Autor: da Redação

  • A geometria como pensamento: Rubem Valentim no MAM Rio

    A obra de Valentim não se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige permanência do olhar.

    Por Cristiano Goldschmidt

    A exposição Rubem Valentim: a ordem do sensível, em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, não se apresenta como simples revisão de carreira, embora cumpra também esse papel com notável rigor. O que ela organiza, de modo mais profundo, é um campo de fricção entre duas leituras frequentemente empobrecidas quando tratam do artista: de um lado, a filiação à abstração geométrica brasileira; de outro, a persistência de um vocabulário simbólico de matriz afro-brasileira que não se deixa reduzir a ilustração cultural. A primeira sala já indica esse equilíbrio delicado. Não há efeito de entrada espetacular, mas uma espécie de contenção luminosa, quase como se as obras exigissem silêncio antes de qualquer interpretação.

    A curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende opera com uma inteligência expositiva que recusa a pedagogia excessiva. Em vez de conduzir o visitante por uma narrativa linear ou ilustrativa, o percurso se estrutura como uma série de aproximações sucessivas, em que cada núcleo de obras reorganiza a percepção do anterior. Há uma lógica de montagem que não busca esclarecer de imediato, mas fazer com que o olhar se habitue a uma gramática própria. Em certos momentos, essa construção produz a impressão de que a obra de Valentim não evolui no sentido convencional, mas se desdobra por acumulação interna, como sistemas que se reconfiguram sem abandonar seus princípios estruturais.

    É difícil sustentar, diante desse conjunto, a leitura simplificada que aproxima Valentim apenas do concretismo ou do vocabulário construtivo internacional. Embora essa dimensão esteja presente, ela aparece sempre atravessada por outra ordem de determinação, mais densa e menos facilmente classificável. Os signos que estruturam sua obra — formas axiais, emblemas sintéticos, referências a sistemas simbólicos afro-religiosos — não funcionam como citações externas, mas como operadores internos de sentido. Eles não são aplicados sobre a forma; são constitutivos dela. Nesse sentido, a geometria em Valentim não é um princípio neutro de organização, mas um campo tensionado por uma carga simbólica que reorganiza sua própria lógica.

    Talvez seja justamente nesse ponto que a exposição alcança sua maior força interpretativa: ao tornar visível que não há oposição simples entre construção formal e densidade simbólica. O que se apresenta é um pensamento visual em que essas duas dimensões coexistem de maneira inseparável. Em diversas pinturas, a estrutura geométrica funciona como um sistema de contenção e, ao mesmo tempo, como campo de irradiação simbólica. A repetição de formas não produz estagnação, mas variação controlada, como se cada elemento carregasse uma pequena diferença interna que impede qualquer leitura definitiva.

    Na experiência concreta da visita, há um momento em que essa lógica deixa de ser apenas intelectual e passa a afetar a percepção corporal do espectador. Diante de obras de maior escala, percebe-se que o corpo não é exterior ao sistema visual, mas parte dele. A frontalidade das composições, a estabilidade dos eixos e a precisão das proporções criam uma espécie de gravidade própria, que organiza o olhar e o impede de se dispersar. Não se trata de impacto imediato, mas de uma forma de retenção progressiva, em que o tempo de observação se torna componente essencial da obra.

    As pinturas, nesse contexto, revelam um rigor que não deve ser confundido com rigidez. Valentim trabalha com estruturas de forte organização interna — simetrias, grades implícitas, eixos verticais e horizontais —, mas sempre introduz pequenas variações que deslocam o sistema sem rompê-lo. A cor desempenha papel decisivo nesse processo. Em vez de paleta expansiva, há uma economia cromática que intensifica as relações entre os elementos. Pretos densos, brancos cortantes, vermelhos e verdes pontuais funcionam como vetores de orientação visual, quase como marcas de um sistema de leitura que não se oferece de forma imediata.

    Esses princípios se prolongam de maneira particularmente interessante nas esculturas e relevos, que ampliam a lógica pictórica para o espaço tridimensional. Em vez de modelagem contínua, Valentim constrói estruturas a partir de planos justapostos, cortes precisos e encaixes que produzem uma sensação de montagem consciente. São formas verticais que evocam certa monumentalidade, mas sem recorrer a naturalismo ou narrativa figurativa. O que se impõe é a lógica construtiva: cada elemento parece existir em função de uma ordem interna que organiza o conjunto como sistema.

    Essas obras tridimensionais instauram também uma relação específica com o espaço expositivo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A arquitetura aberta, marcada por planos amplos e circulação fluida, não funciona como mero suporte neutro, mas como campo de ativação das peças. As esculturas respondem a esse ambiente com uma presença que reorganiza a percepção do entorno, criando eixos de orientação que atravessam o espaço. O visitante não apenas observa os objetos, mas se vê implicado em um sistema espacial que se constrói à medida que é percorrido.

    A curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende reforça essa dimensão ao evitar compartimentações rígidas entre pintura, relevo e escultura. Em vez disso, estabelece um percurso em que essas categorias se tornam porosas, permitindo que o visitante perceba continuidades estruturais entre suportes distintos. Essa escolha não simplifica a obra de Valentim; ao contrário, evidencia sua coerência interna, na qual diferentes meios são mobilizados para investigar problemas semelhantes de organização formal e simbólica.

    Outro aspecto relevante da exposição é a maneira como ela trata a repetição. Em Valentim, repetir não significa reiterar o mesmo, mas explorar variações mínimas dentro de um sistema relativamente estável. Essa operação se torna visível quando obras de diferentes períodos são colocadas em diálogo: o que muda não é o vocabulário, mas a intensidade das relações internas. Pequenos deslocamentos de cor, ajustes de proporção ou reorganizações dos eixos produzem efeitos significativos, revelando uma obra que se constrói mais por refinamento contínuo do que por rupturas.

