resiste nos momentos em que alguém, sozinho, escuta sua melodia e sente algo que não sabe nomear — uma mistura de pertencimento e estranhamento, de orgulho e dúvida, de proximidade e distância. Resiste porque não pertence a quem grita mais alto, mas a quem ainda é capaz de escutar o que há de humano por trás das notas.

    Porque o hino, no fundo, nunca foi sobre unanimidade. Foi — e talvez ainda seja — sobre convivência. Sobre a difícil tarefa de existir junto, apesar das diferenças, apesar das discordâncias, apesar das fissuras que insistem em atravessar o tecido social. Ele não exige concordância plena; exige presença. Não impõe uma única voz; pressupõe um coro imperfeito, feito de contrastes.

    Neste 13 de abril, celebrar o Hino Nacional talvez seja justamente recusá-lo como instrumento de imposição. É devolvê-lo ao seu estado mais frágil — e, por isso mesmo, mais poderoso: o de canto. Um canto que não apaga conflitos, mas também não os transforma em trincheiras. Um canto que não define quem é mais brasileiro, mas pergunta, com delicadeza e inquietação, o que significa ser.

    E talvez, no fim, seja essa a verdadeira subversão: cantar sem ódio em tempos repletos de gritos, ouvir sem medo em meio ao ruído, reconhecer no outro não um inimigo, mas uma voz possível dentro do mesmo coro incompleto.

    Porque o hino pode até ser apropriado por alguns por um tempo — mas nunca será totalmente possuído. Ele escapa pelas brechas, ressoa nos lugares inesperados, reaparece onde menos se espera. Ele se reinventa na escuta de quem ainda acredita que o país não é propriedade, mas construção.

    E, apesar de tudo — das disputas, dos ruídos, das tentativas de captura — ele permanece.

    Não como ordem.
    Não como prova.
    Mas como canto.

  • Ambientalistas ampliam debate sobre os impactos de uma nova fábrica de celulose às margens do Guaíba

    Ambientalistas ampliam debate sobre os impactos de uma nova fábrica de celulose às margens do Guaíba

    Um comitê formado por biólogos, engenheiros químicos, médicos, representantes dos povos indígenas e quilombolas promoveu na terça-feira, 7 de abril, na Câmara Municipal de Porto Alegre, uma Audiência Pública Popular para discutir os impactos da instalação de uma nova fábrica de celulose da CMPC, projetada para ser construída no município de Barra do Ribeiro.

    Em pauta, as falhas no estudo de impacto ambiental apresentado pela empresa, a poluição do Guaíba devido ao aumento excessivo de efluentes e possíveis consequências para a qualidade da água, a saúde da população e o meio ambiente. O debate foi promovido pelo vereador Alexandre Bublitz (PT) e pelo biólogo e professor da UFRGS Paulo Brack, vereador suplente pelo PSol.

    A bióloga Rosa Rosado coordenou o debate, acompanhada por cerca de 60 pessoas. Entre os presentes, Eduíno de Mattos, do comitê das bacias Guaíba e Gravataí, a engenheira química Alda Maria Corrêa, ex-analista ambiental da Fepam na área de efluentes, a bióloga Cátia Regina Machado, especialista em efluentes, e a médica e indigenista Roselaine Murlik.

    A empresa CMPC não enviou representantes

    Leia mais sobre:

    https://novo.jornalja.com.br/noticiario/ambiente/carga-toxica-no-guaiba-vai-dobrar-com-nova-fabrica-de-celulose-alerta-ambientalista/

    https://novo.jornalja.com.br/noticiario/ambiente/biologa-aponta-falhas-tecnicas-no-estudo-de-impacto-ambiental-da-nova-fabrica-de-celulose-em-barra-do-ribeiro/

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  • Porto Alegre tem 8,5 mil pessoas em 204 áreas de risco, aponta levantamento

    Porto Alegre tem 8,5 mil pessoas em 204 áreas de risco, aponta levantamento

    Cerca de 8,5 mil pessoas vivem em áreas de risco em Porto Alegre, distribuídas em 204 setores considerados prioritários, segundo dados do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), apresentado nesta sexta-feira (10), em audiência pública na Cinemateca Capitólio, no Centro Histórico da capital gaúcha.

