Autor: Elmar Bones

  • “Herança de Brizola sempre foi causa de conflitos”

    “Herança de Brizola sempre foi causa de conflitos”

    ELMAR BONES

    O jornalista Cleber Dioni Tentardini garimpou ao longo de 20 anos os mínimos detalhes da vida de Leonel Brizola. Encontrou um amigo de infância chorando à beira do túmulo da família, em Cruzinha. Na escola agrícola onde Brizola estudou, localizou a ficha de matrícula, que a escola já dava por perdida. Até a desconhecida filha que o líder trabalhista teve fora do casamento ele achou e convenceu a falar. No início de 2025, ele lançou “No Fio da História – a Vida de Leonel Brizola”, com 290 páginas e fotos de todas as fases de vida dele, cuja edição está esgotada.

    O autor falou ao JÁ sobre a polêmica em torno de uma entrevista de Brizola, que será lançada como livro, e que adquiriu dimensão política por envolver a ex-deputada estadual Juliana Brizola, neta do ex-governador, e pré-candidata ao governo do Rio Grande do Sul. A autora da entrevista, historiadora Silvana Moura, acusa Juliana de se apropriar indevidamente do seu trabalho.

    JÁ – Sabias dessa entrevista inédita do Brizola?

    Cleber – Sim, falei várias vezes com a Silvana. Ela é historiadora de Carazinho, com várias pesquisas sobre o trabalhismo. Em abril de 1996, ela e outro historiador receberam Brizola e um pessoal que o acompanhava na Câmara de Vereadores de Carazinho, isso tem fotos e tudo, e gravaram mais de quatro horas com ele. Foram quatro fitas cassetes que ficaram guardadas com a Silvana por todos esses anos. Não tive acesso ao texto, mas conversei com ela a respeito, é um material impressionante. Ela me convidou inclusive para um debate sobre o Brizola no ano passado e falou muito da entrevista.

    Reprodução da foto da entrevista de Brizola em 1996. Arquivo pessoal da professora Silvana Moura

    JÁ – O que tem de novidade nessa entrevista?

    Cleber – Olha, eu conhecia muitos dos fatos por ter entrevistado os irmãos dele, a sobrinha que guardava na memória e em álbuns quase tudo sobre a família, falou sobre a sua chegada em Porto Alegre, as dificuldades na cidade grande, afinal era um menino de 14 anos, sozinho, vindo do Interior, o trabalho de engraxate na Galeria Chaves. A importância é que são coisas narradas por ele, coisas que ficaram na memória… por exemplo, o ressentimento que guardou a vida toda por não ter convivido com o pai, que foi assassinado, as dificuldades de sua mãe para manter quatro filhos e uma sobrinha… e ainda fazer de tudo para o Leonel seguir os estudos mesmo longe de casa. E a Silvana na sua frente, captando todas suas reações, isso é muito valioso numa entrevista.

    JÁ – E essa polêmica com a Juliana?

    Cleber – Eu falei com a Silvana logo depois que saiu a matéria no jornal O Globo. Fiquei surpreso porque não havia o nome dela. Ainda confirmei se era esse o seu trabalho. Ela ainda parecia atônita com tudo. Porque a Silvana entrevistou, fez as transcrições, imprimiu e deu uma cópia para o Romeu Barleze, amigo trabalhista e conterrâneo, levar a entrevista para o Brizola no Rio. Suponho que a Juliana tenha tido acesso, soube do interesse da Editora Insular publicar em livro e convidou uma amiga dela, jornalista, a assinar a publicação. Como assim?

    JÁ – Tu tens contato com a Juliana?

    Cleber – Olha, a família do Brizola é um tanto difícil de conversar hoje em dia. Ele mesmo disse certa vez que não tinha sido muito feliz na questão com os filhos porque quase nunca estava disponível, demonstrava muito carinho, claro, inclusive com a dona Neusa, a quem fazia declarações de amor públicas, mas trabalhava dia e noite e não raro, de madrugada. O João Otávio, que era o mais próximo do pai, publicou um livro que achei bem pesado, um desabafo, cheio de mágoas. E essa família, assim como tantas outras, foi muito marcada pela vida no exílio… foi muito vigiada, perseguida, uma confusão, nem imagino as dificuldades. Quando estava finalizando o meu livro, tentei várias vezes falar com os netos, mas não me deram retorno.

    A Juliana, que já havíamos entrevistado e fotografado posando ao lado de vários documentos do avô, dessa vez não me atendeu. Eu queria saber dos arquivos do Brizola, retirados do apartamento em Copacabana, que foi vendido. Soube por intermédio de outras pessoas que os documentos foram colocados no contêiner de um depósito no Rio, porque não se entenderam sobre o que fazer com o material. Cogitaram doar para o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, mas o José Vicente, filho mais velho, não permitiu. Deu rolo até durante a mudança dos móveis do apartamento em Copacabana depois que Brizola morreu, segundo jornalistas no Rio, teve até polícia no local. Tanto a herança material de Brizola como a política sempre foi causa de conflitos. Depois, quando revelei a existência de uma filha do Brizola não reconhecida pela Justiça, mesmo com o exame de DNA positivo, também não consegui falar com a Juliana.

    JÁ – E o que tem nesses arquivos do Brizola?

    Cleber – A jornalista Dione Kuhn, da Zero Hora, teve acesso ao material depois da morte do Brizola, e munida desses documentos e das entrevistas que realizou com o ex-governador, publicou um livro “Da Legalidade ao Exílio”. Muito bom.

    JÁ – E a lendária farda de oficial da Brigada Militar que ele usou como disfarce para sair do Brasil em 1964?

    Cleber – Não se sabe onde foi parar. A companheira dele, a dona Marília, me disse que viu a farda na casa lá no Uruguai, a estância El Repecho. Quando foi negociar a venda da estância, Brizola estava sozinho, não se sabe onde foi parar o que tinha lá. A lendária metralhadora que ele carregava a tira colo durante a Campanha da Legalidade eu encontrei num cofre da Brigada Militar. As que estão expostas no Museu da BM e no porão do Piratini são réplicas. Ganhei autorização para fotografá-la e publicar no meu livro. A história é que ela foi trazida desmontada do Uruguai.

    JÁ – Eram três os filhos de Brizola?

    Cleber – José Vicente, João Otávio e a Neusinha, na ordem, e todos já morreram. Dos irmãos, apenas o mais jovem está firme e forte, o seu Jesus, com 93 anos.

    JÁ – E a filha fora do casamento, no teu livro é a primeira vez que ela aparece?