    Esse regime de variação controlada também se relaciona a uma forma específica de temporalidade. A obra de Valentim não se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige permanência do olhar. A cada retorno, novos vínculos se estabelecem entre os elementos, como se a obra estivesse sempre ligeiramente à frente da leitura que dela se faz. Essa defasagem produtiva entre ver e compreender é um dos aspectos mais consistentes da experiência proposta pela exposição.

    Em termos mais amplos, pode-se dizer que Rubem Valentim: a ordem do sensível apresenta um artista que constrói um sistema visual em que forma e pensamento não se separam. A geometria, longe de funcionar como abstração autônoma, é atravessada por camadas simbólicas que lhe conferem densidade histórica e cultural. O resultado não é síntese harmoniosa, mas um campo de tensão permanente, no qual diferentes regimes de sentido coexistem sem se anular. Ao final do percurso, o que permanece não é uma interpretação fechada, mas a sensação de ter sido exposto a um modo de organização do visível que resiste a leituras simplificadoras. Valentim aparece aqui como alguém que transforma a forma em pensamento e o pensamento em forma, sem hierarquia entre ambos. E talvez seja precisamente nessa recusa de separação que sua obra encontra sua força mais persistente: a de sustentar, no interior da geometria, uma complexidade que continua operando mesmo depois que o olhar se afasta.

  • Porto Alegre sedia debate sobre transparência na comunicação pública

    Porto Alegre sedia debate sobre transparência na comunicação pública

    No dia 1º de junho de 2026, a capital gaúcha receberá o 1º Congresso Gaúcho de Comunicação Pública. O evento presencial ocorrerá no auditório da Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Municipal de Porto Alegre (AIAMU), no Centro Histórico, com transmissão virtual para todo o país. O encontro visa qualificar gestores, secretários e assessores, transformando a comunicação institucional em ferramenta estratégica de transparência.

    A programação contará com especialistas para debater temas urgentes do setor. As inscrições estão abertas no site oficial do evento e as vagas presenciais são limitadas a 200 participantes. Entre os debatedores, Soraia Hanna comandará o painel sobre gestão de crises, enquanto Daniela Machado abordará o combate à desinformação. A simplificação de termos técnicos para o cidadão será discutida por Maria José Finatto, e Rodrigo Abella apresentará diagnósticos de maturidade digital baseados em evidências, entre outros destaques.

    Em entrevista ao JÁ, o professor e escritor Adeli Sell, um dos organizadores do Congresso, fala da importância deste encontro.

    Adeli Sell

    JÁ – O que podes nos falar deste 1° Congresso, os objetivos?

    Adeli – É o primeiro, por isso, enfatizamos na chamada, pelo ineditismo e ousadia. Nosso objetivo é atingir o máximo de pessoas. Será presencial aqui em Porto Alegre, por isso, “gaúcho”. Mas terá transmissão online.

    É um congresso que vai debater uma temática ampla para falar com dirigentes públicos de todas as esferas – do Executivo e do Legislativo. E como não é só estatal, é público em geral, queremos falar com os que fazem a mídia em sindicatos e Ongs.

    JÁ – Qual é o principal mote?

    Adeli – Quando falo com as pessoas, começo pelo velho bordão do Velho Guerreiro Chacrinha – os mais jovens não devem saber quem foi José Abelardo Barbosa, com seu inigualável “Cassino do Chacrinha”, mas o que ele dizia continua atual segundo leituras minhas: ‘Quem não se comunica se trumbica’. É isso, comunicar melhor.

    JÁ – E quais os temas que vocês vão abordar?

    Adeli – Recentemente, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) instituiu o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, para eliminar o uso do juridiquês. O objetivo é tornar decisões judiciais, documentos e o atendimento ao público mais claros, diretos e acessíveis a todo cidadão, garantindo o direito à informação e facilitando o entendimento da Justiça.

    E a também uma lei (Nº 15.263, novembro de 2025) que institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os Poderes da União. Ou seja, vale em todas as esferas governamentais, para todas as pessoas.

    Dias atrás, em uma audiência pública sobre o Plano Diretor, um sujeito abre o evento dizendo: Vamos tratar aqui de “recuo de jardim”, “volumetria”, “área permeável”, etc, etc. Entendeu? Pois então, como já disse em outra entrevista: “a Lei passou meio distante da população e da imprensa corporativa”. Creio que ainda teremos um grande caminho pela frente.

    JÁ – Então, o tema da Linguagem Simples, vamos sublinhar aqui para nossos leitores…

    Adeli – Especificamente sobre a “linguagem simples”, teremos um painel que pretende mostrar como aos cidadãos podem encontrar, entender e usar as informações publicadas pelos órgãos e entidades da administração. A lei torna obrigatório que órgãos públicos se comuniquem de forma clara, objetiva e acessível, usando técnicas como frases curtas, palavras comuns e recursos visuais para facilitar o entendimento e o acesso à informação.

    A palestra será de Maria José Finatto que vai nos conduzir para transformar linguagem burocrática em texto que o cidadão compreende, metodologia premiada pelo Google. Finatto é doutora em Estudos da Linguagem e especialista em Acessibilidade Textual (UFRGS). Pesquisadora premiada pelo Google.

    Já na fala da Daniela Machado, vamos entender como identificar, barrar e corrigir desinformação antes que ela comprometa a credibilidade da sua instituição. Pois, em tempos de “fake news”, manipulações, mentiras e falsificação histórica, é essencial informar com verdade,
    precisão e simplicidade. Daniela é jornalista e especialista em Letramento Digital e Coordenadora do EducaMídia.

    JÁ – E a comunicação pública propriamente dita?

    Soraia Hanna

    Adeli – O Congresso pretende ser inédito e ousado, porque em geral se fala genericamente de comunicação. E aí, quando vêm uma crise – enchentes, um secretário que desviou recurso, etc,- aí é a crise, e no geral junto vem o caos. Por isso, vamos ouvir Soraia Hanna para não perder tempo e nos dizer o que fazer nas primeiras horas de uma crise: protocolos testados em quatro governos estaduais. Soraia é autora do livro “Gerindo crises, construindo reputação”. É também sócia da empresa Critério.