    O estudo identifica 8.591 moradores expostos a riscos geológicos e hidrológicos — como enchentes, deslizamentos e erosões —, sendo 35 setores classificados como de risco muito alto e os demais como de alto risco. Ao todo, foram mapeadas 3.438 edificações em áreas vulneráveis.

    Elaborado em parceria entre a Prefeitura, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Governo Federal, o plano revisa e detalha o mapeamento de áreas críticas na Capital, com foco na prevenção de desastres e no planejamento de intervenções.

    Como principal medida, o PMRR recomenda investimento de R$ 88,7 milhões na execução de 24 obras estruturais. Dessas, 17 são intervenções hidrológicas, voltadas à drenagem e controle de alagamentos, e sete geotécnicas, direcionadas à contenção de encostas. As ações têm potencial de beneficiar diretamente 1.623 moradias.

    O levantamento também prevê medidas não estruturais, como ações de planejamento, educação e fortalecimento institucional, embora essas não tenham estimativa de custo definida.

    Os dados indicam que a maior parte dos riscos está associada a processos hidrológicos, presentes em 121 setores, incluindo inundações e enxurradas. Já os demais envolvem problemas geodinâmicos, como deslizamentos, queda de blocos e erosão de margens.

    Professor Guilherme Garcia apresentou resultados do Plano Municipal de Redução de Riscos. Foto Cesar Lopes/ PMPA

    Durante a apresentação, o coordenador do estudo e professor da UFRGS, Guilherme Garcia de Oliveira, destacou que o plano passou por reformulação após a enchente de 2024, ampliando o escopo das áreas de inundação. Segundo ele, o documento deve servir como base para a captação de recursos federais e aprimoramento das políticas públicas.

    O prefeito Sebastião Melo afirmou que o município buscará financiamento para viabilizar as obras e ressaltou que o crescimento urbano desordenado contribuiu para a ocupação de áreas de risco. Já
    André Machado, diretor do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), destacou a necessidade de equilíbrio em eventuais reassentamentos e a importância da participação das comunidades nas decisões.

    O plano, que levou dois anos para ser elaborado, é considerado um instrumento inicial de planejamento e deverá ser atualizado periodicamente, diante das mudanças urbanas e climáticas que afetam a cidade.

    Veja a apresentação do PMRR aqui.

  • O candidato de si mesmo

    O candidato de si mesmo

    Sem emplacar nacionalmente, Leite pode ficar quatro anos sem mandato. Foto João Pedro Rodrigues/SecomRS

    ELMAR BONES

    Ninguém é candidato de si mesmo. Essa é a regra não escrita da política partidária, que as velhas raposas não cansam de repetir aos novatos. Eduardo Leite parece não tê-la aprendido. Ele não tem sido outra coisa desde que ultrapassou os umbrais do Piratini em 2019, aos 33 anos.

    Por melhor que seja, o candidato tem que esperar sua hora – é a outra leitura que se pode fazer da regra partidária.

    Em 2022, ainda no PSDB, Leite tentou atropelar João Dória, então governador de São Paulo, para lançar-se à presidência da República. Sua aventura nacional morreu na praia.

    Agora, está inconformado porque foi preterido por Ronaldo Caiado, como candidato do PSD ao Planalto. Restará a ele o papel de cabo eleitoral, tentando impulsionar a candidatura estadual de seu vice, Gabriel Souza.

    É evidente que ele tem “mais perfil” do que Caiado para ser a “terceira via”, que é o candidato que a oposição está buscando para barrar o Lula 4.

    Mas Caiado governa Goiás, que é um estado ascendente no contexto brasileiro. Registrou o maior índice de crescimento no país em 2025.

