Autor: da Redação

  • Governo Federal libera recursos para construção de 28 unidades de saúde no RS

    Nesta sexta feira (24), às 14h, o Governo Federal realiza a emissão de ordem de serviço para início da construção de 28 unidades de saúde no Rio Grande do Sul, sendo quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e 24 Unidades Básicas de Saúde (UBS).

    A iniciativa marca a maior liberação imediata de recursos do Novo PAC Saúde de uma só vez. A ação ocorre simultaneamente em 24 estados, ampliando a capacidade de atendimento em mais de 500 municípios, com a construção de 541 novas unidades de saúde em todo o país.

    No Rio Grande do Sul, o investimento total é de cerca de R$ 64 milhões, com recursos federais já assegurados pelo Ministério da Saúde, que serão transferidos diretamente a 28 municípios gaúchos, garantindo o início imediato e integral da obra.

    A iniciativa integra o programa Agora Tem Especialistas, que reúne ações voltadas à ampliação da oferta de consultas, exames e cirurgias no SUS, com o objetivo de reduzir o tempo de espera por atendimento.

    A cerimônia será realizada no auditório da sede do COSEMS/RS, em Porto Alegre (RS), e contará com presença da superintendente do Ministério da Saúde no estado, Maria Celeste de Souza da Silva.

  • Ato marca dois anos do incêndio que matou 11 pessoas na Pousada Garoa

    Ato marca dois anos do incêndio que matou 11 pessoas na Pousada Garoa

    Dois anos após o incêndio que deixou 11 mortos e cerca de 15 feridos na Pousada Garoa, no Centro da capital gaúcha, um ato público será realizado neste domingo (26), às 15h, em frente ao antigo prédio, na Avenida Farrapos, 305. A mobilização busca lembrar as vítimas e cobrar responsabilizações pelo caso, que ainda tramita na Justiça.

    A iniciativa é organizada pelo vereador Pedro Ruas (PSOL), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada na Câmara Municipal para apurar as causas da tragédia. “Até hoje ninguém foi formalmente punido”, afirma o parlamentar, que deve apresentar durante o ato um relato das conclusões da investigação legislativa.

    O incêndio ocorreu na madrugada de 26 de abril de 2024, por volta das 2h, no albergue conveniado com a prefeitura para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. À época, foi constatado que o estabelecimento operava sem alvará de funcionamento e sem o Plano de Proteção contra Incêndio (PPCI).

    As investigações apontaram uma série de irregularidades, incluindo falhas estruturais e negligência na manutenção. O relatório final da CPI, concluído em junho de 2025, indicou responsabilidade do proprietário da rede, André Kologeski, destacando problemas como extintores vencidos, fiação exposta e ausência de rotas de fuga adequadas.

    Por outro lado, o documento não indiciou agentes públicos municipais, sob a justificativa de falta de elementos suficientes.

    Na esfera judicial, o caso segue em andamento em duas frentes: criminal e cível. A Polícia Civil indiciou três pessoas por incêndio culposo — o proprietário da pousada, o ex-presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Cristiano Roratto, e uma fiscal do contrato. O Ministério Público entendeu que os responsáveis podem responder por dolo eventual, o processo ainda tramita na Justiça.

    Paralelamente, a Defensoria Pública do Estado ajuizou, em agosto de 2025, uma ação civil pública que pede mais de R$ 10 milhões em indenizações por danos morais coletivos contra o município e o proprietário.

    Decisões liminares já determinaram que a prefeitura apresente um plano de moradia digna para os sobreviventes, além de garantir atendimento psicológico e psiquiátrico especializado.

    Enquanto os processos avançam, familiares das vítimas e sobreviventes seguem cobrando justiça.

  • Tiradentes: o Mártir que ainda nos observa e as inquietações de um Brasil inacabado

    Tiradentes: o Mártir que ainda nos observa e as inquietações de um Brasil inacabado

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há datas que não se impõem pelo alarde, mas pela persistência silenciosa com que atravessam os séculos e se insinuam na consciência coletiva. O 21 de abril pertence a essa estirpe discreta. Não chega ornado de euforia, tampouco se anuncia com a grandiloquência de outras celebrações; antes, aproxima-se como uma lembrança antiga, dessas que dispensam explicações e, justamente por isso, nos desarmam. Talvez resida aí sua força: provocar um estado raro de escuta interior, como se algo longínquo — e ainda não inteiramente resolvido — insistisse em encontrar voz no presente.

    Não é, porém, a narrativa oficial que desperta essa inquietação. Aquela versão ordenada, ensinada com a nitidez dos fatos bem alinhados, pouco alcança o que verdadeiramente nos perturba. O que emerge, em seu lugar, é uma indagação mais resistente, menos confortável e, por isso mesmo, mais fecunda: quem foi, de fato, o homem que chamamos Tiradentes antes de ser imobilizado na estátua, antes que sua imagem se tornasse um signo e seu nome, um recurso simbólico?

    Tiradentes Esquartejado, de 1893, obra do artista Pedro Américo. Reprodução

    É quase inevitável imaginá-lo despojado de solenidade. Um homem comum, percorrendo trilhas de terra sob o sol inclemente de Minas Gerais, inserido em um mundo onde o ouro cintilava para poucos enquanto a dureza da sobrevivência se impunha à maioria. O século XVIII, tantas vezes revestido de um romantismo retrospectivo, devia ser, em sua matéria mais concreta, áspero e desigual — mais marcado pela escassez, pela vigilância e pela cobrança incessante da Coroa portuguesa do que por qualquer promessa de esplendor.

    E é precisamente nesses terrenos áridos que as ideias costumam germinar. Não nascem prontas nem majestosas, mas como pequenos incômodos que se acumulam em silêncio — um tributo excessivo, uma cobrança arbitrária, a famigerada ameaça da derrama pairando como sombra constante sobre vidas já exauridas. Nesse cenário, a atuação de Tiradentes ganha densidade histórica: não como a de um estrategista refinado, mas como a de um difusor inquieto de ideias, alguém que, ao entrar em contato com os ventos do Iluminismo e com as notícias das transformações que agitavam o mundo atlântico, ousou traduzir essas abstrações em linguagem acessível, quase cotidiana.

