Autor: Cleber Dioni Tentardini

  • Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre a nova fábrica de celulose

    Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre a nova fábrica de celulose

    Não cabiam mais de 40 pessoas na pequena sala do 4° andar onde se realizou, nesta quarta-feira, a Audiência Pública que a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do RS convocou para discutir os impactos sociais e ambientais da nova megafábrica de celulose da CMPC – empreendimento de R$ 25 bilhões, o “maior da história do Rio Grande do Sul”, segundo a imprensa.

    Mais de cem pessoas, inclusive jornalistas, tiveram que assistir pelo telão no lado de fora.

    A Fepam, órgão do governo do Estado responsável pela análise do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do empreendimento, não enviou representantes.

    O diretor de Infraestrutura da CMPC, Otemar Alencastro, apresentou um resumo do projeto, já rebatendo as principais críticas dos ambientalistas.

    Disse que a empresa realizou até agora 33 reuniões para debater as quatro mil páginas do EIA da futura fábrica, e que continua ouvindo as demandas das comunidades indígenas da região.

    O risco de poluição da água do Guaiba com compostos químicos altamente nocivos, como dioxinas e furanos, apontado por especialistas, foi minimizado por Alencastro. Segundo ele, os efluentes resultantes do processo produtivos serão devolvidos ao rio depois de rigoroso tratamento e sem riscos de contaminação. 

    Alencastro afirmou que o empreendimento foi concebido com premissas de sustentabilidade, incluindo reciclagem da água, manejo de resíduos sólidos, redução de combustíveis fósseis, branqueamento ECF, redução do consumo de produtos químicos e tratamento de efluentes.

    Conforme o diretor, “estudos ambientais consideraram diferentes condições climáticas, incluindo cenários críticos de cheias e estiagens, a partir de modelos de dispersão no Guaíba”.

    Diretor Otemar Alencastro, da CMPC Celulose. Foto Divulgação ALRS

    O executivo afirmou que a fábrica estará localizada a cerca de dez quilômetros do centro urbano, sem impacto direto para os moradores, portanto. Quanto aos impactos econômicos do empreendimento, ele ressaltou que só em Barra do Ribeiro haverá um incremento de 300% na arrecadação do município”.

    O biólogo e professor da Universidade Federal (Ufrgs), Paulo Brack, chamou atenção para o volume de água utilizada no processo de produção da celulose: 288 milhões de litros por dia, volume maior do que o consumo diário de toda a população de Porto Alegre.

    Desse total captado, a fábrica devolve ao Guaiba 242 milhões de litros por dia, volume maior do que a água servida que população devolve ao rio a cada dia.

    Segundo Brack, que também representa o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS, muitos compostos químicos são persistentes, como organoclorados utilizados para o branqueamento da celulose.

    O professor lembrou que há uma cadeia alimentar que depende da água do Guaíba. “Temos 7.078 pescadores relacionados pelo Ministério da Pesca e isso dá mais que os 2.300 que a empresa garante que terão emprego após a conclusão da obra. Então esses efluentes podem comprometer não só a pesca como também todos os balneários da Costa Doce”, disse.

    A engenheira química Alda Maria de Oliveira, ex-analista ambiental da Fepam, disse que “é preocupante” a questão desses poluentes. Os próprios números da empresa indicam a emissão de diversos compostos na água.

    https://novo.jornalja.com.br/noticiario/ambiente/carga-toxica-no-guaiba-vai-dobrar-com-nova-fabrica-de-celulose-alerta-ambientalista/

    Alda alertou para os impactos acumulados por mais de 50 anos de funcionamento de fábricas de celulose sobre o rio. De acordo com a engenheira, os impactos atingem tanto a qualidade da água quanto os peixes consumidos pela população. “Os efeitos recaem sobre o fluxo ambiental e também sobre a vida humana”, destacou.

    Biólogo Paulo Brack e a engenheira química Alda Oliveira. Foto Divulgação ALRS

    Arnildo Werá, coordenador estadual da Comissão Guarani Yvyrupa, destacou que a Convenção 169 da OIT garante o direito à consulta livre, prévia e informada sempre que medidas ou empreendimentos afetarem os povos indígenas. Esse direito não é favor, nem burocracia: é uma obrigação do Estado e das empresas.

    A liderança denunciou que as comunidades Guarani não foram devidamente consultadas sobre os impactos da instalação da CMPC em seus territórios tradicionais.

    “Ignorar esse processo é violar direitos internacionais, a Constituição brasileira e a autodeterminação dos povos indígenas. Não existe desenvolvimento quando há destruição de territórios, silenciamento de comunidades e violação de direitos. O povo Guarani exige respeito, escuta e participa nas decisões que afetam seu presente e seu futuro”, ressaltou.

    Da organização Amigas da Terra, o engenheiro ambiental Eduardo Raguse afirmou que a empresa já descumpre um dos itens de adequação da licença de operação relacionado ao controle de odores que causam “desconforto olfativo” à população. Raguse relatou impactos sobre a população local, incluindo registros de mal-estar entre alunos e professores da Colégio Estadual Augusto Meyer. Também alertou para o que classificou como “alto risco de acidentes”, mencionando avaliações realizadas pela Fepam nas operações da CMPC.

    Indígena Arnildo Werá e o engenheiro ambiental Eduardo Raguse

    Doutor em Ciências na área de Ecologia de Paisagem e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rualdo Menegat, alertou sobre os impactos socioambientais. “Será necessária uma estrada de 1.100 km de caminhões que trarão insumos químicos por ano. Além disso, haverá também trânsito de 273 mil caminhões por ano junto como também aqueles que trarão os lenhos, cerca de 6 mil ônibus, 29 mil carros, 29 mil motocicletas, ou seja, serão consumidos milhões de litros de diesel com as devidas emissões de CO2”, comparou Menegat.

    https://novo.jornalja.com.br/noticiario/ambiente/biologa-aponta-falhas-tecnicas-no-estudo-de-impacto-ambiental-da-nova-fabrica-de-celulose-em-barra-do-ribeiro/

    A deputada Sofia Cavedon lamentou que seja classificado de “grenalização” o necessário debate ambiental e criticou a desqualificação de ambientalistas e pesquisadores que alertam para os impactos do empreendimento. Segundo Sofia, “os ambientalistas alertam sobre o que pode acontecer e a gente vê vários qualificativos agressivos usados contra eles. Como se fossemos eco chatos e contra o desenvolvimento, como se estes alertas não tivessem valor científico. Essas pessoas estudam pensam sobre o assunto e quem defende desenvolvimento econômico precisa considerar de forma técnica o impacto ambiental”.

    “O Guaíba não pode ser ainda mais poluído, ponto final. O Guaíba já está contaminado, e estamos falando de uma quantidade de água equivalente ao consumo de toda Porto Alegre que será utilizada pela CMPC. Porto Alegre também precisa ser consultada sobre esta nova planta, porque sofrerá os impactos”, argumentou.

    Sofia também criticou o modelo de expansão baseado no cultivo de eucalipto. Segundo ela, “não se trata de preservação, mas de uma monocultura predatória”.

    **Com informações das assessorias partidárias

  • Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre nova fábrica de celulose no Estado

    Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre nova fábrica de celulose no Estado

    Não cabiam mais de 40 pessoas na pequena sala do 4° andar onde se realizou, nesta quarta-feira, 20/05, a Audiência Pública que a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, convocou para discutir os impactos sociais e ambientais da nova megafábrica de celulose da CMPC – empreendimento de R$ 25 bilhões, o “maior da história do Rio Grande do Sul”, segundo a imprensa.

    Mais de cem pessoas, inclusive jornalistas, tiveram que assistir pelo telão no lado de fora.

    A Fepam, órgão do governo do Estado responsável pela análise do Estudo de Impacto Ambiental do empreendimento, não enviou representantes.

    O diretor de Infraestrutura da CMPC, Otemar Alencastro, apresentou um resumo do projeto, já rebatendo as principais críticas dos ambientalistas.

    Disse que a empresa realizou até agora 33 reuniões para debater as quatro mil páginas do EIA-Rima da futura fábrica, e que continua ouvindo as demandas das comunidades indígenas da região de Barra do Ribeiro, cidade escolhida para abrigar o empreendimento.

    O risco de poluição da água do Guaíba com compostos químicos altamente nocivos, como dioxinas e furanos, apontado por especialistas, foi minimizado por Alencastro. Segundo ele, os efluentes resultantes do processo produtivos serão devolvidos ao rio depois de rigoroso tratamento e sem riscos de contaminação. 

    Alencastro afirmou que o empreendimento foi concebido com premissas de sustentabilidade, incluindo reciclagem da água, manejo de resíduos sólidos, redução de combustíveis fósseis, branqueamento ECF, redução do consumo de produtos químicos e tratamento de efluentes.

    Conforme o diretor, “estudos ambientais consideraram diferentes condições climáticas, incluindo cenários críticos de cheias e estiagens, a partir de modelos de dispersão no Guaíba”.

    Segundo o executivo, a fábrica estará localizada a cerca de dez quilômetros do centro urbano, sem impacto direto para os moradores, portanto. Quanto aos impactos econômicos do empreendimento, ele ressaltos que só em Barra do Ribeiro, onde se localizará a fábrica, haverá um incremento de 300 por cento na arrecadação do município.

    Já o biólogo e professor da Universidade Federal (Ufrgs) Paulo Brack chamou atenção para o volume de água utilizada no processo de produção da celulose: 288 milhões de litros por dia, volume maior do que o consumo diário de toda a população de Porto Alegre. Desse total captado, a fábrica devolve ao Guaíba 242 milhões de litros por dia.

    Segundo Brack, que também representa o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá), no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS, muitos compostos químicos são persistentes, como organoclorados utilizados para o branqueamento da celulose. Brack lembrou que há uma cadeia alimentar que depende da água do Guaíba. “Temos 7.078 pescadores relacionados pelo Ministério da Pesca e isso dá mais que os 2.300 que a empresa garante que terão emprego após a conclusão da obra. Então esses efluentes podem comprometer não só a pesca como também todos os balneários da Costa Doce”, disse.