    Leite governa um Rio Grande do Sul estagnado, para não dizer decadente. Nos últimos 25 anos, o RS caiu do 2º para o 6º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

    Eduardo Leite conseguiu a façanha de se reeleger governador, fato inédito na história política do Estado. Mas, em suas duas gestões, em vez de reverter o processo de queda, aprofundou-o.

    No primeiro mandato, deu continuidade à obra devastadora de Ivo Sartori, que extinguiu fundações e centros de pesquisa em nome do equilíbrio fiscal, até hoje não alcançado ou precariamente alcançado através da venda de patrimônio e cortes de investimentos essenciais. A enchente, “a maior da história”, de certa forma, mascarou problemas estruturais e, mobilizando investimentos federais, turbinou o PIB estadual em 2024. Em 2025, já voltou a crescer abaixo da média brasileira.

    Quem sabe, por sua condição de perpétuo candidato, perdeu também a oportunidade de obter melhores condições para a dívida com a União, que extrapolou.

    Enfim, Eduardo Leite é uma liderança ainda em ascensão numa democracia carente – tem muito terreno pela frente. Precisa sopitar sua ambição. Terá, agora, quatro anos sem mandato para refletir.

    Obs: Sim, houve um abaixo-assinado defendendo seu nome, mas uma candidatura à presidência não se faz com uma lista de amigos e admiradores, por mais influentes que sejam.

  • Jornalista Batista Filho palestra em ato pelos 62 anos do Golpe Militar

    Jornalista Batista Filho palestra em ato pelos 62 anos do Golpe Militar

    O jornalista João Batista Filho, de 86 anos, será o palestrante do “Ato de Repúdio pelos 62 Anos da Ditadura Militar”, que ocorre nesta quarta-feira (8), às 19h, no Auditório Ana Terra da Câmara Municipal de Porto Alegre. A atividade é promovida pela Associação dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Rio Grande do Sul (AEPPP/RS).

    Batista Filho é militante histórico do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e presidente de honra da Associação Riograndense de Imprensa (ARI). Durante o evento, ele deve relatar sua experiência pessoal no período do golpe de 1964, quando tinha 24 anos e já atuava como jornalista.

    Na época, Batista acompanhou de perto os desdobramentos iniciais do golpe, incluindo a saída do então presidente João Goulart e de Leonel Brizola do país. Em sua palestra, pretende abordar o impacto do regime militar, marcado pela suspensão de direitos políticos e civis, censura à imprensa, repressão, perseguições, prisões, torturas e mortes.

    À época do golpe, Batista Filho trabalhava como redator e apresentador de notícias na TV Piratini, além de atuar na sucursal da Agência Nacional em Porto Alegre e como comentarista esportivo em rádio.

    O presidente da AEPPP/RS, Sérgio Bittencourt, destaca a importância da realização do ato em um contexto de polarização política no país. Segundo ele, há interpretações equivocadas sobre o período da ditadura, o que reforça a necessidade de iniciativas que resgatem a memória histórica. Bittencourt também ressaltou a trajetória do jornalista, classificando-o como uma referência ética e uma liderança consolidada no meio da comunicação.

    Memória, verdade e justiça

    O evento conta com apoio da Fundação Caminhos da Soberania (FCS) e do gabinete do vereador Pedro Ruas (PSOL), que tradicionalmente promove atividades para marcar a data e destacar o Movimento da Legalidade.

    De acordo com o vereador, a realização do ato na Câmara integra sua atuação em defesa dos direitos humanos. Ele afirma que os princípios de memória, verdade e justiça justificam o apoio à iniciativa e reforçam a necessidade de reflexão sobre o período.

    Ruas também avalia que o país ainda enfrenta dificuldades em lidar com o legado da ditadura, especialmente pela ausência de responsabilização dos envolvidos em violações de direitos humanos. Para ele, ações como essa são fundamentais para conscientizar as novas gerações sobre os impactos do regime militar.