    Cleber – Sim. Eu vi uma nota na coluna do Anselmo Góis, do Globo, dizendo que enfim ia ser conhecido o resultado dos testes de paternidade de uma possível filha do Brizola, a cabeleireira Giselda Topper. Nem era cabeleireira. Depois, não se divulgou mais nada. Fui atrás e cheguei à esteticista gaúcha. Aí fiquei um ano insistindo até que ela confirmou a história. Mais um tempo insistindo e consegui conhecê-la pessoalmente. Quase caí pra trás com a semelhança. Giselda não conseguiu ser reconhecida, mas o exame de DNA não deixa dúvida, 99,99% de certeza do vínculo. Confirmei com o biólogo perito, da UFRJ.

  • Porto Alegre: grupo de Santa Catarina arremata por R$ 10 mil o que resta do porto

    Porto Alegre: grupo de Santa Catarina arremata por R$ 10 mil o que resta do porto

    O Cais Navegantes, o último dos terminais portuários de Porto Alegre capaz de receber embarcações de grande porte, foi arrematado em leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026.

    Com um lance de R$ 10 mil, o Consórcio Portos do Sul, de Santa Catarina, ganhou o direito para explorar a área de 22 mil metros quadrados, por 10 anos, período em que deverá realizar investimentos de R$ 21,13 milhões. Será a primeira operação estruturada da empresa nesse modelo de arrendamento. O início das operações está marcado para ainda este ano. O projeto prevê dois novos armazéns, além de obras de pavimentação, drenagem, iluminação e cercamento.

    Fortemente atingido pela enchente de 2024, o Cais Navegantes retomou operações em janeiro de 2026, quando voltou a receber navios de longo curso (internacionais) e foi autorizado a navegação noturna, algo suspenso há décadas.

    Segundo o governo do Estado, foram investidos R$ 40 milhões, recursos do Fundo de Reconstrução (federal), para reparar os danos causados pela enchente.

    As cargas que movimenta são, principalmente, fertilizantes, sal, grãos vegetais e transformadores. 

    O leilão do Cais Navegantes foi promovido pelo Ministério de Portos e Aeroportos e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Para o presidente da Portos-RS, Cristiano Klinger, o arrendamento “reforça a confiança da iniciativa privada e marca mais um passo na reconstrução e fortalecimento da atividade portuária da capital”.

    A região portuária de Porto Alegre é dividida em três áreas – o Cais Navegantes, ao norte; o Cais Mauá, no centro da cidade, com 3,2 km de extensão, e que está desativado e abandonado há mais de 30 anos; e o Cais Marcílio Dias, o menor, reduzido a atividades logísticas e de apoio.

    O que restou, na prática, foi uma separação clara: o Navegantes ficou com a economia e a logística, enquanto o Mauá espera se tornar o “cartão postal” da cidade a partir de um projeto de remodelação com recursos privados.

    O cais Marcílio Dias concentra a navegação interior, com embarcações de pequeno e médio porte, para transporte de areia principalmente. O trecho, entre o Mauá e o Navegantes, serve como área de apoio e possui uma rampa pública para acesso de embarcações.

    Um “pilar do desenvolvimento”

    O porto de Porto Alegre já foi considerado “um dos pilares do desenvolvimento do Rio Grande do Sul”.

    Começou a ser construído em 1910, com o início das operações em 1º de agosto de 1921. Era, então, o maior porto fluvial do país.

    O crescimento seguiu ao longo dos anos com as inaugurações do Cais Navegantes, em 1949, e do Cais Marcílio Dias, em 1956. A conclusão da estrutura como se conhece hoje aconteceu em 1962.

    A partir de 2005, as operações foram concentradas no Cais Navegantes, uma decisão que permitiu a ampliação das atividades e a aquisição de novos e modernos equipamentos.

    No primeiro semestre de 2023, o cais público porto-alegrense movimentou 375.697 toneladas. Entre os maiores fretes estavam fertilizantes, trigo, cevada, sebo bovino, sal.

    Nesse período, o Porto recebeu 66 embarcações, transportando produtos vindos do Egito, da China, de Marrocos, da Arábia Saudita, entre outros.

    Com a enchente de 2024, ele ficou desativado, retomando atividades no início de 2026.

  • Vargas e Lula, algo em comum

    ELMAR BONES

    Pela primeira vez, desde Getúlio Vargas, o Brasil tem um grande líder popular com Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula.

    Vargas também estava no auge de sua popularidade em 1954. Tornara-se líder de um “partido de massas” e estava à frente de um movimento trabalhista/reformista, que mobilizava intensamente o nascente operariado brasileiro. Era o “pai dos pobres”.

    Não era candidato, o mandato presidencial era de cinco anos, sem reeleição. Mas, como diziam, “elegeria até um poste”. Em oito meses armou-se uma tempestade que começou com um manifesto de coronéis e culminou com o “atentado da rua Tonelero” – uma crise que encurralou o presidente e o levou ao suicídio, em agosto daquele mesmo ano.

    Saído da elite rural do Rio Grande do Sul, Vargas era um “melancólico”, daqueles tipos do pampa, descritos por Dyonélio Machado.

    Em seu livro sobre Vargas, o psiquiatra João Mariante conta que ele tinha sempre um revólver à mão. Em 1930, quando Flores da Cunha e Oswaldo Aranha saíram do palácio Piratini para liderar a tomada dos quartéis em Porto Alegre, Vargas tirou a arma da gaveta, colocou-a sobre a mesa e só voltou a guardá-la quando soube que a situação estava dominada.

    Naquele 24 de agosto de 1954, ele saiu da reunião com os seus ministros certo de que havia perdido. Para não ser preso e humilhado, usou o seu revólver contra o próprio peito.

    Lula é cria do povo, saiu de sua terra num pau de arara e, se cogitasse o suicídio diante de perigos ou fracassos, já estaria morto há tempo. A sanha antipovo já se abateu sobre ele, foi preso e humilhado, mas não se deixou abalar. Ao contrário, afiou as suas capacidades, que já eram excepcionais, e tornou-se um líder reconhecido no mundo, como nem Getúlio Vargas foi.

    Em 2026, ele está no seu terceiro mandato presidencial, líder de um partido de massas e à frente de um movimento trabalhista/reformista. É candidato a reeleição, favorito, mas há uma crise se armando em volta dele. As “forças ocultas” se articulam mais uma vez.

    Qual vai ser o desfecho?

  • EUA convoca Europa a recolonizar o Sul Global

    HENRIQUE CASANOVA

    O Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, fez discurso sábado passado no qual convoca a Europa para o reestabelecimento do que ele chama de civilização ocidental.