    A engenheira química Alda Maria de Oliveira, ex-analista ambiental da Fepam, disse que “é preocupante” a questão desses poluentes. Os próprios números da empresa indicam a emissão de diversos compostos na água.

    Alda alertou para os impactos acumulados por mais de 50 anos de funcionamento de fábricas de celulose sobre o rio. De acordo com a engenheira, os impactos atingem tanto a qualidade da água quanto os peixes consumidos pela população. “Os efeitos recaem sobre o fluxo ambiental e também sobre a vida humana”, destacou.

    O professor Brack e a engenheira química Alda Oliveira.

    Arnildo Werá, coordenador estadual da Comissão Guarani Yvyrupa, destacou que a Convenção 169 da OIT garante o direito à consulta livre, prévia e informada sempre que medidas ou empreendimentos afetarem os povos indígenas. Esse direito não é favor, nem burocracia: “É uma obrigação do Estado e das empresas”.

    A liderança denunciou que as comunidades Guarani não foram devidamente consultadas sobre os impactos da instalação da CMPC em seus territórios tradicionais. “Ignorar esse processo é violar direitos internacionais, a Constituição brasileira e a autodeterminação dos povos indígenas. Não existe desenvolvimento quando há destruição de territórios, silenciamento de comunidades e violação de direitos. O povo Guarani exige respeito, escuta e participação nas decisões que afetam seu presente e seu futuro. Respeitar a Convenção 169 é respeitar os povos originários”, destacou Werá.

    Da organização Amigas da Terra, Eduardo Raguse afirmou que a empresa já descumpre um dos itens de adequação da licença de operação relacionado ao controle de odores que causam “desconforto olfativo” à população. Raguse relatou impactos sobre a população local, incluindo registros de mal-estar entre alunos e professores da Colégio Estadual Augusto Meyer. Também alertou para o que classificou como “alto risco de acidentes”, mencionando avaliações realizadas pela Fepam nas operações da CMPC.

    O Doutor em Ciências na área de Ecologia de Paisagem e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rualdo Menegat, alertou sobre os impactos socioambientais. “Será necessária uma estrada de 1.100 km de caminhões que trarão insumos químicos por ano. Além disso, haverá também trânsito de 273 mil caminhões por ano junto com os que trarão os lenhos, cerca de 6 mil ônibus, 29 mil carros, 29 mil motocicletas, ou seja, serão consumidos milhões de litros de diesel com as devidas emissões de CO2”, comparou Menegat.

    A deputada Sofia Cavedon lamentou que seja classificado de “grenalização” o necessário debate ambiental e criticou uma possível desqualificação de ambientalistas e pesquisadores que alertam para os impactos do empreendimento. Segundo Sofia, “os ambientalistas alertam sobre o que pode acontecer e a gente vê vários qualificativos agressivos usados contra eles. Como se fossemos eco chatos e contra o desenvolvimento, como se estes alertas não tivessem valor científico. Essas pessoas estudam pensam sobre o assunto e quem defende desenvolvimento econômico precisa considerar de forma técnica o impacto ambiental. O Guaíba não pode ser ainda mais poluído, ponto final. O Guaíba já está contaminado, e estamos falando de uma quantidade de água equivalente ao consumo de toda Porto Alegre que será utilizada pela CMPC. Porto Alegre também precisa ser consultada sobre esta nova planta, porque sofrerá os impactos”, argumentou.

    Sofia também criticou o modelo de expansão baseado no cultivo de eucalipto. Segundo ela, “não se trata de preservação, mas de uma monocultura predatória”.

  • Audiência debate impactos da nova indústria de celulose da CMPC

    Audiência debate impactos da nova indústria de celulose da CMPC

    Nesta quarta-feira, dia 20, será discutido o novo empreendimento de celulose da CMPC e os impactos socioambientais envolvidos no processo de licenciamento.

    Mais do que acompanhar, é hora de ocupar esses espaços, fazer perguntas, escutar diferentes perspectivas e defender o direito da população de participar das decisões sobre o futuro do estado.

    A Audiência Pública acontece às 10h30, na sala Maurício Cardoso, 4º andar no Parlamento gaúcho.
    Também com transmissão online. A organização é do Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC, e foi proposta pelos deputados Leonel Radde (PT), Miguel Rossetto (PT) e Marcus Vinicius (PP).

  • CMPC: Nova fábrica, velhos impactos?

    EDUARDO RAGUSE*


    Por volta das 13h40, do dia 05 de maio de 2026, ocorreu a despressurização de emergência da caldeira da fábrica de celulose da empresa CMPC, no município de Guaíba.

    O evento causou grande susto e apreensão entre os moradores do entorno da indústria devido ao ruído fortíssimo, odor e grande quantidade de emissões atmosféricas (com chuvisqueiro nas casas dos moradores). Há relatos de pessoas com dor nos ouvidos, dor de cabeça e mal-estar, e de animais domésticos assustados. Apesar da empresa informar em comunicado aos moradores de que a situação se normalizaria em aproximadamente 20 minutos, a duração foi de cerca de uma hora.

    A despressurização é uma ação emergencial para evitar acidentes maiores como rompimentos, vazamentos ou explosão, e segundo informações extraoficiais, teria sido
    realizada por ter sido encontrada uma “rachadura” em alguma das estruturas do equipamento. Em resposta aos diversos moradores que acionaram o número de
    Emergência Ambiental da FEPAM, o órgão ambiental respondeu: “A CMPC informou que tiveram que realizar esse procedimento de forma emergencial visto suspeita de vazamento da caldeira”.

    Não é a primeira vez que ocorrem episódios de emergência na empresa, principalmente após a quadruplicação de sua capacidade produtiva, ocorrida em 2015, autorizada através de um licenciamento ambiental que se mostrou, se não completamente equivocado tecnicamente, com muitos limites que deveriam ser revistos, já que claramente o ambiente local demonstra não ter capacidade de suporte para os riscos e impactos causados, que foram objeto de muito enfrentamento de moradores locais, e até processo judicial por crime ambiental, situação que foi acomodada através de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado pela CMPC com o Ministério Público, e por uma compra estratégica de casas de parte destes moradores pela empresa.

    Segue um pequeno histórico:

    Em maio de 2015, cinco trabalhadores da empresa foram hospitalizados e a empresa fechada pela FEPAM após vazamento de dióxido de cloro.

    Em maio de 2016, dez funcionários foram levados a atendimento médico após vazamento do mesmo gás.

    Em fevereiro de 2017 houve um acidente grave nesta mesma caldeira, inaugurada há menos de dois anos, levando à paralização total da fábrica nova até novembro de 2017. O caso foi parar em uma disputa judicial entre a empresa e a seguradora Mapfre, que teve que pagar R$ 1,1 bi de indenização.

    Em fevereiro de 2019 um trabalhador morreu após ser prensado por equipamento na fábrica.

    Em setembro de 2022 houve incêndio na caldeira da fábrica antiga, que segue em operação.

    Em fevereiro de 2025 houve, novamente, um grave vazamento de cloro, desta vez ultrapassando os limites do pátio da empresa, levando moradores ao pânico, com sensação de sufocamento, forte ardência e queimação nos olhos e nariz, náusea, salivação e dor de cabeça. Atingiu também trabalhadores e levou alguns ao desmaio. Parte da empresa foi evacuada e a operação paralisada.

    Já ocorreu despressurização emergencial da caldeira inclusive durante a noite, em abril de 2025, onde apesar de ter sido noticiado ser uma operação de rotina a empresa, depois de pressionada, admitiu aos moradores que foi mais uma ação emergencial.

    Em junho de 2025 ocorreu a morte de um trabalhador terceirizado na fábrica, sem detalhes públicos sobre o ocorrido.

    Fora a constante geração de ruído (somente legalizada por uma outra “acomodação”, desta vez no Plano Diretor de Guaíba) e de odor de compostos reduzidos de enxofre, que ultrapassa os muros da empresa, atingindo diferentes pontos de Guaíba, a depender da direção dos ventos, desrespeitando de maneira continua a Licença de Operação.

    Estes episódios recorrentes, e outros que possivelmente não venham a público, acendem um alerta quanto à qualidade e aos níveis de controle da operação e de segurança do trabalho desta indústria de alto risco, que está instalada há poucos metros de centenas de residências da zona sul de Guaíba. Fica explicito também a falta de um Plano de Emergência, ou mesmo qualquer tipo de orientação aos moradores do entorno em casos de acidentes na empresa, os moradores literalmente não sabem para onde correr caso precisem se proteger de algum vazamento de gás tóxico, incêndio ou explosão na fábrica.

    É evidente, há anos, a necessidade de se garantir melhores condições de segurança aos trabalhadores da CMPC e de qualidade de vida para os moradores do entorno, fatos que, mesmo sendo de alta gravidade, não tem medidas eficazes tomadas pelas autoridades responsáveis à nível municipal ou estadual, além disto estes fatos não são sequer discutidos pela sociedade, construindo uma aparência de que as operações
    industriais e os monocultivos de eucaliptos no Bioma Pampa não causam nenhum impacto, o que é reforçado pelas ações de mídia da CMPC, a patrocinadora do Campeonato Gaúcho de Futebol, que até tem um time fictício chamado Defensores da Natureza!

    Nova fábrica aumentará poluição

    Mas, para além do que ocorre onde a CMPC já opera, é preciso alertar que a empresa está em processo de licenciamento ambiental para a instalação de uma fábrica ainda maior que a de Guaíba, no município vizinho de Barra do Ribeiro. Utilizando o mesmo sistema de branqueamento, que não é Totalmente Livre de Cloro, o que seria a melhor tecnologia disponível.

    Já foram identificadas, por um grupo multidisciplinar de técnicos e pesquisadores, uma série de omissões, lacunas e problemas no Estudo de Impacto Ambiental do chamado “Projeto Natureza”, que faria uso massivo de água do Guaíba e consequentemente despejaria uma nova carga de poluição também massiva em nosso querido e tão maltratado manancial (242 milhões de litros por dia, que, somados aos 154 milhões de litros já despejados por dia pela fábrica de Guaíba, equivalem à um volume superior ao que Porto Alegre gera de esgoto diariamente), seus poluentes incluem o despejo potencial de dioxinas e furanos – altamente tóxicos, e elementos como nitrogênio e fósforo que podem agravar os episódios de floração de cianobactérias, que levam àquela conhecida coloração esverdeada e às alterações de gosto e odor da nossa água e que também podem gerar substâncias tóxicas.