    Programação inclui mostra de charges

    A programação alusiva ao golpe também inclui a exposição “1º de Abril: 62 anos do golpe militar em charges”, organizada pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos. A mostra foi aberta no dia 1º de abril e segue até o dia 15, no saguão Adel Carvalho da Câmara Municipal de Porto Alegre.

    A exposição reúne 60 trabalhos de 22 chargistas, com participação da Grafar – Grafistas Associados do Rio Grande do Sul – e do jornal O Grifo. A curadoria é do jornalista Celso Schröder.

  • Governo gaúcho abre consulta pública para PPP de ampliação do Centro Administrativo Fernando Ferrari

    Governo gaúcho abre consulta pública para PPP de ampliação do Centro Administrativo Fernando Ferrari

    O governo do Estado lançou, na segunda-feira (6/4), uma consulta pública sobre a parceria público-privada (PPP) do Centro Administrativo Fernando Ferrari (Caff), localizado em Porto Alegre. O período de escuta da população, para acolher sugestões e críticas ao projeto, vai até 15 de maio.

    A Parceria Público-Privada visa modernizar, reformar e ampliar o complexo, com previsão de R$ 1,3 bilhão em investimentos. O projeto inclui a construção de novos andares no prédio central e novas áreas de convivência, visando eficiência energética e melhor infraestrutura.

    As minutas de edital e contrato, bem como os estudos, estão disponíveis nesta página. Uma audiência pública também está prevista, em data a ser confirmada.

    Proposta

    A proposta da PPP, estruturada em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), prevê obras de reforma, requalificação e equipagem. Inclui ainda operação, manutenção e gestão do complexo, abrangendo edificações onde estão alocados órgãos como o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) e a Procuradoria-Geral do Estado (PGE).  

    Segundo o governo estadual, a parceria com a iniciativa privada, que será de 30 anos, vai garantir maior agilidade na execução das obras – previstas para serem concluídas nos seis primeiros anos do contrato – e menos burocracia – pois se trata de um contrato apenas.

    A PPP prevê a construção de nove andares no Caff e 2.904 estações de trabalho. Projeta ainda 3.263 novas vagas de estacionamento e 14 edificações – que resultarão em mais espaços de reunião e coworking, além de áreas comerciais e de convivência, entre outros ambientes.

    Sobre o Caff

    Localizado em uma área de 104.653 metros quadrados, o Caff integra o movimento urbanístico que ocupa a faixa entre a Usina do Gasômetro e o Parque Marinha do Brasil. Inspirado na arquitetura modernista de Brasília, o complexo começou a ser construído em 1976 e foi inaugurado em 1987.

    Com formato piramidal, o edifício principal abriga atualmente 18 secretarias de Estado, distribuídas em 21 andares organizados em duas alas. Abrange também o anexo onde funciona a Secretaria da Educação (Seduc) e a Casa da Ospa – totalizando 19 órgãos instalados no conjunto.

  • Audiência pública em Porto Alegre discute ampliação da CMPC

    Audiência pública em Porto Alegre discute ampliação da CMPC

    Uma audiência pública, nesta terça-feira, 07 de abril, a partir das 18h, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, debate o projeto de expansão da multinacional CMPC, que planeja instalar em Barra do Ribeiro o que pode ser a maior indústria de celulose da América Latina, com investimento de R$ 27 bilhões. Embora o empreendimento prometa a geração de milhares de empregos e melhorias na infraestrutura logística, ele enfrenta forte resistência de ambientalistas e órgãos oficiais. O Ministério Público Federal, inclusive, já recomendou a suspensão do licenciamento devido à ausência de consultas prévias a comunidades indígenas e quilombolas, conforme exigido por normas internacionais.