    Numa fala naturalmente carregada de propaganda ideológica imperialista, ele diz que a decadência do mundo ocidental é acelerada “por revoluções comunistas ateias e levantes anticoloniais”.

    Ou seja, Marco Rubio trata as lutas de resistência dos povos colonizados como algo negativo, problemático e que deve ser sufocado.

    Lembremos que Marco Rubio tem obsessão pela destruição da experiência socialista em Cuba. Essa foi sempre sua principal pauta, mesmo sendo ele filho de imigrantes cubanos. Ao falar de si mesmo, porém, no sábado último do discurso, fez questão de apresentar-se como Americano descendente de Europeus.

    Rubio fala diretamente aos líderes europeus dizendo que os EUA não querem “aliados fracos, (…) acorrentados pela culpa e pela vergonha”. Ele diz ainda que os aliados dos EUA devem se orgulhar da sua cultura e do seu patrimônio, da sua grande e nobre civilização e devem ser capazes de defendê-la.

    O discurso visa justificar as intervenções dos EUA e seus aliados em outros países. Rubio chega ao extremo de dizer que a noção de uma sociedade global onde “todos são cidadãos do mundo” foi uma “ideia tola”.

    O que as corporações de mídia estão reportando apenas como um discurso de reconciliação entre EUA e Europa pós crise da Groelândia é, na verdade, um convite dos EUA para que a Europa continue em pleno apoio nos fronts de conflito do Imperialismo norte-americano e que esteja disposta a escaladas nos conflitos.

    Na América Latina, os EUA tentam reestabelecer influência inconteste através da troca de regime em países como Venezuela e Cuba.

    No Oriente Médio, com vitória recente na Síria e o processo colonial sionista já se expandido de Gaza para a Cisjordânia e o Líbano, os EUA precisam apenas derrubar o Irã para ter ampla hegemonia na região.

    Na Eurásia, a tentativa de desestabilizar a Rússia via Guerra da Ucrânia fracassou. Mas é com a China que os EUA se preocupam mais, já que os chineses são o “case” de sucesso do Sul Global: único país que foi de muito pobre a grande potência.

    A China tem um modelo de Socialismo de Mercado que prospera na paz, focando sua indústria em infraestrutura e inovação ao mesmo tempo em que se beneficia de ser ainda o parque industrial do mundo capitalista. Liderando em setores como carros elétricos e energias renováveis em geral, a China esbanja competitividade já que não precisa reservar a maior fatia dos lucros para sua burguesia, como ocorreria no Capitalismo.

    Estamos então perante anúncio dos EUA de que eles vão tentar reestabelecer o mundo unipolar Ocidental com o uso de força: “Estamos preparados para fazer isso sozinhos”, afirma Rubio, “mas preferimos fazer em parceria com os amigos da Europa”.

    Rubio diz que será uma tarefa de “restauração”. Restauração do quê? Cara Pálida!

    *Henrique Casanova é porto-alegrense, jornalista e geógrafo.

  • Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Dois anos depois da concessão do Cais Mauá a um consórcio privado, é incerto o futuro do projeto para devolver à população aquela área simbólica de Porto Alegre, abandonada há mais de 30 anos.

    Começa que o contrato que formaliza a concessão ainda não foi assinado.

    Em entrevista ao Jornal do Comércio, no início de fevereiro, o secretário Pedro Capeluppi disse que o prazo final é 11 de março e que o governo ainda aguarda documentos.

    O Consórcio Pulsa RS, vencedor do leilão, declarou em nota que está “cumprindo as etapas previstas no edital e que a entrega da documentação segue os prazos estabelecidos para a assinatura do contrato em março”.

    “As enchentes de 2024 não alteraram a concepção do projeto, mas impactaram o cronograma”, diz o consórcio formado pela Spar Participações e Desenvolvimento Imobiliário e a Credilar Empreendimentos Imobiliários.

    É a segunda concessão do Cais Mauá, na verdade. A primeira, formalizada em dezembro de 2010, terminou em maio de 2018, quando uma operação da Polícia Federal revelou uma enorme fraude financeira que dilapidou R$ 130 milhões captados junto a fundos de previdência. Esta história já foi contada pelo JÁ em edição especial.

    A atual concessão, como a primeira, é por 30 anos. O concessionário se compromete a investir cerca de R$ 350 milhões ( R$ 210 milhões nos primeiros quatro anos) para “revitalizar” uma área de três km de extensão, desde a Usina do Gasômetro até a Estação Rodoviária no entorno do centro histórico.  

    As intervenções incluem a recuperação de 12 armazéns (para lazer e comércio) e reestruturação das Docas (para prédios comerciais e residenciais). Em troca desses investimentos, o Estado entrega para o consórcio o terreno das docas, avaliado em R$ 144 milhões.

    O leilão, que só teve um concorrente, foi realizado no dia 7 de fevereiro de 2024, na bolsa de valores de São Paulo.

    Três meses depois, a maior enchente da história de Porto Alegre, alterou completamente o cenário. O Guaíba subiu quase seis metros e manteve a área do porto submersa por um mês. Quando as águas baixaram, ficou a dúvida: quando vai ocorrer outra vez?

    As condições do edital, que admitiam até a retirada de parte do “Muro da Mauá”, tiveram que ser inteiramente revistas. O projeto foi transferido da Secretaria de Parcerias e Concessões para a Secretaria de Reconstrução que passou a centralizar os projetos estratégicos atingidos pela enchente em todo o Estado.

    Na área das Docas (extremo norte do Cais, próxima à Rodoviária), onde estão previstas 9 torres de até 150 metros, a água alcançou quase dois metros. De acordo com o modelo de negócios do consórcio Pulsa RS, essa área é fundamental para a viabilidade financeira da concessão. As torres teriam uso misto – residencial (apartamentos), corporativo (escritórios)  e comercial (lojas no térreo).

    Especialistas e entidades civis levantam diversos questionamentos sobre o impacto das construções de grande porte (torres de até 150m) na área das Docas e a revitalização como um todo.

    O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) afirma que a construção de torres altas pode criar uma “barreira” entre a cidade e o Guaíba, prejudicando a visibilidade do pôr do sol e alterando a paisagem histórica do Centro.

    Prédios dessa magnitude podem também gerar grandes áreas de sombra na orla e nos espaços públicos adjacentes, afetando o conforto térmico e a vegetação local.

    O aumento da densidade populacional e comercial nas Docas terá também grande impacto no trânsito já saturado da região central e da Avenida Mauá. 

    A substituição de áreas abertas por grandes massas de concreto pode intensificar o efeito de ilha de calor na região central.