    Mais de mil pescadores podem ser impactados, segundo estimativas desta comunidade tradicional (que não estão sequer sendo consultados), pois vários peixes sensíveis podem sofrer com os efluentes e com o revolvimento do fundo do Guaíba durante as obras. Seria ainda impactada a Praia das Areias Brancas, na Ponta do Salgado, na Barra do Ribeiro, local onde seria instalada a tubulação de efluentes até o Guaíba.

    O local que a empresa quer se instalar é terra Mbya Guaraní, conhecida como Ponta da Formiga, e já é público o imenso assédio que este povo está sofrendo por parte da empresa, que está inclusive pressionando o Ministério Público Federal para que não siga com seu trabalho de defesa dos direitos deste povo originário à Consulta Livre, Prévia e Informada, pressionam também a FUNAI para que garanta sua anuência e a FEPAM para que garanta sua licença ambiental. O Governo do Estado já assinou Protocolo de Intenções garantindo isenções e diferimentos fiscais.

    Outro aspecto que precisa de destaque é o impacto nas estradas gaúchas, segundo os dados da própria empresa, até 2032, haveria um incremento de mais de 25 caminhões bi-trem de 36 toneladas, por hora, circulando em nossas estradas com toras de eucalipto, considerando seu regime de operação de 24 horas por dia, 7 dias por semana, teríamos um incremento de mais de 600 bi-trem por dia, cerca de 19 mil caminhões de quase 20 metros de comprimento e 36 toneladas a mais circulando por mês.

    A intensa movimentação de caminhões de grande porte para o transporte de madeira dos plantios até as fábricas, resulta em maior trânsito e riscos nas estradas, causando acidentes frequentes (na maioria dos casos fatais), além de desgastes e danos nas rodovias e estradas vicinais, e emissões de Gases de Efeito Estufa neste transporte.

    Além disto, todo o impacto que o aumento dos monocultivos de eucaliptos irá ocasionar no Bioma Pampa (área de expansão dos plantios visada pela empresa), não está sendo considerado no processo de licenciamento ambiental.

    Informações sobre estes impactos e sobre quem é a CMPC podem ser lidas no recente estudo produzido pela Amigas da Terra Brasil: Expansão dos desertos verdes em um Pampa em extinção.

    Os estudos da empresa também não fazem nenhuma Avaliação de Impactos à Saúde.

    A sociedade gaúcha deve mais uma vez se mobilizar, assim como fez no caso da Mina Guaíba, que seria a maior mina de carvão à céu aberto do país, um projeto que no início parecia impossível de interromper, mas com organização, mobilização, informações técnicas independentes e de qualidade e muito debate público, se mostrou ser um projeto sem viabilidade ambiental e social.

    Será que o Projeto Natureza tem esta viabilidade? Será que é bom para um RS em meio ao colapso ambiental?

    Dia 15/05, as 15:30, na Assembleia Legislativa do RS, em Porto Alegre, ocorrerá uma Audiência Pública para discutir os impactos socioambientais e o licenciamento ambiental desta nova fábrica de celulose! O assunto é de interesse de todas e todos os gaúchos, desta e das futuras gerações! Tá feito o convite pra peleia!

    *Engenheiro Ambiental, integra a organização Amigas da Terra Brasil

  • Comitê alerta parlamentares sobre riscos ambientais e sanitários com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Comitê alerta parlamentares sobre riscos ambientais e sanitários com nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Um comitê técnico formado por entidades socioambientais e professores universitários encaminhou carta aos parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul manifestando preocupação com o projeto de uma nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro, atualmente em processo de licenciamento ambiental. O documento aponta falhas no Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), considerado incompleto e inconsistente, além de denunciar pressões políticas e econômicas que estariam acelerando a análise sem o devido rigor técnico. O grupo ressalta que não se opõe à produção de celulose em si, mas critica o modelo proposto, destacando seus potenciais impactos socioambientais e a falta de debate público qualificado.

    Entre os principais riscos apontados estão o elevado consumo de água e o grande volume de efluentes que seriam lançados no Guaíba, podendo comprometer o abastecimento da Região Metropolitana de Porto Alegre, além de afetar a biodiversidade e comunidades locais. O comitê também alerta para possíveis impactos à saúde humana decorrentes da liberação de substâncias tóxicas persistentes, falhas na modelagem ambiental apresentada e ausência de consulta adequada a povos indígenas e comunidades pesqueiras, em desacordo com normas nacionais e internacionais. Além disso, critica-se a escolha da área do empreendimento, que abriga ecossistemas sensíveis e espécies ameaçadas.

    O documento conclui solicitando que os parlamentares intervenham para garantir transparência, independência e rigor técnico no processo de licenciamento, com realização de audiências públicas e ampla participação social. Segundo o grupo, o empreendimento tem potencial de causar impactos regionais significativos, agravando problemas ambientais e climáticos já existentes, o que exige uma análise mais criteriosa antes de qualquer aprovação.

    Liminar do CNMP desbloqueia instalação do “Projeto Natureza” em Barra do Ribeiro

    Na última sexta-feira, 24 de abril, o conselheiro do CNMP, Edvaldo Nilo, suspendeu liminarmente recomendações do MPF/RS que travavam o “Projeto Natureza” – a nova fábrica de celulose de R$ 27 bilhões em Barra do Ribeiro (RS), atendendo a pedido dos deputados Marcel Van Hattem e Felipe Camozzato. A decisão aponta que o MPF conferiu caráter vinculante indevido às recomendações e determinou que a Corregedoria Nacional investigue os procuradores, destacando o risco de paralisação do empreendimento. Saiba mais detalhes no portal de notícias do CNMP.

    Leia a íntegra da carta com observações dos impactos do projeto da CMPC em Barra do Ribeiro

    Exmas./Exmos. Senhoras e Senhores Parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado:

    O “Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC Celulose”, que firma o presente documento, amparado pela Constituição Federal, em seu artigo 225, relativamente à obrigatoriedade da defesa e preservação do meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida para as presentes e futuras gerações, dever este também imposto ao Poder Público e à coletividade, vem perante Vossas Excelências manifestar-se sobre o megaempreendimento de produção de celulose da empresa CMPC, previsto para o município de Barra do Ribeiro, em processo de licenciamento ambiental na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luís Roessler (FEPAM).

    O rito do licenciamento deste projeto na FEPAM, infelizmente, vem sendo atropelado, desde a aceitação, pelo órgão licenciador, por meio de um incompleto e inconsistente Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), de parte da empresa requerente. Tal situação, já alertada por diversas entidades, inclusive ao Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, vem acompanhado de intensa pressão econômica e política, acenando investimentos de valores extraordinários que tentam subjugar os direitos socioambientais garantidos pela Constituição Federal.

    O Governo do Estado e outros setores interessados têm defendido, com muita ênfase, a viabilidade deste megaempreendimento, mesmo sem a devida conclusão das análises técnicas qualificadas no rito de um efetivo e independente licenciamento ambiental.

    Lamentavelmente, desde os órgãos da administração pública estadual até os grandes meios de comunicação, pouco ou quase nada de espaços são destinados aos questionamentos necessários que vêm sendo realizados por técnicos de dentro e fora deste Comitê, incluindo pesquisadores e dezenas de organizações da sociedade civil, inclusive públicas, em relação às consequências socioambientais do referido projeto.

    Este documento não busca se contrapor ao produto celulose, dada a sua importância para a sociedade, desde que dentro de padrões de uso sustentável, o que não é o caso em sociedades de alto consumo deste produto, inclusive com branqueamento questionável, agravado pela ausência efetiva de políticas que viabilizem a reciclagem de papel, papelão e produtos similares. Há que se considerar, também, que 90% dos 3 milhões de toneladas de celulose a serem produzidas, por ano, serão destinadas à China (a 19 mil km) e a outros países igualmente distantes que a utilizarão para transformar em produtos agregados como papel e outros derivados. Diante do enorme trajeto de transporte, o que amplifica a crise climática e ambiental, cujas consequências vivemos de forma tão dramática no nosso estado.

    Consideramos que os agentes públicos possuem o dever de debater todos os impactos ambientais e sociais do projeto, exigindo do órgão ambiental competente a necessária isenção, impessoalidade e observância da legalidade estrita no caso. Lamentavelmente, temos assistido a atuação dos órgãos estaduais ligados à proteção ambiental, em diversas situações, dando a entender apoio ao referido projeto. Desta forma, o órgão ambiental estaria exonerando-se do dever institucional de acompanhar, fiscalizar e exigir estudos completos e aprofundados sobre os impactos deste megaempreendimento que comprometeria gravemente o principal manancial para abastecimento de água da Região Metropolitana de Porto Alegre, com consequências inegáveis e de grande vulto para a vida humana, a fauna e flora de todo o entorno.

    A área prevista para o empreendimento, na localidade de Barba Negra, apresenta elevada biodiversidade, constituindo-se como Formações Pioneiras, protegidas pela Lei da Mata Atlântica (Lei Federal n. 11.428/2006), incluindo zonas classificadas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) como prioritárias para conservação, com espécies ameaçadas e endêmicas — fatores que motivaram a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) pela própria empresa (Portaria SEMA n. 48 de 28/09/2010). Tais elementos foram ignorados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), e a tentativa da CMPC de desafetar parte da Unidade de Conservação, para viabilizar o empreendimento, é ambientalmente e juridicamente questionável, sobretudo diante da presença de espécies ameaçadas em raros ambientes de restinga na região do Guaíba.

    Ademais, o projeto apresenta outras inconsistências graves na definição de sua localização, uma vez que não houve análise abrangente de alternativas locacionais, desconsiderando aspectos territoriais sensíveis, como a elevada presença de aldeias Mbyá Guarani no município de Barra do Ribeiro. Soma-se a isso o encaminhamento inadequado da consulta aos povos indígenas, em desacordo com a Convenção no 169 da OIT e com a legislação nacional, evidenciado por um processo inicial marcado pela ausência de respeito ao direito à Consulta Prévia, Livre e Informada aos Povos Indígenas pertencentes às etnias Mbyá Guarani e Kaingang. Verificam-se, ainda, indícios de uma relação baseada em promessas, o que pode configurar pressão ou assédio às comunidades indígenas.