    Os principais pontos de alerta concentram-se no impacto ambiental extremo sobre o bioma Pampa e no sistema hídrico do Guaíba. Preocupa a escala da captação de água — superior ao consumo de toda a capital — e o descarte de efluentes químicos próximo a pontos de captação do DMAE, o que coloca em risco a segurança hídrica da população. Além disso, o avanço da silvicultura de eucalipto em mais de 70 municípios e a possível contaminação por metais pesados e agrotóxicos mobilizam especialistas e comunidades tradicionais que dependem diretamente desses ecossistemas.

    Local:Plenário Ana Terra
    Categoria:Aberto ao Público
    Data:em 07/04/2026, das 18:00 às 22:00

    Endereço. Av. Loureiro da Silva, 255 – Porto Alegre

  • Porto Alegre avança na votação do Plano Diretor sob críticas de “fatiamento” e riscos climáticos

    Porto Alegre avança na votação do Plano Diretor sob críticas de “fatiamento” e riscos climáticos

    A Câmara Municipal de Porto Alegre entrou na fase final da revisão do Plano Diretor. Após meses de impasse, um acordo entre a base do prefeito Sebastião Melo (MDB) e a oposição acelerou a votação de mais de 200 emendas. A expectativa é que o texto final seja apreciado ainda em abril e que todo o processo se encerre no início de maio.

    Nas últimas sessões, foram aprovadas as primeiras 18 emendas sugeridas pela oposição. Mas, outras 136 foram rejeitadas em bloco.

    Entre os pontos já aprovados, tanto de emendas da base quanto da oposição, há desde a criação de “refúgios climáticos”, atualização de áreas de risco, até regras para veículos aéreos elétricos e também a manutenção das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), além da inclusão de bibliotecas comunitárias no planejamento urbano.

    Os vereadores da oposição criticam o que chamam de “fatiamento” da votação. “Estão aprovando diretrizes sem que a população compreenda os impactos reais nos bairros”, afirma a líder Karen Santos (PSol). Propostas que endureciam regras para grandes empreendimentos foram rejeitadas, como estudos de impacto de vizinhança mais rigorosos.

    Verticalização no centro do debate

    O ponto mais controverso é a liberação de prédios de até 130 metros, especialmente no Centro Histórico e no Quarto Distrito — regiões fortemente atingidas pelas enchentes de 2024.

    A prefeitura defende a medida como estratégia de desenvolvimento. “O adensamento é necessário para otimizar a infraestrutura e gerar recursos para a cidade”, já afirmou o secretário Germano Bremm. O prefeito Sebastião Melo sustenta que o plano busca “preparar Porto Alegre para o futuro”.

    Especialistas, no entanto, apontam riscos. “Há uma desconexão entre o adensamento e a realidade climática”, avaliam representantes do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS), como a conselheira do IAB RS e professora da UFRGS Clarice Oliveira, que participou de um debate promovido no IAB sobre o Plano Diretor.

    A bióloga Simone Azambuja, da Agapan, confirma: “o plano não leva em conta as mudanças climáticas”, e pode agravar problemas em áreas vulneráveis. Ela também critica o argumento de inclusão social: “A população de baixa renda não terá acesso a esses empreendimentos”.

    Pressão e risco

    Entidades da sociedade civil apontam falhas no processo, como falta de participação popular e ausência de diretrizes ambientais. E o Ministério Público chegou a recomendar a suspensão da tramitação. “Se houver ilegalidades, o projeto pode ser questionado na Justiça”, alerta o promotor Cláudio Ari Pinheiro de Mello.

    Segundo ele, há indícios de conflito com o Estatuto da Cidade, especialmente na prevenção de desastres.

    Próximos passos

    Votação das emendas na Câmara ocorre durante o mês de abril. Foto Ederson Nunes/CMPA

    A prefeitura afirma que o plano teve participação popular e admite ajustes técnicos. Também defende que o adensamento permitirá financiar obras contra enchentes.

    A votação deve continuar nos próximos dias. Após aprovação, o texto seguirá para sanção do prefeito.

    A revisão ocorre com anos de atraso — o Plano Diretor de Porto Alegre foi atualizado, parcialmente, em 2010, e deveria ter sido novamente analisado em 2020.