    Sandra Bitencourt vai começar a conversa do dia para mostrar como a imagem pública de uma instituição se constrói e desmorona, nos momentos de instabilidade política. Sandra é doutora em Comunicação (UFRGS), e assessora do Tesouro do Estado (RS).

    Como neste mundo líquido estamos todos navegando nas águas muitas vezes turvas da Internet, estamos trazendo Rodrigo Abella para nos dizer como medir o que realmente importa: diagnóstico de maturidade digital e os indicadores que revelam se a comunicação está blindada ou exposta. Abella é diretor-executivo da Social MedIA Gov. Especialista em comunicação baseada em evidências, estágios de maturação digital e sintonia fina com o público.

    JÁ – Podemos ter participação até da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), certo?

    Adeli – Em não sendo possível ouvir especialistas nas três esferas de poder estatal, optamos pela vinda do representante da EBC, Leandro Rolim. Vai nos falar de como a TV 3.0 e a mídia pública nacional podem ampliar a voz da sua instituição além das redes sociais.

    E ao falar de mídia pública, é obrigação falar de dados, de segurança, de transparência. Por isso, Gustavo Ferenci irá dizer como usar transparência e LGPD como instrumentos ativos de legitimidade, não como obrigações a cumprir. Ferenci é presidente do Fórum de Proteção de Dados dos Municípios.

    Ou seja, será um dia repleto de temas, uma programação completa, para que possamos sair todos do Congresso com a alma um pouco mais leve.

    JÁ – O que mais vocês vão ofertar?

    Adeli – Em tempos de preocupações com o meio ambiente, os temas sociais e a governança, o Congresso buscou um local com fácil acessibilidade, com uma “pegada ESG” real. Os resíduos terão o devido destino para uma entidade de reciclagem, a alimentação, além de saudável – sem lactose, sem glúten, virá da economia solidária, de agroindústria familiar, de entidades sociais. O evento terá acompanhamento de uma arquiteta especializada em acessibilidades para pessoas idosas e PCDs. Haverá uma coleta de livros para doação a uma biblioteca.

    JÁ – Alguma coisa específica para os estudantes da área de comunicação?

    Adeli – Sim, os estudantes terão, em breve, no site, uma área para inscrições de forma gratuita. É outra de nossas contrapartidas sociais.

    JÁ – Vocês certamente terão patrocinadores.

    Adeli – Sim, aproveitamos para agradecer a todos aqui. Além do apoio de entidades de classe da área da comunicação – ARI, SINDIJOR – o evento conta com o apoio da Caixa Econômica Federal, Governo Federal, Corsan, a Associação dos fiscais de tributos/AIAMU, Associação dos Procuradores, Governo do Estado, Assembleia Legislativa. Na divulgação temos o apoio da IMOBI, LIFE OOH, Trensurb, entre outros.

    Mais informações no site do evento.

    Palestrantes já confirmados:

    Sandra Bitencourt: Doutora em Comunicação (UFRGS). Jornalista e Pesquisadora. Assessora do Tesouro do Estado (RS).

    Soraia Hanna: Sócia-diretora executiva da Critério. Especialista em gestão de imagem (trajetória em 4 governos estaduais).

    Maria José Finatto: Doutora em Estudos da Linguagem e especialista em Acessibilidade Textual (UFRGS). Pesquisadora premiada pelo Google.

    Daniela Machado: Jornalista e especialista em Letramento Digital (EUA). Coordenadora do EducaMídia. Foco em Integridade da Informação e curadoria responsável de conteúdos.

    Rodrigo Abella: Diretor-executivo da Social MedIA Gov. Especialista em comunicação baseada em evidências, estágios de maturação digital e sintonia fina com o público.

    Leandro Rolim: Doutor em Comunicação Audiovisual (Universidad de Salamanca), Professor da UCB, Produtor Executivo e Assessor na SUDIM – EBC

    Gustavo Ferenci: Secretário de Transparência de Canoas e Presidente do Fórum de Proteção de Dados dos Municípios. Tema: Transparência Pública Inteligente e Governo Digital.

  • Furtado e Falero abrem o Casa da Palavra, no Multipalco Eva Sopher

    Furtado e Falero abrem o Casa da Palavra, no Multipalco Eva Sopher

    Geraldo Hasse

    Com o Teatro Simões Lopes Neto lotado, estreou ontem o Casa da Palavra, projeto do Multipalco Eva Sopher que prevê rodas de conversa mensais entre personalidades de diferentes áreas sobre temas relacionados às artes e questões sociais.

    Começou com o bate-papo Quem conta o país? O Brasil em cena e em prosa, com o cineasta Jorge Furtado e o escritor José Falero, que aproveitaram para revelar um suposto segredo: estão trabalhando juntos no roteiro de um filme baseado no livro Os Supridores.

    Furtado e Falero têm diferença de uma geração. Furtado era fã de Mário Quintana. Fez em 1984 seu primeiro filme, Temporal. Depois, O Dia em que Dorival Enfrentou a Guarda e Ilha das Flores, que o levou a escrever para a TV Globo. O trabalho de maior audiência foi Memorial de Maria Moura. Trabalhou muito com Luis Fernando Verissimo em séries, como Os Normais.

    Falero contou que sentiu vontade de escrever a partir de assistir na TV seriados de ficção. Prefere escrever seguindo a intuição. Já tentou pesquisar pra se aprofundar nos temas mas concluiu que “investigar acaba atrapalhando”.

    Furtado escreve todos os dias e testa as falas em voz alta porque escreve pra filmar. Fez a plateia rir com a frase: “O prazo é a nossa musa”.