    A Inconfidência Mineira, vista de perto, talvez se revele menos como uma conspiração heroica e mais como um murmúrio coletivo que, pouco a pouco, cresceu além do limite do tolerável. Não era apenas um levante contra impostos, mas a expressão embrionária de um desejo de autonomia — difuso, imperfeito, mas decisivo. Nesse contexto, Joaquim José da Silva Xavier emerge como uma figura singular: não o mais erudito entre os conjurados, tampouco o mais prudente, mas talvez aquele em quem a chama da ideia se fez mais visível, mais indomável.

    Diz-se que falava em demasia. Essa característica, tantas vezes tratada como falha, talvez seja justamente aquilo que o torna mais próximo de nós. Em uma sociedade marcada pela contenção e pelo cálculo, sua verborragia adquire contornos de gesto político — não necessariamente deliberado, mas profundamente revelador. É fácil admirar a prudência dos estrategistas; mais difícil é compreender aquele que se expõe, que ultrapassa o cálculo em nome de uma convicção que transborda. Talvez lhe faltasse medida. Ou talvez lhe sobrasse algo raro: a incapacidade de se calar diante do que julgava intolerável.

    Quando o movimento ruiu — como frequentemente acontece quando o ideal colide com o peso da realidade —, o medo desempenhou seu papel habitual. Reorganizou alianças, impôs recuos, produziu silêncios. Alguns se retraíram, outros buscaram proteção onde puderam. Tiradentes, no entanto, permaneceu. Se por escolha deliberada ou por circunstâncias inevitáveis, não é possível afirmar com precisão. Mas há, nesse gesto — ainda que ambíguo —, algo de decisivo: uma permanência que, aos olhos do poder, se converteria em culpa exemplar.

    Sua execução, em 1792, não foi apenas um desfecho, mas uma encenação cuidadosamente arquitetada. O poder colonial, zeloso de sua autoridade, compreendia que a punição precisava ultrapassar o corpo e atingir o imaginário. E, ainda assim, por mais meticulosa que seja a repressão, sempre subsiste algo que escapa ao seu controle — uma memória residual, um significado imprevisto, uma possibilidade de reinterpretação. Ao tentar silenciar um homem, acabou-se por inaugurar um símbolo.

    Curiosamente, Tiradentes não se converteu de imediato na figura que hoje reconhecemos. Sua transfiguração exigiu tempo — e, sobretudo, conveniência histórica. Com a Proclamação da República, emergiu a necessidade de um personagem que encarnasse ruptura, sacrifício e coragem. E ali estava ele, disponível para ser reinventado. Acrescentaram-lhe traços quase messiânicos, uma iconografia que evocava outras tradições, um silêncio digno que o afastava de suas contradições humanas. Tornaram-no, enfim, um emblema — e, ao fazê-lo, inscreveram-no definitivamente na narrativa nacional como precursor de uma liberdade que ele próprio jamais testemunhou.

    Mas todo emblema, ao mesmo tempo em que revela, também oculta.

    Por trás da imagem consolidada, persiste o homem imperfeito — alguém que provavelmente hesitou, que conheceu o medo, que talvez não tenha compreendido plenamente a dimensão de seus próprios atos. Um homem que não testemunhou vitórias, que não colheu frutos, que permaneceu, em muitos sentidos, inacabado. E é justamente essa incompletude que o aproxima de nós de forma mais perturbadora e, paradoxalmente, mais verdadeira.

    O 21 de abril parece habitar esse intervalo delicado entre o vivido e o narrado, entre o fato bruto e sua reconstrução simbólica. Em cidades como Ouro Preto, é tentador imaginar que as pedras guardem mais do que a história oficial consente — que nelas sobrevivam as dúvidas, os silêncios e as conversas interrompidas que nunca foram registradas. Há ali uma memória subterrânea, resistente às simplificações e às versões definitivas.

    No fundo, talvez o que nos faz retornar a Tiradentes não seja o heroísmo em si, mas o desconforto que ele suscita. Ele não libertou o país, não assistiu à transformação que sonhava, não concluiu a história que ajudou a iniciar. E, ainda assim, permanece — não como resposta, mas como pergunta.

    E essa pergunta reverbera no presente. Seguimos cercados por pequenas inconformidades, por tensões que raramente se convertem em ação, por limites que aceitamos mais do que gostaríamos. Também nós hesitamos, recuamos, silenciamos. E, de tempos em tempos, somos atravessados por aquela inquietação persistente: o que fazer com aquilo que sabemos — ou ao menos intuímos — estar errado?

    É nesse ponto que Tiradentes deixa de ser apenas uma figura histórica e se transforma em um espelho imperfeito. Não um modelo a ser imitado, mas uma presença que insiste em lembrar que toda transformação nasce, inevitavelmente, de um desconforto que alguém se recusou a ignorar.

    Há ainda um aspecto mais sutil, quase imperceptível, nessa permanência: o modo como a memória coletiva seleciona aquilo que merece ser lembrado e aquilo que convém esquecer. Ao elevá-lo à condição de mártir, o país construiu uma narrativa que, ao mesmo tempo em que inspira, simplifica. E, nessa simplificação, corre-se o risco de perder justamente o que há de mais fértil na história: sua ambiguidade, suas tensões, sua recusa em oferecer respostas fáceis.

    Talvez o Brasil, nesse sentido, continue a reconhecer-se como um projeto inacabado não apenas por suas estruturas sociais e políticas, mas por sua dificuldade em encarar o passado sem o amparo dos símbolos prontos. Tiradentes, então, deixa de ser apenas um homem do século XVIII para se tornar um ponto de tensão permanente — entre aquilo que fomos, aquilo que afirmamos ter sido e aquilo que ainda não conseguimos nos tornar.

    O feriado passa, como todos passam. A rotina retoma seu curso, o café esfria na xícara, as horas seguem seu ritmo indiferente. Nada parece se alterar de imediato. E, no entanto, algo permanece — uma leve perturbação, quase imperceptível, como se a história se acomodasse ao nosso lado não para oferecer respostas, mas para nos manter inquietos.