  • Galeria Gravura abre as mostras “Muitos Mundos” e “Do Descarte à Superfície”

    Galeria Gravura abre as mostras “Muitos Mundos” e “Do Descarte à Superfície”

    A Gravura Galeria de Arte abre duas novas exposições na terça-feira, dia 7 de abril: “Muitos Mundos”, da artista visual Andréia Moll, e “Do Descarte à Superfície”, da artista Leonor Moura. As mostras têm curadoria de Letícia Lau.

    As inaugurações acontecem das 18h30 às 20h30. As obras de “Muitos Mundos” ocupam a sala Negra, e os trabalhos de “Do Descarte à Superfície”, a sala Branca da Gravura, dirigida pela galerista e arquiteta Regina Galbinski.

    Ambas as exposições são propostas por duas artistas visuais integrantes do VW Atelier Coletivo, com longa prática artística. Cada uma desenvolve investigações que atravessam seus posicionamentos diante da realidade e dos modos de habitar o mundo.

    Obra de Andréia Moll. Reprodução

    De acordo com a curadora, Muitos Mundos surge a partir de uma pergunta simples: O que é realidade? Pensando na teoria ontológica de realidades ramificadas, a artista busca pelo cerne, ou como ela afirma, o ‘mundo principal’, diante da pluralidade de universos singulares simbolizado por esferas evidenciadas em suas pinturas e monotipias.

    Referindo-se à mostra Do Descarte à Superfície, Lau  observa que “consumimos sem ver. Descartamos sem perceber. Aqui, tudo volta à superfície”.

    Obra de Leonor Moura. Reprodução

    Vivência diversificada

    Andréia Moll morou na Finlândia, Venezuela, México, Holanda e Estados Unidos. A pluralidade de ambientes impulsionou sua pesquisa, que se concentra nos fatores envolvidos na construção das visões de mundo individuais.

    Seus trabalhos, em desenho, pintura, fotografia e colagem, partem de uma pergunta “simples e vertiginosa”: em que mundo, afinal, vivemos?

    “Em um tempo marcado pela multiplicação de telas, notícias e experiências mediadas, a exposição propõe uma pausa reflexiva. Como estabelecemos conexões entre as diferentes “realidades” que nos chegam a cada contato humano, a cada manchete, a cada novo aplicativo? E, para além da fragmentação, existe uma realidade primeira — um fundamento ao qual valha a pena retornar?”, reflete ela.

    Ético e sustentável

    O trabalho de Leonor Moura envolve o uso de itens que a maioria das pessoas despreza: embalagem, papel de presente, enchimento de uma caixa de sapatos, etc.

    Mais do que uma escolha estética, essa prática carrega uma postura ética. Ao ressignificar resíduos do consumo cotidiano, Leonor acredita que insere em sua obra o conceito de sustentabilidade, não como tema declarado, mas como método vivido.

    A artista coleciona e arquiva esse material organizando-o por tipo, cor, textura e espessura. Na produção das pinturas, os fragmentos são dispostos sobre telas preparadas com tinta acrílica. Colados e agrupados por afinidades de cor, textura ou transparência, eles assumem o papel da mancha pictórica: substituem a tinta, dialogam com ela, constroem camadas.

    O resultado é um híbrido entre pintura e colagem que provoca uma dupla percepção: de longe, as obras revelam composições abstratas de grande força visual; de perto, a materialidade dos papéis — suas dobras, fibras e histórias — emerge com toda a sua presença física reveladas na superfície. É um convite para pensarmos em consciência ambiental e transformação.

    Visitação: de 7 abril de 2026 a 09 de maio de 2026.

    Vernissage: 7 de abril de 2026, das 18:30 às 20:30.

    Horários: segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30; sábados, das 9h30 às 13h30.

    Local: Gravura Galeria de Arte – Rua Corte Real, 647 – Petrópolis, Porto Alegre – RS

    Entrada franca