Autor: da Redação

  • Polícia Civil indicia 34 pessoas por suspeitas de fraudes milionárias na Educação em Porto Alegre

    Polícia Civil indicia 34 pessoas por suspeitas de fraudes milionárias na Educação em Porto Alegre

    Nesta quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026, a Polícia Civil gaúcha finalizou o conjunto de inquéritos da Operação Capa Dura, no total foram 34 pessoas indiciadas.

    O esquema pode ter movimentado mais de R$ 58 milhões e funcionou dentro da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (Smed) entre 2021 até 2023. Houve direcionamento de licitações, uso de orçamentos falsos e pagamentos de propina.

    Entre os indiciados há nomes como o da ex-secretária de Educação municipal Sônia da Rosa, o vereador Alexandre Bobadra e o ex- vereador Pablo Melo (filho do prefeito Sebastião Melo), além do empresário Jailson Ferreira da Silva, um dos mentores das fraudes, segundo o relatório policial.

    O número de indiciados aumentou de 24 (em maio de 2025) para 34 porque a Polícia Civil finalizou frentes que corriam em paralelo. Os principais crimes apontados são de corrupção passiva e ativa, fraude em licitação, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

    Para a polícia, o esquema criminoso se utilizava da modalidade de “carona” em atas de registro de preços de outros estados (como Sergipe) para comprar materiais sem concorrência e com superfaturamento. Foram identificadas compras de milhares de livros didáticos e centenas de telas interativas (lousas digitais). Muitos dos materiais foram estocados em depósitos, sem uso, enquanto o pagamento às empresas de Jailson Ferreira era priorizado em tempo recorde.

    Novas frentes na investigação, agora concluídas, revelaram que o esquema não se limitava a livros e telas; ele funcionava como um “cardápio de fraudes” dentro da Smed. O grupo utilizava a mesma lógica das “caronas” em atas de preços para contratar empresas de reforma sem licitação real.

    O processo agora segue para o Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia formal contra os 34 envolvidos.

    Vale lembrar que na Câmara municipal ocorreram duas CPI simultâneas em 2023. Ambas, após acordo, foram relatadas pelo vereador Mauro Pinheiro (PL). No relatório final, Pinheiro concluiu que não houve corrupção ou fraude. O relatório aprovado limitou-se a apontar falhas administrativas e sugerir recomendações para melhorar a gestão de compras e depósitos.

    A CPI da oposição, presidida pela vereadora Mari Pimentel (na época no Novo), acabou apresentando um documento paralelo mais contundente, onde foi indicado fraudes em licitações, formação de cartel e direcionamento de compras para empresas específicas, o relato foi encaminhado ao MP para análise.

    De acordo com as investigações, os principais nomes envolvidos são:

    Pablo Melo, ex-vereador e filho do prefeito Sebastião Melo. Foi indiciado por suspeita de atuar como articulador político e intermediário nos contratos. Apontado no inquérito como um dos articuladores que facilitaram o contato entre empresários e a cúpula da Smed. Durante as fases da operação, houve ainda investigação sobre o uso de sites de apostas esportivas para movimentar valores suspeitos, acusação que Melo nega veementemente.

    Pablo Melo não possui cargo na prefeitura atualmente. Em novembro de 2024 ele foi afastado de funções públicas por 180 dias por determinação judicial devido às investigações. Ele teve ainda sua candidatura a vereador cassada e foi declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS), pelo entendimento de que parentes de prefeitos não podem se candidatar ao mesmo cargo no território de jurisdição do titular, decisão mantida pelo TSE.

    Sônia da Rosa, ex-secretária municipal de Educação, que chefiava a pasta na época das compras suspeitas.

    Jailson Ferreira da Silva, empresário representante das fornecedoras de livros e kits pedagógicos, considerado o centro do esquema comercial.

    Maon Calegaro Moraes, advogado e ex-servidor (CC) da prefeitura, indiciado por suposto recebimento de propinas e operação financeira do esquema.

    Reginaldo Bedigaray, ex-chefe de gabinete de Pablo Melo, suspeito de atuar como operador financeiro no repasse de valores.

    Alexandre Bobadra, vereador, foi cassado em 2023. Mas voltou ao legislativo municipal em 2025. É apontado por intermediar contatos entre empresários e a prefeitura.

    Mateus Viegas, ex-CC da Procuradoria-Geral do Município (PGM), indiciado por suspeita de facilitar os trâmites jurídicos das compras.

    Michele Bartzen e Mabel Luiza, ex-assessoras da Smed que chegaram a ser presas e colaboraram com as investigações.

    Lia Wilges, servidora que atuava no Gabinete do Prefeito. O inquérito aponta que ela fazia a ponte entre os interesses dos empresários e as decisões administrativas da Smed.

  • Especialistas apontam para ‘graves impactos ambientais’ com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Especialistas apontam para ‘graves impactos ambientais’ com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Especialistas das áreas de biologia, geografia, geologia, medicina, engenheira química e ambiental, além de técnicos e ativistas ambientais, assinam uma série de documentos enviados à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), órgão ligado à Secretaria do Meio Ambiente do Estado, em que apontam problemas no Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) do Projeto Natureza, da CMPC – Celulose Riograndense.

    Projeto Natureza é como foi batizada a nova indústria de celulose a ser construída na Fazenda Barba Negra, no município de Barra do Ribeiro, região metropolitana de Porto Alegre, considerado o maior investimento privado da história do Estado – mais de R$ 24 bilhões – e projeção de produzir 2,5 milhões de toneladas de celulose branqueada de eucalipto por ano.

    Além de citar os impactos socioambientais regionais, pedem ainda a realização de audiências públicas nas cidades do entorno do município no qual está prevista a instalação da planta industrial, entre elas, Porto Alegre e Viamão.

    “A licença ambiental solicitada pela CMPC à FEPAM apresenta expressivos impactos ambientais regionais, prevendo consumir 288 milhões de litros/dia de água (Classe I, a mais limpa) do rio Guaíba e liberar 242 milhões de litros de efluentes/dia (carga maior do que as três estações de tratamento de esgoto de Porto Alegre) com substâncias altamente tóxicas neste corpo d’água, que está distante 3,5 km das margens do bairro Belém Novo, onde há captação da Estação de Tratamento de Água (ETA) Belém Novo e da ETA Ponta do Arado, para abastecimento da população de toda essa região. As emissões atmosféricas e efluentes previstos atingirão, além de Barra do Ribeiro, Porto Alegre, Viamão e outros municípios da RMPA. E os povos indígenas (Mbya Guarani) e pescadores artesanais de municípios da margem do Guaíba poderão ser gravemente afetados, caso se concretize a licença prévia a este empreendimento”, diz um dos resumos dos documentos.

    Um comitê técnico listou ‘omissões e falhas graves’ no RIMA do empreendimento e concluiu que o trabalho apresenta os impactos de forma genérica, fragmentada e descontextualizada, dificultando a compreensão dos efeitos cumulativos e sinérgicos do empreendimento, estando incompleto, e pedem que a Fepam rejeite o que foi apresentado.

