{"id":101702,"date":"2026-08-04T11:43:41","date_gmt":"2026-08-04T14:43:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/?p=101702"},"modified":"2026-09-05T22:08:31","modified_gmt":"2026-09-06T01:08:31","slug":"fabrica-de-25-bilhoes-para-exportar-celulose-de-quem-e-a-pressa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novo.jornalja.com.br\/noticiario\/fabrica-de-25-bilhoes-para-exportar-celulose-de-quem-e-a-pressa\/","title":{"rendered":"F\u00e1brica de 25 bilh\u00f5es para exportar celulose: de quem \u00e9 a pressa?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A CMPC fala de uma \u201cjanela de oportunidade\u201d que pode \u201cfechar\u201d no ano que vem, conforme as tend\u00eancias do mercado mundial de celulose.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A empresa alega que j\u00e1 gastou 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares em tr\u00eas anos de prepara\u00e7\u00e3o para aproveitar a tal janela <em>.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tem 80 equipes envolvidas num projeto de R$ 25 bilh\u00f5es, com a previs\u00e3o de iniciar as obra em 2027, para dar partida na f\u00e1brica em 2029.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Depois de amea\u00e7ar transferir o projeto para outra regi\u00e3o ou outro pa\u00eds, se o licenciamento n\u00e3o sair no prazo esperado ( ainda este ano), os diretores da empresa passaram a dizer que o projeto \u201cpode ficar na gaveta\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Entende-se que uma grande empresa pressione por um licenciamento a toque de caixa para aproveitar uma oportunidade de neg\u00f3cio. &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Dif\u00edcil \u00e9 entender que se aceite &nbsp;minimizar os riscos de um empreendimento industrial deste porte.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mais que a interven\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica numa \u00e1rea de reserva ambiental protegida (uma RPPN), trata-se do ar, da \u00e1gua que abastece milh\u00f5es, trata-se de um ecossistema cujo equil\u00edbrio \u00e9 essencial para a sobreviv\u00eancia de comunidades e esp\u00e9cies.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>&nbsp;<\/em>Por mais que sejam mitigados, os impactos ser\u00e3o enormes no local que \u00e9 um santu\u00e1rio ecol\u00f3gico \u00e0 beira do maior patrim\u00f4nio ambiental da regi\u00e3o metropolitana, o Guaiba.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o das comunidades ind\u00edgenas, levantada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Est\u00e3o a\u00ed renomados professores, pesquisadores, profissionais especializados dizendo (gritando, na verdade) que h\u00e1 riscos, que faltam informa\u00e7\u00f5es, que h\u00e1 falhas no processo de licenciamento, que a popula\u00e7\u00e3o precisa ser informada.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como se explica que o interesse de uma empresa que quer aproveitar uma \u201cjanela de oportunidade\u201d se sobreponha a essas quest\u00f5es de interesse p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, que em sua fun\u00e7\u00e3o informativa n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m dos dados e vers\u00f5es oficiais sobre o projeto, usam todo seu poder e influ\u00eancia para pressionar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os bilh\u00f5es que ela vai aplicar, os empregos que vai dar, o \u201cdesenvolvimento\u201d que vai trazer?&nbsp; Foi esse o argumento que h\u00e1 meio s\u00e9culo justificou a implanta\u00e7\u00e3o da Borregaard, sem exigir sequer estudo de impacto ambiental.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os editoriais da \u00e9poca diziam que o empreendimento ia \u201cconsolidar o processo de industrializa\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul\u201d.&nbsp; Est\u00e3o a\u00ed, a f\u00e1brica dez vezes maior do que o tamanho original,&nbsp; e o Rio Grande do Sul na pen\u00faria, em acelerado processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o, transformado em exportador de commodities. Agora dizem que \u201ca reputa\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul\u201d ficar\u00e1 abalada perante os investidores internacionais<\/strong>, se a licen\u00e7a n\u00e3o for concedida imediatamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o se trata de ser contra o projeto. Trata-se de ter clareza sobre o que ele representa, os impactos que vai causar, as contrapartidas que a empresa vai oferecer ou que ser\u00e3o exigidas dela. Isso \u00e9 o normal no mundo dos neg\u00f3cios. &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fundado em 1920 e pioneiro na fabrica\u00e7\u00e3o de celulose e papel no Chile, o Grupo CMPC \u00e9 um dos maiores do mundo, com 44 plantas industriais em 8 pa\u00edses: Brasil, Chile, Argentina,<\/strong> C<strong>ol\u00f4mbia, Equador, M\u00e9xico, Peru e Uruguai.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A CMPC n\u00e3o escolheu fazer seu novo projeto no Rio Grande do Sul porque gosta de chimarr\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00e3o as vantagens que o Estado oferece que determinaram a escolha. O Rio Grande do Sul disp\u00f5e de condi\u00e7\u00f5es excepcionais para o empreendimento: \u00e1gua abundante para o processamento, extensos territ\u00f3rios para plantio da mat\u00e9ria prima, o eucalipto, posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica privilegiada, m\u00e3o de obra barata, etc. &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Al\u00e9m do mais, a nova planta \u00e9 quase uma \u201cexpans\u00e3o natural\u201d da f\u00e1brica de Guaiba, favorecendo sinergias entre as opera\u00e7\u00f5es. &nbsp;\u00c9, pois, um grande neg\u00f3cio, normal que a empresa tenha pressa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas quais s\u00e3o os motivos do Rio Grande do Sul para ter pressa? Vai perder um grande investimento, de &nbsp;R$ 25 bilh\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O<strong> n\u00famero impressiona e ganha slogan: \u201co maior da hist\u00f3ria do Estado\u201d. No entusiasmo com a grandeza dos valores n\u00e3o se explica o que eles significam. N\u00e3o se esclarece que a maior parte desse dinheiro fica no caminho, com os grandes fornecedores de tecnologia e equipamentos. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"473\" height=\"366\" src=\"https:\/\/novo.jornalja.com.br\/noticiario\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/08\/cmpc-historiograma-da-mao-de-obra.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-101705\" style=\"width:731px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/novo.jornalja.com.br\/noticiario\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/08\/cmpc-historiograma-da-mao-de-obra.png 473w, https:\/\/novo.jornalja.com.br\/noticiario\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/08\/cmpc-historiograma-da-mao-de-obra-300x232.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os jornais repetem que ser\u00e3o criados 12 mil empregos durante a constru\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica. N\u00e3o fica claro que 12 mil ser\u00e3o empregados apenas no pico das obras, por dois meses, no m\u00e1ximo. Em opera\u00e7\u00e3o, a f\u00e1brica vai empregar 800 trabalhadores e comprar servi\u00e7os de 1.500 terceirizados.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sabe-se que essas grandes obras de curto prazo, atraindo grande volume de m\u00e3o de obra (muitos com suas fam\u00edlias) deixam s\u00e9rios problemas sociais para tr\u00e1s. O que est\u00e1 sendo previsto em rela\u00e7\u00e3o a isto?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fora tudo isso, os investimentos desse porte e voltados \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o operam sob um regime tribut\u00e1rio altamente favorecido. Quase n\u00e3o se fala desse \u201cdetalhe\u201d &nbsp;e as informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis, sob alega\u00e7\u00e3o de sigilo fiscal.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabe-se que<strong> a &nbsp;celulose, destinada ao mercado internacional (principalmente \u00c1sia e Europa), goza de isen\u00e7\u00e3o de ICMS, por conta da Lei Kandir. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A empresa pode ainda acumular cr\u00e9ditos de ICMS sobre os insumos comprados internamente e us\u00e1-los para abater outros custos ou negoci\u00e1-los. O governo do Estado utiliza o Fundopem (Fundo de Opera\u00e7\u00e3o da Empresa) e o programa Integrar RS como principais ferramentas de atra\u00e7\u00e3o de investimentos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em fun\u00e7\u00e3o disso, o ICMS sobre a compra de maquin\u00e1rio industrial pesado, estruturas met\u00e1licas e equipamentos de alta tecnologia \u2014 nacionais ou importados (sem similar nacional) \u2014 \u00e9 postergado ou zerado. Quando a f\u00e1brica come\u00e7ar a operar, parte do ICMS gerado pelas vendas internas pode ser financiado pelo Estado com juros subsidiados ou descontos expressivos dependendo das metas de emprego geradas na regi\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Al\u00e9m disso, o projeto se enquadra nas regras do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura, programa federal.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Durante todo o per\u00edodo de obras, a CMPC fica dispensada de pagar as al\u00edquotas de PIS e COFINS sobre a aquisi\u00e7\u00e3o de bens, servi\u00e7os e materiais de constru\u00e7\u00e3o destinados aos ativos de infraestrutura da nova planta. Isso reduz o custo imediato da obra em bilh\u00f5es de reais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mais: o munic\u00edpio costuma conceder incentivos com base no seu pr\u00f3prio plano de&nbsp; desenvolvimento. O Imposto Sobre Servi\u00e7os de Qualquer Natureza cobrado sobre as empreiteiras e prestadores de servi\u00e7os que atuar\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o recebe al\u00edquotas m\u00ednimas. Mais: desonera\u00e7\u00e3o do imposto territorial sobre as \u00e1reas industriais afetadas durante a fase de instala\u00e7\u00e3o.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00e3o, todos, pontos que precisam se ponderados e esclarecidos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Rio Grande do Sul n\u00e3o precisa ter pressa. O mercado de celulose est\u00e1 num forte processo de expans\u00e3o e mudan\u00e7as. Na Europa, as f\u00e1bricas de celulose mais antigas est\u00e3o fechando, devido aos pre\u00e7os da energia, a escassez de mat\u00e9ria prima (madeira) e aos custos ambientais. Esse movimento, mais a pr\u00f3pria expans\u00e3o do mercado internacional de celulose ( 1,5 milh\u00e3o de toneladas por ano) indicam que a imagem da &nbsp;\u201cjanela\u201d que pode fechar n\u00e3o \u00e9 mais do que um argumento de press\u00e3o.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A CMPC fala de uma \u201cjanela de oportunidade\u201d que pode \u201cfechar\u201d no ano que vem, conforme as tend\u00eancias do mercado mundial de celulose. A empresa alega que j\u00e1 gastou 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares em tr\u00eas anos de prepara\u00e7\u00e3o para aproveitar a tal janela . 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