{"id":101779,"date":"2026-08-24T23:38:44","date_gmt":"2026-08-25T02:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/?p=101779"},"modified":"2026-09-05T22:08:31","modified_gmt":"2026-09-06T01:08:31","slug":"vale-tudo-nas-redes-stf-quer-recuperar-o-diploma-para-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novo.jornalja.com.br\/noticiario\/vale-tudo-nas-redes-stf-quer-recuperar-o-diploma-para-jornalistas\/","title":{"rendered":"Vale tudo nas redes: STF quer recuperar o diploma para jornalistas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2009, o STF extinguiu o diploma de curso superior  como requisito obrigat\u00f3rio  para o exerc\u00edcio do jornalismo no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, em 2026, o STF defende a volta do diploma para o exerc\u00edcio do jornalismo no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando extinguiu &nbsp;diploma em 2009, o STF invocou a liberdade de express\u00e3o e a necessidade de varrer o \u201centulho autorit\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fazia sentido: a obrigatoriedade do diploma para o exerc\u00edcio do jornalismo no Brasil fora imposta por um decreto Lei do regime &nbsp;militar, em 1969.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, o ministro Gilmar Mendes, relator do processo atendia a uma demanda antiga das empresas. &nbsp;A exig\u00eancia de um curso superior espec\u00edfico para o exerc\u00edcio de uma profiss\u00e3o regulamentada enfrentou desde o in\u00edcio a resist\u00eancia dos donos das empresas jornal\u00edsticas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de que o jornalismo era uma profiss\u00e3o com relev\u00e2ncia social e exig\u00eancias t\u00e9cnicas, e n\u00e3o um mero &#8220;talento&#8221; a ser explorado sem direitos trabalhistas definidos, vinha de muito antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ganhou grande impulso com a ascens\u00e3o de Aud\u00e1lio Dantas \u00e0 presid\u00eancia do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo, nos anos 1970 e, posteriormente, na Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aud\u00e1lio Dantas liderou o hist\u00f3rico enfrentamento ao regime ap\u00f3s o assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 1975. Sua &nbsp;autoridade moral desarmava o argumento das empresas, pois ele demonstrava que a defesa do diploma visava a responsabilidade \u00e9tica com a sociedade e sal\u00e1rios dignos, e n\u00e3o o cerceamento da liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a derrota  no STF em 2009 (por 8 votos a 1), Aud\u00e1lio* permaneceu ativo nas frentes de mobiliza\u00e7\u00e3o para reverter a decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os defensores do diploma recorreram ao Legislativo por meio da PEC do Diploma (PEC 206\/2012). Ela foi aprovada no Senado em 2012, mas <strong>passou mais de uma d\u00e9cada paralisada na C\u00e2mara dos Deputados<\/strong>, onde est\u00e1 pronta para o plen\u00e1rio, travada pela resist\u00eancia pol\u00edtica das bancadas ligadas a donos de m\u00eddia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, os ministros Fl\u00e1vio Dino e Alexandre de Moraes surpreenderam &nbsp;ao defender publicamente que <strong>o Supremo reavalie a decis\u00e3o de 2009<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argumento mudou radicalmente por causa do ambiente digital. Moraes afirmou que, com as redes sociais, qualquer pessoa se autodeclara jornalista para ofender a honra de terceiros ou espalhar desinforma\u00e7\u00e3o, escudando-se na liberdade de imprensa. Ele chegou a alertar para o risco de fac\u00e7\u00f5es criminosas se infiltrarem em p\u00e1ginas digitais de not\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A FENAJ capitalizou as falas dos ministros e voltou a pressionar o judici\u00e1rio para que o jornalismo recupere a exig\u00eancia de uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica espec\u00edfica, visando separar profissionais \u00e9ticos de redes organizadas de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fim da barreira legal de entrada no mercado de trabalho \u2014 somado \u00e0 explos\u00e3o da internet e das redes sociais \u2014 transformou a din\u00e2mica salarial e a oferta de empregos atrav\u00e9s de quatro impactos centrais:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem a exig\u00eancia de uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, os sindicatos perderam muito de seu poder nas negocia\u00e7\u00f5es coletivas. As empresas ganharam respaldo jur\u00eddico para contratar profissionais sob outras fun\u00e7\u00f5es ou nomenclaturas (como &#8220;produtor de conte\u00fado&#8221;, &#8220;redator&#8221; ou &#8220;analista de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;). Isso permitiu pagar sal\u00e1rios abaixo do piso hist\u00f3rico da categoria dos jornalistas. No mercado atual, embora a m\u00e9dia salarial no topo do setor corporativo seja competitiva, os pisos iniciais em pra\u00e7as menores tornaram-se muito baixos para a complexidade da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados consolidados pelo Dieese para a FENAJ revelaram que o mercado de trabalho formal (com carteira assinada) para jornalistas <strong>encolheu mais de 21%<\/strong> no pa\u00eds desde 2020. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Milhares de vagas formais desapareceram das reda\u00e7\u00f5es tradicionais devido \u00e0 fus\u00e3o de cargos e ao fechamento de ve\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como as reda\u00e7\u00f5es tradicionais encolheram e os sal\u00e1rios estagnaram, o mercado de trabalho migrou fortemente para fora dos ve\u00edculos de m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;\u00c1reas como <a href=\"https:\/\/iscom.com.br\/FontesNoticias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assessoria de imprensa<\/a>, marketing de conte\u00fado, comunica\u00e7\u00e3o institucional e gerenciamento de redes sociais tornaram-se o principal ref\u00fagio e o maior empregador de profissionais da \u00e1rea. O perfil do jornalista mudou: ele deixou de ser exclusivamente o rep\u00f3rter de rua para se tornar um gestor de comunica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica multiplataforma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para cortar custos trabalhistas em um cen\u00e1rio onde qualquer pessoa jur\u00eddica poderia prestar servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o, as empresas aceleraram a transi\u00e7\u00e3o da carteira assinada (CLT) para contratos de Presta\u00e7\u00e3o de Servi\u00e7os (PJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Houve um aumento expressivo de jornalistas atuando como aut\u00f4nomos, <em>freelancers<\/em> ou fundando seus pr\u00f3prios portais locais e blogs independentes. Embora isso tenha trazido autonomia para alguns, para a maioria significou perda de rede de prote\u00e7\u00e3o social (como f\u00e9rias remuneradas, d\u00e9cimo terceiro e FGTS).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa realidade de sal\u00e1rios achatados e perda de postos formais \u00e9, justamente, o grande pano de fundo econ\u00f4mico que a FENAJ utiliza hoje para sensibilizar os ministros do STF. O argumento \u00e9 que a desregulamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o gerou &#8220;pluralidade&#8221;, mas sim a precariza\u00e7\u00e3o do trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As empresas de comunica\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Brasil\/0,,MUL1198310-5598,00.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Jornais (ANJ)<\/a> e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Emissoras de R\u00e1dio e Televis\u00e3o (ABERT) \u2014 adotam uma postura de <strong>resist\u00eancia de bastidores<\/strong>, mas com um discurso p\u00fablico polido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Argumentam  que <strong>continuam priorizando a contrata\u00e7\u00e3o de profissionais formados<\/strong> e diplomados por entenderem o valor da qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, defendem  que isso deve ser uma <strong>escolha de mercado de cada empresa<\/strong>, e n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o imposta pelo Estado. O argumento oficial permanece o mesmo de 2009: atrelar o exerc\u00edcio do jornalismo a um canudo universit\u00e1rio cercearia a liberdade de express\u00e3o e impediria colaboradores, intelectuais e especialistas de outras \u00e1reas de produzirem informa\u00e7\u00e3o de interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Com as falas recentes dos ministros Alexandre de Moraes e Fl\u00e1vio Dino ligando a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o \u00e0 explos\u00e3o de <em>fake news<\/em> e p\u00e1ginas de difama\u00e7\u00e3o patrocinadas, o argumento das empresas (de que qualquer barreira fere a liberdade) perde for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um ponto novo nessa reviravolta envolve entidades voltadas \u00e0 defesa dos jornalistas, mas focadas em liberdades civis, como a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As an\u00e1lises correntes assinalam que , &#8220;ao mesmo tempo em que os ministros do STF prop\u00f5em a volta do diploma para combater a desinforma\u00e7\u00e3o, o tribunal tem sido alvo de pesadas cr\u00edticas das pr\u00f3prias entidades de imprensa por autorizar medidas como a <strong>quebra de sigilo de fonte<\/strong> contra jornalistas e blogueiros independentes&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, o ambiente atual  seria de cautela : a categoria quer a prote\u00e7\u00e3o trabalhista do diploma, mas teme que o STF use a &#8220;regulamenta\u00e7\u00e3o&#8221; como pretexto para aumentar o controle do judici\u00e1rio sobre o que pode ou n\u00e3o ser publicado na internet. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> A maneira mais segura de avan\u00e7ar nesse ambiente \u00e9 a  mobiliza\u00e7\u00e3o dos profissionais  para dar aos representantes da categoria  for\u00e7a para  influir decisivamente nas negocia\u00e7\u00f5es dos termos da nova regulamenta\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas novas lideran\u00e7as, como a presidente da Associa\u00e7\u00e3o Rio Grandense de Imprensa (ARI), Cl\u00e1udia Coutinho, est\u00e3o otimistas. Mas o retrospecto n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel: em 2009, as reda\u00e7\u00f5es n\u00e3o deeram respaldo \u00e0s lideran\u00e7as que lutaram contra a desregulamenta\u00e7\u00e3o.    <\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>(1929-2018 )<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<strong>Este post foi corrigido e atualizado pelo editor as 12h09)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2009, o STF extinguiu o diploma de curso superior como requisito obrigat\u00f3rio para o exerc\u00edcio do jornalismo no Brasil. Agora, em 2026, o STF defende a volta do diploma para o exerc\u00edcio do jornalismo no Brasil. 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