    Talvez resida aí seu gesto mais honesto. Não resolver, não consolar, não concluir — apenas permanecer como uma pergunta aberta. E talvez seja justamente isso que não deveríamos nos permitir ignorar.

  • Chefe do MP-RS: “Plano Diretor de Porto Alegre é mais voltado para construção que para prevenir enchentes”

    Chefe do MP-RS: “Plano Diretor de Porto Alegre é mais voltado para construção que para prevenir enchentes”

    O projeto do novo Plano Diretor de Porto Alegre, que tramita há mais de ano e está em fase final de votação na Câmara Municipal, tem indicativos de aprovação, pela força da maioria que o prefeito Sebastião Melo tem no legislativo.

    Já, estudos do Ministério Público apontam “falhas jurídicas” no processo, que podem levar à judicialização do projeto, depois de aprovado pelos vereadores.   

    “Estamos ajudando os municípios a construir planos diretores que se adaptem às exigências do Estatuto da Cidade, e Porto Alegre não está fazendo e não fez. Nós vamos ter que achar formas de trazer essas políticas de proteção para cá. Não adianta investir em políticas se o plano diretor de Porto Alegre é mais voltado para a construção do que para a prevenção e proteção de enchentes”, disse Alexandre Saltz, chefe do Ministério Público no Rio Grande do Sul, dirigindo-se ao procurador-geral de Porto Alegre, Jhonny Prado.

    A declaração foi feita no dia 1 de abril, no evento Tá Na Mesa, na Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul). Não aparece no resumo que a assessoria de imprensa fez de sua palestra e não mereceu destaque na imprensa.

    A afirmação de Alexandre Saltz acabou reproduzida nesta segunda-feira, 20 de abril, na coluna da jornalista Rosane de Oliveira, em GZH. O texto fala das divergências entre o Executivo Municipal, defensor do projeto, e o MP, e expõe o risco de judicialização.

    A fala de Saltz é a mais contundente manifestação de que as “falhas jurídicas” apontadas pelo Ministério Público vão mesmo levar o Plano Diretor à Justiça, depois de aprovado. “Não faltou disposição para o diálogo”, ressaltou Saltz.

    A pedido de vereadores da oposição, o também promotor Cláudio Ari Mello, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias, foi ao plenário da Câmara em março para apresentar estudos que apontam possíveis ilegalidades e inconstitucionalidades na proposta do Plano Diretor da prefeitura. “A minha preocupação central é de que o texto como está contém tantas incompatibilidades com o direito urbanístico federal, sobretudo com o Estatuto da Cidade, e com a lei de desenvolvimento urbano de Porto Alegre, que a judicialização vai ser inevitável”, alertou o promotor.

    Deveria ser uma revisão do Plano Diretor da capital gaúcha, mas é um novo plano, feito com apoio e influência dos grandes grupos da construção civil e do mercado imobiliário, priorizando o “adensamento” (mais prédios, mais altos, menos distanciamentos) das áreas mais urbanizadas, ou seja, dos principais bairros e do Centro da cidade, região fortemente atingida pela enchente de 2024.

    O prefeito considera que o MP está exorbitando de suas prerrogativas em desrespeito às competências dos vereadores e espera a votação final pra assinar e validar o novo Plano Diretor.

  • Fim da escala 6×1: cabe ao Congresso decidir entre o progresso e o atraso

    Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene do Congresso Nacional. Caberá ao parlamento a decisão final sobre a nova escala de trabalho. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil tem ganhado centralidade no debate público contemporâneo por tocar em um dos pontos mais sensíveis da organização social moderna: a tensão permanente entre acumulação econômica, dignidade do trabalho e os limites biofísicos e psíquicos da vida humana. Não se trata, portanto, de uma controvérsia meramente técnica sobre organização de jornadas, mas de uma disputa de paradigmas civilizatórios, cujo desfecho depende da capacidade do Congresso Nacional de se elevar acima de pressões setoriais e compreender a profundidade histórica do tema.

    A escala 6×1 — seis dias consecutivos de trabalho para um único dia de descanso — consolidou-se, sobretudo nos setores de comércio, serviços e varejo, como uma expressão institucional de um modelo produtivo que, embora formalmente compatível com a Consolidação das Leis do Trabalho, preserva uma racionalidade econômica originada em um ciclo industrial que já não corresponde às exigências contemporâneas de produtividade qualificada, saúde mental e reorganização do tempo social. Sua permanência, nesse sentido, não é sinal de inevitabilidade econômica, mas de inércia institucional.

    A proposta de sua superação não se reduz a uma mera diminuição de jornadas, mas implica uma reconfiguração substantiva do pacto social entre capital e trabalho. É precisamente nesse ponto que se torna evidente a centralidade do Congresso Nacional, enquanto instância democrática de mediação de conflitos estruturais. Cabe-lhe arbitrar entre interesses divergentes, evitando a captura do processo legislativo por racionalidades estritamente mercantis ou por agendas ideológicas que, sob o pretexto de liberdade econômica, frequentemente operam como mecanismos de conservação de assimetrias históricas.

    Do ponto de vista da classe trabalhadora, os ganhos associados à revisão da escala 6×1 transcendem o incremento quantitativo de descanso. Diversos estudos em saúde ocupacional e economia do trabalho indicam que a redução de jornadas extensivas está associada à diminuição de quadros de exaustão crônica, burnout e adoecimentos psíquicos, ao mesmo tempo em que potencializa ganhos de produtividade por hora trabalhada. A lógica subjacente é relativamente simples, ainda que sistematicamente ignorada por setores mais conservadores do debate: não há eficiência sustentável na exaustão permanente.

    O tempo livre, nesse contexto, deixa de ser um apêndice do contrato laboral e passa a constituir dimensão essencial da cidadania substantiva. Ao ampliar-se o espaço de não-trabalho, expande-se também a capacidade dos indivíduos de participar da vida social, cultural e familiar, fortalecendo o tecido comunitário e reduzindo formas difusas de alienação social que impactam, inclusive, a estabilidade econômica de longo prazo.