    Para o grupo de técnicos, a licença ambiental solicitada pela CMPC ignora impactos como a proximidade do local com as águas que abastecem Porto Alegre e região. Reprodução

    Aqui, estão listados os principais pontos:

    1. No que toca aos dois biomas e seus tipos vegetacionais no RS, no documento do RIMA, em nenhum momento aparece a palavra Mata Atlântica, e tampouco o impacto do empreendimento sobre remanescentes protegidos pela Lei n. 11.428/2006. A vegetação de restinga arenosa, pertencente à Mata Atlântica, na localidade de Barba Negra, foi, em parte, motivo da criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Ambiental (RPPN) do mesmo nome. Outrossim, é mister destacar que este tipo de vegetação corresponde às Formações Pioneiras assinaladas na Lei 11.428/2006, ademais parte delas na Área de Preservação Permanente, junto ao Guaíba. O projeto prevê sua parcial supressão e ocupação em parte por indústria, porto, vias internas do referido empreendimento. No caso do Pampa, bioma restrito no Brasil, ao Rio Grande do Sul, a palavra é citada no documento somente uma vez, sem nenhuma relação à necessidade de sua proteção, o que se caracteriza como uma grave omissão.
    2. Consideramos inadmissível que o RIMA não apresente tabelas com o número e as listas das espécies ameaçadas e os respectivos nomes científicos, nas diferentes áreas de impactos (ADA, AID, AII). No que toca às espécies ameaçadas da flora, citadas somente na página 38, é descrita de forma genérica: “Espécies Ameaçadas”. Na avaliação da vegetação, foram identificadas algumas plantas ameaçadas de extinção [algumas, quais?]. Foram encontrados alguns [quantos?] butiazeiros, uma espécie de palmeira [qual?] que está na lista de espécies ‘em perigo de extinção’ do estado do Rio Grande do Sul.
    3. No que toca à Área de Influência Direta (AID) do empreendimento, o mapa da localizaçã não sinaliza de modo preciso o local a ser construído o empreendimento, carecendo de refinamento cartográfico de escala e legenda. Além disso, sinaliza parte do território do Bairro Belém Novo como AID, portanto, atingindo o território do município de Porto Alegre. O texto do RIMA, na página 05, abstrai a proximidade com a Capital, assinalando uma suposta distância de 60 km de Porto Alegre! Tal afirmação, supostamente relacionada ao trajeto por rodovia entre a Barra do Ribeiro e a Capital, é de muitíssima menor importância do que o raio de influência, ou seja, a AID frente a toda a infraestrutura ligada ao projeto. Ademais, fica ausente a informação da distância de apenas 3,5 km do emissário de efluentes em relação ao Bairro Belém Novo, em Porto Alegre. Além disso, não é citada a distância de 6,5 km, entre as fontes de poluentes (emissário) e as áreas de captação do DMAE. Da mesma forma é escassa a informação dos impactos potenciais sobre as Unidades de Conservação, como a Reserva Biológica do Lami (8,5 km do emissário), Parque Estadual de Itapuã (11 km do empreendimento). Ressalta-se que a cartografia existente não está acompanhada dos critérios que subsidiam os limites definidos para a Área de Influência Direta, tampouco nos mapas que espacializam os pontos de despejos de efluentes e as áreas de inundação explicitam os cálculos que dimensionam as áreas correspondentes, como, por exemplo, no Volume 01, páginas: 64; 89; p.92.
    4. Quanto aos poluentes líquidos no processo de branqueamento da celulose, é citado o uso da “melhor tecnologia disponível”, mas não é citado o uso de cloro (que dá origem a dioxinas e a outros organoclorados), apesar de no EIA ser citado o uso de óxido de cloro. Este item é fundamental e deveria ser citado, além de ser necessariamente aprofundado no EIA, pois tem íntima relação à geração de dioxinas e outras substâncias tóxicas, persistentes e cancerígenas. Na página 10 do RIMA, as informações são escassas e incompletas, como podemos verificar: “O primeiro clareamento usa dois produtos químicos: o oxigênio e a soda cáustica. A celulose sai menos escura e ainda precisa passar pela segunda etapa de clareamento. Clareamento final – a celulose recebe um clareamento final mais completo, usando outros produtos químicos”… “Outros produtos químicos”? Não citá-los é caso de omissão, já que a bibliografia especializada destaca a toxicidade potencial do uso destes produtos usados no branqueamento da celulose?
    5. No tema das alternativas locacionais, foi destacado, em primeiro lugar, os aspectos de mercado, em especial a logística da madeira, seja no recebimento deste material, seu processo de transformação em celulose e o seu destino final para o exterior. Neste item, foi desconsiderada a presença de comunidades indígenas (Barra do Ribeiro é o município do RS com maior número de aldeias Mbyá Guarani) além dos impactos ambientais na RPPN de Barba Negra e nas belas e ricas restingas de Mata Atlântica, localizadas em Barra do Ribeiro. No caso das espécies ameaçadas, esta área possui dezenas de espécies, destacando-se as maiores populações do réptil Liolaemus arambarensis, ‘Criticamente Ameaçado’, com ocorrência restrita a três municípios, entre eles, Barra do Ribeiro, com as maiores populações justamente na área de Barba Negra, entre as margens da Laguna dos Patos e o Guaíba. Nas alternativas locacionais, também não foi considerada a presença de águas com qualidade Classe I, neste segmento do Guaíba, contrastam com a necessidade de se buscar locais com menores impactos ambientais.
    6. Quanto ao uso energético da queima da madeira, o RIMA faz uma afirmação surpreendente, porém inverossímil, quando tenta justificar que a empresa “contribui para o combate às mudanças climáticas” (p. 13), ao queimar restos de madeira, alegando ademais que: “Uma de suas grandes vantagens (…) é gerar energia limpa e renovável para a própria fábrica”. Entretanto, é estranho que o incremento de gasto de energia, com queima de vegetais, gerará maiores concentrações de poluentes. Também haveria que calcular o total de energia gasto nas construções, dragagens, o corte e o deslocamento das madeiras e da celulose, com combustíveis fósseis, ida e volta na Laguna do Patos, nas rodovias, e milhares de quilômetros além mar (90% da celulose se deslocará para outros continentes, em especial a Ásia). Portanto, a emissão de gases de efeito estufa, decorrentes dos combustíveis fósseis, desconsidera toda a cadeia de gastos energéticos que implicam obrigatoriamente em enorme consumo de combustíveis fósseis.
    7. Quanto aos poluentes hídricos, na pág.13 do documento lê-se; “não haverá alteração da qualidade da água do Lago Guaíba atendendo aos padrões de qualidade exigidos por lei”. No entanto, não é o que consta no anexo V – Estudo da Autodepuração do efluente definitivo, no qual se apresenta que os parâmetros estão em níveis que alteram o enquadramento do corpo hídrico Guaíba.
    8. Há uso excessivo de termos como “impacto baixo”, mesmo que a Resolução CONSEMA 372/2018 classifique esse tipo de empreendimento como de alto potencial poluidor. Além dos termos “temporário” ou “mitigável”, empregados sem haver explicações razoáveis ao uso destes termos, não havendo explicação ou referência às escalas temporais reais (décadas), dependência de manutenção contínua e monitoramento dos sistemas e riscos de falha operacional.
    9. Quanto às emissões atmosféricas, o RIMA geralmente limita-se a afirmar que estarão “dentro dos padrões legais”, sem trazer o inventário dos gases emitidos, que podem ter efeitos crônicos mesmo que em baixas concentrações.
    10. Na avaliação de impacto ambiental e seus riscos ocorre ênfase apenas na suposta eficiência do tratamento, sem discutir risco de falhas operacionais (vazamentos de cloro, como o que aconteceu no ano passado na planta atual), descargas em períodos de estiagem, efeito acumulado com outros usos da bacia, inclusive com relação ao incremento dos impactos gerados pela planta atual, impactos a jusante na Classe 1 (não apenas no ponto de lançamento), considerando-se a saúde de populações sensíveis (idosos, crianças, comunidades indígenas e pescadores) e os impactos no sistema de saúde , analisar condições meteorológicas locais (inversão térmica, ventos).
    11. A indústria de celulose está entre as maiores consumidoras industriais de água. Não consta no RIMA a quantidade, que aparece no interior do EIA como sendo na ordem de 288.000.000 litros por dia. Em período que a ONU declarou estarmos em falência hídrica global, foi desconsiderado o Art. 1º, inciso IV, da Lei nº 9.433/97: “A água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico”.
    12. O RIMA tende a avaliar a planta industrial como se fosse um empreendimento isolado, desconsiderando: expansão das monoculturas arbóreas, eufemisticamente chamadas de “florestas plantadas”, aumento do tráfego pesado, pressão sobre estradas, portos e comunidades, outros empreendimentos já existentes ou planejados. Afinal, o CONAMA 01/86 exige avaliação dos impactos cumulativos.
    13. Quanto à geração de empregos, frequentemente o documento enfatiza este item, mas não diferencia aqueles temporários dos permanentes, não avalia precarização e não apresenta análise de gênero, renda ou vulnerabilidade social (Art. 6º da CONAMA 01/86 e CONAMA 511/2015).
    14. Medidas como “monitoramento contínuo”, “programas ambientais” e “gestão adequada” são apresentadas sem metas claras, indicadores públicos e garantias de fiscalização independente.
  • Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    Valter Sobreiro, o dramaturgo que plantou o teatro em Pelotas           

    GERALDO HASSE

    Lançado em fins de 2025, o livro “6 Décadas de Teatro”, contendo uma dezena de artigos acadêmicos sobre a obra de Valter Sobreiro Júnior, oferece uma nova e ampla dimensão da carreira desse professor, cenógrafo, escritor e diretor teatral que fez toda vida profissional em Pelotas, de onde só saiu esporadicamente para encenar suas peças em outras cidades.