    Os especialistas questionam se o adensamento imobiliário em uma zona de inundação é prudente e se as soluções de contenção propostas são suficientes para os novos cenários climáticos.

    Grupos de urbanistas e movimentos sociais continuam solicitando maior transparência e a realização de novos debates públicos, alegando que o cenário hidrológico de Porto Alegre mudou drasticamente e exige um novo Estudo de Viabilidade. 

    Até o novo Plano Diretor, que está em discussão na Câmara Municipal, prevê mudanças que afetam a área do Cais. Isso poderá levar a novas exigências técnicas para o concessionário.

    O Ministério Público  tem questionado a segurança do sistema de proteção contra cheias e a legalidade da transferência definitiva de terras públicas para o consórcio.

    Referência em hidrologia, professores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal,  têm alertado que as cotas de inundação previstas no projeto original do Cais (pré-2024) podem estar subestimadas diante do novo cenário climático.

    Ações jurídicas lideradas por coletivos como o Cais Mauá de Todos pedem a anulação do leilão. O argumento central é que o cenário de risco hidrológico mudou completamente após maio de 2024, invalidando os estudos de viabilidade originais.

    *Clique aqui para ler mais sobre a concessão do Cais na coluna Economics

    Imagem da apresentação do projeto no Palácio Piratini: nove torres no Cais Mauá
  • Afastamento de Dias Toffoli do caso Master sela a mais grave crise do judiciário desde o Império

    Afastamento de Dias Toffoli do caso Master sela a mais grave crise do judiciário desde o Império

    A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, que se deu após a Polícia Federal encontrar no celular de Daniel Vorcaro, dono do Master, menções ao ministro da Suprema Corte, culmina em uma crise sem precedentes na história do judiciário brasileiro.

    Há juristas e historiadores que consideram a mais grave desde o Império. Além dos fatos que chocam a opinião pública e, independente dos interesses que promovem vazamentos seletivos em inquéritos sigilosos, há uma conjuntura política que turbina a gravidade do quadro.

    Em tempos recentes, desde o caso do “Juiz Lalau” nos anos 90, o judiciário não se via numa posição tão crítica. Uma pesquisa simples nos sites de busca aponta pelo menos 100 agentes do judiciário que estão ou condenados ou sob suspeita de ilícito – desde venda de sentenças, manipulação de processos, até assédio sexual, e o problema atinge desde ministros do STF a juízes de primeira instância.

    A atuação de Toffoli no caso do Master ficou comprometida com as menções ao seu nome em perícias de celulares e transações financeiras relacionadas a um resort no Paraná. Há indicações de milionários pagamentos para a empresa Maridt, que Toffoli assumiu ser sócio, junto com familiares.

    No Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Marco Aurélio Gastaldi Buzzi foi afastado de suas funções em 10 de fevereiro de 2026. Ele é investigado por denúncias de assédio sexual. O afastamento, sem prejuízo do salário, foi decidido pelo próprio STJ enquanto as investigações prosseguem.

    O desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), recebeu a pena máxima administrativa: aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) neste fevereiro de 2026. Ele foi punido por conceder um habeas corpus, em apenas 40 minutos e sem laudo médico, ao narcotraficante Gerson Palermo (condenado a 126 anos), que fugiu logo em seguida.

    Atualmente, o Judiciário brasileiro enfrenta uma série de investigações sobre venda de sentenças e corrupção. A PF, na operação Sisamnes, investiga esquema de manipulação e venda de decisões judiciais no STJ. Funcionários e assessores de gabinetes dos ministros teriam antecipado decisões mediante propina.

    Ainda em 2024, outras investigações apontaram a participação de pelo menos 16 desembargadores e sete juízes em esquemas de venda de sentenças em seis estados diferentes.

    A “Operação Faroeste” no Tribunal de Justiça da Bahia continua sendo um dos maiores casos de corrupção no Judiciário, com diversos desembargadores afastados por envolvimento em grilagem de terras e propinas.

    A classificação da atual crise como “sem precedentes” é sustentada por diversas vozes do direito e da academia, que apontam não apenas a corrupção isolada, mas uma “erosão ética estrutural nas cúpulas do Poder Judiciário”.

    Marco Antônio Villa, historiador, frequentemente classifica o momento atual como crítico devido à impunidade de magistrados envolvidos em venda de sentenças e sinaliza uma falência ética sem paralelos na história recente.

    Lênio Streck, jurista e professor, fala em “perda do pudor institucional”.

    Em dezembro de 2025, um manifesto reuniu mais de 15 mil assinaturas de acadêmicos e figuras públicas exigindo regras imediatas de conduta para o STF.

    Para esses especialistas, o que torna a crise atual (2024-2026) única é a combinação de três fatores:
    – Abertura de investigações da PF contra gabinetes de tribunais superiores;
    – Frequência de “contratos de êxito” multimilionários envolvendo esposas e filhos de magistrados;
    – Resistência interna do Judiciário em aceitar qualquer forma de controle externo ou código de conduta rigoroso.

    Casos relevantes entre 2024 e 2026:

    Além do caso Master no STF, que envolve as suspeitas contra o ministro Dias Toffoli e também o ministro Alexandre de Moraes, já que sua esposa teria um contrato de dezenas de milhões junto ao Master, há muitos investigações em andamento. Em outubro de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Ultima Ratio, que resultou no afastamento de cinco desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.

    Em novembro de 2024, o CNJ aposentou compulsoriamente a desembargadora Lígia Maria Ramos Cunha Lima, investigada em esquema de venda de decisões relacionadas a disputas de terras na região oeste da Bahia. No mesmo processo, em fevereiro de 2026, o STJ prorrogou por mais um ano o afastamento da desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago e da juíza Marivalda Almeida Moutinho.

    O desembargador Ivo de Almeida foi afastado do TJ-SP em junho de 2024 por suspeita de negociar decisões judiciais. Mesmo afastado, o magistrado recebeu cerca de R$ 2 milhões em salários e benefícios nos últimos 12 meses, evidenciando as limitações das punições administrativas atuais.

    A PF conduz a Operação Sisamnes, que investiga uma rede de venda de sentenças envolvendo assessores de gabinetes de ministros e lobistas dentro do STJ.

    Em fevereiro de 2025, a PF indiciou três desembargadores e dois juízes por um esquema de fraude de R$ 18 milhões envolvendo alvarás judiciais.

    Em fevereiro de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aplicou a pena de aposentadoria compulsória ao desembargador Divoncir Schreiner Maran por soltar um chefe do tráfico do PCC.