    Nesse contexto, impõe-se a atuação rigorosa da FUNAI e da FEPAM para assegurar que o processo de consulta observe integralmente os direitos dos povos indígenas. É impositivo que os parlamentares e a sociedade gaúcha saibam que o empreendimento projeta extraordinários valores, tanto de consumo de água (288 milhões de litros/dia) como de lançamento de efluentes líquidos (242 milhões de litros/dia). Somado ao volume atualmente despejado pela unidade já existente da CMPC no município de Guaíba, as águas do Guaíba passariam a receber cerca de 396,4 milhões de litros de efluentes por dia, carga equivalente ao volume de esgotos gerados por uma população estimada em cerca de 2 milhões de habitantes, portanto, superior à população do Município de Porto Alegre. Neste cenário, em 10 anos, a quantidade de efluentes lançados seria equivalente a todo o volume do corpo de água Guaíba!

    Sob o aspecto qualitativo, é importante destacar que o projeto anuncia utilizar o processo Kraft com branqueamento ECF (livre de cloro elementar), técnica que, embora reduza parcialmente impactos, não elimina a geração de compostos organoclorados, especialmente AOX (compostos orgânicos halogênios adsorvíveis), entre os quais se incluem dioxinas e furanos, reconhecidos como Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), de elevada toxicidade e longa meia‑vida ambiental, regulados pela Convenção de Estocolmo, da qual o Brasil é signatário.

    Considerando que a indústria de celulose figura entre as mais poluentes em escala global, cumpre destacar que o lançamento conjunto de efluentes — provenientes da unidade projetada e somados aos da planta já em operação em Guaíba — configura uma situação inédita no cenário internacional, na qual um único corpo hídrico interior passaria a receber descargas de duas fábricas de grande porte, com elevada carga de contaminantes persistentes, constituindo-se no maior polo de poluição das indústrias de celulose do mundo. Enfatizam-se, com isso tudo, os riscos de longo prazo decorrentes da liberação de substâncias persistentes e bioacumulativas, já citadas, tais como dioxinas, furanos e demais compostos organoclorados (AOX) e trihalometanos, associadas a: distúrbios endócrinos e reprodutivos; infertilidade e malformações fetais; aumento do risco de diferentes tipos de câncer, gerando impactos sérios à saúde humana.

    Existe forte probabilidade do efluente previsto para ser lançado no Guaíba, a 4 km da margem de Barra do Ribeiro e a 3 km da margem de Belém Novo (Porto Alegre), afetar a captação de duas estações de tratamento de água do DMAE. No RIMA, além de não ser citada a liberação de dioxinas e furanos, poluentes cancerígenos, persistentes e comuns nestes tipos de indústrias, derivados do uso de cloro no branqueamento da celulose, a modelagem da dispersão dos poluentes apresenta falhas elementares e não considera adequadamente a complexidade da hidrodinâmica do Guaíba, não só para o abastecimento da população como a pesca e a balneabilidade, inclusive na Laguna dos Patos. Apesar do emissário de efluentes da nova planta da CMPC ficar ao sul desta captação, o Guaíba apresenta inversão do fluxo nortesul, quando os ventos do sul são fortes, fato que não foi considerado adequadamente no Estudo apresentado pela empresa.

    Impõe-se ao Estado brasileiro, na condição de signatário, a adoção das melhores técnicas disponíveis e a implementação de medidas destinadas à redução contínua e, quando possível, eliminação dessas substâncias, especialmente em atividades reconhecidamente emissoras, como a indústria de celulose.

    Um aspecto crítico que merece ser incorporado diz respeito ao comportamento de contaminantes tóxicos, persistentes e bioacumulativos, como no caso de AOX, dioxinas e furanos, já citados. Esses compostos tendem a se concentrar majoritariamente nos sedimentos, compartimento ambiental que não foi devidamente considerado na modelagem utilizada no EIA. Trata-se de uma lacuna metodológica extremamente relevante, especialmente em uma análise de impacto ambiental dessa natureza, pois a dinâmica dos sedimentos constitui uma via fundamental de exposição e contaminação de longo prazo. Ainda que os efeitos possam não ser imediatamente perceptíveis, é plausível que se manifestem ao longo do tempo, à medida que esses poluentes se acumulam e entram na cadeia trófica. Além disso, eventos como cheias ou perturbações hidrodinâmicas, em especial as enormes dragagens previstas neste projeto, podem provocar a ressuspensão desses contaminantes na coluna d’água, reintroduzindo-os no sistema e ampliando seus riscos ambientais e sanitários.

    Da mesma forma, prevê-se a contaminação ao longo da cadeia alimentar, inclusive com potencial de bioacumulação no pescado, afetando de forma dramática o sustento de mais de 7 mil famílias que vivem da pesca artesanal e que dependem da qualidade da água do Guaíba e da Laguna dos Patos. Alertamos que o número de pescadores artesanais representa mais do que três vezes os 1400 empregos declarados pela empresa após sua construção.

    Além de todos os elementos aqui citados, acrescente-se o imenso impacto ambiental também pela emissão atmosférica com poluentes tóxicos – gases de enxofre, nitrogênio, particulados e Gases de Efeito Estufa (GEE), entre outros. No caso dos GEE, o Inventário de Emissões presente no EIA do projeto da CMPC evidencia aspectos altamente preocupantes e contraditórios: o empreendimento poderá emitir, anualmente, mais de 1,5 milhão de tCO₂ e (toneladas de gás carbônico equivalente), decorrentes da queima de combustível fóssil, somados a volumosas emissões biogênicas que, embora tratadas como “neutras”, incluem gases de alto potencial de aquecimento da atmosfera, como CH₄ e N₂ O. Há que se considerar que, além das chaminés da indústria, estes gases também serão liberados pela circulação anual de milhares de veículos, terrestres e aquáticos, no transporte de madeira, celulose, materiais químicos, entre outros, contrariando todas as iniciativas mundiais, em curso, para diminuir a emergência climática e ambiental. Portanto, destaca-se a forte dependência de combustíveis fósseis, responsáveis pela maior parte das emissões diretas, o que contradiz a alegação de uso das “melhores tecnologias disponíveis”. Além disso, o estudo desconsidera as emissões de gases decorrentes da construção da enorme infraestrutura industrial e da mudança de uso do solo e exclui elementos relevantes, como as monoculturas de eucalipto, com prejuízos principalmente sobre o bioma Pampa, resultando em enorme subestimação da totalidade dos impactos. Em conjunto, esses elementos indicam uma carga emissora significativa e fragilidades metodológicas que comprometem a real avaliação dos impactos climáticos do projeto.

    Sendo assim, conclamamos a Vossas Excelências à responsabilidade de interromper o atropelo deste processo, garantindo o direito ao debate técnico, esclarecido e aprofundado devido ao enorme potencial de poluição e degradação ambiental do projeto. Ou seja, tal empreendimento apresenta uma dimensão de impacto regional, com suas consequências altamente prejudiciais no Guaíba, Laguna dos Patos e Região Metropolitana, podendo afetar milhões de pessoas.

    Sob os princípios constitucionais que regem a Administração Pública, requeremos medidas objetivas para que a SEMA/RS e a FEPAM/RS retomem os critérios técnicos, autonomia, independência e transparência no processo de licenciamento ambiental, garantindo também a realização de Audiências Públicas em Porto Alegre e demais municípios da região afetada.

    Porto Alegre, 27 de abril de 2026.

    Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do novo Projeto da CMPC Celulose, composto pelas entidades: Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente-RS, Amigas da Terra Brasil, Associação de Mães e Pais pela Democracia-AMPD, Associação dos Servidores da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul – ASSEMA/RS, Associação dos Técnicos de Nível Superior do Município de Porto Alegre – ASTEC; Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN; Associação Sócio Ambientalista – IGRE; Casca – Instituto Socioambiental; Instituto Ecoa; Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá; Instituto MIRA-SERRA; Medicina em Alerta; Movimento de Justiça e Direitos Humanos- MJDH; Ser Ação Ativismo Ambiental. (contato: comitetec.sociamb.cmpc@gmail.com)

    LEIA MAIS:

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  • Médicos alertam para os riscos à saúde de nova fábrica de celulose da CMPC

    ROSELAINE MURLIK *

    Represento um grupo de profissionais da medicina que, há alguns anos, estuda os diferentes impactos das mudanças climáticas e da poluição ambiental nos ecossistemas na saúde humana e do planeta.

    Causa preocupação o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), próximo à capital gaúcha, cujo Estudo de Impacto Ambiental não leva em consideração inúmeros aspectos graves, inclusive à saúde humana, os quais estão relacionados, dentre outros, à liberação de toxinas no ar e na água do Guaíba – de onde provém a água para a população beber.

    A produção de celulose pode impactar a saúde humana por múltiplas vias, incluindo a emissão e o descarte de contaminantes sólidos, líquidos e gasosos e, de forma indireta, por efeitos relacionados ao estresse e à cadeia alimentar.

    Médica e indigenista Roselaine Murlik durante audiência na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ

    Análises Técnicas entregues à FEPAM

    No dia 14 de fevereiro de 2026, juntamente com outros 10 documentos técnicos, produzidos por outros órgãos, entregamos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) uma análise que avalia os potenciais riscos à saúde advindos da instalação e atividade do projeto da pretensa fábrica de celulose.

    Consideramos que há falhas metodológicas e omissões no EIA-RIMA apresentado para licenciamento do Projeto Natureza da CMPC. As críticas não são apenas sobre os impactos ambientais físicos, mas também sobre a insuficiência dos estudos apresentados pela empresa para mitigar riscos sociais e biológicos.

    Em resumo, as críticas podem ser categorizadas nos seguintes eixos principais:

    • Riscos à Saúde Humana: não há avaliação do impacto à saúde das populações vizinhas, tanto pela poluição do ar quanto da água.