    Editado pela Life Editora, de São Paulo, o livro de 198 páginas foi organizado por João Luiz Pereira Ourique, professor de teatro da UFPel que coordenou o trabalho de 15 acadêmicos de universidades públicas de Pelotas, Rio Grande, Santa Maria e Campo Grande.

    É um estudo profundo sobre a dramaturgia de Sobreiro, que escreveu nove peças, adaptou dezenas de outras e participou de cerca de 70 espetáculos teatrais ao longo de seus 60 anos de militância no teatro.

    Nascido no dia do Natal de 1941 em Rio Grande, Sobreiro lembra da primeira vez em que foi a um espetáculo teatral na sua cidade natal: tinha menos de cinco anos quando assistiu “I Piccoli de Podrecca”, levado por uma trupe italiana de marionetes. Sua infância foi movimentada, em decorrência da atividade itinerante do pai funcionário público federal (fiscal da Previdência). Órfão de mãe aos três anos, foi criado por uma tia que se tornaria sua madrasta.

    Dos cinco aos sete anos morou em Santana do Livramento, onde assistiu a teatro, cinema, dança e rinhas de galos. Também transitou por hotéis de Uruguaiana, Alegrete, São Francisco de Assis e Quaraí. De 1950 a 1951 viveu em Passo Fundo, de onde certa vez foi levado a Erechim para cantar num programa de rádio de um certo Maurício Sirotsky Sobrinho, o mesmo que anos depois lançaria Elis Regina no Clube do Guri em Porto Alegre. Passou o ano de 1952 em Porto Alegre. Em 1953 a família se fixou em Pelotas, de onde nunca mais quis sair.

    Matriculado no tradicional Colégio Pelotense, terminou o ginásio em 1956 e, ao invés de continuar os estudos, passou a frequentar a Rádio Cultura, onde não faltavam opções para quem não tivesse medo do microfone. Após se apresentar como cantor em programas de auditório, foi convidado a produzir um programa sobre cinema, tema de artigos que publicava no Diário Popular, como sócio militante do clube de cinema local fundado em 1950 – na cidade havia então pelo menos seis boas salas com uma oferta variada de filmes. Apoiado pelo diretor Elias Bainy, trabalhou na discoteca, no departamento de notícias e como diretor de elenco de rádio-teatro até 1960, quando as novelas passaram a chegar gravadas de São Paulo, obrigando os rádio-atores a buscar novas atividades.

    Ele seguiu na rádio, mas retomou os estudos e a partir de 1962 passou a trabalhar em banco. Findo o colegial, começou o curso de Direito, que lhe permitiria trabalhar como advogado trabalhista.

    No meio da vida de bancário e estudante, sobreviveu a opção pelo teatro, incentivada por professores como Aldyr Garcia Schlee, Angenor Gomes e Luiz Carlos Correa da Silva, fundadores da Sociedade de Teatro Escola de Pelotas (STEP, 1962) e do Teatro dos Gatos Pelados (TGP), criado em 1963 por alunos e mestres do Pelotense (“gato pelado” é o apelido dos estudantes dessa centenária escola pública municipal). Esses dois grupos teatrais deram ressonância nacional às atividades cênicas em Pelotas, onde desde a segunda metade do século XIX se formou um público apreciador das artes exibidas nos teatros Sete de Abril, Guarany e nos auditórios de escolas e clubes sociais.

    No início de sua atividade como animador do teatro, Sobreiro fez a cenografia de peças infantis, mas, já em 1962, escreveu seu primeiro texto teatral, “O Infeliz Jovem Rei”, apresentado pela primeira vez no ano seguinte. Em 1966, se tornou oficialmente professor do Pelotense.

    Abaixo, AS NOVE PEÇAS analisadas e/ou comentadas no livro “6 Décadas de Teatro”:

    1. O INFELIZ JOVEM REI (1962/63), drama inspirado em “Hamlet”, do dramaturgo inglês William Shakespeare.
    2. BIRA & CONCEIÇÃO, escrita em 1966, é uma ópera popular cantada cuja primeira encenação, dirigida por Angenor Gomes e auxiliado por José Luiz Marasco, do TGP, desencadeou o convite para concorrer ao Festival Nacional de Teatro de Estudantes em 1968 no Rio. Uma das exigências do festival, como “contrapartida social”, era encenação de uma peça infantil em uma comunidade periférica da capital carioca. Ocupado na produção da peça maior, Sobreiro pediu ao professor Aldyr Schlee que o cobrisse na emergência. Inspirado no clássico “Chapeuzinho Vermelho”, o amigo criou uma versão moderna levada numa favela – os originais se perderam na voragem do AI-5, que escancarou a ditadura em 13 de dezembro de 1968. “Bira & Conceição” ganhou o prêmio de melhor música, superando 32 concorrentes – as canções foram compostas pelo próprio dramaturgo, que não estudou música formalmente, mas tinha o que, no popular, se chama de “bom ouvido”. Segundo o doutor em música e professor Leandro Maia, que analisou Bira & Conceição, “Valter Sobreiro tem consciência melódica e noção harmônica”. Em consequência dessa pioneira excursão ao Rio, a equipe pelotense ficaria desfalcada do cenógrafo Fernando Mello da Costa, que se mudou para o Rio algum tempo depois de abrir espaço profissional em Porto Alegre. Décadas depois, sempre no Rio, o próprio Mello da Costa cobrou o resgate da peça, principalmente da trilha musical, da qual não havia gravação nem partitura. Mesmo achando que a peça estava superada pela evolução dos temas do teatro moderno, Sobreiro o atendeu em 2012, com a ajuda do músico Leonardo Oxley Rodrigues, mas a peça não chegou a ser remontada porque o cenógrafo faleceu em 2019. As partituras transcritas pelo acadêmico Alinson Alaniz estão salvas no livro “6 Décadas”. A ópera tem apenas quatro personagens (uma mulher, dois homens e a mãe deles) e um coro de oito vozes presente o tempo todo em cena e amparado por um  grupo de músicos.
    3. EM NOME DE FRANCISCO, sobre o poeta pelotense Francisco Lobo da Costa (1853-1888). Publicada pela Editora Tchê em 1987, teve 36 apresentações no RS, PR, PB e no Uruguai, sendo premiada em Novo Hamburgo e Ponta Grossa. Um grupo de Pelotas montou-a posteriormente e, usando trechos da peça, fez um vídeo que acabou ganhando um prêmio.
    4. MARAGATO – Publicada em 1995 pela editora da UFPel. Drama falado e cantado em torno da Revolução Federalista de 1893, quando se defrontaram maragatos e ximangos, uma rivalidade histórica que até hoje ecoa no RS. Ganhou 30 prêmios entre 1988 e 1991. Foi apresentado em 31 cidades gaúchas, em oito outras fora do Rio Grande e no Uruguai, incluindo o Teatro Solis de Montevidéu. Estima-se que tenha sido assistida por 45 mil pessoas. O autor recusou propostas de montagem por um grupo de Porto Alegre.
    5. DON LEANDRO ou OS SENDEIROS DE SANGUE – Peça de 1999 inspirada no “Rei Lear” de Shakespeare. Trata do poder na velhice, envolvendo disputas entre homens e mulheres.
    6. DE PRODÍGIOS E MARAVILHAS, de 2006, peça sobre sonhos, fantasias, desejos, conflitos e os sofrimentos resultantes de enganos e frustrações.
    7. ENTREMEZ DA RAINHA MARIA , A LOUCA, E SEU CRIADO BELISÁRIO, 2011, sobre a hipocrisia entre as classes sociais, a escravidão, o exílio, e a saudade da terra natal.
    8. PAI-DE-DEUS, de 2012, trata das relações entre algoz e vítima (torturador e torturado) durante uma ditadura militar. Desde o início, a peça tem momentos que lembram o tradicional ‘pas de deux’ do balé, que simula um diálogo em forma de dança, mas na realidade do palco se trata de um confronto, uma tentativa de ajuste de contas. Estreou em Pelotas em 2012, foi apresentada em Porto Alegre em 2016 e voltou a ser encenada em Pelotas em 2020. De 2023 a 2024, cedida ao Grupo Tholl, formado por ex-alunos de Sobreiro, a peça foi levada a Porto Alegre, São Paulo e Rio, sob a direção de João Schmidt, também ator nesse que é o drama politicamente mais denso e atual de Sobreiro. No artigo em que analisa no livro “6 Décadas” o contexto político da peça, a atriz e professora de dramaturgia Fernanda Vieira Fernandes observa: “A ausência de julgamento e condenação dos crimes de tortura e morte de cidadãos brasileiros favorece a perda da memória e, pior, mantém à espreita o autoritarismo com ares de solução milagrosa”.
    9. RESSOLANA (2014), ambientada numa área de fronteira luso-castelhana no século XIX, trata de um triângulo formado por um pai, seu filho e uma prostituta que se quer livre. O desfecho é trágico: para se vingar do pai, que não cumpre a promessa de libertá-la, a mulher envenena o jovem. Ciúme, posse e vingança tecem o enredo fronteiriço que ecoa as tragédias gregas. Única peça de Sobreiro inédita em palcos.