    Falero contou que se esforçou muito para publicar seus escritos, quando trabalhava como porteiro ou supridor. Só conseguia escrever depois que ganhava o suficiente para sobreviver. Agora a situação se inverteu: é a escrita que o está sustentando. Então, nas horas vagas, ele vai jogar sinuca ou vai pro samba.

    Pra encerrar, a mediadora da conversa, jornalista Bruna Paulin, perguntou o que cada um gostaria de eliminar do discurso das pessoas. Furtado: o racismo; Falero: a meritocracia.
    E o que cada um de vocês gostaria que mudasse no país?
    “Gostaria que a política não fosse vista como uma coisa suja”, disse Furtado. A seguir ele comentou: “Parece que não se roubam mais quantias como 100 mil; agora são milhões” (risos).
    Respondendo ao desafio final, Falero disse que gostaria de ver ampliar-se a diversidade ou, seja, deseja que haja uma melhor distribuição de recursos ou menos desigualdade. E deu um exemplo que parece uma parábola: “Vamos pegar um saco de feijão e escolher o maior dos grãos… Como se faz? Ora, você não vai catar grão por grão até achar o maior. Você pega um punhado (uma amostra) e logo acha o maior. É uma escolha arbitrária e nós estamos acostumados e conformados com isso, mesmo sabendo que no saco de feijão provavelmente tem um grão maior que o escolhido”.

    O público riu quando Falero confessou que detesta o livro Os Supridores, que lhe deu fama nacional. Acha que tem defeitos que está tentando corrigir no roteiro, enquanto Furtado, baseado em sua experiência como adaptador de 40 histórias literárias, insiste em respeitar o conteúdo do livro. Ambos divergem mas estão se entendendo. Não se falou em prazo ou datas de filmagem ou orçamento.

    O ingresso para o Casa da Palavra é a doação de um livro, em boas condições, na entrada do teatro, a serem distribuídos a bibliotecas.

    A iniciativa, com patrocínio da Casa da Memória Unimed/RS e apoio do Sescoop/RS, seguirá reunindo, nos próximos meses, profissionais de múltiplas vertentes, entre literatura, dança, teatro, dramaturgia, jornalismo e outras expressões artísticas e intelectuais. Com o projeto, o Multipalco Eva Sopher pretende reafirmar sua identidade como centro pulsante de produção cultural e pensamento contemporâneo. O objetivo é ampliar o papel do teatro como território de reflexão cultural. 

  • Rococó Produções e a poética do teatro expandido no Brasil contemporâneo

    Rococó Produções e a poética do teatro expandido no Brasil contemporâneo

    Grupo construiu trajetória com narrativas oriundas do imaginário coletivo, sejam elas lendas populares, contos tradicionais ou releituras de clássicos universais.

    Por Cristiano Goldschmidt

    A Rococó Produções Artísticas e Culturais, surgida no contexto sul-rio-grandense, constitui um caso singular dentro da cartografia do teatro brasileiro contemporâneo, sobretudo por sua capacidade de articular, de maneira orgânica, dimensões que frequentemente se apresentam dissociadas: criação estética, formação de público e intervenção sociocultural. Fundada pelos atores Henrique Gonçalves e Guilherme Ferrêra, a companhia completou 10 anos de trajetória em 2025, consolidando-se como um projeto de continuidade e relevância. A análise de sua trajetória exige, portanto, um olhar que ultrapasse a mera enumeração de espetáculos ou conquistas institucionais, para alcançar a lógica interna que orienta sua permanência no cenário artístico.

    Desde sua gênese, o grupo demonstra uma inclinação inequívoca para o hibridismo de linguagens. Tal característica não se reduz a um procedimento formal, mas configura-se como um princípio estruturante de sua poética. A cena rococoense — se assim se pode denominar — opera na interseção entre teatro narrativo, musicalidade cênica e elementos coreográficos, resultando numa gramática espetacular que privilegia o fluxo e a plasticidade. Essa opção estética revela uma compreensão ampliada do fenômeno teatral, entendido não apenas como representação dramática, mas como experiência sensorial e cognitiva simultaneamente.

    A história da Rococó Produções é marcada por um processo contínuo de circulação e diálogo com diferentes públicos, especialmente no circuito de teatro para infância e juventude. Longe de assumir essa vertente como um espaço menor, o grupo a transforma em laboratório privilegiado de experimentação e refinamento técnico. Há, nesse aspecto, uma recusa deliberada do didatismo simplificador que historicamente permeou o teatro infantojuvenil. Em seu lugar, emerge uma dramaturgia que respeita a inteligência do espectador jovem, propondo narrativas densas, ainda que acessíveis, e investindo em soluções cênicas que estimulam a imaginação sem subestimar a complexidade do mundo.

    Essa postura se reflete diretamente no trabalho de atuação. Os intérpretes da Rococó não se limitam à construção psicológica de personagens, mas assumem uma função polissêmica dentro da cena. São, ao mesmo tempo, atores, narradores, músicos e mediadores. Tal polivalência exige uma disciplina técnica específica, baseada na presença cênica, no domínio do ritmo e na capacidade de transitar entre registros expressivos distintos. O resultado é uma atuação que se afasta do naturalismo estrito e se aproxima de uma teatralidade assumida, na qual o jogo com o espectador torna-se elemento central.

    No que concerne ao foco artístico, é possível identificar uma predileção por narrativas oriundas do imaginário coletivo, sejam elas lendas populares, contos tradicionais ou releituras de clássicos universais. Essa escolha não é casual: ao mobilizar tais matrizes simbólicas, o grupo estabelece pontes entre diferentes gerações e contextos culturais, contribuindo para a preservação e reinvenção de repertórios narrativos. Ao mesmo tempo, suas montagens frequentemente incorporam temáticas contemporâneas, como diversidade, convivência social e formação ética, produzindo um efeito de atualização que impede a fossilização dessas histórias.