    • Qualidade da Água e Efluentes: temos questionamentos sobre a avaliação de efluentes líquidos e como esses impactos foram projetados no EIA-RIMA da CMPC.

    • Impactos sobre Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: a dimensão antropológica e o impacto sobre o modo de vida dessas populações não foram devidamente dimensionados.

    • Biodiversidade e Fauna: temos questionamentos específicos sobre a fauna vertebrada, sugerindo que o projeto pode ameaçar a fauna local.

    • Impacto no bioma Pampa: o projeto afeta diretamente o Pampa, um bioma com vegetação campestre singular e alta biodiversidade, muitas vezes subestimada em grandes empreendimentos.

    Especialistas de diversas áreas entregaram à Fepam analises técnicas do EIA-RIMA. Foto: Divulgação

    A emissão de gases e partículas é a via de impacto mais imediata, provocando aumento nos atendimentos de emergência para nebulizações, medicações injetáveis, e crises de broncoespasmo em asmáticos e com bronquite crônicas, maior demanda por medicamentos de uso contínuo (corticoides, broncodilatadores). O que pode provocar internações frequentes de crianças e idosos (grupos mais vulneráveis) por pneumonia ou insuficiência respiratória.

    De fato, os efeitos da exposição impactam com maior intensidade as crianças (pulmões em desenvolvimento, respiram mais rápido – inalam mais poluentes por kg de peso), idosos (sistema imunológico mais fraco e maior prevalência de doenças cardíacas/pulmonares prévias), asmáticos (reagem imediatamente a picos de SO2 e TRS) e gestantes (riscos de anomalias de desenvolvimento em embriões ou fetos expostos via materna).

    Por sua vez, os compostos de enxofre (TRS) geram um odor extremamente desagradável e perceptível mesmo em baixíssimas concentrações. Embora nem sempre tóxico em níveis baixos, o mau cheiro constante causa náuseas, dores de cabeça (cefaleia), insônia, estresse e ansiedade.

    A contaminação hídrica traz riscos a longo prazo, pois há substâncias persistentes e bioacumulativas. Elas podem entrar na cadeia alimentar através de peixes ou da água contaminada, sendo associadas à distúrbios endócrinos, problemas reprodutivos e aumento do risco de câncer (tabela 1).

    Muitos estudos de monitoramento ou acadêmicos realizados na região do lago Guaíba indicam que a carga tóxica aguda (que mata peixes imediatamente) desapareceu com as novas tecnologias de produção de celulose, mas persistem os riscos causados pela poluição crônica (acumulada no sedimento antigo) e os efeitos subletais (genética dos peixes).

    Estas condições demandam tratamentos de alta complexidade e alto custo (oncologia), e podem requerer monitoramento de saúde a longo prazo para populações expostas. Além disso, há aumento de demanda para o tratamento de dermatites e alergias de contato em pessoas que utilizam os corpos d’água próximos.

    Por fim, a exposição ocupacional aos riscos físicos e químicos dentro da fábrica podem resultar em acidentes com necessidade de reabilitação física e afastamentos laborais, que geram um custo social indireto à saúde pública.

    Impactos da produção de celulose na saúde humana

    ● Sistema Respiratório e Olfativo (Via Aérea) – a forma de impacto mais imediata e comum, através de picos de emissões e exposição prolongada

    ● Irritação Aguda e Crônica: Causada por Óxidos de Nitrogênio (NOx), Dióxido de Enxofre (SO2) e Material Particulado (MP). Efeito – Exacerbação de asma e outras doenças obstrutivas das vias aéreas. Em crianças e idosos, aumenta a incidência de infecções respiratórias (gripes, pneumonias) devido à inflamação constante das vias aéreas.

    ● Intoxicação e Incômodo Olfativo (TRS): Causada por Gás Sulfídrico (H2S) e Mercaptanas (cheiro de ovo podre/repolho). Efeito Físico – em baixas concentrações, causa náuseas, vômitos e dores de cabeça intensas (“cefaleia”). Pode causar irritação nos olhos (conjuntivite química); e efeito neurológico – o H2S é neurotóxico em altas concentrações. Mesmo em níveis baixos (apenas cheiro) pode causar fadiga mental e dificuldade de concentração.

    Fábricas de celulose eliminam bastante SO² e compostos orgânicos voláteis. Estes são muito irritantes e, nas vias aéreas, causam inflamações, broncoespasmo e infecções respiratórias. Principalmente, nas regiões mais próximas e nos seus trabalhadores caso não haja filtros apropriados, equipamentos de proteção e ventilação adequada do ambiente de trabalho.

    Os sulfetos de hidrogênio e partículas finas de 2,5 micrômetros ou menos (material particulado – MP) têm enorme importância como causas de doenças respiratórias. Este material particulado que as fábricas eliminam, queimando resíduos ou na secagem, entram no sangue através da respiração e inflamam brônquios e alvéolos e, em princípio, nem são percebidos, e vão se acumulando ano a ano, manifestando-se depois com doença pulmonar crônica.

    Em relação ao impacto destas substâncias na saúde humana, podemos citar as seguintes referências: um artigo brasileiro, dos mais citados, avaliou 638 trabalhadores que tiveram reconhecidos os problemas respiratórios como os principais associados à exposição ocupacional em uma fábrica de celulose². Paralelamente, há bastante material publicado internacionalmente que também comprova danos à saúde respiratória, tanto com exposição ocupacional como comunitária, provocando função pulmonar diminuída, sintomas respiratórios, asma e doença obstrutiva mesmo em pessoas que moram em até 30km destas indústrias³. Existem trabalhos suecos mais recentes do início desta década, sobre função pulmonar e mortalidade que reforçam o risco respiratório crônico em trabalhadores destas indústrias.

    Entre os riscos respiratórios entre trabalhadores, há alta exposição a irritantes como cloro, compostos de enxofre reduzido e poeira (material particulado), o que leva à disfunção pulmonar e sintomas respiratórios.

    Sabe-se que fábricas modernas controlam um pouco melhor suas emissões, mas os riscos existem inclusive às comunidades adjacentes e principalmente quando não há monitoramento constante. A vigilância epidemiológica e o monitoramento oficial são fundamentais para a captação rotineira de dados. Mas estas avaliações não se fazem com o mesmo dinamismo ou relevância que o aumento da produção dessas fábricas.

    Audiência Pública Popular em Porto Alegre discutiu os impactos da instalação de uma nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ

    ● Neurotoxicidade e Doenças Orgânicas: Metais pesados (como cádmio, cromo e chumbo) liberados nos efluentes estão associados à neurotoxicidade, doenças cardíacas, doenças renais e inibição do crescimento.

    ● Sistema Digestivo e Endócrino (Via Água e Alimentos) – impacto mais silencioso e de longo prazo (crônico), ligado principalmente à ingestão de água contaminada ou consumo de peixes.

    Para a saúde humana e o ecossistema, a via dos efluentes costuma ser considerada mais perigosa a longo prazo devido à bioacumulação. Compostos Organoclorados (AOX), Dioxinas e Furanos (principalmente em fábricas mais antigas ou sem tecnologia ECF) não se dissolvem bem na água, mas fixam-se na gordura dos peixes. Ao comer o peixe, o humano ingere a toxina concentrada. São substâncias cancerígenas e disruptores endócrinos, podendo causar infertilidade, problemas na tireoide e malformações fetais. Se a captação de água da cidade for abaixo da fábrica (jusante), o tratamento de água torna-se difícil. A presença de fenois pode gerar gosto e odor ruim na água. Toxinas de algas podem causar danos graves ao fígado (hepatotoxicidade).

    ● Saúde Mental e Psicossocial (impacto Invisível) – Muitas vezes ignorado nos laudos técnicos, este é um dos maiores geradores de reclamações em comunidades vizinhas a fábricas de celulose.

    Estresse Crônico e Ansiedade ao viver sob a constante percepção de mau cheiro (“odor de celulose”) ativa mecanismos de estresse no cérebro. Isso eleva os níveis de cortisol e causa insônia, irritabilidade, depressão e sensação de impotência frente à poluição

    ● Perturbação do Sono: tanto o odor forte durante a noite (quando a dispersão atmosférica é pior devido à inversão térmica) quanto o ruído industrial (picadores de madeira, caldeiras) prejudicam o descanso, levando a problemas cardiovasculares a longo prazo.

    ● Saúde Reprodutiva: Efeitos de Disruptores Endócrinos (AOX, dioxinas – especialmente o TCDD, furanos), matéria particulada (especialmente MP 2,5), estão associados a problemas de desenvolvimento do feto, incluindo anomalias congênitas, perda da gravidez e baixo peso ao nascimento. Também estão associados a problemas de fertilidade.

    ● Câncer: Matéria Particulada fina (MP2,5) é classificada como um carcinógeno na Classe 1 pelo IARC (International Agency for Research on Cancer), associado principalmente ao câncer de pulmão e de bexiga. Dioxinas, especialmente o TCDD, e furanos são altamente tóxicos e cancerígenos comprovados (Classe 1 pelo IARC). Desreguladores endócrinos também estão associados à carcinogênese ao alterar ou mimetizar o efeito de hormônios.

    A Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, prevê que as taxas estimadas de incidência de neoplasias para o RS estão entre as mais altas do país. Os tumores de traqueia, brônquios e pulmões têm as taxas mais elevadas do país; tumores de bexiga e tumores hematológicos (Linfoma não Hodgkin, Leucemias e Linfoma de Hodgkin) também têm risco superior à média brasileira, e a incidência de câncer em crianças e adolescentes (0 a 19 anos) no RS é de 168,11 por milhão, seguindo o padrão da região Sul, que detém as maiores taxas estimadas do Brasil para ambos os sexos.