    No âmbito do comércio e dos serviços, a transição para modelos mais equilibrados de jornada não deve ser interpretada como ameaça, mas como reconfiguração estratégica. A qualidade do atendimento, a estabilidade da força de trabalho e a redução da rotatividade tendem a se beneficiar de trabalhadores menos exauridos, o que impacta diretamente a experiência do consumidor e a eficiência sistêmica do setor. A produtividade contemporânea, cada vez mais, depende menos da extensão do tempo trabalhado e mais da sua qualificação.

    Para o empresariado, sobretudo aquele mais sensível a transformações estruturais, impõe-se uma leitura menos imediatista e mais estratégica do fenômeno. A história econômica é suficientemente clara ao demonstrar que ganhos sustentáveis de produtividade raramente emergem da intensificação contínua da exploração laboral, mas sim da reorganização inteligente de processos, da incorporação tecnológica e da qualificação do trabalho humano. A insistência em modelos rígidos de jornada revela, em muitos casos, uma defasagem gerencial mais do que uma necessidade econômica objetiva.

    A transição para um modelo pós-6×1, portanto, poderia ser conduzida de maneira gradual, combinando incentivos institucionais, adaptação regulatória e estímulos à inovação organizacional. Trata-se de uma mudança de arquitetura social, e não de um rompimento abrupto com a realidade produtiva.

    Entretanto, o debate encontra resistência significativa de setores políticos e econômicos que operam sob uma racionalidade profundamente ancorada em pressupostos da extrema direita contemporânea, marcada por uma defesa quase dogmática da desregulamentação e pela naturalização de assimetrias laborais como se fossem condições imutáveis da economia. Nesse campo, a crítica à ampliação de direitos trabalhistas frequentemente ultrapassa o debate técnico e assume contornos ideológicos, nos quais qualquer reorganização do tempo de trabalho é interpretada como ameaça ao próprio funcionamento do mercado, ainda que evidências empíricas sugiram o contrário.

    Paralelamente, segmentos organizados do empresariado, especialmente aqueles mais dependentes de estruturas de baixa remuneração e alta rotatividade, exercem pressão sistemática no sentido de preservar um modelo de jornada que maximize a extração de valor no curto prazo. Essa convergência entre interesses econômicos concentrados e uma racionalidade política avessa à regulação social mais robusta contribui para a manutenção de um discurso que apresenta a escala 6×1 como inevitável, quando, na realidade, ela é historicamente construída e politicamente sustentada.

    A crítica necessária a esse bloco de resistência não deve se apoiar em moralismos simplificadores, mas em uma análise estrutural: trata-se de reconhecer que a defesa intransigente do status quo pode operar como um entrave à modernização das relações de trabalho e à própria elevação da produtividade sistêmica da economia brasileira. Em um contexto global de transformação tecnológica acelerada, automação e reorganização do tempo social, a manutenção de padrões laborais rígidos tende a produzir não apenas custos sociais elevados, mas também perda de competitividade estrutural.

    Em síntese, a superação da escala 6×1 deve ser compreendida como parte de um projeto mais amplo de modernização institucional do trabalho no Brasil. O Congresso Nacional, enquanto espaço de deliberação democrática, tem a responsabilidade histórica de enfrentar essa questão com base em evidências empíricas, projeções de longo prazo e compromisso com o interesse público, e não sob a influência de pressões conjunturais ou dogmas econômicos ultrapassados.

    O verdadeiro dilema não se resume à quantidade de dias trabalhados, mas à própria concepção de sociedade que se deseja consolidar: uma sociedade subordinada à lógica da maximização imediata da produção, frequentemente defendida por setores políticos alinhados a uma visão economicista restrita, ou uma sociedade capaz de articular eficiência econômica com bem-estar humano, coesão social e desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o debate sobre o fim da escala 6×1 é, em última instância, um debate sobre o próprio horizonte civilizatório do país.

  • “Sete Cabeças” : sete fotógrafos em exposição no Píer do Gasômetro

    “Sete Cabeças” : sete fotógrafos em exposição no Píer do Gasômetro

    A Galeria Escadaria abre neste dia 18 de abril (sábado), a partir das 15h, “Sete Cabeças”, exposição que reúne trabalhos de sete fotógrafos, que embora distintos em linguagem e abordagem, convergem em potência estética e relevância contemporânea. 

    A curadoria é de Marcos Monteiro, que já realizou 42 exposições a céu aberto em Porto Alegre, São Paulo, Pelotas e Gramado. A visitação ocorre diariamente, até o dia 3 de junho, no Píer da Usina do Gasômetro.

    Foto de Míriam Ramalho, trabalho sobre mães refugiadas no campo de Dzaleka, no Malawi. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    As fotos abordam temas como religiosidade, sobrevivência humana, deslumbramento diante da natureza, manifestações populares e dimensões do imaginário e do surreal. 

    “Mais do que uma exposição, ‘Sete Cabeças’ é um encontro de olhares que tensionam, sensibilizam e expandem as possibilidades da fotografia contemporânea”, afirma Marcos Monteiro, criador da Galeria Escadaria, que funcionou desde 2021 no Viaduto Otávio Rocha, na avenida Borges de Medeiros, e por conta das obras de restauração passou para o Píer do Gasômetro, ambos cartões postais de Porto Alegre.

    Foto de Fernando Kokubun, série Vestígios. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    O fotógrafo, curador e produtor é conhecido por seus projetos curatoriais a céu aberto com forte impacto social e estético, tendo com suas exposições públicas integradas à vida urbana ganho homenagens da Câmara de Vereadores de Porto Alegre e o Prêmio Açorianos de Artes Visuais.

    Foto de Cynthia Jappur, série Utopia Cromática. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    OS ARTISTAS:

    Cynthia Feyh Jappur – Utopia Cromática: Destaca-se pela intensidade visual e pela criação de imagens que operam no limite entre controle e imprevisibilidade. Sua obra é marcada por explosões cromáticas e sobreposições que, à primeira vista, sugerem o caos, mas se organizam de forma sensível e harmônica ao olhar.