    ÍNTEGRA DAS PEÇAS EM LIVRO

    Em reconhecimento à importância do trabalho do dramaturgo Valter Sobreiro Junior, a UFPel planeja publicar a íntegra de sua obra teatral, constituída pelas nove peças analisadas e comentadas no livro “6 Décadas”, em cuja introdução a professora Lilian Becker de Oliveira, mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural, escreveu: “A importância das obras de Valter Sobreiro Júnior para a cidade de Pelotas transcende o âmbito teatral, configurando-se como um patrimônio imaterial de valor inestimável para a memória cultural da região. (…) Sobreiro Júnior é considerado um formador de gerações de artistas e sua influência no teatro pelotense ressalta uma metodologia que introduziu conceitos como a ‘unidade plástica do espetáculo’, integrando cenografia, iluminação, figurino e trilha sonora em uma proposta integradora, como destacou Joice Ester Ayres de Lima em trabalho de 2011 na UFPel.

    Para criar o que denomina “cenografia de planos estruturados”, Sobreiro trocou experiências com diretores, atores e teóricos, além de professores e jornalistas especializados – muita gente ao longo do tempo, cabendo porém uma lembrança especial a Gianni Ratto (1916-2005), diretor que coordenou a montagem da caixa cênica e do aparato de som e luz do Theatro Sete de Abril na reforma dos anos 1980, quando os dois tiveram uma fértil convivência.

    Se for publicado, o livro da UFPel sobre as peças de Sobreiro pode ser sua consagração final, já ensaiada em homenagens prestadas em anos recentes nas três maiores cidades costeiras da Lagoa dos Patos:  em 2021, o ano em que completou 60 anos de teatro, Sobreiro recebeu do governo estadual a Medalha Simões Lopes Neto, por mérito cultural; no mesmo ano, seu nome foi fixado em placa de bronze no saguão do Teatro 7 de Abril, fundado em 1831 no coração de Pelotas; em 2022, a prefeitura de Rio Grande também inaugurou uma placa comemorativa no teatro municipal, fundado em 1929.

    DOIS ROMANCES

    Embora tenha se dedicado prioritariamente ao teatro, encontrou tempo para escrever dois romances: “Petrona Carrasco”, premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul em 1989, foi publicado pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) em parceria com a Editora Tchê; e “O Demônio a ser Pago no Estúdio dos Fundos”, publicado pela Editora Lerigou, lançado em 2024 em Pelotas e em 2025 em Porto Alegre. No depoimento ao signatário deste perfil, Sobreiro disse que pretende ainda escrever sobre sua vida: “Tem tantas peripécias que pode dar uma novela”.

    CENA FINAL

    Comentando sua adesão incondicional ao teatro em Pelotas, Valter Sobreiro diz que cedo percebeu a necessidade de circular com os espetáculos, para justificar o investimento feito e divulgá-los, mas esbarrou nas limitações do tempo, pois tinha compromissos familiares (três filhos) e profissionais (trabalhar como professor e advogado) na cidade. Por isso recusou convites para levar suas peças a outros países. “Mas plantei a ideia de produzir em Pelotas”, conclui, lembrando que nunca lhe faltaram patrocinadores porque “muitos empresários e políticos eram frequentadores de espetáculos de música e artes cênicas”.

    Embora tenha alcançado notoriedade nacional e levado suas peças até ao Uruguai, o dramaturgo ficou toda a vida em Pelotas, sustentando-se como advogado trabalhista e dando aulas de teatro, sem se fazer notar senão pela dedicação ao meio onde as vaidades pessoais trombam nos camarins, nos palcos e até no saguão dos teatros. Por ironia da história, nenhum dos seus descendentes (três filhos, sete netos e dois bisnetos) mora em Pelotas.

     

  • Dinheiro pela janela: investigação sobre fraudes do Banco Master chega a Balneário Camboriú

    Dinheiro pela janela: investigação sobre fraudes do Banco Master chega a Balneário Camboriú

    Chegou a Balneário Camboriú a terceira fase da Operação Barco de Papel, que investiga crimes contra o sistema financeiro relacionados ao banco Master.

    Segundo a PF, ao chegarem para cumprir mandado de busca e apreensão em um imóvel em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, um dos ocupantes do apartamento, no 30° andar do prédio, arremessou pela janela uma mala cheia de dinheiro em espécie.

    O homem foi identificado como Igor Paganini, empresário catarinense  que atua no setor imobiliário, sócio da Igor Paganini Empreendimentos, empresa sediada em Balneário Camboriú.

    Paganini não era o alvo da terceira fase da Operação Barco de Papel, deflagrada pela Polícia Federal. No entanto, ao jogar o dinheiro pela janela durante a chegada dos agentes, ele passou a ser investigado por suspeita de ligação com o esquema.

    A mala de dinheiro arremessada do 30º andar acabou se abrindo com o impacto, mas o montante de R$ 429 mil foi totalmente recuperado pela polícia. Além do dinheiro, foram apreendidos dois veículos de luxo e dois smartphones.

    A investigação apura crimes contra o sistema financeiro e fraudes relacionadas à gestão de recursos de 100 fundos de previdência, que fizeram aplicações suspeitas no Banco Master.

    A busca em Camboriú está relacionada à prisão do presidente da Rio Previdência, Deivis Marcon Antunes, no dia 3 de fevereiro de 2026.

    Ele é o primeiro gestor envolvido em aplicações fraudulentas a ser preso. Ele havia renunciado ao cargo duas semanas antes após uma operação da PF que apura  desvio de dinheiro e corrupção no fundo dos servidores do estado do Rio de Janeiro.

    As investigações apuraram que, na gestão de Deivis, o fundo de previdência do Rio investiu quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do Banco Master, papéis de alto risco que não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito.

    O fundo da RioPrevidência é formado pelas contribuições de 235 mil servidores públicos do Estado do Rio.

    Em outubro de 2025, o Tribunal de Contas já havia proibido a Rioprevidência de investir em títulos administrados pelo Master, alertando para “possível gestão irresponsável de recursos”.

    Deivis foi preso durante a segunda fase da Operação Barco de Papel, deflagrada pela PF, que cumpriu 3 mandados de prisão temporária e 9 de busca e apreensão no RJ e em SC.

    “A investigação, iniciada em novembro, visa apurar um conjunto de 9 operações financeiras, realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, que resultaram na aplicação de aproximadamente R$ 970 milhões de recursos pertencentes à autarquia em Letras Financeiras emitidas por banco privado”, segundo a PF.