    Os Trihalometanos são produtos do tratamento do papel para branqueamento com o uso de cloro. A reação do cloro com outros compostos presentes na água bruta no momento do tratamento resulta em subprodutos da cloração na água, como os (THM). Os trihalometanos (THM) são compostos de carbono simples que contêm halogênios. Esses incluem vários subprodutos dos processos de cloração da água (SOH – Subprodutos Orgânicos Halogenados). Entre os THMs estão o bromofórmio, o bromodiclorometano, o clorofórmio, o clorodibromometano, o clorodifluorometano, o fluorofórmio e o iodofórmio. Outros subprodutos da desinfecção incluem os ácidos monocloroacético, dicloroacético, tricloroacético e haloacetonitrilas. Esses compostos estão presentes na água potável em quantidades que variam entre microgramas e nanogramas. São produtos frequentemente encontrados nos efluentes de fábricas de celulose no processo de branqueamento que utilizam cloro.

    Após os primeiros trabalhos publicados nos anos de 1970, muitos outros estudos têm sido conduzidos para avaliar a associação entre a exposição aos SOH e diversos potenciais riscos à saúde, como alguns tipos de câncer, doenças cardiovasculares, reprodução e desenvolvimento fetal. Os dados relatados, a princípio, sugerem associação entre câncer de bexiga, cólon e reto e a ingestão de SOH6.

    A exposição à matéria particulada (MP), especialmente, também é preocupante quanto à saúde reprodutiva. Dados de diferentes países, incluindo o Brasil, mostram que a proximidade de residência com minas ou usinas de carvão estão associados à maior probabilidade de perdas gestacionais (natimortalidade), baixo peso ao nascimento e prematuridade. A associação de exposição à matéria particulada de 2,5 micrômetros (MP2,5) também está associada à pré-eclâmpsia na gravidez (aumento da pressão arterial materna).

    Estudos associando defeitos congênitos em recém-nascidos humanos e exposição materna à matéria particulada (MP2,5) mostraram associações com alguns defeitos congênitos, especialmente anomalias cardíacas congênitas, defeitos de tubo neural e fendas labiopalatinas.

    A Tabela 2 apresenta um sumário analítico de trabalhos publicados em que as evidências epidemiológicas de câncer de cólon, reto e bexiga, aborto espontâneo, natimorto, anomalias respiratórias, parto prematuro, feto pequeno para a idade gestacional, anomalias cardiovasculares, baixo peso ao nascer, anomalias no trato urinário, fenda labial e palatina, retardo do crescimento intrauterino, anomalias cromossômicas são associadas à exposição aos SOH. Nas linhas, estão os números de estudos de cada um destes efeitos relacionados com trihalometanos (THM), água clorada, bromofórmio (BF), bromodiclorometano (BDCM), clorofórmio (CF) e ácidos haloacéticos (AHA).

    Foram relacionados 135 trabalhos científicos, realizados ao longo de quase 30 anos (1981 – 2008), cujas pesquisas evidenciaram que os SOH, principalmente quando o cloro é utilizado, estão associados à ocorrência e a efeitos adversos à saúde (mutagênicos, carcinogênicos e teratogênicos).

    O coletivo “ Medicina em Alerta” aponta as seguintes preocupações com o Projeto Natureza:

    ● No Volume 2, TOMO III – Diagnóstico Ambiental – Meio Socioeconômico do Relatório Técnico há uma descrição do sistema de saúde de Barra do Ribeiro e demais cidades afetadas pelo empreendimento. Não há nenhuma referência sobre os impactos à saúde humana resultantes dos produtos químicos emitidos na atmosfera durante a operação, ou tampouco daqueles presentes nos efluentes, nem dos impactos a longo prazo causados pela bioacumulação progressiva de dioxinas e furanos em animais e seres humanos – no ser humano, a meia-vida das dioxinas é estimada entre 7 a 11 anos.

    ● A análise dos sistemas de saúde na cidade do empreendimento e na maioria das cidades vizinhas evidencia a escassez de leitos hospitalares ou de atendimento de urgências. A demanda aumentada não ocorre apenas por grandes acidentes, mas frequentemente pelo aumento crônico da demanda por tratamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e dermatológicas nas comunidades próximas às fábricas e naquelas mais distantes que estarão nas rotas dos ventos predominantes para a dispersão de poluentes. A sobrecarga no sistema de saúde é preocupante, sabendo-se da insuficiência das estruturas que existem na região para atender a demanda atual de doenças crônico-degenerativas e situações agudas de maior complexidade.

    ● Em relação às neoplasias, o Plano de Ação Estadual de Oncologia Triênio 2024-2026, da Secretaria de Saúde estadual, aponta nós críticos na rede de assistência ao paciente oncológico, e cita a necessidade de ampliação dessa assistência. Não há referência ao aumento de casos de neoplasias decorrentes da instalação da fábrica.

    ● O Volume 3 – Avaliação de Impactos Ambientais, Prognóstico Ambiental e Conclusões, apresenta como medidas mitigatórias para o aumento da população instalar hospitais de campanha ou unidades móveis de saúde para aumentar a capacidade de atendimento temporariamente e parcerias com hospitais privados para utilizar leitos disponíveis em caso de necessidade, garantindo atendimento rápido e eficiente, além de estabelecer um Programa de Mitigação de Interferência Urbana que prevê, abordar assuntos como saúde, higiene e segurança no Programa de Educação Ambiental junto à comunidade para situações agudas de acidentes. Tais medidas não parecem suficientes para atender as novas necessidades de saúde – condições agudas que demandam serviços de emergência, e tratamento de doenças crônico-degenerativas, entre elas neoplasias, que requerem estruturação de serviços de maior complexidade.

    ● Já há uma fábrica de celulose em Guaíba; os efeitos do incremento à poluição já lançada pela atual fábrica não estão descritos. Não há também referência à necessidade de estabelecimento de um Plano de Vigilância em Saúde Ambiental para monitoramento dos efeitos da poluição na população exposta. Este é outro impacto na rede de atenção à saúde não dimensionado. Diante de tantas evidências dos impactos da indústria de celulose sobre a saúde humana que não foram contempladas na documentação apresentada para estabelecimento do Projeto, propomos que seja incluída na EIA-RIMA uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS).

    Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Avaliação de Impacto à Saúde é uma metodologia que engloba a identificação, predição e avaliação das esperadas mudanças nos riscos (podendo ser tanto negativas como positivas, individual ou coletivas), causadas por uma política, um programa, um plano ou projetos de desenvolvimento em uma população definida.

    A inclusão de uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS) é um complemento necessário neste projeto porque o licenciamento ambiental padrão (o EIA/RIMA) frequentemente deixa lacunas críticas sobre a saúde humana: Enquanto o EIA foca em “o que sai da chaminé” (se a emissão cumpre a lei), a AIS foca em “quem respira a fumaça” (se as pessoas vão adoecer, mesmo com a emissão dentro da lei).

    A legislação ambiental define limites de emissão, mas uma fábrica pode estar 100% legal e, ainda assim, causar danos à saúde. Os limites legais muitas vezes são médias generalistas que não consideram a sinergia entre poluentes (o “coquetel químico”) ou as condições climáticas locais (como a inversão térmica no inverno do RS, que prende a poluição no nível do solo). A AIS avalia o risco biológico real, não apenas a burocracia do número.

    O odor crônico (TRS) não é somente um “cheiro ruim” – gera estresse, ansiedade, insônia e náuseas. A saúde, pela definição da OMS, é o “completo bem-estar físico, mental e social”, não apenas a ausência de doença. A AIS quantifica esse impacto na qualidade de vida e saúde mental da comunidade vizinha.

    Além disso, o licenciamento ambiental trata a população como homogênea. Uma concentração de material particulado (MP2,5) que não afeta um adulto saudável pode ser gatilho para crise de asma em uma criança ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica em um idoso. A AIS identifica quem vive na direção do vento (pluma de dispersão). Se houver escolas, hospitais ou bairros de baixa renda (que já têm saúde precária) nessa zona, a fábrica precisa propor medidas de proteção extras.

    A Avaliação de Impacto à Saúde atua como uma ferramenta preventiva e de transparência fundamental, pois conecta os dados técnicos de engenharia — como emissões atmosféricas e efluentes líquidos — diretamente aos desfechos na vida humana, permitindo identificar riscos invisíveis no licenciamento ambiental comum.

    Ao simular cenários de exposição, a AIS obriga o empreendedor a adotar as Melhores Tecnologias Disponíveis” (BAT) para reduzir a carga tóxica como a substituição do cloro no branqueamento antes mesmo da construção, garantindo uma operação menos poluente. Simultaneamente, ela traduz a complexidade química em informações acessíveis sobre morbidade e qualidade de vida, empoderando a comunidade local para que participe das audiências públicas não apenas com base no medo ou na promessa de empregos, mas com conhecimento científico claro para negociar contrapartidas, exigir monitoramento contínuo e decidir sobre a aceitabilidade do projeto com autonomia real.

    * Assinam este documento pelo coletivo Medicina em Alerta

    Helena Barreto dos Santos, Médica Internista CREMERS- 18044,

    Lavínia Schüler Faccini, Médica Geneticista – CREMERS 13.269,

    Roberto Targa Ferreira, Médico Pneumologista, CREMERS 10887,

    Suzane Cerutti Kummer – Médica Pediatra CREMERS 18226,

    Rafaela Brugalli Zandavalli, Médica de Família e Comunidade, CREMERS 43067,

    Olga Garcia Falceto, Psiquiatra da Infância e Adolescência – CREMERS 5446,

    Elisabeth Susana Wartchow – Médica de Família e Comunidade CREMERS 11767,

    Enrique Falceto de Barros – Médico de Família e Comunidade – CREMERS 31955,

    Anna Cláudia Dilda, – Médica de Família e Comunidade – CREMERS 47020,

    Alexandre Bublitz, Médico Pediatra – CREMERS 38807,

    Soraya Malafaia Colares, Médica Pediatra – CREMERS 14372,

    Bianca Machado da Cruz, Mëdica Emergencista – CREMERS 43515,

    Paulo Zambrano Wageck, Médico Ortopedista e Traumatologista – CREMERS 26250,

    Mayara Floss, Médica de Família e Comunidade – CRMSC 24848, e

    Roselaine Murlik – Médica de Família e Comunidade – CREMERS 26629.