    “Juiz Lalau” foi símbolo de escândalo nos anos 90

    Nicolau dos Santos Neto, o juiz Lalau, protagonizou o maior escândalo de corrupção do Judiciário brasileiro nos anos 90, tornando-se o símbolo da impunidade que motivou a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

    Como presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-SP), Nicolau liderou o desvio de verbas destinadas à construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. O valor desviado foi de aproximadamente R$ 1 bilhão.

    Após ter a prisão decretada em 2000, ele fugiu e ficou escondido por sete meses, sendo capturado na fronteira com o Paraguai.

    “Juiz Lalau” foi um dos poucos magistrados que chegou a ser preso por corrupção.

    Lalau foi condenado a 26 anos de prisão por crimes como peculato, estelionato e corrupção passiva. Mas, devido à idade e saúde, passou grande parte da pena em prisão domiciliar em seu apartamento de luxo, o que gerou revolta popular.

    Em 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu indulto humanitário a Nicolau devido ao seu estado de saúde (demência e depressão). Ele morreu em maio de 2020, aos 91 anos, em um hospital em São Paulo.

    A Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu repatriar cerca de US$ 7 milhões que estavam escondidos na Suíça e leiloar imóveis de luxo vinculados a Lalau.

    Diferente dos casos atuais (como o do Banco Master), onde a tecnologia bancária facilita o rastreio, o caso Lalau dependia de malas de dinheiro e remessas físicas para o exterior via doleiros. A punição dele, embora demorada, foi uma das raras vezes em que um magistrado de alto escalão cumpriu pena de prisão efetiva no Brasil.

    Desde a sua criação em 2005 até o início de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu cerca de 175 magistrados (entre juízes e desembargadores).

    A aposentadoria compulsória é a punição mais comum para infrações graves, como venda de sentenças ou corrupção, representando aproximadamente 60% de todas as sanções aplicadas pelo conselho. Entre 80 e 100 magistrados estão atualmente nessa condição de “aposentadoria-punição”.

    A demissão (perda total do cargo e salário) é extremamente rara, ocorrendo em apenas 7 casos entre 2006 e 2025, o que representa apenas 1% das punições.

    A aposentadoria compulsória é a sanção administrativa máxima prevista na Lei Orgânica da Magistratura. Embora o juiz seja afastado definitivamente do cargo, ele mantém o direito a proventos proporcionais ao tempo de serviço.

    Em 2025, estimou-se que o pagamento desses magistrados punidos custou cerca de R$ 41 milhões aos cofres públicos.

    Alguns magistrados nessa situação chegam a receber valores brutos que ultrapassam R$ 100 mil em determinados meses devido a benefícios acumulados.

    A perda definitiva do salário (demissão) só ocorre após o trânsito em julgado de uma ação judicial específica na esfera criminal, processo que costuma levar muitos anos.

    O cenário atual de escândalos no Judiciário — como o caso do Banco Master envolvendo Dias Toffoli e as investigações de venda de sentenças — é o principal combustível para o projeto do ministro Edson Fachin, atual presidente do STF, de implementar um Código de Ética para a Corte em 2026.

    O presidente do STF, Edson Fachin, promete implantar um Código de Ética, na tentativa de melhorar a imagem do STF. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Fachin estabeleceu a criação desse código como prioridade de sua gestão (iniciada em setembro de 2025) para tentar frear a “erosão institucional” e recuperar a confiança pública.

    A ministra Cármen Lúcia é a relatora da proposta, sendo uma das poucas vozes a apoiar abertamente a iniciativa internamente.

    O código visa criar regras claras sobre conflitos de interesse, transparência em remunerações por palestras e limites para a atuação de parentes de ministros em processos na Corte (que hoje representam cerca de 70% dos casos em certos gabinetes).

    A maioria dos ministros se opõe à ideia, argumentando que a conduta ética deve ser individual ou que um código específico poderia expor ainda mais o tribunal a críticas.

    A pressão por um código de ética ocorre em paralelo ao debate sobre o fim dos privilégios para magistrados infratores. Existe uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) no Congresso que visa extinguir a “aposentadoria-punição”, transformando-a em demissão sem salário para juízes que cometem crimes graves.

    Fachin também defende, via CNJ, um levantamento para barrar pagamentos abusivos e verbas indenizatórias que inflam os salários de magistrados, mesmo aqueles sob investigação.

    Enquanto o Código de Ética busca prevenir novos casos (como Toffoli e Buzzi), a PEC foca em punir de forma mais rigorosa casos como o do desembargador que soltou o chefe do PCC.

    Nos últimos dez anos, nenhum dos 473 pedidos de suspeição feitos por terceiros contra ministros foi aceito pelo colegiado; os afastamentos só ocorrem quando o próprio ministro se autodeclara suspeito.

    Diante desse cenário, o projeto do ministro Edson Fachin para um novo Código de Ética (2026) busca estabelecer limites mais claros para a atuação de familiares e evitar que escritórios de parentes sejam usados como instrumentos de pressão institucional.

    Se no passado a resposta às crises foi a criação do CNJ, o diagnóstico atual é que o CNJ se tornou insuficiente, pois a punição de “aposentadoria compulsória” passou a ser vista pela sociedade como um prêmio, e não um castigo.

    Por isso, o projeto de Edson Fachin (Código de Ética) e as PECs de demissão de juízes no Congresso são vistos como a tentativa de uma “Segunda Reforma do Judiciário”.

  • Exposição de livros abre calendário sobre 400 anos das Missões

    Exposição de livros abre calendário sobre 400 anos das Missões

    Mais de 50 obras sobre história, cultura e imaginário dos Sete Povos das Missões estão expostas ao público até o final de março na sede do Instituto Estadual do Livro (Rua André Puente, 318 – Bairro Independência, Porto Alegre).

    É o primeiro de uma série de eventos programados para marcar os 400 anos das reduções organizadas pelos padres jesuítas e que chegaram a reunir 30 mil guaranis, numa experiência única de catequeses dos povos originários da América.

    Também estão expostos excertos de frases selecionadas das obras e fotografias da série “O Renascer das Missões – 400 anos”, do fotógrafo Clio Luconi.

    O publico encontrará obras que transitam entre história, romance, poesia, literatura infantil, HQs, ensaios e artigos, compondo um panorama amplo da produção literária sobre as Missões Jesuíticas Guaranis. Entre as publicações estão títulos considerados fundamentais para a compreensão da temática missioneira, como o clássico “Lendas do Sul”, de Simões Lopes Neto e “Sepé Tiaraju, história das ruínas de São Miguel”, de Alcy Cheuiche.