    Douglas Fischer – Siré. Dança dos Orixás: Fotógrafo gaúcho premiado e coautor do livro “Fulgêncio”, transcende o registro documental ao abordar a celebração de Oxum. Seu trabalho captura a dimensão simbólica e emocional dos rituais, traduzindo com sensibilidade a força espiritual presente nas imagens.

    Fernando Kokubun – Vestígios: O fotógrafo porto-alegrense constrói narrativas visuais marcadas por tensão, ausência e transitoriedade. Em preto e branco, suas imagens intensificam contrastes e conduzem o olhar a zonas de ambiguidade. A presença humana surge como vestígio: corpos borrados e espectrais indicam a impermanência e a dissolução do sujeito no espaço.

    Hilton Lebarbenchon – Ao Sul do Mundo: Mais do que uma coordenada geográfica, o sul da América do Sul aparece como experiência sensível de vastidão e silêncio. Paisagens imponentes — montanhas, cumes nevados e céus rarefeitos — constroem um território onde o tempo parece suspenso. A presença humana, mínima, não domina: coexiste com a força primordial da natureza.

    Iara Tonidandel – Peso do Olhar Infantil: A artista apresenta retratos de crianças de países como Tailândia, Nepal, Colômbia, Ruanda, Tanzânia, Sri Lanka e Etiópia. Longe de qualquer apelo à piedade, seus olhares convocam responsabilidade. Cada imagem revela infâncias atravessadas por desigualdades, trazendo à tona questionamentos profundos por meio de uma abordagem documental sensível.

    Míriam Ramalho – Mães de Dzaleka: Fotógrafa carioca com trajetória consolidada em expedições internacionais e autora de cinco livros, Míriam apresenta um recorte documental sobre mães refugiadas no campo de Dzaleka, no Malawi. Seu trabalho, também registrado em publicação editorial, evidencia com profundidade e respeito às realidades vividas por essas mulheres.

    Roberta Tavares – Pernambuco: Onde o Chão Ferve e a Alma Dança: Com uma trajetória extensa e reconhecida, Roberta Tavares propõe uma leitura autoral do Carnaval de Pernambuco. Suas imagens vão além do registro e constroem uma narrativa em que corpo, ritmo e território se entrelaçam. Em cidades como Recife, Olinda, Nazaré da Mata e Carpina, o espaço urbano é transformado pela força da ocupação coletiva.

    Foto de Douglas Fischer, de Siré – Dança dos Orixás. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    Serviço:
    Abertura: 18 de abril (sábado), a partir das 15h.
    Local: Pier da Usina do Gasômetro
    Encerramento: 3 de junho de 2026.
    Visitação: Diária, ao longo de 24h. Entrada franca.

    Foto de Hilton Lebarbenchon, série Ao Sul do Mundo. Expo Sete Cabeças/Divulgação
  • Como foi costurado o acordo que fez o PT apoiar Juliana Brizola

    Como foi costurado o acordo que fez o PT apoiar Juliana Brizola

    O PDT foi o partido que mais perdeu representantes na “janela partidária” que fechou em 3 de abril.

    Tinha três senadores, ficou com dois. Tinha 17 deputados federais, caiu para 11. Perdeu também 9 dos 43 deputados estaduais que elegeu em 2022.

    No âmbito municipal, o PDT tem prefeitos em 151 cidades, nenhuma capital de estado. Os vereadores eleitos pela sigla em todo o país, conforme o TSE, somam 2.479, num universo de 58.400 vereadores nos mais de 5.500 municípios brasileiros.  

    Os filiados ao PDT somam 1.081.821 eleitores, segundo dados do TSE em dezembro de 2025.

    Ainda não há um balanço consolidado das perdas do PDT com candidatos que pularam a “janela partidária”.

    O certo é que o PDT ainda tem poder para impor ao governo Lula um acordo leonino, que o habilita a disputar três governos estaduais com o apoio do governo federal e os votos do PT. Atualmente, o PDT não tem nenhum governador.

    Pelo acordo, ele pretende disputar em Minas Gerais, com Alexandre Kalil, no Paraná, com Requião Filho, e no Rio Grande do Sul, com Juliana Brizola.  

    No Rio Grande do Sul, o acordo pode causar danos incalculáveis. Há um ano, o PT gaúcho escolheu Edegar Pretto, atual presidente da Conab, como candidato ao governo do Estado.

    Na quinta-feira 9 de abril, ante pressões e ameaças, inclusive de intervenção no diretório estadual, Pretto anunciou a retirada da candidatura e, dias depois, declarou seu apoio a Juliana Brizola, do PDT.

    A decisão conflagra um dos mais combativos e aguerridos redutos que apoiam Lula – o PT do Rio Grande do Sul. O repúdio à ameaça de intervenção por parte de lideranças históricas do partido, como os ex-governadores Olívio Dutra e Tarso Genro (que chegou a apoiar o acordo nacional) impactou os militantes. 

    Nas redes sociais foi palpável a exaltação dos ânimos e a inconformidade de grande parcela dos petistas.

    O acordo entre PT e PDT foi acertado em março tendo como foco a reeleição de Lula. Foi articulado e firmado pelas cúpulas nacionais dos  partidos de esquerda, representadas por:

    – Edinho Silva, presidente nacional do PT, defensor da tese de que o partido deveria “abrir mão” de candidaturas regionais para priorizar a aliança nacional.

    – Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, que defendeu “a convergência da sigla em torno do projeto de reeleição de Lula, em troca de palanques estratégicos nos estados”.

    – João Campos (PSB), prefeito de Recife e presidente nacional do PSB também participou das reuniões de cúpula que “selaram o bloco de apoio da centro-esquerda em março”. 

    Nos últimos dias, no auge da crise apareceu o nome do deputado Paulo Pimenta,  como um dos que trabalharam internamente pela aliança, “visando consolidar sua própria candidatura ao Senado”. Limitado à esquerda pela canditatura de Manuela d’Ávila, do Psol, Pimenta mira o eleitorado mais ao centro, carreado pelo PDT.