  • Bióloga aponta falhas técnicas no estudo de impacto ambiental da nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    Bióloga aponta falhas técnicas no estudo de impacto ambiental da nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    Com 32 anos de atuação na indústria – grande parte dedicada ao estudo e monitoramento do tratamento de efluentes –, a bióloga Cátia Regina Duarte Machado é categórica ao analisar o projeto da nova fábrica de celulose da CMPC, em Barra do Ribeiro: “A contribuição de poluentes no Guaíba com os efluentes da nova planta não está devidamente avaliada”. Ou seja, não se sabe o quanto de poluição o Guaíba pode sofrer com o novo empreendimento.

    Após examinar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela empresa no processo de licenciamento, Cátia aponta uma série de falhas técnicas. Ela é uma das signatárias de um documento elaborado por pesquisadores e professores de diversas universidades, que cobra mais transparência, aprofundamento dos estudos e a realização de novas audiências públicas antes da aprovação do projeto pela  Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM).

    Falhas no estudo ambiental levantam alertas

    Para a bióloga, a aplicação do princípio da precaução, previsto na Constituição, é indispensável diante da fragilidade do Guaíba, um sistema hídrico essencial tanto para a população quanto para o equilíbrio ecológico da região.

    “O Guaíba recebe contribuições de diversos afluentes. A proximidade entre duas grandes fábricas de celulose – a atual (na cidade de Guaíba) e a nova unidade (em Barra do Ribeiro) – não considera, no estudo de impacto ambiental, o efeito cumulativo e a complexação de poluentes.” Complexação significa que os poluentes tendem a reagir entre si, quimicamente, formando novos compostos ainda mais tóxicos.

    Bióloga Cátia Machado

    Cátia contesta um dos principais argumentos da empresa, de que a água devolvida ao Guaíba, após tratamento, seria mais limpa do que a captada. “Isso é uma falácia. Por mais eficiente que seja, o tratamento reduz concentrações, mas não elimina totalmente os poluentes. Sempre há impacto, e ele é cumulativo.”

    Ela explica que, embora o Guaíba possua capacidade natural de autodepuração, todo corpo hídrico tem um limite, chamado de “capacidade de suporte”. Quando esse limite é ultrapassado, não há processos que consigam reduzir os contaminantes.

    A bióloga faz a ressalva de que não é correto afirmar, como a CMPC diz, que serão usadas “as melhores tecnologias disponíveis”. O processo de branqueamento no projeto ainda utiliza cloro, uma escolha associada ao menor custo, mas com impactos ambientais significativos. “Existem alternativas amplamente utilizadas, como ozônio e peróxido de hidrogênio, muito menos agressivas”, esclarece.

    Poluentes persistentes e riscos invisíveis

    Ao abordar os riscos, ela destaca que o sistema de tratamento biológico previsto, baseado em iodo ativado, não é capaz de remover substâncias tóxicas persistentes como dioxinas, pois esses compostos são recalcitrantes e não são degradados por processos biológicos. Permanecem no ambiente e podem até ter sua toxicidade potencializada.

    Segundo Cátia, a presença de cloro está diretamente relacionada à formação de dioxinas e outros organoclorados, substâncias para as quais não existe nível seguro em ecossistemas aquáticos.

    “Na natureza, tudo é cíclico. Mas a ação humana introduz substâncias sintéticas que não entram nesses ciclos. Em muitos casos, não há organismos ou processos capazes de degradá-las.” Para a bióloga, a nova planta industrial, uma megaindústria entre as maiores do mundo, ampliará absurdamente a carga poluente no Guaíba.

    O estudo de impacto ambiental apresentado pela empresa analisa parâmetros de forma isolada, sem considerar suas interações e efeitos combinados. A aprovação do estudo pela FEPAM surpreendeu a comunidade científica.

    “Foi inesperado. O EIA-RIMA não prevê testes de toxicidade aguda nem crônica no monitoramento dos efluentes, o que é uma falha grave. Em vez disso, o estudo baseia-se em modelagem matemática, que simula a dispersão dos poluentes no Guaíba por meio de mapas. As imagens mostram áreas com diferentes níveis de concentração, mas são interpretadas como ausência de impacto, o que não é devidamente explicado no relatório”, aponta a bióloga.  

    Volume de efluentes amplia preocupação

    O volume previsto de lançamento de efluentes também preocupa. Serão 240 mil metros cúbicos por dia, volume superior ao esgoto doméstico tratado por todas as estações de tratamento de Porto Alegre. “Ao contrário do que afirmam, isso tende a intensificar os impactos por meio da complexação de poluentes.”

    Cátia reforça que não há tratamento biológico capaz de eliminar completamente compostos como dioxinas e organoclorados, muitos deles reconhecidamente cancerígenos. “Essa carga poluente pode extrapolar os limites do sistema. Isso poderia ser mitigado com tecnologias mais modernas, estudos mais robustos e um debate público qualificado, além da reavaliação da localização da planta.”

    Os especialistas cobram audiências públicas em todos os 14 municípios potencialmente afetados. Cátia também aponta outras lacunas importantes no EIA-RIMA: “Não há dados sobre metais pesados como cádmio, zinco, mercúrio e cobre, cuja análise é exigida por legislação por ser fundamental para avaliar impactos ambientais.”

    A bióloga chama especial atenção para o perigo de contaminação na região de Barra do Ribeiro, que hoje possui água classificada como Classe 1 pela resolução do CONAMA — a melhor qualidade possível. Além disso, o Guaíba apresenta fluxos e hidrodinâmica complexos, com variações sazonais de vazão, inversões de fluxo e mudanças de profundidade, fatores que precisam ser considerados em qualquer avaliação.

    “Os impactos desse megaempreendimento são complexos e imprevisíveis, principalmente quando consideramos os efeitos climáticos severos que temos vivenciado no nosso estado”, completa Cátia.

  • O Centro (Histórico) de Porto Alegre

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    Porto Alegre, nove horas da manhã do dia 30 de março de 2026. No “coração” do Centro – que já foi histórico em tempos passados, e limpo -, em um trecho de cerca de 500 metros, entre as ruas General Câmara e Senhor dos Passos, existem mais de 50 imóveis comerciais de porta de rua fechados, a maioria com placas de aluga-se. 

    Só na Rua da Praia são 30. Eram 45 vazios no ano passado, mas notei novos ‘xing lings’ na Andradas. 

    Se estender a caminhada pela avenida Independência, da Santa Casa até a Ramiro Barcelos, dá para acrescentar mais uns 15 imóveis de calçada com as cortinas cerradas. Isso, sem contar os inúmeros imóveis comerciais e residenciais vazios nos prédios, andares acima. 

    Soube que vários escritórios de advocacia debandaram na região. Fato que abalou cafés, bares e restaurantes. Um Centro desabitado e pouco frequentado se torna um risco para a segurança da população e do patrimônio.

    Na Borges, mais imóveis fechados e a restauração do viaduto Otávio Rocha é um suspiro de alívio.

    Enfim, o salvador da pátria do Centro, o bravo Mercado Público, que garante o maior movimento, com ou sem goteiras. Ah, e o charmoso Chalé da Praça XV, com seu entorno sinistro.

    O Centro desta pequena cidade grande, como dizia Mário Quintana, carece de ​muito mais atenção.

  • Estado vai voltar a acolher                   animais silvestres no Zoo

    Estado vai voltar a acolher animais silvestres no Zoo

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    A Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) decidiu retomar o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e vai ocupar de forma provisória um local no Parque Zoológico, em Sapucaia do Sul.

    Ainda não foi decidido quem vai trabalhar lá, mas não serão servidores do Zoo, como era antigamente.

    O CETAS havia sido desativado em 2018, após a extinção da Fundação Zoobotânica e das tentativas frustradas de concessão do Zoo para a iniciativa privada. Agora, está recebendo melhorias na infraestrutura para voltar a funcionar, sem um prazo determinado.

    Desde então, todo o serviço de acolhimento e tratamento dos animais silvestres apreendidos em ações de fiscalização, vítimas de acidentes ou entregues voluntariamente pela população, ficou concentrado em um imóvel improvisado do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na esquina das ruas Baronesa do Gravataí e Miguel Teixeira, no bairro Cidade Baixa, na Capital.

    Em 2024, a enchente invadiu aquele imóvel do Ibama, um local pequeno para o manejo e abrigo dos animais silvestres, inadequado para manter aquelas atividades, segundo biólogos e veterinários.

    O serviço de acolhimento e uma parte dos mais de cem animais foram deslocados para a sede do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), órgão do Ministério da Agricultura e Pecuária, que fica ao lado do Jardim Botânico, um espaço totalmente precário.

    A situação se agravou mais com a descoberta pela Polícia Federal, naquele ano de 2024, de um esquema de destinação ilegal de animais para dez criadouros de fauna e criadores amadoristas de pássaros silvestres, com o fim de serem vendidos.

    De um total de seis pessoas indiciadas pela PF, dois são servidores do Ibama regional, e foram afastados do trabalho temporariamente. Entre os animais, havia uma harpia, ou gavião-real, a maior ave de rapina das Américas, espécie ameaçada de extinção.

    MP-RS entra em ação e cobra soluções

    Em maio do ano passado, o Ministério Público gaúcho propôs uma Ação Civil Pública (ACP) para cobrar do governo estadual um plano com estratégias de acolhimento e tratamento dos animais até que possam ser reintroduzidos ao ambiente natural.

    A promotora de Justiça Annelise Steigleder, da Promotoria de Meio Ambiente de Porto Alegre, que assina a ACP, diz que os animais silvestres apreendidos em ações de fiscalização da polícia militar ou da SEMA não podem correr o risco de ser mantidos com os próprios infratores.

    Ainda em 2025, a SEMA criou o programa Guardiões da Fauna, para que particulares pudessem receber os animais fruto das apreensões da polícia ambiental, mas foi impugnado judicialmente pela ausência de consulta pública e porque estava em desconformidade com a legislação federal e estadual, além de conter “graves falhas jurídicas e técnicas apontadas em análises especializadas e representações de entidades ambientais”, diz a decisão judicial.

    Dentre as fragilidades apontadas, “causam especial apreensão a ausência de lista prévia de quais animais silvestres podem ser objeto desse tipo de destinação, a falta de exigência de responsável técnico pelo mantenedouro, a ausência de garantias mínimas para o manejo adequado dos animais sob guarda, e o sistema de fiscalização insuficiente, favorecendo riscos de maus-tratos, tráfico, fraudes e ‘petização’ da fauna”, aponta a promotora de Justiça Annelise Steigleder.