    “Essa mostra é resultado de um trabalho minucioso de pesquisa, montagem e composição dos excertos das obras em exposição. As imagens complementam o nosso olhar sobre as Missões”, explicou o Diretor do IEL, Sílvio Bento.

    Para marcar o quadricentenário, o governo do Rio Grande do Sul promove uma ampla programação, que inclui festivais de música, mostras de cinema, concursos fotográficos, debates e atividades educativas, muitas delas realizadas nas próprias ruínas missioneiras.

    O site oficial reúne informações, memórias e iniciativas que integram as comemorações, reforçando o papel das Missões como patrimônio histórico e cultural de relevância mundial.

     

    Serviço

    “Missões Jesuíticas Guaranis – Acervo Literário IEL”

    -De 11 de fevereiro a 31 de março

    -Rua André Puente, 318 – Bairro Independência, Porto Alegre.

    -Horário: 8h30 às 17h30

    -Entrada gratuita

  • Cazarré transplanta personagem em brincadeira (séria) com os mestres

    Cazarré transplanta personagem em brincadeira (séria) com os mestres

    Num feito sem precedentes na história da literatura mundial, a novela brasileira “Breve Memória de Simeão Boa Morte”, do escritor gaúcho-brasiliense Lourenço Cazarré, foi publicada no Brasil em fins de 2025 somente depois de aparecer em Lisboa, onde ganhou 5 mil euros em concurso literário patrocinado pelo governo português.

    O mais surpreendente é que se trata de uma corrosiva paródia do festejado conto “O Alienista” (Rio, 1881), que explora com ironia a reviravolta na carreira do médico Simão Bacamarte, um dos mais famosos personagens de Joaquim Maria Machado de Assis, o jornalista-escritor que viveu no Rio de 1839 a 1908.

    Mais de um século depois da consagração de Machado como o maior escritor brasileiro, eis que um escritor contemporâneo tem a ousadia de inventar que o “médico psiquiátrico” Simão Bacamarte foi plágio de um personagem cuja criação atribui a João Simões Lopes Neto, jornalista-escritor pelotense que viveu a maior parte da vida em Pelotas entre 1865 e 1916.

    Pode? Pode. Na ficção vale tudo, desde que a coisa seja bem feita.

    Como fazem muitos escritores que não desistem de suas intuições, Cazarré começou devagar, como numa brincadeira; com o tempo, muito tempo, a história foi tomando corpo até que se abriu a brecha para fazer o que se pode tomar como um desagravo histórico ao pelotense João Simões Lopes Neto, cuja qualidade literária só foi reconhecida pelo filólogo Aurélio Buarque de Hollanda, que avisou o paulista Mário de Andrade, que conversou com o gaúcho Augusto Meyer, amigo do ditador Getúlio Vargas – mais de trinta anos após sua morte, ao contrário de Machado, que se tornou celebridade em vida.

    Para alcançar o desfecho de sua história, Cazarré explorou coincidências e contradições entre os dois autores e seus personagens, de modo que pode criar um Simeão Boa Morte espelhado em Simão Bacamarte, com direito a pegadinhas que hão de ser gratas aos fãs do autor de “Contos e Lendas do Sul”, brochura parcamente lançada (200 exemplares) em 1912 em Pelotas.

    Sem dúvida, aqui se pode falar de um protesto do Interior contra a Capital, onde mediocridades e/ou nulidades alcançam uma suposta imortalidade acadêmica enquanto gênios da província são descartados, quando não proscritos do cenário artístico. O fato é que o criador de Simeão Boa Morte caprichou na brincadeira, aprofundando a inversão dos papéis entre o Simão original e o Simeão nele inspirado, tendo o desplante de inventar para seu personagem (Simeão) uma morte parecida com a de Brás Cubas, outro célebre personagem de Machado de Assis.

    Nascido em Pelotas em 1953, Lourenço Cazarré passou a vida labutando como jornalista e usando as horas vagas para, igual a Machado, escrever ficções de reconhecida qualidade literária, tanto que ganhou vários prêmios, a começar pela I Bienal Nestlé de Literatura, em 1982. Seu romance “O Calidoscópio e a Ampulheta” ganhou de 445 candidatos. Já nesse livro premiado pela banca de cinco jurados da Nestlé – Adonias Filho, Dirce Riedel, Flavio Loureiro Chaves, Letícia Malard e Marisa Lajolo –, ele usa como referência textos de João Simões Lopes Neto, que lhe forneceu as epígrafes para cada uma das cinco partes do livro.

    Tem mais: como o Bacamarte machadiano, o Boa Morte cazarresco é apresentado como um médico que largou o ofício para abraçar outras atividades. No caso de Simeão Boa Morte, a escolha teria sido o jornalismo, o teatro e pequenos negócios, o que corresponde efetivamente à trajetória pessoal de João Simões Lopes Neto, que na juventude passada no Rio teria estudado medicina, mas sem chegar sequer à metade do curso – história nunca comprovada, como esclarece Carlos Francisco Sica Diniz, autor da mais completa biografia do maior escritor pelotense, publicada em 2023 pela Editora Coragem, de Porto Alegre.

    Em anos recentes, Cazarré esmerou-se em escrever ficções inspiradas em grandes autores nacionais, como Euclides da Cunha (“Os Sertões”) e Graciliano Ramos (“Vidas Secas”). No caso de Machado, a bronca começou durante um curso de mestrado em literatura brasileira na UnB no final dos anos 80, quando lhe tocou analisar a obra de Machado de Assis.

    Para fundamentar sua crítica, Cazarré dissecou, por anos, os 30 melhores contos de Machado (título de um livro do século XX), além de passar os olhos por seus romances, poemas, crônicas e sueltos de imprensa. Tanto fez que se cansou do estilo do escritor carioca. No trabalho universitário escrito em 1987, se destacam alguns trechos de gritante sinceridade:

    “O que me afastou de Machado foi a falta de ação nos seus romances. É tudo arrastado como a vida no Império. Burocratas sem sal satisfeitos com suas vidinhas medíocres. Trambiqueiros ociosos, parasitas empenhados em dar o golpe do baú”.

    Ele prossegue, impiedoso: “No romance ‘Dom Casmurro’ (que plantou no imaginário brasileiro a dúvida sobre a fidelidade da jovem esposa Capitu ao marido Bentinho), “os ricos são apresentados em linguagem sóbria”, enquanto “a galhofa sobra para os trabalhadores como João Pádua ou parasitas pobres que almejam ficar ricos para viver como os ricos”.