    A figura mais contraditória neste cenário é a do presidente do PDT, Carlos Lupi. Lupi ganhou o ministério da Previdência e vários cargos na administração federal por seu apoio a Lula, em 2022. Prestou um dos maiores desserviços ao governo ao sentar em cima das denúncias das fraudes contra os aposentados no INSS.

    Foi informado do esquema nos primeiros dias do seu mandato, nada fez até a Operação da Polícia Federal, em março de 2025, que escancarou uma fraude de R$ 6 bilhões, envolvendo mais de 3 milhões de aposentados do INSS.

    Com sua leniência, Lupi favoreceu as tentativas da oposição de envolver o governo com as fraudes, no mínimo, por quase um ano e meio de omissão. Foi forçado a pedir demissão, mas conseguiu emplacar o sucessor, ex-deputado Volney Queiróz, também do PDT. O resultado pífio da CPI, com dois relatórios impugnados, tem muito ver com a situação que se criou no ano e meio em que Lupi esteve sentado em cima das graves denúncias.

    O argumento dos que defendem o acordo é que, pela primeira vez em nove eleições, todos os partidos de esquerda com representação parlamentar (PT, PDT, PSB, PSOL, PCdoB, PV e Rede) fecham questão para apoiar um único candidato já no primeiro turno. 

    O objetivo central da estratégia de Lula é garantir que partidos que ocupam ministérios, como o PDT, ofereçam palanques estaduais exclusivos ou prioritários para sua reeleição, mesmo que isso signifique o PT abrir mão de cabeças de chapa em redutos tradicionais. 

    Juliana Brizola, de 50 anos, é neta do ex-governador e fundador do PDT, Leonel Brizola. Começou sua carreira política em 2008, como vereadora em Porto Alegre, foi deputada estadual por três mandatos. Nas eleições municipais de 2024, disputou a prefeitura de Porto Alegre, ficando em terceiro lugar, com 136 mil votos. Desde novembro de 2025, é a pré-candidata do partido ao governo do Estado.

  • 17 de abril de 1996: 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

    Cruz marca o local do massacre em Eldorado dos Carajás, Pará. Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr


    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há datas que não passam. Ficam suspensas no tempo como poeira vermelha sobre a pele — insistem, infiltram-se, recusam o esquecimento. Abril, no sul do Pará, é sempre um mês que arde. Não apenas pelo calor, nem pela terra exposta das estradas, mas pelo que ficou impregnado nela: a memória de um país que, diante do clamor por justiça, respondeu com o peso das armas.

    Trinta anos depois, o que aconteceu no Massacre de Eldorado do Carajás ainda não terminou de acontecer.

    A estrada PA-150, naquele 17 de abril de 1996, não era apenas caminho: era palco. Centenas de trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra seguiam em marcha, depois de dias de deslocamento e de espera por negociação. Estavam acampados, cansados, pressionando por desapropriações prometidas e nunca cumpridas. Não pediam mais do que aquilo que a Constituição já previa — mas, no Brasil, entre o direito escrito e o direito vivido, há sempre um abismo.

    Do outro lado, veio a Polícia Militar do Pará. Não veio para escutar. Veio para desobstruir. A ordem era liberar a estrada, custasse o que custasse. E custou. O que se seguiu não foi apenas confronto: foi uma execução que resultou em 21 mortes. Dezenas de feridos. Trabalhadores cercados, muitos sem possibilidade de fuga, atingidos à queima-roupa. Corpos caídos no asfalto e na terra, ferramentas transformadas em símbolos de impotência diante de fuzis.

    Não foi um acidente. Tampouco um descontrole momentâneo. O massacre carrega a assinatura de uma lógica antiga, quase colonial, que entende a terra como privilégio e o pobre como obstáculo. O que se viu ali não foi apenas repressão: foi uma mensagem. E mensagens, quando dadas em tiros, são sempre difíceis de apagar.

    Há relatos de feridos impedidos de receber socorro imediato, de sobreviventes perseguidos mesmo depois da dispersão, de uma violência que ultrapassou qualquer justificativa de manutenção da ordem. A estrada, que deveria ligar cidades, naquele dia separou mundos — o dos que podiam mandar e o dos que só podiam resistir.

    Há quem tente enquadrar o episódio como um ponto fora da curva. Mas a curva, no Brasil, é longa e tortuosa. Antes de Carajás, vieram outros silêncios armados; depois dele, também. O que muda são os nomes, os rostos, às vezes a geografia. A estrutura permanece — uma engrenagem que transforma reivindicação em ameaça e resistência em crime.

    Naquela tarde, a estrada ficou marcada por corpos e por algo ainda mais persistente: a evidência de que a lei nem sempre se aplica da mesma forma. Anos depois, alguns comandantes da operação foram condenados, mas a responsabilização nunca alcançou toda a cadeia de decisões que tornou possível a tragédia. A sensação de justiça incompleta permanece como uma sombra — porque justiça não é apenas punir executores, é também enfrentar as estruturas que autorizam a violência.

    Trinta anos é tempo suficiente para que uma geração inteira cresça sem ter visto o que aconteceu. E, ainda assim, herde suas consequências. Porque o massacre não se limita aos que estavam lá. Ele ecoa nas ocupações que continuam sendo tratadas como caso de polícia, nas lideranças ameaçadas, nos conflitos agrários que persistem como uma ferida aberta no mapa.

    O Brasil urbano, muitas vezes, observa tudo isso à distância, como se fosse outra realidade. Mas há um fio invisível que liga a estrada de terra aos centros asfaltados: o alimento que chega à mesa, o modelo de desenvolvimento que se escolhe sustentar, o silêncio que se aceita manter. Ignorar Carajás é, de certo modo, participar do seu esquecimento — e o esquecimento é a forma mais eficiente de repetição.

    Uma crônica, por natureza, lida com o cotidiano. Mas há cotidianos que são construídos sobre ruínas. O de muitos trabalhadores rurais no país ainda carrega o peso daquele abril. Não como lembrança distante, mas como aviso permanente. A terra continua sendo disputada não apenas com documentos, mas com coragem — e, às vezes, com sangue.