    As ações educativas da Rococó Produções constituem um dos eixos mais consistentes de sua atuação. Oficinas, projetos formativos e atividades de mediação cultural são concebidos não como apêndices, mas como extensões naturais do trabalho artístico. Nesse sentido, o grupo opera segundo uma lógica de teatro expandido, no qual a experiência estética se prolonga para além do espetáculo, alcançando processos de aprendizagem e sensibilização. Tal abordagem evidencia uma concepção de arte comprometida com a transformação social, ainda que essa transformação se dê de maneira sutil, no plano das percepções e afetos.

    O reconhecimento obtido ao longo de sua trajetória, materializado em premiações e participações em festivais, funciona como indicador da consistência de seu projeto. Distinções na área do teatro infantojuvenil, em especial, sinalizam não apenas a qualidade de suas produções, mas também a relevância de sua contribuição para um segmento frequentemente negligenciado pelas políticas culturais. No entanto, mais significativo do que os prêmios em si é o fato de o grupo ter conseguido construir uma relação duradoura com o público, baseada na confiança e na recorrência.

    Entre os principais integrantes da Rococó Produções, destacam-se artistas que acumulam funções criativas e pedagógicas, como direção, atuação e elaboração de projetos formativos. Atualmente, além de seus fundadores, integram o grupo Julio Estevan, Clarissa Siste e Jeniffer Pedroso. Ainda que a configuração do elenco possa variar ao longo do tempo, é precisamente essa flexibilidade que permite ao grupo manter-se dinâmico, incorporando novas experiências sem perder sua identidade. Trata-se de um coletivo no qual a autoria tende a diluir-se em favor de um pensamento artístico compartilhado.

    A forte ênfase na comunicabilidade e na solidez da estrutura narrativa responde por parcela significativa da recepção consistente do grupo. Em um panorama teatral que, não raramente, privilegia a ruptura como valor em si, a Rococó investe numa zona de tensão produtiva entre tradição e experimentação, articulando-as de modo a evitar tanto o conservadorismo reiterativo quanto a inovação gratuita. Trata-se, portanto, de uma escolha estética deliberada, ancorada na centralidade da experiência do espectador e na eficácia do encontro cênico como espaço de partilha simbólica.

    Em síntese, a Rococó Produções Artísticas e Culturais afirma-se como um projeto de longa duração que conjuga consistência estética, compromisso educativo e inserção social. Ao completar uma década de atividades em 2025, o grupo reafirma sua relevância no cenário cultural brasileiro. Sua trajetória evidencia a possibilidade de um teatro que, sem renunciar à elaboração formal, permanece acessível e significativo para públicos diversos. Ao investir na formação de espectadores e na valorização do imaginário coletivo, o grupo não apenas produz espetáculos, mas contribui para a construção de um tecido cultural mais sensível e plural.

  • Gravura abre mostra individual “Mulheres silenciadas” e coletiva “Topografias sensíveis

    Gravura abre mostra individual “Mulheres silenciadas” e coletiva “Topografias sensíveis

    A Gravura Galeria de Arte promove a abertura de duas exposições nesta quinta-feira (14/05): a individual “Mulheres silenciadas”, da artista visual Ivone Rabelo, e a coletiva “Topografias sensíveis”, dos artistas João Carlos Bento, Cleci Serpa, Marion Lunke e Marília Chartune. A inauguração das duas acontece às 18h30, e as mostras ficam abertas à visitação até 6 de junho.

    Obra de Ivone Rabelo – Série Mulheres Silenciadas. Divulgação

    Com mais de duas décadas de atuação nas artes, Ivone Rabelo aborda a opressão, a violência de gênero e os silenciamentos impostos às mulheres. Por meio de manequins de loja em escala humana, materializa diferentes formas de abuso – emocional, financeiro, patrimonial e sexual -, dando corpo a realidades muitas vezes invisibilizadas. “Transformo a dor em linguagem artística”, resume ela, que ocupa a sala Branca da Gravura.

    “Minha obra questiona o ideal imposto à mulher, que deve ser múltipla, perfeita, mas sempre submissa – e rompe com ele. É um grito de basta”, diz Ivone.

    A curadora de “Mulheres silenciadas”, Ana Zavadil, ressalta que a escolha do manequim como figura central não é casual. “Trata-se de uma representação que desloca o corpo feminino do âmbito do indivíduo para o campo da objetificação. O manequim, como corpo artificial e comercial, carrega em si uma simbologia direta relacionada à mercantilização do feminino e a redução da mulher à condição de objeto. É uma presença corporal sem voz, sem história, sem identidade própria, ou seja, uma forma vazia, destinada a servir de suporte para o olhar alheio”.

    Cores, flores e cidades

    Integrante da mostra “Topografias sensíveis”, o artista formado pelo Instituto de Artes (IA/UFRGS) e arquiteto João Carlos Bento conta que sempre procura “trabalhar as cores como se fossem flores, que tragam uma energia positiva para os ambientes onde estão compondo”.

    Obra de João Carlos Bento. Divulgação

    Cleci Serpa, por sua vez, explica que, para ela, a cor não é descritiva. “Opera como território emocional, criando tensões, pausas e fluxos”.

    Já Marília Chartune valoriza o fato de que a representação de grandes cidades, temática trabalhada por ela desde 1984, é atemporal e “surge nas pinceladas fluidas da técnica de aquarela”.

    Obra de Cleci Serpa. Divulgação

    Nascida na Alemanha, mas gaúcha de coração, Marion Lunke não faz segredo de que se vale de “pinceladas fortes e bem coloridas”. Ela tem as flores, o corpo humano e rostos de mulheres entre seus principais temas.

    A coletiva dos quatros artistas, com curadoria de Regina Galbinski, ocupa a sala Negra. Conforme o texto curatorial, “cada pintura propõe uma experiência particular de observação, convidando o olhar a percorrer camadas, ritmos e silêncios”.