     

     

     

     

  • Caminhos da Ditadura em Porto Alegre cruza a fronteira e vai à Argentina

    Caminhos da Ditadura em Porto Alegre cruza a fronteira e vai à Argentina

    Márcia Turcato

    A iniciativa Caminhos da Ditadura em Porto Alegre completa 10 anos. O projeto começou a ser construído em 2016 por estudantes do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em janeiro de 2026, o Caminhos cruzou a fronteira e foi até Buenos Aires, capital da Argentina, dando mais contexto aos relatos de extermínio que uniu ditaduras do Cone Sul sob as asas da Operação Condor, coordenada pelos Estados Unidos, com o objetivo de eliminar adversários políticos transfronteiriços.

    A professora de História Anita Natividade Carneiro, 30 anos, que criou o Caminhos em 2016, está à frente do projeto que levou um grupo de 28 pessoas à Argentina, em parceria com a arquiteta Cecília Giovenardi Esteve, 38 anos, que também é guia de turismo e integra o grupo de mediadoras do Caminhos. Juntas elas construíram um intenso roteiro de visitas a centros de memória e encontros com sobreviventes de campos de extermínio, ativistas, pessoas que foram sequestradas quando crianças e outras que nasceram no cárcere.

    O grupo conheceu testemunhos potentes que expõem os bárbaros métodos de tortura e extermínio praticados na Argentina durante a ditadura mais cruel vivida pelo país, de 24 de março de 1976 a 10 de dezembro de 1983. Foram 2.818 dias de crimes hediondos cometidos pelo Estado, que implantou mais de 800 centros de tortura e extermínio, sequestrou e desapareceu com 30.000 pessoas e se apropriou de 500 bebês nascidos na prisão ou que foram sequestrados. Até o momento, apenas 140 pessoas, nascidas no cárcere, recuperam sua verdadeira identidade.

    Clube Atlético e Universidade das Madres

    O minucioso roteiro da viagem iniciou com uma visita ao local onde funcionou o Clube Atlético, que serviu como Centro Clandestino de Detenção, Tortura e Extermínio, de 1976 a 1983. Cerca de 1.500 pessoas foram presas no local, “que era um verdadeiro campo de concentração”, afirmou o sobrevivente Daniel Mercogliano, 75 anos, sequestrado em casa no dia 19 de abril de 1977. Ao dar seu testemunho, Daniel estava acompanhado de Sílvia Fontana, irmã de Liliana Fontana, sequestrada e desaparecida desde o dia 01 de julho de 1977.

    De acordo com o testemunho de Daniel, “os centros de tortura faziam parte de um plano de extermínio do governo militar, era terrorismo de Estado”. Daniel disse também que “a classe dominadora seguiu acumulando dinheiro e poder enquanto a classe operária era presa, torturada e assassinada. No centro de extermínio, a comida era suficiente apenas para que continuássemos vivos e a tortura prosseguisse”. Pessoas de vários países também foram sequestradas e presas nesse centro. Cerca de 500 foram identificadas.

    O prédio do Clube Atlético foi demolido em 1988 para a construção de um viaduto. Graças a intervenção popular e ao trabalho de arqueólogos, estão sendo realizadas escavações no local e parte da história pode ser recuperada. Em 2022, a equipe de arqueólogos localizou vários documentos e objetos durante as escavações. Uma meia vermelha e uma camiseta foram identificadas por Sílvia Fontana, como peças de roupas que sua irmã vestia quando foi sequestrada. Liliana não foi localizada até o momento, seu nome permanece na lista de pessoas desaparecidas. Hoje teria 69 anos.

    Liliana Fontana, a Lili, era militante sindical, estudante de cabeleireira e estava grávida de dois meses. Foi sequestrada da casa dos pais junto com o companheiro, Pedro Sandoval. Testemunhas disseram que os viram na prisão do Clube Atlético. Seu filho, Alejandro Pedro Sandoval, é o neto número 84, resgatado pelas Avós da Praça de Maio em 2006, ano em que recuperou sua identidade. Alejandro havia sido apropriado pelo policial Víctor Enrique Rei, atualmente preso. O primeiro neto a ser identificado foi em 1978. Até o momento, 140 recuperaram a identidade. Estima-se que 300 crianças nasceram no cárcere.

    Caminhos da Ditadura em Porto Alegre também conheceu a Universidade Popular de Las Madres, um projeto consolidado em abril de 2000. A universidade, que agora não recebe auxílio financeiro do governo Milei, fica ao lado da Casa das Madres, fundada por Hebe de Bonafini, já falecida, que teve dois dos seus três filhos sequestrados e desaparecidos. Com apoio de professores universitários e de intelectuais argentinos e estrangeiros, a universidade popular promove cursos de direitos humanos, festivais e cursos de profissionalização.

    O pessoal da universidade, a associação das mães e a das avós, além de populares, participam às quintas-feiras, sempre às 15h30, da marcha da Praça de Maio, em que reivindicam o paradeiro das pessoas sequestradas e agregam demandas sociais à agenda. O grupo de Porto Alegre se juntou à marcha de nº 2.494, realizada dia 29 de janeiro.

    Para que o grupo do Caminhos pudesse ter encontros com ativistas de direitos humanos, Cecília, organizadora do roteiro, fez contatos com várias organizações utilizando os canais dos sites das entidades. “Nos contatos por e-mail eu escrevi sobre a história do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre e solicitei agenda. As respostas foram muito positivas, as organizações chamaram sobreviventes da ditadura e netos resgatados para conversar conosco, porque a intenção, além da visita, é compor uma rede de ativistas, essa é uma forma muito interessante de fazer capacitação e ampliar nossa consciência política”, explica Cecília.

    Memória e testemunho

    O prédio de três andares onde funcionou o centro clandestino de detenção da rua Virrey Cevallos, 630, foi declarado de utilidade pública em 2004. O local foi transformado em Centro de Memória e Promoção dos Direitos Humanos e aberto para visitação em 2009. Neste centro, o grupo do Caminhos encontrou Daniel Santucho Navajas, 49 anos, conhecido como “Neto 133”. Daniel deu um testemunho potente sobre a recuperação de sua identidade, que aconteceu somente em 2023.

    Daniel Santucho Navajas, é o neto 133. Recuperou sua identidade em 2023. Crédito: Márcia Turcato

    Ele nasceu na prisão clandestina conhecida como Pozo de Banfield no dia 10 de janeiro de 1977, um setor do Exército argentino. Mais de 300 pessoas ficaram presas nesse local, incluindo quatro mulheres grávidas. Daniel é filho de Cristina Navajas, professora, e Júlio Santucho, também professor e ex-seminarista. Quando foi sequestrado, o casal tinha três filhos e Cristina estava grávida de dois meses. Os pais de Daniel eram militantes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Cristina permanece desaparecida. Júlio sobreviveu. Daniel Santucho Navajas é ativista de direitos humanos e protagonista do documentário Identidade Roubada, de 2024, e autor do livro Nieto 133- Mi Camino Hacia la Verdad, da editora Planeta.

    A suposta irmã mais velha de Daniel foi quem o alertou de que não era filho biológico dos pais que acreditava ter, dúvidas que ele tinha desde os cinco anos de idade, sem nem saber explicar a razão. Em duas oportunidades, Daniel enfrentou o apropriador para saber a verdade, mas o homem, um ex-policial, sempre sustentou ser seu pai biológico. Ao procurar as Avós da Praça de Maio, o neto nº 133 pôde fazer um exame de DNA que confirmou a sua verdadeira identidade.

    O gene das avós

    A avó de Daniel, o neto nº 133, Nélida Navajas, morreu em 2012 sem o conhecer. Nélida é uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio e contou com a ajuda do neto Miguel, irmão mais velho de Daniel, para liderar as buscas que duraram 46 anos. Em 1983, Nélida e Estela Carlotto, agora com 95 anos, viajaram aos Estados Unidos para conhecer a geneticista Mary Claire King e pedir um novo tipo de exame de DNA, que permitisse a identificação de uma pessoa não só pelos genes de mãe ou pai, mas também pelos genes das avós.