    Há também, contudo, um outro lado da memória: o da persistência. Porque, apesar de tudo, as vozes que foram silenciadas naquele dia não desapareceram completamente. Elas se espalharam. Estão nos acampamentos que resistem, nas marchas que insistem, nos nomes que continuam sendo pronunciados em assembleias e encontros. Há uma dignidade teimosa nisso — uma recusa em deixar que a história seja contada apenas pelos vencedores.

    Talvez o maior incômodo de relembrar Eldorado do Carajás seja justamente este: perceber que ele não pertence ao passado. Ele é uma pergunta que ainda não foi respondida. Que país se constrói quando a reivindicação por direitos básicos é recebida como afronta? Que futuro se desenha quando a terra — origem de tudo — permanece concentrada nas mãos de poucos?

    Trinta anos depois, o asfalto cobre parte das marcas, mas não as apaga. A poeira continua ali, invisível aos olhos apressados, mas pronta para se erguer ao menor movimento. E a memória, essa matéria indomável, segue fazendo o que sabe fazer: voltar.

    Voltar como incômodo. Como denúncia. Como lembrança de que há histórias que não podem ser encerradas enquanto não forem verdadeiramente compreendidas.

    E, talvez, como um pedido — não por piedade, mas por responsabilidade. Porque lembrar não é apenas um gesto de respeito ao passado. É uma forma de interrogar o presente.

    E, quem sabe, impedir que ele se repita.

  • Recordar Zuzu Angel 50 anos após sua morte é um ato ético

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Cinco décadas transcorreram desde o silenciamento brutal de Zuzu Angel (05 de junho de 1921 – 14 de abril de 1976), e ainda assim sua voz persiste — não como eco esmaecido, mas como um timbre agudo que rasga o tecido do tempo e se inscreve na memória moral do país. Há figuras que pertencem à história; outras, raras, pertencem à consciência. Zuzu é destas últimas: uma mulher que, convocada pela dor, recusou o destino privado do luto e converteu-o em gesto público de insurgência.

    Zuzu Angel, em 1972. Fotógrafo desconhecido, da coleção do Arquivo Nacional.

    Antes de ser símbolo, foi criadora. Sua trajetória na moda não se limitava ao ofício de vestir corpos, mas insinuava, já ali, uma forma de narrar o Brasil. Seus vestidos bordados, impregnados de cores tropicais, passarinhos e referências populares, recusavam a submissão estética aos centros europeus. Havia, em seu trabalho, um esforço de afirmação cultural — uma tentativa de dizer que a beleza brasileira não precisava de tradução nem de autorização. A delicadeza de suas peças escondia, talvez, a primeira semente de sua coragem: a disposição de afirmar-se num mundo que frequentemente exigia silêncio e conformidade.

    Mas a história, impiedosa, deslocou-a de seu campo de criação para um terreno mais áspero. O desaparecimento de seu filho, Stuart Angel, aos 25 anos, durante os anos de chumbo da ditadura militar, rompeu qualquer possibilidade de uma vida ordinária. A partir desse instante, Zuzu deixou de ser apenas estilista para tornar-se testemunha, investigadora e acusadora. Sua dor, longe de confiná-la, projetou-a para o mundo. Transformou-se em denúncia.

    Stuart não era uma vítima casual do arbítrio. Militante do movimento estudantil e integrante de organizações de resistência ao regime, tornou-se alvo direto da repressão estatal. Preso, foi submetido a torturas de uma crueldade que ultrapassa os limites do dizível — métodos que buscavam não apenas extrair informações, mas também instaurar o terror como pedagogia política. Seu assassinato por membros do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), longe de ser um excesso isolado, inscreve-se na lógica sistemática de eliminação dos dissidentes. O corpo nunca foi devolvido à família, e essa ausência material se tornou uma ferida aberta, impossível de cicatrizar.

    É nesse vazio — simultaneamente físico e simbólico — que se forja a transformação de Zuzu. A impossibilidade do luto tradicional, sem corpo, sem despedida, sem verdade oficial, impele-a a agir. Sua busca não era apenas pelo paradeiro do filho, mas pela restituição de sua humanidade, negada pela máquina repressiva. Ao exigir respostas, Zuzu confrontava não apenas indivíduos, mas uma estrutura inteira construída sobre o segredo, a mentira e a negação.

    O que singulariza sua luta não é apenas a coragem, mas a linguagem que escolheu para resistir. Zuzu não empunhou armas nem se refugiou na clandestinidade. Seu campo de batalha foi o mesmo em que antes cultivara a beleza: a moda. Em desfiles que passaram a circular internacionalmente, suas criações tornaram-se alegorias do horror. Vestidos outrora leves passaram a exibir manchas que evocavam sangue, pássaros enjaulados, figuras sombrias — metáforas visuais de um país aprisionado. Era uma estética da denúncia, um grito codificado em tecidos e linhas.

    Ao levar sua causa para o exterior, especialmente aos Estados Unidos, Zuzu compreendeu algo essencial: que a luta contra a violência de Estado exigia visibilidade internacional. Ela escreveu cartas, buscou autoridades, confrontou versões oficiais. Sua atuação, nesse sentido, antecipou práticas que hoje reconhecemos como fundamentais na defesa dos direitos humanos: a internacionalização das denúncias e a mobilização da opinião pública global. Não se tratava apenas de encontrar seu filho — era a tentativa de desvelar um sistema inteiro de repressão.

    Entretanto, a mesma visibilidade que a fortalecia também a tornava alvo. Sua morte, em 1976, num acidente automobilístico envolto em suspeitas, carrega até hoje a sombra da violência política. Não foi apenas uma tragédia individual; foi um recado. O poder autoritário, quando confrontado por vozes que recusam o esquecimento, busca não apenas silenciar, mas apagar. Ainda assim, falha. Porque há mortes que, em vez de encerrar histórias, as inauguram. Em 2025, quase meio século depois, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente Zuzu Angel como vítima da ditadura militar, gesto tardio que, embora incapaz de reparar plenamente a perda, reafirma a verdade histórica que ela própria nunca deixou de proclamar.