    Aprofundando sua crítica, o pós-graduando da UnB observou ainda que os personagens machadianos “carecem de transcendência para o bem ou para o mal”, ficando longe, por exemplo, de escritores da mesma época, como os russos Dostoievski ou Tchekov ou franceses que se dividiam entre a imprensa e a literatura, caso de Balzac. Já as mulheres machadianas sonham com casamento, conforto, jantares, posição social e casa própria bem decorada. Nesse aspecto, ao refletir o clima e o conteúdo de romances ambientados em Paris, Machado teria sido um fiel retratista da futilidade da vida na corte de D. Pedro II, cuja influência alcança hoje os dramalhões apresentados toda noite desde 1950 nas telenovelas brasileiras. Em sua monografia engavetada, Cazarré lembra que o elogiado escritor carioca, além de escrever para jornais, era colaborador assíduo de revistas femininas que lhe pagavam “por linhas publicadas”. Além de ter um emprego público, o sujeito era frila…

    Naturalmente, Cazarré reconhece os méritos jornalísticos e literários do Bruxo de Cosme Velho, autor de 200 contos, uma dezena de romances, 800 crônicas, além de poemas e artigos na imprensa carioca. Mas, depois de muitos anos, não resistiu à tentação de criar um personagem inspirado em Simão Bacamarte.

    Manipulando um vocabulário rebuscado que lembra escritores como José Candido de Carvalho, Dias Gomes e Ariano Suassuna, Cazarré elabora em sua “Breve Memória de Simeão Boa Morte” um folhetim galhofeiro de 82 capítulos curtos em que — em nome de Simeão, claro — vergasta Machado de Assis como criador de personagens repetitivos: rapazes à caça de sinecuras estatais e dotes de jovens casadoiras ou viúvas abonadas. Assim, em cada página de seu memorando, Simeão trata o autor de “Dom Casmurro” como “mercenário”, “casamenteiro literário”, “pérfido, matreiro e pernicioso”, “amanuense do Império”, “pintor de fuxicos”, “alfaiate de lengas lengas matrimoniais” e assim por diante, num rol depreciativo nunca visto no jornalismo ou na literatura nacionais.

    Ao apontar Machado como “malévolo e caçoísta”, Cazarré se revela um baita iconoclasta. Sua ousadia foi abonada por um crítico que, à boca pequena, o considerou “muito corajoso” por criticar o maior ícone da literatura nacional, fundador da Academia Brasileira de Letras. É uma irreverência que confirma a habilidade do jornalista-escritor contemporâneo no manejo das palavras: desde seus primeiros escritos, ele carregou na ironia ao construir tramas compactas com personagens autênticos movendo-se em ambientes quase sem enfeites.

    Embora tenha escrito alguns romances para os públicos adulto e juvenil, sua especialidade são contos inspirados em acontecimentos de sua terra natal, que chegou a ter codinome (Tapera) e, no caso da sua última novela, é São Francisco do Laranjal, um belo nome que evoca o padroeiro da cidade e seu balneário na Lagoa dos Patos.

    Várias de suas histórias são inspiradas em episódios da infância num arrabalde denominado Vila do Sapo, assim chamado por ocupar uma várzea úmida cortada pelo Arroio Pepino, que passa(va) atrás do campo de futebol do GE Brasil, o bravo Xavante. Por aí fica claro que o escritor pelotense acolheu com gosto o conselho do russo Leon Tolstói: “Se queres ser universal, pinta tua aldeia”. A aldeia natal do jovem pelotense era tipo uma favela de banhado.

    Transbordando ironia, a história de Simeão Boa Morte combina avaliação literária e crítica social, a qual se estende sem perdão da corte imperial carioca à atual ciranda de Brasília, onde o novelista vive há quase 50 anos.

    No Brasil, o livro passou até agora em branco, ressalvada a apreciação positiva de Adelton Gonçalves, ensaísta renomado, com vários livros publicados. Para ele, a novela é tão boa que pode ser considerada uma grande homenagem ao autor de “O Alienista”.

    Na orelha da edição brasileira, o crítico André Seffrin afirma que Simeão é uma obra-prima e, como tal, poderia ser, “gaiatamente”, assinada pelo próprio Machado de Assis.

    È claro que as tiradas carrazeanas não desfazem a aura que envolve o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas na literatura ninguém está imune à crítica, embora seja muito mais fácil tecer elogios às novidades bem escritas. Outros escritores brasileiros laureados como José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado, Erico Verissimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e Dalton Trevisan foram criticados por seus estilos narrativos, suas posições políticas e até por suas manias pessoais.

    No auge da forma técnica, Cazarré não se cansa de trabalhar em projetos novos ou na revisão de livros que relança com inovações formais, distribui aos amigos e põe à venda onde acredita que possam conquistar leitores. Em 2025, inaugurou uma parceria com Fernando Duval, consagrado artista plástico pelotense que mora há décadas no Rio e lhe forneceu ilustrações para a capa de seus dois últimos livros, “Contos Pelotenses” e “Breve Memória de Simeão Boa Morte”.

    Com mais de meio século de militância no jornalismo e na literatura, Cazarré tem cacife para ser convidado a tomar chá na ABL. É duvidoso que se interesse por envergar o ridículo fardão dos acadêmicos. De louros literários, a esta altura do campeonato, talvez aprecie ser indicado ao Nobel de Literatura.

    Sim, teria café no bule, mas para chegar à Academia Sueca precisaria enfrentar outros bons usuários da língua portuguesa no Brasil, na África e em Portugal. De Milton Hatoun a Mia Couto, é cada vez maior a lista de candidatos potenciais a prêmios literários internacionais, com o agravante de que o idioma português somente é falado, lido e escrito por não mais do que 4% da população do planeta. Cazarré leva alguma vantagem por ser dos mais jovens. Em julho completará 73 anos.

    SERVIÇO FINAL

    Lançada no Brasil pela Faria e Silva, editora do Rio ligada ao grupo Alta Books, a novela sobre Simeão Boa Morte ocupa pouco mais da metade de um livro de 180 de páginas enriquecido com cinco outros contos típicos da verve cazarreana, difundida em dezenas de livros próprios, coletâneas e textos avulsos publicados em sites brasileiros e de Portugal. Está à venda na Amazon por R$ 44.

  • Caso Master: Cais Mauá foi laboratório do esquema que lesou 100 fundos de previdência

    Caso Master: Cais Mauá foi laboratório do esquema que lesou 100 fundos de previdência

    As investigações da Polícia Federal que levaram à prisão do empresário João Carlos Mansur, indicam que o Fundo Cais Mauá foi um ensaio do esquema fraudulento que carreou R$ 17 bilhões dos fundos de previdência para os papéis podres do banco Master.

    Segundo a Polícia Federal, mais de 100 fundos colocaram dinheiro em carteiras do Master, através da Reag, de João Carlos Mansur.