    Em 1984, a premiada geneticista Mary-Claire embarcou para a Argentina com a questão resolvida. Ela conseguiu realizar o sequenciamento genético mitocondrial das avós para comparar com os genes de crianças que haviam sido apropriadas e determinar a ligação biológica entre elas. O procedimento recebeu o nome de “índice de abuelidad”, o índice das avós. É importante destacar que em 1998, o ditador general Videla foi condenado, entre outros crimes graves, por ter colocado em prática o Plano Sistemático de Apropriação de Bebês. As primeiras condenações de Videla ocorreram em 1985, apenas dois anos após o fim da ditadura e a volta da democracia com Raúl Alfonsín.

    ESMA, uma escola de tortura

    O Sítio de Memória ESMA, inaugurado em 2015, foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – em 2023. No local funcionou um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio da Escola de Mecânica da Armada (ESMA). No edifício principal, que agora é museu, existiu o Cassino dos Oficiais. O museu é um dos 35 prédios erguidos em um terreno de 17 hectares onde há diversas instituições de memória e verdade distribuídas em 17 ruas internas.
    Nesse local, o grupo de Porto Alegre foi recebido pelo mediador Guilhermo Amarilla Molfino, 48 anos. Ele é filho de um casal sequestrado pela ditadura e nasceu na prisão. Guilhermo recuperou sua identidade em 2009 e tem três irmãos.

    Cinco mil sequestrados passaram pela ESMA e a história cruel do centro de tortura e extermínio pode ser contada graças ao testemunho de poucos sobreviventes e de pessoas como Andrea Fricmar. Quando tinha onze anos, Andrea viu pela janela uma pessoa encapuzada e algemada sendo levada pelo pátio da ESMA, enquanto brincava com a filha de um comandante da escola militar. Outro testemunho importante é o do gráfico Victor Basterra, que foi forçado a trabalhar como fotógrafo na ESMA e conseguiu esconder centenas de negativos de filmes que depois serviram de provas contra os torturadores. O mediador Guillermo explica que 85% dos presos tinham idade entre 16 e 35 anos. “Pessoas pobres e jovens eram presas pelo terrorismo de Estado, era um Estado de Terror”, salienta. Graças aos testemunhos, sabe-se que nasceram 37 crianças na ESMA, 14 delas recuperaram a identidade.

    Casa da Identidade

    A Casa da Identidade é um espaço de memória gerido pela Associação das Avós da Praça de Maio e fica no mesmo prédio da Mostra da Linha Fundadora das Madres da Praça de Maio, onde há uma exposição permanente. A Casa da Identidade tem o propósito de dar visibilidade à história de apropriação sistemática de crianças e recém-nascidos durante a ditadura argentina. Na Casa são guardados arquivos documentais, fotográficos e bibliográficos da organização, e são realizadas atividades educativas e culturais.

    O grupo do Caminhos foi recebido por Juan Pablo Moyano, 51 anos. Ele foi sequestrado em 1978, aos 18 meses de idade, e entregue a uma mulher que já estava com uma menina apropriada. Sua avó conseguiu localizá-lo por meio de uma foto, tirada quando ele era bebê, que foi distribuída pela Justiça por toda a Argentina, Juan Pablo já estava com sete anos, seus pais permanecem desaparecidos. “As mães que perderam seus filhos se transformaram em avós que procuram seus netos e netas e a luta prossegue”. Havia um plano estratégico para o roubo e o comércio de bebês”, diz Juan Pablo.

    Em 2012, militares foram condenados, entre eles o general Jorge Rafael Videla. Antes disso, porém, deputados da extrema direita tentaram impedir a prisão de subalternos criando a “lei da obediência devida e ponto final”, que acabou revogada. A Lei 23.492 foi promulgada em 1986, durante a presidência de Raúl Alfonsín, estabelecendo a paralisação dos processos judiciais contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na ditadura militar.

    A lei, junto com a sua complementar, a de Obediência Devida, foi considerada nula pelo Congresso Nacional só em 2003, e finalmente declarada nula pela Corte Suprema de Justiça, por ser inconstitucional, em 14 de Junho de 2005, possibilitando que fossem reabertos os casos relacionados aos crimes contra a humanidade.

    O primeiro dos casos, responsabilizando Miguel Etchecolatz, ex-vice-comandante da Polícia Provincial de Buenos Aires, encerrou em setembro de 2006, estabelecendo jurisprudência ao reconhecer que o terrorismo de Estado durante a ditadura foi uma forma de genocídio.

    Monitoras do Caminhos da Ditadura PoA. De saia, a criadora da ação, Anita; de preto a direita, Cecília, responsável pelo roteiro. Foto no Parque da Memória. Crédito: Caminhos da Ditadura PoA
    Em Porto Alegre

    O roteiro do grupo de Porto Alegre encerrou com uma visita ao Parque de La Memoria, criado em 1998, na orla do rio da Prata. No local há longas paredes com os nomes das 30 mil pessoas desaparecidas na Argentina durante a ditadura, além de instalações que simbolizam os horrores que aconteceram no país.

    Após a imersão no contexto da ditadura na Argentina, a professora Anita revela que “é nossa intenção levar o Caminhos para outros estados do Brasil e outros países da América do Sul, expandir um pouco, porque vimos que as pessoas têm interesse em fazer uma viagem com esse foco. Muitas delas trabalham com este tema no Rio Grande do Sul, a maioria que fez a viagem para Buenos Aires é da área da História”.

    Caminhos da memória Em Porto Alegre

    No mapa virtual do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre constam os 39 locais de violação dos direitos humanos identificados pela Comissão Nacional da Verdade em 2014 e vários locais de referência da militância política e do movimento estudantil. Atualmente, são mais de 200 pontos mapeados.

    Há ainda dois trajetos presenciais que percorrem referências históricas, um no bairro Bom Fim e outro na Praça da Matriz, numa caminhada de aproximadamente duas horas, parando em diversos locais para ouvir as informações das e dos mediadores e também conversar com os participantes, reunidos em grupos de 50 pessoas, no máximo.

    De acordo com Anita, que é doutoranda da UFRGS em Ensino da História, “após essa imersão nos locais de memória na Argentina, percebemos que o Brasil tem movimentos muito importantes no caminho da preservação dos lugares de memória, mas são insuficientes. Aliás, nunca será suficiente o número de memoriais e monumentos que vierem a ser erguidos. Mas avançamos muito no processo da memorialização, principalmente em relação aos locais onde ocorreram violações dos direitos humanos durante a ditadura no Brasil”.

    A doutoranda está ciente que “ainda falta uma política de memória mais contundente, mais forte, pelo Estado, no Rio Grande do Sul e no Brasil, para que os espaços de memória se efetivem”. Anita destaca também a existência de muitos monumentos em homenagem a ditadores e colaboradores do terrorismo de Estado no Brasil, inclusive um condomínio em Porto Alegre com o nome ‘31 de março’. É importante realizar campanhas de conscientização sobre esses lugares. A sociedade civil, junto com o Estado, deve pensar em alternativas para esses espaços. A ditadura é um tema de disputa de memória”.

    O projeto Caminhos da Ditadura mantém visitas programadas em trajetos de memória que ocorrem nas regiões centrais de Porto Alegre. Os passeios são abertos ao público e suas agendas e inscrições para participar são todas divulgadas na página do Instagram @caminhosdaditadura_poa e adquiridos na página do Sympla.

     

  • Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

    Os 70 anos de “Grande sertão: veredas”, na exposição da artista visual Graça Craidy, em Niterói

     

    Mostra de Graça Craidy, com abertura no sábado (7/2), reúne 50 obras, com destaque para retratos dos personagens da obra-prima de Guimarães Rosa e do próprio autor

    *Texto e fotos de Carlos Souza

    A obra-prima do escritor João Guimarães Rosa (1908/1967), “Grande sertão: veredas”, que revolucionou a literatura brasileira, completa 70 anos de seu lançamento, ocorrido em 1956, e recebe como homenagem uma exposição no Espaço Cultural Correios, em Niterói (RJ), de autoria da artista visual gaúcha Graça Craidy.

    Guimarães Rosa entra no Cerrado a cavalo/Divulgação

    De sábado (7/2), quando será inaugurada às 15h30, até 28 de março, a mostra “Grande Sertão”, de Graça, perfila 50 obras, entre as quais destacam-se retratos de alguns dos principais personagens do romance, como Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Otacília, Nhorinhá, Manuelzão, Sô Candelário e Quelemém, por exemplo.