    Obra de Marion Lunke. Divulgação

    SERVIÇO:

    Exposições: “Mulheres silenciadas” e “Topografias sensíveis”

    Abertura: quinta-feira (14/5), das 18h30 às 20h30

    Visitação: até 6 de junho, de segunda a sexta, das 9h30 às 18h30; sábado, das 9h30 às 13h30

    Local: Gravura Galeria de Arte

    EndereçoRua Coronel Corte Real, 647, bairro Petrópolis, Porto Alegre

    Entrada gratuita

  • MPF aciona Justiça para exigir consulta a comunidades tradicionais em projeto de fábrica de celulose no RS

    MPF aciona Justiça para exigir consulta a comunidades tradicionais em projeto de fábrica de celulose no RS

    O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública para que o licenciamento ambiental do “Projeto Natureza”, da multinacional chilena CMPC, respeite os direitos de comunidades tradicionais no Rio Grande do Sul. A ação questiona a ausência de consulta prévia, livre e informada a pescadores artesanais, indígenas e quilombolas potencialmente afetados pelo empreendimento.

    Segundo o MPF, o processo conduzido pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) avançou sem cumprir exigências previstas na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O órgão também pede a realização de estudos específicos sobre impactos sociais, ambientais e econômicos às populações tradicionais da região.

    A procuradoria aponta riscos relacionados ao lançamento diário de 216 mil metros cúbicos de efluentes no Lago Guaíba, contendo substâncias tóxicas como compostos organoclorados, dioxinas e furanos. De acordo com a ação, os resíduos podem afetar áreas de captação de água em Porto Alegre e Barra do Ribeiro, além de impactar mais de 7 mil pescadores artesanais do Delta do Jacuí e da Lagoa dos Patos.

    O MPF também questiona os efeitos da expansão da monocultura de eucalipto no bioma Pampa. A estimativa é de que a futura fábrica demande cerca de 11,8 milhões de toneladas de matéria-prima por ano. Para o órgão, o avanço das plantações pode agravar a escassez hídrica, reduzir a biodiversidade e aumentar o risco de incêndios florestais.

    Na ação, o MPF solicita que a Justiça Federal suspenda o avanço das licenças até a realização das consultas às comunidades afetadas. Também pede que Funai, Incra e Ministério da Pesca coordenem os processos de consulta previstos na legislação internacional.

    O caso tramita na 9ª Vara Federal da Justiça Federal do RS.

  • Agrotóxico nas águas: painel vai centralizar dados de todas as bacias

    Agrotóxico nas águas: painel vai centralizar dados de todas as bacias

    O Ministério do Meio Ambiente lançou, nesta segunda-feira (11/05/2026), o “Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos”, que vai centralizar dados sobre a presença de defensivos agrícolas em rios e cursos d’água de todo o Brasil.

    A plataforma foi construida pelo Ministério do Meio Ambiente, com base técnica desenvolvida pela Embrapa. Reúne dados que antes estavam dispersos, permitindo uma visão integrada de 63 pontos de coleta monitorados, com mais de 10,4 mil análises realizadas desde 2024.

    Inicialmente, o sistema acompanha a presença de 49 tipos de agrotóxicos.

    O painel mapeia o uso do solo e a vulnerabilidade ambiental das bacias, permitindo identificar quais locais e culturas agrícolas estão associados a maiores níveis de contaminação.

    A plataforma será pública e

    já pode ser acessada no site do Ministério do Meio Ambiente.

    Nas mais de 10 mil análises de agrotóxicos já feitas foram detectados  agrotóxicos em 7,2% das amostras. O S-Metolacloro foi o agrotóxico que apareceu quase 70% dos casos. 

  • Uso de antibióticos proibidos: Europa suspende compra de carnes do Brasil

    Uso de antibióticos proibidos: Europa suspende compra de carnes do Brasil

    A União Europeia decidiu suspendeu as importações de carnes e produtos de origem animal do Brasil a partir de 3 de setembro de 2026.

    O motivo é a “ausência de garantias suficientes sobre o controle do uso de antibióticos na pecuária”.

    Na Europa é proibido o uso de “substâncias antimicrobianas com a finalidade de melhorar o desempenho ou promover ocrescimento animal, além de ativos reservados exclusivamente para o tratamento de infecções humanas”.

    O Brasil não comprovou a eliminação completa no ciclo de vida dos animais de substâncias banidas pela UE, tais como virginiamicina, avoparcina, bacitracina, tilosina, espiramicina e avilamicina.

    O ponto central da exclusão brasileira da lista de importadores autorizados envolve exigências documentais rígidas e falhas na capacidade de monitoramento integral da cadeia produtiva de ponta a ponta.

     A medida faz parte da estratégia de saúde pública europeia voltada a combater a resistência bacteriana global e o uso indiscriminado de medicamentos na produção de alimentos.

    A suspensão não se limita à carne bovina, atingindo também aves, ovos, mel, peixes, equinos e derivados. O veto ocorre em meio à pressão de agricultores locais europeus (principalmente na França) após a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Países vizinhos como Argentina, Uruguai e Paraguai demonstraram conformidade e continuam autorizados a exportar para o bloco.

    O Ministério da Agricultura brasileiro informou que trabalha junto às autoridades europeias para reverter a decisão antes do prazo final.

    (Com Agência Brasil)

  • Bactéria no detergente: Ypê suspende decisão, mas Anvisa mantém o alerta

    Bactéria no detergente: Ypê suspende decisão, mas Anvisa mantém o alerta

    A Química Amparo, dona da marca Ypê, conseguiu derrubar a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que suspendia a fabricação e comercialização de vários de seus produtos*.

    Anvisa acolheu o recurso da empresa mas manteve o alerta de risco sanitário e orienta os consumidores a não usar os 23 itens com lotes de final 1, nos quais a fiscalização detectou a presença de uma bactéria.

    O rótulo da embalagem é ilegível e o número do lote gravado na garrafa PET ´é invisível.

    Com o recurso administrativo, os produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido e desinfetantes podem continuar sendo fabricados e comercializados até nova manifestação da Anvisa.