    O Banco Central e a PF identificaram que a estrutura criada por Mansur servia como uma “fábrica de fundos” para ocultar patrimônio através de operações fraudulentas.

    No Cais Mauá foram testadas as “táticas de captação” em institutos de previdência que seriam escaladas para as fraudes bilionárias que culminaram com a liquidação do Master.

    Um projeto ambicioso

    O Fundo de Investimento e Participações Cais Mauá foi criado em outubro de 2012, para captar recursos que financiariam um ambicioso projeto de conversão do principal cais de Porto Alegre, desativado, em área de lazer, turismo e comércio.

    Uma faixa de três quilômetros num sítio histórico da cidade, à beira do Guaíba. Previa-se investimento de R$ 1 bilhão para reurbanizá-la e reequipá-la, inclusive com nove torres com hotéis, escritórios e apartamentos de luxo.

    Nas maquetes e na propaganda, um alto negócio. Na realidade, um projeto contestado, com manifestações de rua e campanhas de opinião publica, além de entraves burocráticos, que foram menosprezados.

    O contrato de concessão com o consórcio Cais Mauá do Brasil, assinado com pompa e circunstância no final do governo Yeda Crusius, em dezembro de 2010, não tinha, por exemplo, a anuência da Antaq, a autarquia federal que regula as áreas portuárias.

    Detalhes que travaram o projeto, mas não impediram que o fundo fosse ao “mercado” em busca de investidores.

    Em 2018, quando a PF entrou em cena, com a operação “Gatekeepers” não havia um tijolo assentado na área do Cais Mauá, mas o fundo havia captado R$ 130 milhões.

    Pela gestão do fundo haviam passado a Positivo, NSG, ICLA e finalmente a Reag, que substituiu a ICLA, quando ela se tornou alvo da PF. Todas ligadas a João Carlos Mansur.

    A operação da Polícia Federal revelou que havia fraude na captação de recursos junto aos fundos de previdência. E alguns estavam entrando na Justiça para obter o resgate dos valores aplicados.

    Em julho de 2020, quando o governo do Estado rescindiu o contrato com a Cais Mauá do Brasil, consórcio que tinha a concessão, a Reag foi substituída na gestão do fundo pela Lad Investimentos.

    A partir daí, o assunto saiu do noticiário e… o dinheiro nunca apareceu. Segundo os gestores do fundo, R$ 40 milhões teriam sido gastos em despesas correntes -prestadoras de serviços, segurança, descontaminação dos armazéns, funcionários, etc. Os R$ 90 milhões restantes teriam sido usados para comprar a parte dos sócios espanhóis que haviam deixado o negócio em 2011.

    Absolvição e prisão

    Uma nota no Valor Econômico registrou o fato no dia 17 de dezembro de 2025: os dez acusados de fraude na administração do Fundo Cais Mauá do Brasil foram absolvidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

    A maioria do Colegiado seguiu o voto do relator João Accioly, concluindo que não houve dolo (intenção deliberada de fraudar). Não houve prova de má fé, como se registrou na ata da sessão.

    A diretora Marina Copola deu o único voto contrário, afirmando que houve “omissões graves e equívocos reiterados” e pedindo a condenação dos acusados, com a aplicação de multas.

    Entre os dez absolvidos estava a Reag Trust e seu presidente João Carlos Mansur.

    Um mês depois, em 15 de janeiro de 2026, Mansur foi preso pela Polícia Federal e a Reag teve liquidação decretada pelo Banco Central.

    A reviravolta, pelo menos, abre uma chance para os investidores que foram lesados com a falência do Fundo Cais Mauá. Entre eles o Instituto de Previdência do Estado (IPE Prev) que teria aplicado 17,7 milhões.

    Os principais fundos de previdência identificados em relatórios e auditorias, com os valores aproximados investidos no FIP Cais Mauá, na época:

    Fundo de Previdência Valor Aplicado (Aprox.)
    Igeprev (Tocantins) R$ 21 milhões
    PreviPalmas (Palmas/TO) R$ 15 milhões
    Prev-Amapá (Amapá) R$ 10 milhões
    Manaus Previdência (Manaus/AM) R$ 10 milhões
    AparecidaPrev (Aparecida de Goiânia/GO) R$ 5 milhões
    Cajamar (Cajamar/SP)

    IPE-Prev (Rio Grande do Sul)

    R$ 2 milhões

    R$ 17,7 milhões

                                              

  • Frei Sergio (1956-2026), o missionário dos assentados

    Frei Sergio (1956-2026), o missionário dos assentados

    Geraldo Hasse

    Conheci Frei Sérgio em pessoa na feira do livro de Porto Alegre, onde ele lançou em 2017 “Trincheiras da Resistência Camponesa”, um catatau de 616 páginas editado pelo Instituto Cultural Padre Josimo, que dá suporte ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

    Depois do autógrafo – “Na luta, sempre” – fiquei por perto, disposto a aproveitar as brechas para entrevistá-lo, mas não deu: a todo momento, ele era reconhecido, abraçado, festejado.

    A única frase dele foi sobre o conteúdo do livro: “São textos militantes”, disse.

    Acabei indo embora, mas lembro que dias depois vi no Facebook uma foto dele cercado por várias pessoas, entre elas os jornalistas Caco Schmidt e Carlos Wagner, que o conheciam do movimento dos agricultores sem terra.

    Em casa, mais tarde, vi que as “Trincheiras” são um apanhado cronológico de textos escritos para cartilhas, documentos para instituições e reflexões em favor dos movimentos pela reforma agrária, distribuição de terras para brasileiros(as) determinados(as) a trabalhar como autônomos na agricultura.

    Como padre franciscano, morador num assentamento em Hulha Negra, ele se mostrava um otimista defensor dos trabalhadores rurais na busca por uma vida melhor, livres da sujeição à agricultura empresarial, hoje resumida pela palavra “agronegócio”, que abrange desde proprietários de terras até os produtores de commodities de exportação, comerciantes de máquinas e insumos de lavouras, transportadores, exportadores, prestadores de serviços etc.

    Nessa luta, ele foi um missionário como tantos religiosos e civis que se dedicam a combater a desigualdade social.

    Folheando o livro, observei a precisão dos seus relatos sobre doenças, secas, enchentes e outros problemas que afetam os pequenos agricultores, que respondem pela oferta de metade dos alimentos consumidos pela população brasileira, embora trabalhem em cima de apenas 24% das terras agricultáveis. É um livro denso, quase um manual de agricultura ecológica, voltado para os praticantes da agricultura familiar.