    O próprio escritor, que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, aparece em dois retratos – num deles se embrenhando no Cerrado mineiro a cavalo junto com vaqueiros – excursão que de fato aconteceu na fase em que coletava dados para escrever a obra. A flora e a fauna da região onde se desenvolve a narrativa ambientam a exposição, com coqueiros buritis, pássaros e aves criados pela artista.

    Artista Graça Craidy quer receber visitantes de braços abertos no Espaço Cultural Correios Niterói/ Divulgação

    Para ter domínio da temática e aguçar sua inspiração, Graça, de 74 anos, que vive e tem ateliê em Porto Alegre, não só leu o romance como fez um curso – Travessia – sobre o livro, durante o qual leu, releu e debateu a narrativa por meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks.

    A artista também pesquisou teses, monografias e ensaios sobre o livro e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. O ator fará um pocket show na abertura da exposição no Espaço Cultural Correios.

    Ema, ave presente no Cerrado/ Divulgação

    Trabalho “expressionista e apaixonado”

    “Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, diz Graça.

    Jagunço Hermógenes/ Divulgação

    “Grande sertão: veredas”, na leitura da artista, “retrata o Brasil profundo, em plena mudança do Império para República, a contragosto dos senhores de terra e coronéis que viam no poder central republicano a anulação do seu poder histórico exercido nas pequenas comarcas desde o tempo das sesmarias”.

    Para ela, “naquele momento histórico de surdas batalhas entre fazendeiros e seus jagunços contra a polícia e os novos políticos representando a República, um sertão recortado por rios, veredas, coqueiros-buritis, pássaros e animais selvagens acoita homens comuns incomuns à cata de poder e de Deus, em fuga da morte e do Diabo, divididos entre o bem e o mal, regurgitando questões caras à humanidade, como o amor, e mais que amor, o amor entre dois guerreiros: Riobaldo e Diadorim”.

    Riobaldo (E) segue os passos de Diadorim, à sua frente/ Divulgação

    Com “Grande sertão”, já montada antes em Porto Alegre e no Rio, é a quinta vez que Graça une sua arte à literatura. A primeira foi na coleção “Clarices”, de 33 retratos de Clarice Lispector; a segunda e a terceira foram nas coletivas  “Autorias I” e “Autorias II”, que organizou e participou ao lado de 42 artistas gaúchos que retrataram 51 escritores do Rio Grande do Sul; e “Erico”, em novembro e dezembro de 2025, em homenagem aos 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, da qual foi curadora e artista junto com 46 colegas.

    Personagem Maria Mutema/ Divulgação

    Inovação linguística

    Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa morava no Rio, na Rua Francisco Otaviano, 33, em Copacabana, quando escreveu as quase 600 páginas de “Grande sertão: veredas”.

    Ao entregar os originais à editora José Olympio, em fevereiro de 1956, ele escreveu ao colega diplomata e amigo Azeredo da Silveira: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. […] Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

    Manuelzão, personagem da mostra Grande Sertão/ Divulgação

    Recebido com aplausos pela crítica, principalmente por suas inovações linguísticas, o livro foi um dos mais vendidos durante meses e venceu prêmios literários como o Machado de Assis. Em 2002, “Grande Sertão: Veredas” integrou a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do Clube do Livro da Noruega. O romance foi a única obra brasileira na relação selecionada por 100 escritores de 54 países.

    Bananeira, em aquarela/ Divulgação

    SERVIÇO

    Exposição: “Grande sertão”

    Artista: Graça Craidy

    Abertura: sábado (7/2), às 15h30, incluindo pocket show do ator Gilson de Barros

    Visitação: de 2ª a 6ª, das 11h às 18h; sábado, das 13h às 18h, até 28 de março

    Local: Espaço Cultural Correios, Av. Visconde do Rio Branco, 481, Centro, Niterói, RJ

    Entrada franca

    *Texto e fotos de Carlos Souza

  • Frei Sergio Görgen: morre um baluarte da luta pela terra

    Frei Sergio Görgen: morre um baluarte da luta pela terra

    Aos 70 anos, faleceu nesta terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, o frei Sérgio Antônio Görgen, que dedicou sua vida à luta pela reforma agrária no Brasil.

    O frade franciscano foi vítima de um infarto no miocárdio, em sua residência no assentamento Conquista da Fronteira, localizado em Hulha Negra, na região da Campanha gaúcha.

    A morte de Frei Sérgio gerou uma onda de pesar em diversos setores da esquerda brasileira e gaúcha:
    O presidente Lula emitiu uma nota de pesar destacando a amizade e o apoio espiritual que recebeu do frei durante o período em que esteve preso em Curitiba.
    Entidades como o MST e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) manifestaram profunda solidariedade, ressaltando seu legado na justiça social e soberania alimentar.
    Parlamentares e sindicatos lamentaram a perda de uma das lideranças camponesas mais influentes do país.

    Natural do Rio Grande do Sul, integrava a Ordem dos Frades Menores (franciscanos) há mais de 50 anos.
    Foi peça-chave na fundação do MST e do MPA (em 1996), dedicando a vida à reforma agrária e à agroecologia.
    Eleito deputado estadual pelo PT/RS (mandato 2003-2007), utilizou a tribuna para defender a agricultura familiar e os direitos dos trabalhadores rurais.

    Conhecido por métodos de protesto pacíficos, como greves de fome contra injustiças sociais e em defesa do meio ambiente, era um combatente sem rancor.

    ‘Não vamos a lugar nenhum odiando uns aos outros’, costumava dizer.

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  • Chega a 300 cidades o movimento iniciado em Minneapolis; jornal fala em “Colapso de Trump”

    Chega a 300 cidades o movimento iniciado em Minneapolis; jornal fala em “Colapso de Trump”

    Pelo terceiro dia consecutivo manifestantes foram às ruas nos Estados Unidos em protesto contra a polícia de Donald Trump para a imigração.

    Mais de 300 atos e manifestações foram registrados em todos os 50 estados e no Distrito de Columbia,  neste domingo, 1º de fevereiro de 2026.

    “ICE Out” é  o slogan da campanha de mobilização nacional contra a atuação da polícia especial que Trump criou para retirar os imigrantes ilegais do país.

    Cenas da violência policial e da rejeição da população aos agentes federais de imigração, o ICE, inundam a internet espalhando a indignação.

    A truculência da caçada aos imigrantes ilegais já resultou na morte de dois cidadãos americanos, Alex Pretti e Renee Good, em Minneapolis. Cartazes com suas fotos estão espalhados pelos muros da cidade.

    Nas manifestações deste domingo, destacavam-se os cartazes com a foto do menino Liam Conejo Gomes, de 5 anos, preso pelo ICE. Nascida nos Estados Unidos, a criança foi levada sob custódia federal junto com seus pais, que são imigrantes, durante uma operação de deportação em massa na semana passada.

    Em Minneapolis, o foco da resistência, o movimento organizado envolve a população em ações articuladas, para monitorar cada movimento do ICE e tornar o mais difícil a vida de seus agentes na cidade- desde apitaço para não deixá-los dormir, até a recusa em atendê-los nos restaurantes e lanchonetes.

    Grandes marchas foram registradas em Nova York (em frente a instalações do ICE em Manhattan), Los Angeles, Atlanta, Chicago, Houston, Portland e Austin.
    Houve registros significativos em cidades como Boulder (com um passeio ciclístico e corrida de 5 milhas), Newark, e até cidades rurais e universitárias como Oxford, Ohio.

    Em Los Angeles,  manifestantes arremessaram objetos contra prédios federais, resultando em várias detenções, no uso de gás lacrimogêneo e balas de pimenta.

    Autoridades de Minnesota e prefeitos de grandes cidades seguem com ações na justiça federal para remover o ICE de seus territórios, alegando violações constitucionais.

    Na sexta-feira,  governo enviou para Minneapolis  o todo poderoso Tom Homan (o “czar das fronteiras”). Seria uma tentativa de “apaziguar” a situação. Trump no entanto afirmou que as operações de imigração continuarão.