    Entre os anos de 2018 e 2020, discutiu-se a possibilidade de uma parceria entre SEMA e Ibama para que o órgão federal transferisse o CETAS sob sua responsabilidade para uma área anexa ao Jardim Botânico, onde funcionavam os laboratórios da Fepam. Foram feitas medições, avaliações e, em dezembro de 2020, foi assinado um Termo de Cessão de Uso da área de 1.300m². Mas o Ibama desistiu do local.

    Agora, uma nova parceria está sendo formatada entre os dois órgãos públicos para instalar e administrar um CETAS na Reserva Florestal Padre Balduíno Rambo, ao lado do Zoo, em Sapucaia do Sul.

    Essa reserva de 620 hectares, que faz homenagem ao religioso e botânico gaúcho, autor do clássico “A fisionomia do Rio Grande do Sul” (1942), é uma das áreas verdes mais cobiçadas da região metropolitana. Uma parte da reserva chega às margens do Rio dos Sinos e protege a mata ciliar por mais de dez quilômetros de extensão.

  • Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    Carga tóxica no Guaíba vai dobrar com nova fábrica de celulose, alerta ambientalista

    CLEBER DIONI TENTARDINI

    A atual fábrica da CMPC – Celulose Riograndense, localizada no município de Guaíba, tem capacidade para produzir 2,4 milhões de toneladas de celulose ao ano. Já uma nova planta, que a multinacional pretende instalar no município vizinho de Barra do Ribeiro, vai chegar aos 3 milhões de toneladas por ano de celulose.

    Com um investimento anunciado de R$ 25 bilhões, o projeto aguarda a licença ambiental. Se a fábrica for construída, será a maior produtora individual de celulose do mundo, ultrapassando a brasileira Suzano, de Ribas do Rio Pardo, no Mato Grosso do Sul (2,55 milhões ton/ano).

    Juntas, as duas unidades da CMPC vão duplicar a carga de efluentes altamente tóxicos nas águas do Guaíba, segundo a engenheira química e ambientalista Alda Maria Corrêa.

    “Este projeto está na contramão da história, da preservação da vida humana e da natureza”, diz ela, na condição de integrante de um grupo de pesquisadores e professores que questionam o novo empreendimento.

    Com uma carreira na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), pela qual se aposentou, Alda Maria Corrêa tem experiência em Licenciamento Ambiental Industrial, em especial em efluentes líquidos industriais, e em cadastramento estadual de agrotóxicos e remediação de área contaminada por agrotóxicos, componentes e afins.

    -“É um tema bem delicado e que deve ser debatido exaustivamente com a sociedade, através de audiências públicas, como prevê a legislação, em todas as cidades afetadas direta ou indiretamente, sobre os aspectos ambientais e sociais. Acho fundamental pensar em alternativas locacionais”, diz ela, com a autoridade de quem já coordenou a Câmara Técnica de Controle e Qualidade Ambiental, do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema/RS).

    Alda Maria Corrêa é especialista em licenciamentos industriais. Foto/Reprodução

    JÁ – A localização dessa indústria, na Fazenda Barba Negra, às margens do Guaíba, é inadequada?

    Alda Maria – É extremamente preocupante e inaceitável a localização proposta de uma fábrica de tamanha complexidade, com lançamento de compostos tóxicos e persistentes num rio que é um corpo hídrico raso, com dinâmica lenta, que favorece a deposição de sedimentos e menor capacidade de diluição e dispersão. Com o agravante dos efeitos cumulativos dos contaminantes emitidos pela fábrica em Guaíba.

    JÁ – O que é mais grave?

    Alda Maria – A distância do emissário de poluentes da nova fábrica estaria a 3,5 km das praias de Belém Novo, em Porto Alegre, e a menos de 7 km dos pontos de captação de água do DMAE, que geram grande parte do abastecimento público de Porto Alegre. Pescadores artesanais, povos indígenas e comunidades tradicionais poderão ser prejudicados. Num momento mundial de crise hídrica, um empreendimento que consome o recurso água de maneira ostensiva, desde a monocultura de eucalipto até as etapas de processo, sem previsão de qualquer reciclo de água, está na contramão da história e da preservação da vida humana e da natureza.

    JÁ – Que produtos químicos tóxicos são utilizados na indústria de celulose?

    Alda Maria – É complicado de entender porque são termos bem técnicos. E não tem como evitá-los. Há geração de compostos organoclorados a partir do Cloro Elementar ou Dióxido de Cloro, usado no processo de branqueamento da polpa da celulose. Os mais tóxicos existentes são as Dioxinas (dibenzo-p – dioxinas policloradas) e os Furanos (dibenzofuranos). São os chamados POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes), da Convenção de Estocolmo. E as fábricas de celulose e papel são as principais fontes de emissão destes compostos químicos tóxicos em receptores hídricos, neste caso, no Rio Guaíba.

    JÁ – E são permitidos mesmo assim?

    Alda Maria – O Licenciamento Ambiental da unidade de Guaíba da CMPC limita nos efluentes, além de outros parâmetros, a emissão de Compostos Orgânicos Halogenados (AOX), no caso, como clorofórmio, clorofenóis e Dioxinas e Furanos, de menor ou igual a 0,1 kg (100 gramas) por tonelada de celulose, o que permite a emissão de até 657 kg AOX por dia. A nova unidade pretende lançar 720kg AOX/dia. Somando as duas, seriam 1.377kg AOX lançados no Guaíba diariamente.

    JÁ – E que riscos representam à saúde dos animais e seres humanos?

    Alda Maria – Essa quantidade de substâncias tóxicas é considerada de alta carga poluidora para um corpo receptor como o Guaíba, de baixa vazão, e pouca capacidade de dispersão. Dioxinas e Furanos são carcinogênicos, causadores de danos ao sistema reprodutivo e ao neurodesenvolvimento, acumulam-se nos tecidos gordurosos dos animais, especialmente peixes, pássaros, comprometendo toda a cadeia trófica e fragilizando todo sistema da fauna, com longo alcance. Em peixes, causam alterações endócrinas, redução de fertilidade, deformidades embrionárias, alteração do desenvolvimento larval. Em aves piscívoras, causam casca de ovos mais finas, redução reprodutiva, e mortalidade embrionária.

    JÁ – São feitos testes periódicos em amostras com animais?

    Alda Maria – O biomonitoramento realizado no Rio Guaíba em moluscos bivalves, em área de influência do lançamento da CMPC Guaíba, apontou a presença de Dioxinas e Furanos na concentração de 4,926 picograma por grama expressos em Toxicidade Equivalente (TEQ). No monitoramento dos efluentes da CMPC, no segundo semestre de 2025, foi relatada a emissão de 3,17 picograma por litro de Dioxinas e Furanos, expressos em TEQ. Também nos resíduos sólidos-lodo o monitoramento apontou a concentração de 1.596,16 pg de Dioxinas e Furanos por kg de lodo, expresso em TEQ.

    JÁ – Que medida é essa picograma?

    Alda Maria – Esses contaminantes são tão tóxicos que devem ser medidos em níveis de detecção muito pequenos, como em picogramas (um trilionésimo de grama).

    JÁ – E os efeitos no ser humano?

    Alda Maria – A contaminação pode ser a longo prazo. As formas de contaminação são por ingestão de peixes e água. Essa situação é extremamente preocupante quanto ao consumo de água e de peixes para as populações atingidas, inclusive Porto Alegre e Viamão.

    Isso tudo sem falar nos outros aspectos muito importantes, como emissões atmosféricas, gerenciamento de resíduos sólidos, riscos de acidentes, vazamentos, logística, etc.

    JÁ – O consumo de água dessas indústrias é motivo de preocupação?

    Alda Maria – O consumo de água e a vazão de lançamento de efluentes da atual CMPC é de 154.400 m³/dia, equivalente ao consumo de água de uma população de 770 mil habitantes (mais que a metade da população de Porto Alegre). A vazão dos efluentes dessa nova unidade seria equivalente ao uso da água de toda a população de Porto Alegre.

    JÁ – Qual a saída? Proibir a instalação dessas indústrias?

    Alda Maria – Fábricas europeias novas já adotam o sistema de branqueamento da polpa totalmente livre de Cloro (TCF), com uso de Ozônio e Peróxido de Hidrogênio, a ‘Melhor Tecnologia Disponível’, sem a geração de compostos AOX indesejáveis. Essa tecnologia não está prevista na nova fábrica. O processo produtivo proposto pela fábrica é o mesmo da já existente, com branqueamento com uso de Dióxido de Cloro.

    Historicamente, os impactos das ditas “papeleiras” são reconhecidos mundialmente, assim como houve o caso da empresa uruguaia que gerou crise diplomática com a Argentina por desaguar efluentes no Rio Uruguai, manancial que abastece os dois países. Aquela é considerada de grande porte, com emissão de 60.000 m³ por dia de efluentes líquidos, que em termos comparativos, significa quatro vezes menor que a vazão que seria emitida pela CMPC – Barra do Ribeiro.

    Essa comparação é para se ter ideia do impacto no Rio Guaíba causado pela mais que duplicação da emissão de poluentes tóxicos que, somados, atingiriam 1377kg AOX por dia, compostos tóxicos de difícil degradação.

    Já, especificamente, sobre os compostos mais tóxicos do mundo, as Dioxinas e Furanos, o Brasil é signatário da Convenção de Estocolmo que regula os Poluentes Orgânicos Persistentes. Com essa adesão, se compromete a adotar a ‘Melhor Tecnologia Disponível – BAT’ para fontes potencialmente geradoras desses compostos, com vistas “à redução progressiva até sua completa eliminação” (Resolução CONSEMA 355/2017, no Art. 13)

    Essa nova fábrica, além do imenso problema locacional, do alto consumo de água e lançamento de efluentes, não atende a adoção da BAT, com branqueamento de polpa totalmente livre de Cloro (TCF), entre outros fatores. Os riscos ambientais são altos e a população atingida precisa ser ouvida.