    A Anvisa informou que mantém o entendimento técnico sobre os riscos identificados na linha de produção da unidade da Química Amparo, em Amparo, São Paulo. 

    A agência destacou que o julgamento definitivo do recurso pela Diretoria Colegiada deve ocorrer nos próximos dias.

    Enquanto isso, o órgão orienta que os consumidores não utilizem os produtos envolvidos, “por segurança”.

    Segundo a Anvisa, cabe à empresa orientar consumidores sobre:

        recolhimento;

        troca;

        devolução;

        ressarcimento;

        demais medidas necessárias.

    As informações devem ser prestadas por meio do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da fabricante.

    Entenda

    Na quinta-feira (7), a Anvisa determinou a suspensão da fabricação, distribuição e comercialização de diversos produtos fabricados pela unidade da Química Amparo, responsável pela marca Ypê. 

    Segundo a agência, a medida foi tomada após avaliação de risco sanitário identificar “falhas graves na produção”.

    Entre os problemas apontados estão:

        -falhas no controle de qualidade;

        -descumprimentos em etapas críticas da fabricação;

        -problemas nos sistemas de garantia sanitária.

    A agência afirmou que essas exigências são fundamentais para garantir a segurança dos consumidores.

    Lotes afetados

    A decisão da Anvisa atinge apenas produtos com lotes terminados no número 1.

    A relação completa foi publicada na Resolução nº 1.834/2026 no Diário Oficial da União.

    Recall voluntário

    A Ypê informou que já havia iniciado, em novembro de 2025, um recolhimento voluntário de alguns lotes de lava-roupas líquidos após identificar a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos específicos.

    Na ocasião, a empresa divulgou orientações aos consumidores sobre possíveis riscos à saúde e os procedimentos para troca ou devolução dos produtos.

    A Anvisa informou que as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais foram orientadas a intensificar a fiscalização para impedir a circulação de lotes considerados irregulares.

    O órgão também recomendou que consumidores verifiquem a numeração dos lotes antes do uso dos produtos.

    *Os produtos de lotes de final 1 que tiveram a comercialização suspensa na quinta-feira foram os seguintes:

       – Lava-louças Ypê Clear Care

       – Lava-louças com enzimas ativas Ipê

        -Lava-louças Ypê

        -Lava-louças Ypê Clear Care

        -Lava-louças Toque Suave

        -Lava-louças concentrado Ypê Green

        -Lava-louças Ypê Clear

        -Lava-louças Ypê Green

        -Lava Roupas líquido Tixan Ypê Combate Mau Odor

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Cuida das Roupas

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Antibac

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Coco e Baunilha

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Green

        -Lava-roupas líquido Ypê Express

        -Lava-roupas líquido Ypê Power ACT

        -Lava-roupas líquido Ypê Premium

        -Lava-roupas Tixan Maciez

        -Lava-roupas Tixan Primavera

        -Desinfetante Bak Ypê

        -Desinfetante de uso geral Atol

        -Desinfetante Perfumado Atol

        -Desinfetante Pinho Ypê

        -Lava-roupas Tixan Power ACT 

    A bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em diversos produtos da indústria Ypê, é uma bactéria de grande resistência a antibióticos, segundo o  infectologista Celso Ferreira Ramos Filho, em entrevista à Agência Brasil.

    Ele explica que, como se trata de uma bactéria ambiental, esponjas usadas normalmente para lavar louça ou panos de chão podem estar contaminados, já que a bactéria permanece viva na água.

    De acordo com ele, a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria de “vida livre”, ou seja, diferente de outras bactérias como a Escherichia coli, que vive dentro do intestino, ou o meningococo, que vive nas fossas nasais das pessoas.

    “Nós não vivemos em um ambiente que não tem micro-organismos. Existem outras bactérias de vida livre, como a Burkholderia que, eventualmente, podem causar doenças no homem”.

    Segundo ele, a bactéria pode causar uma série de problemas em pessoas imunocomprometidas, desde infecção urinária a infecção respiratória em pessoas que têm problemas de pulmão crônicos, como enfisema, ou em pessoas submetidas a tratamento com cateter na veia.

    “Colocam um tubo na traqueia e a bactéria pode entrar por ali. Também pode ocorrer em pessoas que estejam fazendo quimioterapia, o que faz com que haja um comprometimento maior e prévio da saúde da pessoa”, explicou Celso Ferreira.

    A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou à Agência Brasil que o maior problema dessa bactéria ocorre quando pessoas imunocomprometidas, que têm o sistema imunológico enfraquecido, entram em contato com ela.

    “Ela consegue causar infecções em pessoas que têm o sistema imune debilitado”.

    Em pacientes que têm fibrose cística, por exemplo, ela é causa comum de pneumonia. E o tratamento é muito difícil. Advertiu, por outro lado, que ela pode causar também problemas em pessoas saudáveis.

    “Dependendo da cepa da Pseudomonas, mesmo a pessoa saudável pode desenvolver uma infecção, como a otite de nadador, em pessoas que nadam em águas recreativas, como piscinas, rios, praias”, ressaltou Chamon.

    Para a profissional de saúde, o maior problema é quando a bactéria chega ao ambiente hospitalar, e a porta de entrada, geralmente, são as pessoas que trabalham ali ou entram no hospital, explicou a profissional de saúde.

    A médica relatou ainda que, dentro do ambiente hospitalar, onde uma pressão seletiva de antibióticos é muito grande, a bactéria carrega dentro dela uma série de resistências.

    Segundo Chamon, isso pode provocar infecções mais graves, associadas a pessoas que usam sonda urinária, têm infecção de corrente sanguínea, estão com pneumonia, pessoas com ventilação mecânica, E o tratamento, por conta da gravidade da infecção, é mais difícil, além da questão de a bactéria aumentar o poder de resistência.

    “Esse é o pior cenário de todos”, afirmou.