    Os protestos contra a violência da política de imigração são a “ponta de um iceberg” de revolta social que se forma no país,  misturando descontentamento com os desmandos de Trump aos efeitos de crises estruturais – recessão econômica, desemprego,  insegurança.

    David Brooks, do conservador New Iork Times, num artigo que se tornou um dos mais lidos nesta semana, previu o ” O colapso iminente de Trump”.

    Ele aponta quatro “desmoronamentos fatais”: o desmoronamento da ordem internacional do pós-guerra; o desmoronamento da tranquilidade interna onde quer que agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) ponham suas botas; o desmoronamento da ordem democrática, com ataques à independência do Fed e — perdoem o trocadilho — acusações forjadas contra oponentes políticos; e, finalmente, o desmoronamento da mente do presidente Trump. Desses quatro fatores, o desmoronamento da mente de Trump é o principal, levando a todos os outros”.

    (Síntese do noticiário dos principais jornais no fim de semana)  

  • Nova Ipiranga: megaprojeto vai impactar 186 mil moradores em 11 bairros

    Nova Ipiranga: megaprojeto vai impactar 186 mil moradores em 11 bairros

    Começou, com uma audiência pública na quarta-feira, 28/01, a discussão do projeto de reurbanização do entorno da avenida Ipiranga,  um dos eixos viários de Porto Alegre.

    O projeto, no formato de uma Operação Urbana Consorciada, é presentado como “um instrumento urbanístico que busca despoluir o Arroio Dilúvio por meio de uma transformação da área, recuperação ambiental, implantação de parque linear e melhorias em mobilidade, saneamento e drenagem”.

    Na verdade é um mega-empreendimento urbanístico- imobiliário que vai transformar uma área de 2,5 mil hectares, onde vivem 186 mil pessoas, equivalente a 14% da população de Porto Alegre.
     Essa é a soma total de habitantes dos bairros que são “cortados” ou tangenciados pelo projeto (como Praia de Belas, Menino Deus, Santana, Azenha, Petrópolis, Jardim Botânico, Partenon, Santo Antônio, Ipiranga, Jardim do Salso e Bom Jesus).
    Além da população residente em áreas consolidadas, o projeto prevê intervenções específicas em comunidades vulneráveis.
    O Estudo de Impacto Ambiental prevê a remoção de aproximadamente 400 famílias que residem em áreas de risco ou locais necessários para as obras de drenagem e saneamento.
    Em contrapartida, estímulos à construção, como isenções e venda de índices, vão ampliar a oferta de moradias e imóveis comerciais através da verticalização dos prédios, que poderão ir até 130 metros.

    “A Nova Ipiranga é uma oportunidade de enfrentar um passivo histórico da cidade”, disse o prefeito Sebastião Melo.  Ele se refere à degradante situação do antigo Riacho, curso natural formado pelas águas que descem dos morros ao sul da cidade para o Guaíba. Nas chuvas do inverno causava inundações numa vasta área da cidade.

    Retificado e canalizado em meados do século passado, transformou-se  numa cloaca a céu aberto chamada Arroio Dilúvio, um canal fétido que atravessa uma área densamente povoada.

    A base do projeto de revitalização é uma “Operação Urbana Consorciada”,  que autoriza a formação de Parceria Público Privada, para captar e gerir os investimentos. Uma lei terá que ser aprovada na Câmara Municipal para viabilizar a operação

    O projeto prevê  “intervenções urbanísticas” para o perímetro de 1.625 hectares ao longo da avenida Ipiranga da Orla do Guaíba até a avenida Antônio de Carvalho.

    O plano de investimentos começa com “um aporte inicial” da prefeitura de R$ 202 milhões para “intervenções que buscam aprimorar a infraestrutura e a qualidade urbana da região”.  Ao mesmo tempo, as mudanças nas regras de construção e ocupação, visando a valorização imobiliária da área para atrair os investidores.

    As demais etapas vão exigir investimentos de R$ 2,75 bilhões, que virão em maior parte da venda de índices construtivos para novas edificações. As projeções indicam um adensamento.

    O projeto começou a ser feito em agosto de 2023, pelo Consórcio Regeneração Urbana Dilúvio, formado por três empresas (Profill, Pezco e Consult) ao custo de R$ 4,49 milhões.

    Agora, após as audiências públicas, o calendário da Prefeitura prevê a remessa do projeto de lei à Câmara de Vereadores, a contratação dos anteprojetos da fase zero e a constituição da sociedade de economia mista para a gestão da operação, ainda em 2026.

    Num cenário pessimista,  a reurbanização irá atrair 40 mil novos habitantes e gerar R$ 560 milhões em receitas de áreas adensáveis.
    Num cenário otimista, com “ampliação significativa do desenvolvimento econômico”, serão atraídos  73 mil novos moradores, arrecadando R$ 1,27 bi.

    A audiência pública realizada em um auditório na sede da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), no bairro Três Figueiras, foi criticada.

    Com cerca de 100 lugares, o local ficou com apenas metade da lotação. Segundo a Prefeitura, cerca de 500 pessoas acompanharam a audiência entre as participações presencial e online.

    A vereadora Juliana de Souza (PT) também criticou a falta de diálogo com as comunidades. “É mais um projeto de benefício do setor privado em detrimento dos direitos da população, e, esse em especial, coloca em risco a população de 110 comunidades populares que vão ser atingidas, com risco de remoção forçada, com risco de gentrificação. As comunidades não estão sendo consultadas. Essa audiência pública foi visivelmente uma audiência esvaziada, num território de difícil acesso, em dia de semana, em que as pessoas estão trabalhando ou estão de férias, e que não é acessível para essas comunidades populares que vão ser diretamente impactadas”.

    Uma das poucas lideranças comunitárias presentes na audiência pública foi Jane Brochado, da Vila São Judas Tadeu. Ela questionou os motivos da inclusão de sua comunidade no estudo, uma vez que a área pertence ao Estado, não ao Município, e já está em processo de regularização fundiária. Ela também demonstrou desconfiança com relação à Operação Urbana Consorciada em vista do uso anterior deste instrumento pela Prefeitura. “Foi feita uma operação dessas na Lomba do Pinheiro e foram prometidas maravilhas. Hoje, temos só os grandes empreendimentos. As ocupações continuam as mesmas, estão mais precárias do que antes. Depois que todos os grandes empreendimentos imobiliários foram feitos, a lei foi extinta”, denunciou.

    Segundo o Sul 21, durante a audiência, participantes da sociedade civil qualificaram a proposta como uma privatização. “Na minha visão estão privatizando o Dilúvio”, afirmou Cláudio Bublitz, mestre em Geografia pela UFRGS. O integrante do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA) Dionisio Neto manifestou posição semelhante: “É uma privatização de toda a Avenida Ipiranga”.

    (*) A população ainda pode participar de forma on-line com contribuições para o projeto até 4 de fevereiro, por meio do formulário eletrônico ou direto pelo link.

    (**) As publicações da apresentação, estudos, minuta do Projeto de Lei, assim como o Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental, podem ser acessadas pelo site www.regeneradiluvio.com.br.

     

  • Instituto Ágora lança, em sarau iluminado, o projeto “Vamos ler Cachoerinha?”

    Instituto Ágora lança, em sarau iluminado, o projeto “Vamos ler Cachoerinha?”

    O Instituto Cultural e Social Ágora, de Cachoeirinha, credenciado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, em setembro, prepara-se, agora, para lançar um programa bastante ambicioso denominado Vamos Ler, Cachoeirinha?.
    A iniciativa foi contemplada com recursos de uma emenda parlamentar de R$300 mil, destinada à entidade pela deputada Fernanda Melchionna, que lidera a Frente em Defesa do Livro, da  Leitura e da Escrita, do Congresso Nacional.
    O Vamos Ler, Cachoeirinha? tem por objeto qualificar, ampliar e diversificar projetos e ações que vêm sendo realizados, no munícipio, pelo Instituto Cultural e Social Ágora e parceiros, visando contribuir para a construção de uma cidade mais leitora.
    “Sintam-se todos convidados para o Sarau Iluminado, que realizaremos,  no dia 23 de fevereiro, às 19h, em nossa sede, para apresentar o programa, que envolverá a participação de dezenas de agentes culturais da cidade”, diz a organização do programa cultural e social.