    Cinquenta anos depois, Zuzu Angel permanece como uma figura de inquietação. Sua memória não permite repouso confortável. Ela nos obriga a revisitar um passado que muitos prefeririam relegar ao esquecimento, e a reconhecer que a violência institucional não é uma abstração distante, mas uma possibilidade sempre latente quando a democracia se fragiliza. Sua luta, portanto, não pertence apenas ao seu tempo — ela se projeta como advertência e legado.

    Há também, em sua história, uma dimensão profundamente humana que resiste à monumentalização. Zuzu não era uma heroína forjada em mitos; era uma mãe que se recusou a aceitar a ausência sem resposta. Essa recusa, simples e radical, é talvez o núcleo de sua grandeza. Num mundo em que a dor frequentemente conduz ao silêncio, ela escolheu falar. E ao falar, abriu caminho para que outros também o fizessem.

    Seu gesto, no entanto, não foi solitário. Ele ecoou e continua a ecoar nas lutas de outras mães, de outros familiares de desaparecidos, que transformaram o sofrimento em reivindicação política. Ao fazê-lo, inscreveram suas histórias pessoais na tessitura mais ampla dos direitos humanos, convertendo a memória em instrumento de justiça. Zuzu, nesse sentido, não é apenas uma figura do passado, mas parte de uma genealogia de resistência que atravessa gerações.

    Recordar Zuzu Angel, cinquenta anos após sua morte, é mais do que um exercício de memória histórica. É um ato ético. É reconhecer que a justiça, ainda que tardia e incompleta, depende da persistência daqueles que se recusam a esquecer. É admitir que a beleza — aquela que ela um dia costurou em tecidos — pode também ser instrumento da verdade.

    E, sobretudo, é compreender que certas vidas não se encerram. Elas permanecem, como uma costura invisível que sustenta o tecido frágil da memória coletiva. Zuzu Angel, com sua coragem indomável e sua dor transformada em linguagem, continua a nos interpelar. Não como lembrança distante, mas como presença exigente — uma presença que nos pergunta, ainda hoje, o que fazemos diante da injustiça, e até onde estamos dispostos a ir para enfrentá-la.

  • Câmara de Porto Alegre anuncia votação de Plano Diretor para o dia 23 de abril

    Câmara de Porto Alegre anuncia votação de Plano Diretor para o dia 23 de abril

    A Câmara Municipal de Porto Alegre definiu que a votação final do Plano Diretor Urbano Sustentável (PDUS) ocorrerá no próximo dia 23 de abril. O encerramento da análise das emendas está previsto para a sessão do dia 22, conforme acordo firmado entre líderes da base governista e da oposição, antecipando o cronograma em quase um mês.

    O projeto entra na fase final após meses de impasse e intensa negociação. Mais de 400 emendas foram apresentadas, das quais grande parte já foi apreciada e rejeitada. Até o momento, a oposição na Câmara emplacou pouco mais de 20 emendas.

    O ponto mais controverso do projeto é a previsão de liberação de prédios de até 130 metros de altura, especialmente no Centro Histórico e no Quarto Distrito — regiões afetadas pelas enchentes de 2024. A prefeitura defende a medida como estratégia de desenvolvimento urbano, enquanto especialistas e entidades apontam riscos relacionados às mudanças climáticas e à ocupação de áreas vulneráveis.

    Vereadores da oposição criticam a condução do processo, apontando falta de participação popular e o que classificam como “fatiamento” da votação, o que dificultaria a compreensão dos impactos. “Estão aprovando diretrizes sem que a população compreenda, há pouca participação popular”, afirma a líder Karen Santos (PSol). Já a base governista avalia o acordo como um avanço, destacando a importância do projeto para o futuro da cidade.

    A revisão do Plano Diretor ocorre com atraso, já que a última atualização parcial foi realizada em 2010, embora uma nova revisão estivesse prevista para 2020.


    Impacto no Mercado Imobiliário

    Há expectativa dos defensores do novo Plano Diretor que, no longo prazo, haja redução do custo médio da moradia ao ampliar a oferta de imóveis em áreas com infraestrutura consolidada.

    No entanto, atualmente, o mercado apresenta valorização: os preços residenciais subiram cerca de 5,39% em 2025, atingindo média de R$ 7.505 por metro quadrado.

    Regiões como o Centro Histórico e o Quarto Distrito tendem a atrair investimentos, mas há risco de valorização desigual, que pode dificultar o acesso da população de menor renda às áreas centrais.

    Guia de Alturas

    Abaixo, confira alguns dos limites de altura definidos para as principais áreas da cidade no novo projeto:

    Região / LocalidadeLimite de Altura (Metros)Perfil da Edificação
    Centro Histórico e Quarto Distrito, Praia de Belas, eixos centrais.Até 130mPrédios de grande porte (40 andares)
    Entorno da Arena e Beira-RioAté 130mGrandes empreendimentos e hotéis
    Grandes eixos urbanos (Ipiranga, Carlos Gomes, Protásio Alves, Dom Pedro II)Até 90mPrédios comerciais e residenciais altos
    Áreas urbanas consolidadas (Bom Fim, Cidade Baixa, Menino Deus, etc.)Até 60mPerfil residencial consolidado
    Áreas residenciais intermediáriasAté 18 mBaixa densidade
    Áreas de preservação / baixa densidade (zona sul, ilhas, áreas ambientais)Até 9 mUso muito restrito, baixa verticalização

    A proposta do novo Plano Diretor de Porto Alegre reorganiza a cidade em 16 Zonas de Ordenamento Territorial (ZOTs), cada uma com limites de altura específicos que modificam a regra geral anterior de 52 metros. 

    A prefeitura disponibilizou um Mapa Interativo onde é possível consultar o limite de altura exato para cada rua ou endereço da cidade.

    Com o encerramento da votação das emendas na próxima semana, o texto base segue para a redação final. O impacto esperado é de uma Porto Alegre mais densa, buscando atrair novos moradores para áreas já infraestruturadas e que visa, ao menos promete, frear a expansão desordenada para as periferias.