    Contaminação

    Como a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria que vive muito bem no solo, na água e em ambientes úmidos, Raiane acredita que a contaminação pode ter ocorrido no momento de produção.

    “Não houve um controle microbiológico adequado. Provavelmente, algum reagente na hora de fabricação desses produtos estava contaminado pela Pseudomonas, e acaba que ela consegue se multiplicar nesses ambientes úmidos também”, explicou.

    “Na falta do controle microbiológico nas etapas necessárias de fabricação, pode ter havido um crescimento descontrolado de uma cepa específica, que vive melhor em ambientes com detergentes, por exemplo, e a gente acaba detectando-a nesses materiais”.

    Segundo a médica, existem níveis aceitáveis de contaminação microbiana em todos os produtos. O que não pode é ultrapassar esse nível para não oferecer risco à saúde, principalmente nos indivíduos que estão mais comprometidos em seu sistema imune.

    Comunicado

    Em comunicado divulgado na quinta-feira (7), a Ypê esclareceu que está colaborando integralmente com a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) “e conduzindo todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência”.

    A empresa informou ainda que vem realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, que estão sendo apresentados à Anvisa, “reforçando o compromisso da empresa com a qualidade, a segurança e a conformidade regulatória dos seus produtos”.

    A indústria se compromete ainda a incorporar de forma imediata eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da Agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória, desenvolvido em conjunto com a própria Anvisa desde dezembro de 2025.

    (Com Agência Brasil)

  • Dois anos do incêndio na Pousada Garoa: 11 vítimas ainda sem justiça

    Dois anos do incêndio na Pousada Garoa: 11 vítimas ainda sem justiça

    Um ato simbólico marcou, neste domingo, 26/04, os dois anos do incêndio na Pousada Garoa, albergue conveniado com a prefeitura de Porto Alegre, na avenida Farrapos. Na tragédia, 11 pessoas morreram queimadas e, ao menos, outras 15 sofreram ferimentos.

    “O que houve aqui, há dois anos, independentemente da origem do fogo, é um absurdo no que tange à falta de fiscalização, falta de cuidados e consideração do Poder Público, responsável pela contratação e terceirização do serviço de assistência social”, destacou o vereador Pedro Ruas (PSOL), um dos organizadores do ato.

    Na sua avaliação, “as obrigações de prover toda a atenção em termos de cuidados de segurança é do município, mesmo quando os serviços, como no presente caso, são terceirizados”. Segundo ele, “esses dois anos marcam uma tragédia que tem culpados e continuam impunes”.

    Acompanhado por lideranças da Pastoral dos Povos de Ruas da Cúria Metropolitana, o vereador pediu um minuto de silêncio em homenagem aos mortos. Junto a uma faixa com o nome das onze vítimas foram depositadas rosas brancas.

    “Fazemos esse ato como forma de chamar a atenção da sociedade para a falta de justiça, nesse caso. Mas também para deixar claro que os problemas da falta de moradia digna e segura, para muitas pessoas, ainda é um problema da maior seriedade o que exige muito planejamento e atenção das autoridades responsáveis”, disse Ruas.

    Os nomes dos mortos no incêndio, bordados em um quadro de tecido verde, pela jornalista Iara Maurente, foram lidos. Onze rosas brancas foram depositadas junto aos nomes.

    Presidente da CPI sobre o incêndio, realizada de fevereiro a julho de 2025 na Câmara Municipal, Pedro Ruas destacou sua inconformidade com a demora em decisões sobre a aplicação de penas aos responsáveis. “O fato de termos feito nossa parte, indicando agentes responsáveis pela tragédia, é mais um fator que me obriga a aguardar que a justiça seja feita”.

    Já o coordenador da Pastoral dos Povos de Rua da Cúria Metropolitana, Elton Bozzetto, destacou que além de se esperar justiça é muito importante que o ocorrido ali sirva de lição para a evolução em termos humanitários, em relação ao atendimento das camadas sociais mais carentes. “Precisamos evoluir e, apesar da tragédia, temos que buscar forças, coragem e ousadia para sermos melhores”, enfatizou.

    O incêndio ocorreu na madrugada de 26 de abril de 2024, por volta das 2h, no albergue conveniado com a prefeitura para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. À época, foi constatado que o estabelecimento operava sem alvará de funcionamento e sem o Plano de Proteção contra Incêndio (PPCI).

    As investigações apontaram uma série de irregularidades, incluindo falhas estruturais e negligência na manutenção. O relatório final da CPI, concluído em junho de 2025, indicou responsabilidade do proprietário da rede, André Kologeski, destacando problemas como extintores vencidos, fiação exposta e ausência de rotas de fuga adequadas.

    Por outro lado, o documento não indiciou agentes públicos municipais, sob a justificativa de falta de elementos suficientes.

    Na esfera judicial, o caso segue em andamento em duas frentes: criminal e cível. A Polícia Civil indiciou três pessoas por incêndio culposo — o proprietário da pousada, o ex-presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Cristiano Roratto, e uma fiscal do contrato. O Ministério Público entendeu que os responsáveis podem responder por dolo eventual, o processo ainda tramita na Justiça.

    Paralelamente, a Defensoria Pública do Estado ajuizou, em agosto de 2025, uma ação civil pública que pede mais de R$ 10 milhões em indenizações por danos morais coletivos contra o município e o proprietário.

    Decisões liminares já determinaram que a prefeitura apresente um plano de moradia digna para os sobreviventes, além de garantir atendimento psicológico e psiquiátrico especializado.

    As vítimas:

    Adair Cruz,

    Anderson Correa,

    Cleiton Mello,

    Dionatan Cardoso da Rosa,

    Douglas de Lima Alves,

    João Batista Ebani,

    João Luiz Gomes,

    Julcemar Cardoso Amador,

    Lenita Aparecida Scheleck,

    Maribel Terezinha Padilha,

    e Silvério Roni Martin.